Hippies e Yuppies
Nos anos 60 era usual os jovens despedirem-se cedo de casa dos pais e fazerem-se à vida. Na Califórnia, alguns filhos de famílias abastadas e com escolaridade elevada, despediram-se dos pais, puseram uma flor no cabelo, deixaram-no crescer até à cintura, trocaram o maço de Marlboro por uns gramas de haxixe ou LSD, abandonaram os trajes clássicos para vestirem túnicas, gangas e blusas de cores garridas estampadas com flores, optaram por confortáveis sandálias em detrimento dos sapatos opressores e aterraram em Berkeley, onde criaram o primeiro slogan (“Peace and Love”) que definia a sua filosofia de vida.
Herdeiros da “beat generation”, rebeldes mas pacifistas, divulgavam a sua doutrina através da música, composta com a preciosa ajuda das drogas e escolheram como hino uma canção de Bob Dylan ( “Blowing in the wind”). Tinham também uma espécie de “jingle” publicitário para anunciar a quem se quisesse juntar-se a eles, o caminho a seguir e as regras a que se deviam sujeitar: “(if you go to) S. Francisco be sure to wear some flowers in your hair”. A senha de entrada era a frase “Ban the Bomb”.
Herdeiros da “beat generation”, rebeldes mas pacifistas, divulgavam a sua doutrina através da música, composta com a preciosa ajuda das drogas e escolheram como hino uma canção de Bob Dylan ( “Blowing in the wind”). Tinham também uma espécie de “jingle” publicitário para anunciar a quem se quisesse juntar-se a eles, o caminho a seguir e as regras a que se deviam sujeitar: “(if you go to) S. Francisco be sure to wear some flowers in your hair”. A senha de entrada era a frase “Ban the Bomb”.
Cultivavam uma saudável fobia ao trabalho, mas promoviam o debate de ideias em festivais de música onde o suave aroma das drogas libertava as mentes, expressando a sua criatividade através da arte. O mais famoso foi o “Festival de Woodstock”.
Durante três dias, meio milhão de jovens empunhando flores, partilhando drogas e cantando a esperança de um futuro de paz e amor, acreditou que ia mudar o mundo. A maioria deles chegou de moto ou em psicadélicas carrinhas Volkswagen, -um ícone da geração hippie- empunhando a bíblia do movimento: a Rolling Stone.
Alguns dos presentes afiançam que nas proximidades do local onde se realizou o “Festival” se erguiam tabuletas com a frase que os epicuristas colocaram à porta do jardim onde se reuniam: "Estranho, aqui serás feliz. Aqui, o prazer é o bem supremo!".Certo é que, durante o certame, foi divulgada a descoberta da pílula e, ao fim dos três dias, os participantes decidiram partir para espalhar pelo mundo a boa nova: "Make Love, not War”.
Por razões ainda não muito bem explicadas, os hippies falharam a sua missão. Cansados da vida nómada e talvez desencantados com o pouco acolhimento dos seus ideiais, muitos hippies converteram-se ao trabalho. Aburguesaram-se e ocuparam cargos proeminentes no mundo laboral e da política. Outros, fundaram comunidades nos vários continentes. Christiania ( Dinamarca ) e El Bolsón ( Argentina) são as mais conhecidas, mas existem outras que merecem destaque, como Jeraquaquara ( Brasil) e Goa (Índia) onde procuram- com cada vez menos sucesso- manter a tradição.
Talvez por culpa de métodos contraceptivos pouco elaborados, os hippies geraram uma geração que foi o seu contrário: os yuppies.Contrastando com os seus progenitores, os yuppies adoravam trabalhar, tinham gostos requintados, gostavam de se apresentar bem penteados e lavadinhos, encadernados em fatos de marca que seguiam os rigores da moda, de onde despontavam gravatas de cores psicadélicas, em jeito de homenagem aos gostos dos seus progenitores. Em vez de flores no cabelo usavam gel e cheiravam a Aramis ou a Lavanda.
Não tinham um lema de vida, mas tinham um objectivo: enriquecer depressa, seguindo a máxima “os fins justificam os meios”. Em vez da solidariedade dos antepassados, os yuppies distinguiam-se pelo individualismo. O culto do “eu” conduziu à criação do modelo social “Eu, Ldª” cujas características fundamentais são a indiferença face às questões sociais, o saber especializado em detrimento do saber multifuncional, o analfabetismo cultural, onde cabe o desprezo pelo debate de ideias e a ausência de uma filosofia de vida. Não admira, por isso, que tivessem trocado o interesse pelos tops musicais, pela consulta obsessiva das cotações da Bolsa, a leitura da Rolling Stone pelo Financial Times, as carrinhas Volkswagen, pintadas em cores psicadélicas, pelos BMW ou Audi de cores austeras, as flores no cabelo por telemóveis colados ao ouvido.
Ao contrário dos hippies, os yuppies começavam a trabalhar logo que acabavam os estudos, mas permaneciam em casa dos pais.. As diferenças também se manifestavam nos comportamentos sexuais. O hippie adormecia com uma valente pedrada. Ao acordar, olhava para a companheira do lado e perguntava “como te chamas” com um sorriso nos lábios, prontamente retribuído.O yuppie, condicionado pelo princípio “Make love, but work before”, casava mais cedo e deixava para segundo plano a actividade sexual. Entrava em casa pela calada da noite, esforçando-se por não acordar a mulher, mas quase sempre tinha azar, porque tropeçava numa cadeira atravessada no caminho. A mulher acordava estremunhada e perguntava “ Luís que horas são?” e recebia como resposta “é muito tarde querida, tive uma noite terrível porque se meteu um raio de um vírus no computador e não conseguia terminar o projecto que tenho de apresentar amanhã a uns novos clientes da empresa que podem trazer-nos muito dinheiro”. O drama destas cenas era corresponderem à verdade. Não era a secretária, nem uma voluptuosa ucraniana que o afastavam do leito conjugal, não senhor, era mesmo o trabalho e a mulher sabia isso muito bem. Por isso, quando o yuppie sorrateiramente mergulhava nos lençóis, a mulher encostava-se a ele, mas recebia como resposta “ querida hoje não que estou muito cansado e dói-me a cabeça”.
Uma coisa hippies e yuppies tiveram em comum. Acabaram aos 40 anos, quando a crise da meia idade provocou os seus estragos. Os exemplares que permanecem, de ambas as espécies, são cada vez mais raros. Workaholics, metrossexuais e indivíduos híbridos, disputam o seu legado.
Agora vão ver o que a minha querida parceira destas crónicas quinzenais tem a dizer sobre este assunto.
Parabéns pelo excelente post. Adorei-o!
ResponderEliminarDe facto esmiuçaste um fenómeno que pouca gente conhece ou se lembra, o qual foi amplamente abordado por Douglas Coupland na década passada, cuja obra emblemática, Geração X, me marcou imenso.
Parabéns por mais um merecido prémio que tem que ir receber...
ResponderEliminar:))
Carlos, seu texto está perfeito, mas me deixei arrebatar mesmo pelo texto da parceira :o)
ResponderEliminarGostei. Gostei bastante de ler, Carlos. Agora vou ter que dizer o mesmo à Patti.
ResponderEliminarNão sei porque sempre abomineis os yuopies cuja pricipal qualidade era subir sem encarrapitadonas costas de alguém. O meu voto mai aqui também para a década de sessenta.
ResponderEliminarNo meu tempo fui hippie fora de tempo; no meu tempo chamava-se ser freak; agora chama-se ser do Bloco de Esquerda.
ResponderEliminarNo meu tempo nunca fui yuppie, mas sou yeppie e neppie.
No meu tempo sou velha de corpo mas jovem de espírito, ao contrário dos mais novos que são jovens de corpo e velhos de espírito.
O mais difícil nestas Crónicas da Graça, é conseguir comentar individualmente, mas provavelmente tamabém será esse mesmo o objectivo.
ResponderEliminarDuas leituras complementares, que se apresentam ricas de factos históricos e pessoais, numa viagem alucinante por cinco décadas.
Venham mais.
Eu conheci Christiania ( Dinamarca )quando estive em copenhaga.Gostei do infelizmente era mesmo por causa do trabalho que chegava tarde..
ResponderEliminarEstou quase nos quarenta e nem sei em que estereotipo estou, acho que é bom.
abraço
bom fds
ou seja: pessoas sem interesse algum (risos) :) desculpe Carlos, não é em tom irónico mas reconheço tanta gente neste seu último parágrafo que até assusta *
ResponderEliminarVotos de um excelente fim-de-semana e continuo a gostar muito deste Vosso "despique"
Abraço
C
Há sempre uma geração de hippies e outra sucedânia de yuppies.
ResponderEliminarNa adolescência, os jovens continuam a ouvir Doors e afins, a acreditar no We don't need no education e a ouvir as músicas que lhes reflectem uma alma rebelde.
Depois crescem - e querem viver; sustentar-se, ter o carro, a casa com cerca, etc... Não mudou, essa postura. Apenas os nomes.
Há sempre uma geração de hippies e outra sucedânia de yuppies.
ResponderEliminarNa adolescência, os jovens continuam a ouvir Doors e afins, a acreditar no We don't need no education e a ouvir as músicas que lhes reflectem uma alma rebelde.
Depois crescem - e querem viver; sustentar-se, ter o carro, a casa com cerca, etc... Não mudou, essa postura. Apenas os nomes.
Caramba! Nasci praticamente durante a fase hippie, mas meus pais estavam pouco ligando para o que eles achavam, porque aqui já rolava a ditadura. Os metrossexuais ou viraram piada, ou simplesmente eram marcas pessoais. Os workaholics sempre existiram para poderem sobreviver, ou para deixar um teto para a familia. Aliás, tem um em casa. E é exatamente esse que os meninos não querem ser.
ResponderEliminarÉ... talvez eles sejam hippies. :))
beijinhos
Hippies & Yuppies, duas correntes antagônicas que afinal desaguaram em nada. Provalmente minha "santa avozinha" estava certa quando afirmava que "a virtude está no meio" ou, como dizia meu pai, "nem tanto ao céu, nem tanto à terra".
ResponderEliminarO importante é que cada um deles teve a coragem de enfrentar a opinião pública para viver seu ideal, e ainda que mais tarde, na turbulência da crise dos quarenta anos tenham mudado o curso, o rumo de seus caminhos, viveram seu momento. Estavam certos? Errados? Quem sabe? E a resposta que o tempo vem trazendo não nos é muito favorável.
Gostei da extensa recolha de dados relativos a ambas as épocas, absolutamente comprovada pela minha vivência dos factos aqui neste rectângulo da Península Ibérica de que falas.
ResponderEliminarContudo, senti-me muito bem retratada pela Avó Hippie da Patti. Mais... Idealista, mais... Romântica.
Por alguma razão temos que nos orgulhar das nossas diferenças, né?
Abraços e uma vez mais parabéns pelo despique quinzenal.
Ah, e como era boa a vida dos hippies! Mas agora a sociedade empurra-nos para uma necessidade cada vez mais consumista e competitiva. Para muitos o trabalho é o seu vício, e como um qualquer viciado pode autodestruir-se, um workaholic normalmente coloca a família em segundo plano, torna o seio familiar disfuncional onde há uma frequente falta de afectos. O metrosexual já pretende aceder a um certo estatuto. Quase sempre um símbolo de sucesso, uma espécie de self-made-man, reverencia a sua imagem e o cuidado com o corpo, imitador de num estilo ou moda, o seu objectivo primordial. Um prazer fugaz pelo qual acredita que basta ter um BMW topo de gama e as mulheres que conseguir engatar para resolver as suas ansiedades, os seus receios de solidão. E pelo andar da carruagem qualquer dia serão a maioria!
ResponderEliminarMuito bom. Mesmo muito bom. Gostei muito de ler!
ResponderEliminarbom fim semana
Engraçada esta ideia das Crónicas da Graça.
ResponderEliminarNão fui hippie mas lembro-me de uma canção que sempre me "encanitou" San Francisco.
Namorei Yuppies e dei ao mundo filhos que não sei bem o que são, para além de muito bem sucedidos.
Veludinhos
Parabéns e obrigada por estas Crónicas de Graça... sem o vosso blogobairro que eu tanto gosto de visitar, a blogosfera nãoseria a mesma... faltava-lhe cor...
ResponderEliminarBelo texto, Carlos.
ResponderEliminarLembro de os meus irmãos mais velhos terem ainda passado, levemente, pela onda Hippie: calças manchadas com lixívia, camisolas a mostrar o umbigo ( na altura eram eles :) ), viola e Beatles e " smoke on the water ", cabelo comprido, noites no parque de campismo local a namorar estrangeiras, que traziam a casa, de manhã, para tomarem o pequeno almoço...
Olá Carlos! Adorei o magnifico texto,que nos lembra bem a geração dos anos sessenta,e não falta o a bela wolksvagem de Peace e Love.
ResponderEliminarAgradeço a visita pelo blog.
Abraço e bfs.
E mais uma vez a oferecer-nos de Graça o seu conhecimento, a sua vivência e bagagem de uma vida cheia.
ResponderEliminarE ainda me fez recordar os hippies brasileiros de Jeraquaquara, cuja comunidade ainda existe e tive oportunidade de fazer uma visita, há uns anos.
Adorei a ideia do "Eu, Ldª".
Mas parece que ambos nos esquecemos de referir a excelente música de qualidade que se fez nos 8o's.
Temos dupla!
Parabéns a você, nesta data querida, muitas felicidadaaaaaaaaaades, muitos aaaaaaaaannnnossss de vidaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!
ResponderEliminarClap,clap,clap!!
Muitos parabéns, Carlos, já é o segundo aniversário que tenho o prazer de partilhar consigo na vizinhança!!
Abraço!
Passei para lhe dar os parabéns, embora não veja bolo, nem champagne e nem sequer tenha sido convidada.
ResponderEliminarMas eu sou assim!
Beijinhos
Carlos, nesta tua crónica fizeste com que me recordasse do momento em que cheguei a San Francisco, no meu tour pela Califórnia.
ResponderEliminarO motorista do autocarro 3 minutos antes de entrarmos na cidade pôs a tocar essa musica: “if you go to S. Francisco be sure to wear some flowers in your hair”.
Depois disse-nos...
Já temos a canção falta as flores nos cabelos!!!
Jamais esquecerei.
Bom fim de semana.
Beijokas.
Carlos, fui um pouco atrás e estive a ler o teu artigo sobre livros e livrarias...
ResponderEliminarPois acontece que vou em breve a Paris e como trabalho junto do El Corte Inglês, ontem fui lá, à secção de livraria procurar daqueles guias das cidades, que ajudam nas viagens que fazemos pelo Mundo.
Sobre Paris encontrei apenas 3 "amostras" e todas elas em espanhol e muito fracas de qualidade.
É inadmissível estarmos a viver em Portugal, querer algo na nossa língua e apenas terem na língua espanhola, fiquei revoltada e com vontade de fazer um post a falar sobre isso. Mas, aproveitei o teu artigo para "desabafar" um pouco.
Perguntei ao funcionário que me disse: Pois...é só o que temos!!!
Enfim...
Antes de passar a comentar o texto, Carlos, que aliás é excelente, como acostuma, muitos parabéns. Tinha pensado oferecer-lhe uma prenda em forma palavras, mas não ando muito inspirada e antes que não lhe dar um texto digno, prefiro que fique só com um abraço sincero. Quem sabe de tarde, quando termine o trabalho, olhando ao mar, consiga enfiar umas letras?
ResponderEliminarDo resto, nasci tarde para ser hippie, cedo para ser yuppie. Fiquei a meio, adicta a um trabalho que adoro, mas que nunca será sinónimo de sucesso tal como esta sociedade o entende. Mas também eu não entendo esta sociedade, de maneira que estamos pagos. He!
Hoje tem proibido deixar-se entristecer pelo outono, Carlos, que aliás, garanto-lhe, é uma estação lindíssima.
Parabéns, Bébé! :)
ResponderEliminarMuito interessantes, estas suas crónicas, Carlos. Com mais um expressivo exemplo de como os excessos geram, por via de regra, excessos de sinal contrário. :-)
ResponderEliminarMais uma vez, estão ambos de parabéns, os parceiros das "crónicas paralelas".
ResponderEliminarRetratos sociais incisivos.
Um beijo.
Carlos,
ResponderEliminarExcelente descrição das duas "gerações" e da presente! E concluo que tive muita sorte em ter vivido da era hippie: liberdade, confiança, romantismo, boa música, ideais para um mundo melhor e mais faterno. Quanto às drogas nunca precisei mas infelizmente elas têm sempre aumentado e cada vez são mais agressivas.
Beijinho
Já podemos dizer que a idade é boa conselheira... permite analisar e registar os extremos de forma desapaixonada qb.
ResponderEliminarBom post, gostei de o ler. E fiz batota, porque primeiro li o da Patti, não fosse o seu ser muito longo:)
Hhahaha...só podias ser mesmo um escorpiano...e que bom !!!
ResponderEliminarOs parabéns estão no post seguinte :o)
Carlos, Interessante pensar que os yuppies são filhos dos hippies. Seriam dois lados da mesma moeda? difícil acreditar nisto, enfim... Lí aí em cima, é seu aniversário? Se for, te diria que realmente me perguntassem seu signo diria escorpião sem pestanejar. Temos uma mania de sobreviver a tudo que chega a ser um vício hehehe. Se não for, bem... seu ascendente deverá ser. beijo meu, vou agora lá na Patti.
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