Aviso prévio: este post é uma prova de resistência. E de paciência.
Estes dias plúmbeos em que o Céu, como que alijando as suas responsabilidades, deposita sobre as nuvens o peso de todas as agruras do mundo, obrigando-as a derramar sobre a Terra as lágrimas de desconforto provocadas por tantas injustiças, catástrofes humanas e naturais, deixam-me macambúzio. Sempre que posso procuro o mar, na tentativa de aproveitar a circunstância da praia deserta para dialogar com ele. Invariavelmente pergunto-lhe:
-Ó Mar! Tu que estás constantemente em diálogo com o Céu, numa linha do horizonte que nós, humanos, não conseguimos alcançar, já alguma vez lhe perguntaste a razão de ter posto cá na Terra seres humanos tão ignóbeis e hipócritas, prenhes de maldade, que enchem a boca com conselhos que não cumprem? Porque falam os homens de igualdade, justiça ou paz, mas os seus actos são sempre contrários àquilo que apregoam?
O mar traz-me a resposta na espuma de uma onda que se espreguiça no areal. É uma resposta cifrada que nunca consigo traduzir. Volto um e outro dia até que, desalentado, vazio de esperança, decido rumar a Sul ao encontro do Céu azul e do calor das gentes da América Latina. Lá já não procuro o Mar. Refugio-me na calma dos parques naturais da Patagónia ainda por descobrir, onde a avidez do Homem ainda não matou o sonho.
Ontem, a minha agenda não me permitiu ir falar com o mar. Trabalho pela manhã e, à tarde, acompanhamento de um familiar a uma consulta. Como já conheço o médico, sei que a consulta marcada para as quatro da tarde não se realizará antes das sete. Decidi, por isso, comprar um livro para me entreter enquanto esperava. Entrementes, pensei que deveria pedir ao médico que descontasse na consulta o preço do livro, mas desisti porque seria falta de educação afrontar o senhor doutor na sua catedral onde exerce medicina privada, zombando dos seus pacientes, a quem sujeita à obrigatoriedade de expiarem os seus pecados na dura prova da paciência purificadora. Com um médico do SNS que se atrase meia hora na consulta, todos podem protestar, mas com um senhor doutor professor e o raio que o parta, que cobra 100 euros por cada consulta (sem direito a recibo), ninguém pode protestar, porque seria uma falta de educação que Sua Sumidade não toleraria.
Não sei se já vos disse como odeio consultórios médicos. A maioria deles não tem luz directa, são tão sombrios como a antecâmara da morte, com a diferença de existir sempre um televisor sem som,cuja utilidade nunca descortinei, salvo quando estão a transmitir um combate de boxe ou outra qualquer actividade desportiva que não precisa de legendas. Só que a maioria dos médicos não paga a Sport TV, por isso as imagens que saem do televisor de um consultório são tão inúteis e inexpressivas como os programas da SIC durante a tarde. Na verdade, aquilo não precisa de som. Adivinha-se que entre sorrisos e lágrimas, desfila pela pantalha a descrição do lado mais sombrio da vida dos portugueses. Há queixas e lamúrias, campanhas de solidariedade ou exaltação do voluntariado, acopladas a cenários de desgraça que numa sociedade que se pretende justa não deveriam existir. (Ontem, percebi quando cheguei a casa, era dia de festa em Carnaxide).De qualquer modo, talvez seja preferível ver um daqueles programas, a ter de suportar o canal da Assembleia da República em dia de sessão plenária, como me aconteceu um dia em que uma forte dor de dentes me atirou para o consultório de um dentista.
A dor era tão forte que não conseguia concentrar-me na leitura de um livro e, folhear uma dessas revistas da imprensa cor de rosa que enxameiam qualquer consultório médico que se preze onde, com sorte, podemos encontrar uma edição com três meses de atraso, não é actividade que se recomende. Entretive-me, por isso, a tentar decifrar o que os deputados e o primeiro-ministro diziam. Em vão. O que não me causou qualquer embaraço, pois muitas vezes também não consigo perceber o que dizem, mesmo com o som ligado. A verdade, porém, é que naquele esforço consegui distrair-me e aliviar a dor. Quando me chamaram para a consulta já nem sabia ao certo identificar o dente que me doía e a custo cedi à tentação de dizer à zelosa e curvilínea funcionária, que afinal já não precisava da consulta, porque a dor tinha passado. Limitei-me a sugerir à dentista que acabara de fazer uma descoberta sensacional: a AR TV é um excelente analgésico. Pelo menos para as dores de dentes.
Bem, mas voltemos ao consultório onde ontem passei a tarde. Já as sete da tarde se tinham esfumado há um bom pedaço, quando a empregada, mais carcomida do que a madeira da mesa onde repousavam as revistas, anunciou com voz de enfado, ser a nossa vez. Meia hora e 100 euros depois estávamos na rua.

A noite já caíra sobre a cidade, disfarçando o céu plúmbeo. Filas de carros conduziam de regresso a casa, em marcha lenta, milhares de almas no fim de mais um dia de trabalho. Muitos deles passaram o dia enjaulados, como eu, mas em escritórios assépticos, privados da luz do dia. Alguns regressam com a sensação de alívio de quem justificou o seu vencimento. Outros, ansiando pelo dia seguinte, porque quanto mais tarde saírem do escritório, menos tempo são obrigados a viver no ambiente familiar que já não suportam.
O senhor do Audi vai com o ar satisfeito de quem enganou alguém num negócio. A senhora do Fiat Uno leva, no banco traseiro, o fruto de uma noite de amor, preso a uma cadeirinha. O jovem do Opel Corsa vai a falar ao telemóvel . Pelo ar entusiasmado, deve estar a combinar uma patuscada com amigos. As jovens do Clio vão em conversa animada. Irão a contar as aventuras do fim de semana? No semáforo, pára ao nosso lado um Renault Laguna. Lá dentro, um casal na casa dos quarenta. Nos minutos em que estão parados não trocam uma palavra. Cada um vai mergulhado nos seus pensamentos. Que provavelmente nunca se cruzarão.
Eu vou num táxi. Disfarço a preocupação com as notícias do médico. Uma intervenção cirúrgica nunca se encara de ânimo leve. Pego no livro que não li. Releio o título e respiro fundo: “ A Sombra do que Fomos”. Decido escrever um post sobre o primeiro livro que li deste autor, quando chegar a casa. Gosto do velhos que lêem romances de amor. E gosto do Luís.
(…….)Terminei o post. Não escrevi sobre aquilo que pretendia. Não cumpri os objectivos. Como muitos dos que ontem passaram por mim, ao fim do dia, e no final do ano serão avaliados. Eu tenho a sorte de não ter de me preocupar com isso. São os leitores que me irão avaliar. Na caixa de comentários e no sitemeter. O post sobre o Luís Sepúlveda pode esperar. Vocês importam-se?
O amigo bem que avisou que ia ser necessário tempo para a leitura; paciência já não, pois é a mesma bem agradável!
ResponderEliminarCurta-metragem. Este texto dava uma curta-metragem.
ResponderEliminarE aquelas vidas que passaram por ti no trânsito? Eu vi-as.
:) os gatos raramente ensinam gaivotas a voar, Meu Caro Carlos .. mas eu também gosto do Luís.
ResponderEliminarEu aguardo sim o próximo post...você escreve muito bem.
ResponderEliminarabraços
Hugo
Hoje pude ler seu texto com a calma que ele merece. Saio do trabalho quase todos os dias com os mesmos questionamentos que fazes ao mar.
ResponderEliminarNão tem coisa mais irritante que sala de espera de consultório médico. E adorei a sua educada postura ao descrever o médico doutor professor, assim como as atitudes que acompanham os títulos.
E o trânsito, então? É igual em qualquer lugar do mundo. E eu tenho a mania de observar os outros nos outros carros.E o que percebo é exatamente o que vc descreve.
É..eu sempre reclamo daqui e dalí das questões sociais, me acho muitas vezes dura demais, profissionalmente estou sempre discutindo assuntos sérios demais, mas adoro ler um romance!!!
E é claro que não nos importamos...e não ter a obrigatoriedade de escrever isso ou aquilo é que é o verdadeiro objetivo :o)
Depois, se possível, fale-nos sobre os livros...
Um excelente dia prá vc!
Carlos
ResponderEliminarComeço a ler seu texto, vou passeando por linhas e entrelinhas, quando as há, mergulho em cada tema que vai desenvolvento,encantada com seu jeito de escrever... É como se passeasse com você pela praia, ouvindo, indiscreta, sua conversa com o mar... Chego a cansar-me com sua jornada de trabalho, delicio-me com sua viagem por uma Amerida do Sul que não conheço ainda, apesar de viver nela (quando menina, nas aulas de geografia, ficava sonhando com a Terra do Fogo que depois soube que era, na verdade, Patagônia) e, concordando com você sobre esse atendimento "VIP" que "se recebe" nesses consultórios, deculpe-me, mas ainda assim não pude conter o riso diante das suas observações sobre esses profissionais tão gabaritados, tão conscientes e tão abnegados... e acho que o Senhor Doutor deveria mesmo descontar dos módicos 100 euros o precinho de seu livro (rs). E você deveria também pedir um ressarcimento das horas de trabalho que perdeu na espera pelo atendimento, porque afinal, hora marcada deveria ser respeitada... (Sou ou não sou uma inveterada sonhadora? rs...) Preocupou-me uma possivel cirurgia de pessoa que lhe é cara, porque sempre me preocupo com os momentos difíceis que meus amigos enfrentam. E fiquei desejando que os consultórios dentários daqui do Brasil tenham todos TV a cabo com um canal que transmita as sessões plenárias da Assembléia da República de Portugal - pois acredite, a daqui vai aumentar a dor...
E depois de tudo isso,uma volta em trânsito pesado (como se estivesse em São Paulo)...
Pode não ter sido este o post que pensava escrever, mas foi simplesmente incrível passear por ele, viver esses momentos tão seus, intrometida que sou quando se trata de amigos.
Excelente postagem esta, meu amigo.
Resistência e paciência foi a sua no consultório, Carlos. O deste lado de cá, o meu, é prazer. E posso esperar pela crítica do Luís, sim, Sepúlveda; não tolero, porém, ficar sem ela: está avisado. Escreva.
ResponderEliminarSei que deve estar melancólico por causa do outono, mas o outono é lindo, acredite. Molhado, mas lindo. (`_^)
Carlos, a sua lucidez e sensibilidade, contida neste belo texto, fez-me ter vontade de reagir ao "marasmo" - em que me encontro há uns dias...
ResponderEliminarEstou toda esnobe. Voce me visitou. Fico preocupada porque escreve tão bem. E meu portugues é antigo, não fico preocupada em procurar o dicionário e escrever muito corretamente
ResponderEliminarDeveria , mas se fizer não vai dar tempo de andar por aqui.
Minha irmã é dentista mas aí fala medico, não ?
Adoro as diferenças entre nossos paises mas não sei nada. O ano que vem iremos em Portugal. Mamae, Andrea e eu.
Com carinho Monica
It was just a bad day.
ResponderEliminarE viver é tão bom! :)
gostei de ler esta cronica
ResponderEliminarQuer dizer, vai para os consultórias médicos sem luz nenhuma, mas sabe muito bem ver o físico das empregadas, hein? Uma é curvilínea, a outra é carcomida...
ResponderEliminarComo senão bastasse ainda mete o nariz no carro das pessoas e põe-se a fazer ilações de vidas privadas, intimidades de cada um e maisnãoseioquê!
Oftalmologista não está a precisar, pois não?
Oh valha-me Deus, até parece que é jornalista ou coisa que o valha, sempre a farejar por todo o lado.
p.s Isto dos caracteres aos milhares... 'tá a tomar-lhe o gosto?
Ora aqui está um texto daqueles como eu tanto gosto. Utiliza um género de escrita muito ao meu gosto, ao mesmo tempo, e, como quem não quer a coisa, aproveita o ensejo, para fazer uma crítica deveras pertinente. Mas, a verdade seja dita, não pagaria 100 euros de consulta a um médico assim.
ResponderEliminarDesses atendimentos tenho eu no serviço de saúde público. A minha médica de família é sem sombra de dúvidas uma pessoa perturbada, que perdeu o amor à sua profissão. Atender os seus doentes, está bem longe de ser um sacerdócio, porque é visível, pelo menos para mim, que tão facilmente capto, para meu desencanto, as energias negativas do meu semelhante. Sinto-lhe e detecto-lhe nos olhos, o nojo e o desagrado, que nós utentes, lhe inspiramos. Para ela, atender-nos é o máximo suplício. Tanto que num desventurado dia, ao chegar pelas nove horas, quedou o olhar num grupo de pessoas, que logo reconheceu como sendo seus utentes e exclamou: "Ah, eu não atendo esta gente"! Isto é, o que a bendita senhora quis dizer, é que éramos muitos! Além de que nos considerou "gentalha"!
Entendo esta reacção não como uma negação do trabalho, mas, muito mais, como uma vontade doentia de exercer um pouco de poder. Naquele momento ela foi poderosa, pois ali estávamos nós, pobres e desvalidos, que dela tivemos o infortúnio de precisar, nas suas portentosas mãos. E as vezes que eu, logo eu, que não gosto de rastejar, tive de amelaçar a voz e o jeito para a convencer a atender-me? E assim, não dar por desperdiçadas as horas, desde as seis da manhã, que durou a espera para , eventualmente, ser atendida? Eu lá rastejar, quase que rastejei, mas não foi de bom grado, visto que é contrário à minha natureza, mas ficou-me atravessado na garganta e quando disso me lembro quase me sufoco. Neste aspecto vivemos no terceiro mundo.
Não farei comentário de resistência nem que moa a paciência.
ResponderEliminarExcelente crónica. Obrigado.