Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Preso no emaranhado das palavras


Como jornalista, fui sempre escravo das palavras. Ou melhor: escravo dos espaços por elas ocupados. Muitas vezes me amputaram textos, porque não cabiam no espaço das publicações. Foram prosas mutiladas. Não pela ditadura censória, mas pela regra espartana do espaço. Por vezes revoltei-me, porque o corte amputava os textos da sua faceta sensitiva, tornando a reportagem demasiado fria e assertiva; outras vezes anuí com indiferença e sem qualquer reparo. Nestes casos os textos eram geralmente apenas noticiosos . Quando um editor acredita que cortar um pequeno (ou grande) detalhe na notícia não tem qualquer importância, para quê contrariá-lo?
Como editor , passei a ser algoz em vez de vítima. Também obriguei autores a cortarem os seus textos, tornei-me intransigente no domínio do espaço de uma publicação. Por vezes custava-me fazê-lo, porque sabia que estava a obrigar os autores a mutilar o seu trabalho apenas por uma questão de espaço. Outras vezes fi-lo por dever profissional. Ou porque os textos eram tão minuciosamente explicativos, que se tornavam enfadonhos; ou porque o autor fazia introduções demasiado longas; ou simplesmente porque eram demasiado grandes para as características da publicação. Nestes casos, procurei sempre explicar ao autor que o excesso de adjectivação, as descrições demasiado elaboradas, as introduções disperrsivas, não cabem no espaço de uma publicação periódica e, quando se trata de livros, podem contribuir para o desinteresse do leitor. Normalmente, recorro ao “Pêndulo de Foucault” e à minha experiência pessoal com aquele livro. É, em minha opinião, o melhor livro de Umberto Eco, mas só consegui lê-lo à enésima tentativa, depois de ultrapassar a barreira das entediantes primeiras 60 ou 70 páginas. Uns ficam convencidos perante a minha argumentação, outros nem por isso. Mas já deu para perceber que não foram muitos os que leram o “Pêndulo”.
O único conselho que prometera nunca dar a ninguém, porque também não aceito que me dêem, é que deve escrever textos mais curtos, senão ninguém lê. Ouvir isso é insuportável . Dizê-lo é falta de senso. Um dia destes dei por mim a aconselhar alguém a escrever textos curtos, porque senão as pessoas não lêem. Devo caminhar a passos largos para a senilidade...
Todo este arrazoado para vos dizer que uma das coisas que me delicia na blogosfera é a liberdade de poder escrever sem preocupações de espaço. Sei que textos muito longos podem ser desmotivadores para quem me visita, mas também sei que se alguns desistem de ler um determinado post, muito provavelmente voltarão no dia seguinte para ler outro, porque são leitores fiéis. No caso de se tratar de um leitor que visita o Rochedo pela primeira vez, um post longo pode desmotivá-lo, mas logo a seguir encontra outros posts mais curtos e incisivos, dos quais pode gostar e o levam a tornar-se um leitor fiel. A inversa ( gostar mais de posts longos) também é verdadeira, por isso os blogs têm essa inegável vantagem de poder agradar ( ou desagradar) a uma vasta audiência, criando um equilíbrio e oferecendo diversas opções aos leitores. É mais ou menos o que acontece com os livros de contos. Uns agradam a um tipo de leitores, outros serão mais apreciados por um público diferente. Há, porém, possibilidade de captar a atenção de mais leitores. O mesmo acontece com um cronista. Até Lobo Antunes- que muito aprecio- tem crónicas menos boas, mas não é por isso que deixo de ler todas as quinzenas as suas crónicas da Visão.
Os blogs não escapam a estas regras. Tenho a certeza que muitos leitores que diariamente me visitam saem por vezes daqui com alguma frustração a pensar “hoje só fui lá perder tempo” ou “ que grande seca de post”. Provavelmente, alguns pensarão isso deste que acabaram de ler.
Sei que não é possível agradar a todos, mas esse também não é o objectivo primeiro de um blog. Pelo menos para mim, o objectivo é escrever sobre o que me dá na real gana, exprimir através das palavras o que me vai na alma. Se conseguir “agarrar” as pessoas, tanto melhor. Caso contrário tenho pena, mas creio que não devo coibir-me de escrever sobre o que me apetece, com medo de desagradar a alguns leitores, porque este é o meu espaço de liberdade total . Essa preocupação fica para os jornais e revistas onde trabalho. O blog é apenas prazer em esatdo puro. Espero que compreendam.

20 comentários:

  1. Aqui vem a onda curta da blogosfera: moi-même, dizendo: PRESENTE sempre e incondicionalmente, quer seja curto ou comprido (o post, claro).

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  2. Eu tenho um amigo, que quando o meu post é longo, ou se no diálogo há interferências de "movimento" ele logo diz: sabe o que faria com uma tesoura, não é?
    Claro, cortaria metade do meu texto.
    Uma vez fizemos uma experiência. Eu coloquei o meu, com tudo o que queria e tempos depois ele "passou a tesoura" no texto e publiquei novamente. Mas, como era no meu blog a coisa ficou no meio-a-meio, porque não disse o que tinha feito.
    Eu não me iimporto em ler textos longos. Porque eu escrevo também textos longos. Porque muitos deles são realmente interessantes. Porque o autor consegue prender a atençào.
    E talvez, por isso eu ainda continuo na blogosfera... passeando nas muitas linhas... :)

    beijinhos

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  3. Eu não me canso de palavras. Podia alimentar-me e viver apenas delas.

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  4. Carlos,
    É por isso que eu venho aqui todos os dias!
    Por vezes não comento porque acho que o texto está tão explicito que nada mais há a acrescentar.
    Beijinho

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  5. Dificilmente alguém poderá achar os seus textos entediantes ou demasiado longos, do meu ponto de vista.
    Foi com textos sem tamanho definido que me tornei leitora assídua do 1º blog da blogosfera de alguém que não conhecia e foi por exemplo deles e de outros que acabei por entrar também nesta aventura.
    Ultimamente, falta-me o tempo é para ler os mais longos, não porque me aborreçam, mas sim porque a sua escrita merece uma leitura atenta e cuidada, apreciando os pormenores e os resultados de trabalho de pesquisa minuciosa, que muito aprecio.
    Tenham a quantidade que tenham de caracteres, ler os posts do Crónicas do Rochedo, para mim, é um privilégio e uma rotina diária, um porto de abrigo onde, no cimo do penedo mais alto, se encontra alguém que usa a versão mais actual da pena e do pergaminho com a paixão, seriedade e postura que deviam caracterizar todos os jornalistas.
    Bem haja, Carlos

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  6. .. não sei a que propósito vem Caro Carlos pelo que me coibo de extrapolar :) fica apenas a nota que no meu caso pessoal, nem me importo por aí além com a fidelidade dos leitores.
    O blogue existe para me dar o prazer da escrita num registo diferente dos cadernos encadernados que me pautam a existência e porque .. as prateleiras já não são suficientes (risos).

    Contudo, é evidente e claro que gosto do feed-back que quem me lê, me dá. Aproveito-o para crescer um pouco dada a qualidade de escrita e a sensibilidade de todos quantos tenho a sorte de visitarem o meu espaço.

    :)) Gostei deste longo postal. Para lhe ser sincera, são os meus favoritos.

    Abraço

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  7. Curioso este post!
    Comigo é ainda pior, porque me debato sempre com o dilema: se é muito longo ninguém tem pachorra para ler, se é muito curto acham que não tenho nada para dizer.
    Por mim, curtos ou compridos leio todos, desde que sejam do meu bairro e me prendam.
    O que acontece é que às vezes leio, vou dar a volta pelo bairro e depois volto para comentar.
    Porque essa de " passei para dar um abraço" não é comigo.
    Beijinhos

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  8. Carlos

    Curtos ou longos, leio-os diariamente com o mesmo prazer. Gosto do seu modo de escrever, gosto da variedade de assuntos que encontro aqui, gosto, enfim, e muito, do Rochedo.

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  9. Meu caro os habitués gostam do seu café, ou será bica, como v.exa nos oferece: umas vezes curto outras de chávena, ou será xícara, cheias.
    Os que aqui vêm, rapidamente se sentam na sua esplanada, pelo que temos visto.
    abraço

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  10. Vir aqui nunca é uma perda de tempo e já estou como o Pedro, aqui os finos são bem tirados.

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  11. Olá Carlos
    Como bem diz, um blog permite-nos a liberdade de escrever como nos apetece. Li com muito agrado o seu texto e é assim, quando algo nos prende lê-se e nem se dá conta do tempo. O mesmo acontece com um livro ou um filme, o livro pode parecer demasiado volumoso e o filme com bastante duração, mas se me agarra até tenho pena que tenha terminado.
    Assim o deixa, esta «cliente» do seu blog e com um grande abraço.
    Manuela

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  12. Pois olhe, por mim que sou das primeiras, 'tá à vontadinha para se espraiar nos caracteres. Alastre-se, estenda-se e dilate-se se lhe aprouver.
    Logo eu, que quando me dá para gastar letras não acabo mais de alinhar letras.
    Eu em alemão é que era feliz, aquelas palavras todas juntas umas às outras, tipo comboio.

    Vá lá, escreva senhor, escreva em grane e comprido, que mesmo que tarde na hora, eu venho sempre.

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  13. Compreender, Carlos? Olhe, eu gosto precisamente mais dos seus textos longos. Acho que é neles onde se exprime melhor, onde se abre e mostra como é.

    É verdade que muitas das pessoas que visitam blogues, quando vêem um texto longo, pulam para outra página. Sei perfeitamente que quando escrevo um bom texto de dez linhas, tenho mais comentários, mas se o texto sair longo, é porque tem de ser assim. Quem tiver interesse em ler, bem-vindo e obrigado.

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  14. O melhor dos blogs é mesmo a liberdade de expressão como, quando e onde quiser. E a pessoa deve vir pelo prazer de ler da mesma forma que deves ter prazer em escrever.E o prazer não se mede, não é?
    Já fui alvo de críticas pelo modo de escrever lá no blog, mas não estou nem aí, ao escrever lá não estou preocupada em agradar quem quer que seja.Na verdade é à mim mesma que agrado.
    Vou ter que confessar a Mea Culpa na forma de escrever. Fui "treinada" para reduzir textos.Eu tinha uma tal disciplina de coesão textual que me levava à exaustão. E tinha professores que me criticavam por "florear" demais o texto. Hoje vejo que eles estavam errados.Se eu tivesse escrito da forma como a minha criatividade me guiava, teria mudado o rumo da minha profissão, e consequentemente da minha escrita, muito antes.
    Trabalhei muito em rádio e lá a escrita deve ser mais reduzida ainda.E assim minha escrita foi empobrecendo somente para caber nos espaços.
    Hoje sofro para escrever algo que não seja tão conciso. tem dias em que estou quase monossilábica.E no meu período "ostra" escrevo menos ainda.Mas é justamente este período que me permite amadurecer idéias para textos futuros, principalmente para os roteiros.
    Como o "Pêndulo" existem livros que são assim mesmo, uma tortura no princípio.Sou fã incondicional do Érico Veríssimo, mas na saga O Tempo e o Vento tem trechos muito extensos até mesmo para a mais fervorosa das fãs.A escrita não se pode medir e a alma do escritor também não é constante.E ainda bem, senão o mundo seria muito mesno interessante :o)
    E se não é todo dia que comento aqui, o que é raridade, não é o seu texto que está ruim e sim eu que não estou bem...
    Um grande abraço, meio "ostra" :o)

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  15. Sabe Carlos, eu e as pessoas que lidam comigo no dia-a-dia já se aperceberam que eu estou mais calma e a precisar de mais água para ferver. Eu tenho consciência que isso se deve a, como diria a Patti, ao blogobairro para onde eu reencaminho as minhas emoções. E cheguei à conclusão que é muito melhor, pois aqui só fala, só lê e só ouve quem quer. E os que ouvem, os que falam e os que lêem fazem-no sentido e com a importância qb.
    Os outros, os que vivem para o retrato, não merecem que sejamos emotivos e nos gastemos com eles!
    Comentário longo, lol...

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  16. Pois eu gostei de ler este post, que, como tantos outros do Carlos, longos ou curtos, revelam a pessoa que gosto de imaginar
    ( P.S. Só gosto do Lobo Antunes cronista, não do romancista :))

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  17. Concordo plenamente consigo, os textos longos são por norma desmotivadores. Contudo, há que salientar um pormenor: Depende dos textos! Há textos que se lêem gostosamente e chegamos até a desejar que não acabem tão depressa! Para isso acontecer é necessário que estejam bem escritos sob o ponto de vista da linguagem, mas, tão importante quanto isso, é que se pressinta a genuína emoção da alma de quem os escreve.

    Em contrapartida:

    Há por aqui tanta gente empada de peneiras, as quais eu não leria nem que me pagassem ao minuto. Tudo o que escrevem é tão artificial e postiço, que chegam a suscitar dó, e mais a mim, que sou uma pessoa que presta culto ao simples, mas ainda assim, adornado de beleza.

    Ainda conheço pouco do seu blog, mas já intui que é muito expressivo e espontâneo, não teme dizer o que pensa e é essa qualidade que dá valor às pessoas, afinal, de mentirosos e dissimulados andamos nós fartos!

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  18. Não me contive e linkei seu texto :o)

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  19. Meu caro, isto em matéria de blogues assino consigo ... quem quer audiências escreve em jornais, revistas ou livros.
    Aqui é para podermos divagar sobre o que nos apetece mesmo.

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  20. ... é um privilégio ler os posts do Crónicas do Rochedo. Aprende-se sempre muito.... É bom encontrar alguém que assim escreve....

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