sábado, 31 de outubro de 2009

Halloween à portuguesa ( Replay)


Hoje é a "Noite das Bruxas", mais uma maravilhosa invenção da sociedade de consumo da era global. Em Portugal, só há meia dúzia de anos a noite de 31 de Outubro deixou de ser apenas a véspera de mais um feriado. Amanhã, pela manhã, num café perto de si, talvez possa assistir ao rescaldo. Provavelmente, o cenário não será muito diferente do que se descreve aqui

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Chega de palavras. Passemos aos actos

Surgiram algumas dúvidas em relação a este post. E com razão. Na verdade, o Dia do Idoso foi a 1 de Outubro e no dia 28 comemorou-se o Dia da Terceira Idade. Não compreendo a razão de se assinalarem os dois dias no mesmo mês, mas presumo que haja alguma explicação que me tenha escapado.
Já agora... sabiam que o Dia dos Avós ( que só recentemente se começou a comemorar em Portugal) é em Julho?
Com tantos dias homenageando de diferentes formas a "Terceira Idade", era altura de a sociedade se preocupar um pouco mais com os velhos. De palavras e boas intenções já estamos todos fartos.

Admirável Mundo Novo*

Mulheres vítimas de escravatura sexual. Crianças traficadas e sodomizadas para deleite de adultos perversos. Traficante de droga abatido a tiro pela GNR. Mulher espancada pelo filho, por se recusar a dar-lhe dinheiro para comprar droga. Padre guarda armas na Igreja onde celebra missa e, provavelmente, apregoa aos fiéis o amor e a paz, perante o silêncio da Igreja, tão lesta a criticar as palavras de Saramago sobre a Bíblia, mas sempre remetida ao silêncio quando algum dos seus pastores se vê envolvido em actos criminosos. Juiz manda em paz um pedófilo acusado de abusar sexualmente da sobrinha, por considerar que o acto não justifica uma medida coerciva pesada.
São notícias deste maravilhoso mundo novo que leio em jornais abandonados numa mesa de café, enquanto espero a hora de iniciar uma entrevista numa recôndita aldeia barrosã. A que mais me impressiona, pela leveza da decisão do juiz, é a medida de “Termo de Identidade e Residência “ aplicada ao pedófilo. Haverá razões que a justifiquem, mas dá-me a impressão que os crimes começam a ser tão banalizados, que os juízes se comportam perante as vítimas coma indiferença de um médico legista perante um cadáver.
Também não estranho, por isso, a notícia de um grupo de portugueses que angaria trabalhadores para labutar em quintas espanholas, com a promessa de salários atractivos. Aí chegados, prendem-nos, roubam-lhes a documentação e ficam com o dinheiro pago pelos empregadores. Estes casos começam também a tornar-se tão frequentes, que geram apenas 30 segundos de emoção e zero de reflexão.
Resisto a entrar na onda conformista. Quero uma sociedade mais justa. Quero regras e punições exemplares para os criminosos. Não aceito esta sociedade miserável, de comportamento medievo, que os ultra-liberais prometem como “El Dorado”, onde a iniciativa privada é a única regra aplicável. O resto é o salve-se quem puder, onde cada um fica entregue às contingências do destino, porque a justiça é morosa, quando não inexistente.
Na mesa ao lado da minha, um sexagenário desdentado saca o valete de trunfo e, triunfante, diz “toma lá, esta é para comer o teu ás de copas”. A “mine” estatela-se no lajedo com estrondo, derrubada pelo gesto vigoroso do ancião. “Traz mais outra, Manel, que os patinhos pagam”.
Pois é. O mundo é um simples jogo de cartas. Quem tem a melhor mão ganha. Ou então, farto de esperar por uma mão ganhadora, faz “bluff”, vai a jogo e na impossibilidade de vencer com as cartas que lhe caíram em sorte, tenta fazer batota na esperança de não ser descoberto pelo adversário, ou merecer a complacência de quem for competente para julgar os seus actos. Os batoteiros são (quase) sempre premiados neste mundo ultra liberal, cujo ás de trunfo é o lema “A sorte protege os audazes”. Assim é. Os banqueiros que levaram o mundo à ruína confirmam-no no fausto das suas vidas de criminosos impunes. Com o fim da crise, preparam-se para recomeçar a sua vida de agiotas, perante a reverência dos poderes instituídos e tendo como companheiros de jornada alguns empresários sem escrúpulos. Quem trabalha continuará a sustentar-lhe os vícios, pagando os impostos.
Merda de mundo este que tanto tem evoluído em novas tecnologias e abastança, mas continua a regredir no respeito pela condição humana.
* Título pedido emprestado a um livro de Aldous Huxley, escrito em 1931

A caminho de Copenhague

Sucedem-se, um pouco por todo o mundo, as reuniões preparatórias da conferência sobre as alterações climáticas, que se realiza em Dezembro, em Copenhague. Acompanhei o Carlos em duas dessas reuniões realizadas esta semana e, enquanto ele se entretinha a falar sobre “o relevante papel que os consumidores podem desempenhar no combate às alterações climáticas”, eu entretive-me a assistir a uma conferência sobre a água.
Não foi falta de respeito pelas palavras do Carlos, mas já conheço o discurso de ginjeira e embora reconheça que ele tem razão quando diz que se os consumidores fossem mais conscientes nas suas escolhas, reduzir-se-iam diariamente toneladas de emissões de gases com efeito de estufa, a verdade é que, não sendo eu humano, só consumo o que a Natureza me dá.
Ora uma das coisas que eu faço é beber muita água e como cada vez é mais difícil beber água de boa qualidade nos rios e mar, ando preocupado com isso. Já ouvi o Carlos dizer que a escassez de água vai ser uma das causas de guerras durante o século XXI e, desde aí, o tema passou a interessar-me muito. Pois ontem, o que ouvi naquela conferência, deixou-me com os pêlos todos eriçados. É que percebi que o Carlos tem mesmo razão quando diz que é preciso poupar água e preservar os rios e mares das fontes poluidoras e, além disso, fiquei a saber que os israelitas são uns patifes que estão a impedir os palestinianos de aceder à água.
Vocês sabiam que Israel impede a construção de infra-estruturas hídricas na zona da Cisjordânia, onde vive 60% da população palestiniana e que depois do ataque a Gaza, Israel proibiu o transporte de água para a Cisjordânia, deixando 800 mil pessoas sem água?
Além disso, como a água é pouca, a sua distribuição é feita pelos israelitas de forma desigual: meio milhão de israelitas, tem direito à mesma quantidade de água dos quase 2,5 milhões de palestinianos. Em números, isso significa que enquanto cada israelita consome 300 litros de água por dia, um palestino só tem direito a 70, apesar de a OMS considerar que ninguém pode sobreviver ali em condições dignas, com menos de 100 litros por dia.
Eu, que até não percebo nada de política, tive vontade de dar umas bicadas num israelita gordalhufo que estava a assistir à conferência e fiquei espantado por não ver ninguém a reagir contra esta selvajaria mas, como não sou humano, o problema deve ser meu, que sou facilmente impressionável com as injustiças do mundo.
Olha, está ali uma fonte, vou mas é matar a sede. Que se lixem os palestinianos . Se o mundo não lhes liga nenhum, nem se revolta contra as injustiças de que são vítimas, devem ser gente muito má e estão a ter o castigo que merecem.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Brites num Rochedo Cor de Rosa

Deixaram-me sozinha aqui no Rochedo. O Sebastião foi passear com o Carlos não sei para onde e eu fiquei a tomar conta disto. Pediram-me para escrever umas coisas, mas não me tem apetecido. Estou cansada da política, não me apetece ouvir música, ler nunca foi muito do meu agrado e por isso tenho passado os dias muito chateada. Se ao menos estivesse tempo para voar…
Tinha pensado que quando chegassem nem lhes ia falar, mas esta manhã estava uma rapariga ali na praia, a ler uma revista , que me fez mudar de ideias. Primeiro só olhei para as fotografias da passarada, mas depois comecei a ler uns títulos e percebi que aquilo era cá uma conversa de comadres que me entusiasmou(!). Fiquei a saber a vida toda de muita gente que não conhecia de lado nenhum e fiquei muito curiosa para saber mais. Eu nunca tinha visto revistas daquelas, mas fiquei a saber como se chamam, porque estava eu a ler um artigo muito bonito sobre o Júlio Iglésias, quando chegou um rapaz , deu um beijo na rapariga e perguntou “Estás a ler revistas cor de rosa, môre?”. (Foi então que percebi que eram aquelas revistas que o Carlos ainda gosta menos do que de jornais desportivos e percebi logo que aqui no Rochedo nunca as vou ler) “Não, estou a ler o Proust!”, respondeu ela. (Não sei quem é o Proust, mas como eles se riram muito com a resposta dela, penso que deva ser algum humorista famoso.) Depois começaram aos beijinhos e eu ralada, porque não conseguia ler o resto do artigo sobre o Júlio Iglésias. Felizmente, passado pouco tempo ele passou as mãos por baixo do vestido dela, a revista caiu-lhe do regaço e ficou aberta na areia. Aproximei-me um bocadinho mais e aproveitei para ler mais à vontade, porque eles estavam muito distraídos.
Nem imaginam como estou excitada! É que ao ler aquelas coisas sobre pessoas tão finas e que até parece que são importantes, tive uma ideia. Como já estou farta de escrever sobre política e isto agora não vai ter interesse nenhum porque a D. Manuela se vai embora e é difícil encontrar outro como ela, gostava de escrever sobre esta gente cor de rosa. Vou propor ao Carlos que me deixe escrever, pelo menos uma vez por semana, sobre as histórias desta gente maravilhosa e cheia de "glamour".
É pena não haver nenhum cabeleireiro com vista para a rua aqui ao pé do Rochedo, porque não posso contar que o Carlos me compre as revistas. Vou ali para a janela do consultório e sempre hei-de conseguir ler alguma coisa para depois vos contar. E sabem uma coisa? Até já tenho nome para a minha rubrica. Vai chamar-se Rochedo Cor de Rosa”. Se conseguir encontar argumentos para convencer o Carlos, prometo contar-vos muitas fofocas.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fraquezas de velhos



Ai os velhinhos, tão engraçados,
tecem a avareza mui descuidados.
Se as minhas contas baterem certo,este post será publicado no Dia do Idoso. Todos conhecem o respeito que tenho pelos idosos mas este ano, para variar, resolvi aproveitar este dia para recordar uma outra faceta de muitos velhos que me irrita solenemente.
São sobejamente conhecidos os casos de vigaristas que exploram a credulidade dos velhotes. Usando o estafado conto do vigário, conseguem extorquir-lhes dinheiro recorrendo a variados estratagemas. Todos temos muita pena destes “velhinhos” que, esquecidos e isolados no interior, estão sujeitos à estratégia dos oportunistas. Talvez poucos, porém, se dêem conta que na base destes contos do vigário estão muitas promessas de enriquecimento fácil que os velhotes aceitam na mira de engordar a sua conta bancária. E quando assim é....para bom entendedor, meia palavra basta.

Pronúncia do Norte(20)

CHUÇO=

= Guarda-Chuva

A idade não perdoa

Venho aqui hoje só para dizer MUITO OBRIGADO a todos os que me enviaram os parabéns. Espero que os amigos e amigas a quem ofereci ontem o selinho "Just Perfect", compreendam que a idade não perdoa e por isso esqueci-me de colocar a imagem do prémio. Reparado o erro, podem colocá-lo nos vossos blogs.
Daqui a umas horas, alguns (espero...) vão aprender uma nova palavra da Pronúncia do Norte. Não sei se, por efeitos da globalização, a palavra já será conhecida na Mouraria mas, seja como for, espero que nunca se esqueçam desse objecto em dias de chuva. Até já!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Just Perfect. Já sou VIP!


A Ana Paula Fitas teve a amabilidade de me presentear com este prémio que muito me sensibilizou. A atribuição desta simpática comenda é justificada, pela autora de A Nossa Candeia, com a frase que acompanha o prémio e lhe confere o certificado de garantia "Your Blog is just perfect to learn something every day"
Sensibilizado com a oferta, partilho-o com os seguintes 12 blogs de actualização diária ( é essa a premissa para a atribuição do prémio) juntamente com a frase acima reproduzida:


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Fui ao Divã

Recebi, da Grande Jóia, este simpático, mas perturbador, selinho que me deixou embaraçado, pelas regras inerentes à sua atribuição e que passo a explicar:
1. Postar o Selo - Já está!
2. Dizer quem me indicou- Já está
3. Escrever três conflitos que me levaram ao Divã
O busílis está precisamente na regra nº 3. É que comecei a pensar e cheguei à conclusão que nunca fui ao divã. Ou melhor: fui, mas por razões que não vou aqui contar. Embora neste Rochedo se revelem muitos episódios da vida do seu inquilino, não chegaria ao ponto de aqui descrever os episódios íntimos que me levaram ao divã. Por mais agradáveis que possam ter sido, não os vou aqui revelar, sob pena de o sr Blogger me colocar um aviso à porta, informando os visitantes que devem ter cuidado antes de entrar neste antro de mau porte.
Foi quando pensava na melhor maneira de cumprir a tarefa ( sim, que sem o selinho é que eu não ia ficar...) que me lembrei que afinal eu tenho mesmo um divã. Embora nunca me tenha deitado nele, visito-o várias vezes todos os dias. Pois é, esmiuçando bem o Rochedo, tenho de reconhecer que funciona como um divã onde reflicto sobre as questões que ao longo do dia me suscitaram reacções de alegria, tristeza, entusiamo, desânimo, ou mesmo dor. E pelo menos 3 vezes, ao longo destes dois anos, os posts que escrevi funcionaram como catarse purificadora das minhas emoções. Sendo a minha formação, na área da psicologia ( que não exerço), deveria fazer a catarse em privado mas, pelo menos nessas três vezes, não respeitei as regras básicas e tornei públicas as minhas angústias, pela perda de pessoas cuja memória está sempre comigo.
Quem quiser ler, faça o favor de seguir os links. Aqui, ali e acolá

Mandam as regras que mande para o divã seis vizinhos. No entanto, como penso que ninguém deve ir para lá obrigado, lanço o repto a quem quiser dar seguimento. Agradeço, a quem se ofereça voluntariamente, que me informe na caixa de comentários.

sábado, 24 de outubro de 2009

Hoje estou assim...

Um dia, alguém perguntou a Galileu:

- Quantos anos tens?

- Oito ou dez, respondeu. Perante o olhar atónito do seu interlocutor, esclareceu:

Tenho os anos que me restam de vida, porque os já vividos não os tenho mais.

Aviso: Nos próximos dias vou andar por aí, mas deixei agendados posts até ao meu regresso. E na terça-feira distribuirei uns presentinhos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Crónicas de Graça # 2

Hippies e Yuppies
Nos anos 60 era usual os jovens despedirem-se cedo de casa dos pais e fazerem-se à vida. Na Califórnia, alguns filhos de famílias abastadas e com escolaridade elevada, despediram-se dos pais, puseram uma flor no cabelo, deixaram-no crescer até à cintura, trocaram o maço de Marlboro por uns gramas de haxixe ou LSD, abandonaram os trajes clássicos para vestirem túnicas, gangas e blusas de cores garridas estampadas com flores, optaram por confortáveis sandálias em detrimento dos sapatos opressores e aterraram em Berkeley, onde criaram o primeiro slogan (“Peace and Love”) que definia a sua filosofia de vida.
Herdeiros da “beat generation”, rebeldes mas pacifistas, divulgavam a sua doutrina através da música, composta com a preciosa ajuda das drogas e escolheram como hino uma canção de Bob Dylan ( “Blowing in the wind”). Tinham também uma espécie de “jingle” publicitário para anunciar a quem se quisesse juntar-se a eles, o caminho a seguir e as regras a que se deviam sujeitar: “(if you go to) S. Francisco be sure to wear some flowers in your hair”. A senha de entrada era a frase “Ban the Bomb”.
Cultivavam uma saudável fobia ao trabalho, mas promoviam o debate de ideias em festivais de música onde o suave aroma das drogas libertava as mentes, expressando a sua criatividade através da arte. O mais famoso foi o “Festival de Woodstock”.
Durante três dias, meio milhão de jovens empunhando flores, partilhando drogas e cantando a esperança de um futuro de paz e amor, acreditou que ia mudar o mundo. A maioria deles chegou de moto ou em psicadélicas carrinhas Volkswagen, -um ícone da geração hippie- empunhando a bíblia do movimento: a Rolling Stone.
Alguns dos presentes afiançam que nas proximidades do local onde se realizou o “Festival” se erguiam tabuletas com a frase que os epicuristas colocaram à porta do jardim onde se reuniam: "Estranho, aqui serás feliz. Aqui, o prazer é o bem supremo!".Certo é que, durante o certame, foi divulgada a descoberta da pílula e, ao fim dos três dias, os participantes decidiram partir para espalhar pelo mundo a boa nova: "Make Love, not War”.
Uns rumaram a sul, outros atravessaram o Atlântico em direcção à Europa, outros ainda cruzaram o Pacífico em direcção à Ásia. Poucos foram o que se aventuraram a uma paragem na Península Ibérica, onde de imediato os catalogaram de andrajosos, avessos a tomar banho , preguiçosos e transmissores de maus costumes. No início dos anos 70, porém, a sua mensagem chegava a todo o mundo, estava consagrada no cinema através de “Easy Rider” e influenciava o mundo virtual das bonecas, onde despontava uma Barbie de túnica e ganga vestida, usando flores no cabelo.
Por razões ainda não muito bem explicadas, os hippies falharam a sua missão. Cansados da vida nómada e talvez desencantados com o pouco acolhimento dos seus ideiais, muitos hippies converteram-se ao trabalho. Aburguesaram-se e ocuparam cargos proeminentes no mundo laboral e da política. Outros, fundaram comunidades nos vários continentes. Christiania ( Dinamarca ) e El Bolsón ( Argentina) são as mais conhecidas, mas existem outras que merecem destaque, como Jeraquaquara ( Brasil) e Goa (Índia) onde procuram- com cada vez menos sucesso- manter a tradição.
Talvez por culpa de métodos contraceptivos pouco elaborados, os hippies geraram uma geração que foi o seu contrário: os yuppies.Contrastando com os seus progenitores, os yuppies adoravam trabalhar, tinham gostos requintados, gostavam de se apresentar bem penteados e lavadinhos, encadernados em fatos de marca que seguiam os rigores da moda, de onde despontavam gravatas de cores psicadélicas, em jeito de homenagem aos gostos dos seus progenitores. Em vez de flores no cabelo usavam gel e cheiravam a Aramis ou a Lavanda.
Não tinham um lema de vida, mas tinham um objectivo: enriquecer depressa, seguindo a máxima “os fins justificam os meios”. Em vez da solidariedade dos antepassados, os yuppies distinguiam-se pelo individualismo. O culto do “eu” conduziu à criação do modelo social “Eu, Ldª” cujas características fundamentais são a indiferença face às questões sociais, o saber especializado em detrimento do saber multifuncional, o analfabetismo cultural, onde cabe o desprezo pelo debate de ideias e a ausência de uma filosofia de vida. Não admira, por isso, que tivessem trocado o interesse pelos tops musicais, pela consulta obsessiva das cotações da Bolsa, a leitura da Rolling Stone pelo Financial Times, as carrinhas Volkswagen, pintadas em cores psicadélicas, pelos BMW ou Audi de cores austeras, as flores no cabelo por telemóveis colados ao ouvido.

Ao contrário dos hippies, os yuppies começavam a trabalhar logo que acabavam os estudos, mas permaneciam em casa dos pais.. As diferenças também se manifestavam nos comportamentos sexuais. O hippie adormecia com uma valente pedrada. Ao acordar, olhava para a companheira do lado e perguntava “como te chamas” com um sorriso nos lábios, prontamente retribuído.
O yuppie, condicionado pelo princípio “Make love, but work before”, casava mais cedo e deixava para segundo plano a actividade sexual. Entrava em casa pela calada da noite, esforçando-se por não acordar a mulher, mas quase sempre tinha azar, porque tropeçava numa cadeira atravessada no caminho. A mulher acordava estremunhada e perguntava “ Luís que horas são?” e recebia como resposta “é muito tarde querida, tive uma noite terrível porque se meteu um raio de um vírus no computador e não conseguia terminar o projecto que tenho de apresentar amanhã a uns novos clientes da empresa que podem trazer-nos muito dinheiro”. O drama destas cenas era corresponderem à verdade. Não era a secretária, nem uma voluptuosa ucraniana que o afastavam do leito conjugal, não senhor, era mesmo o trabalho e a mulher sabia isso muito bem. Por isso, quando o yuppie sorrateiramente mergulhava nos lençóis, a mulher encostava-se a ele, mas recebia como resposta “ querida hoje não que estou muito cansado e dói-me a cabeça”.
Uma coisa hippies e yuppies tiveram em comum. Acabaram aos 40 anos, quando a crise da meia idade provocou os seus estragos. Os exemplares que permanecem, de ambas as espécies, são cada vez mais raros. Workaholics, metrossexuais e indivíduos híbridos, disputam o seu legado.
Agora vão ver o que a minha querida parceira destas crónicas quinzenais tem a dizer sobre este assunto.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Todos os Nomes*

Os pais quiseram registar o filho com o nome de Diego. A Conservatória não aceitou e os pais recorreram para justiça que confirmou a decisão, alegando tratar-se de um nome castelhano com equivalência na língua portuguesa.
Compreendo a frustração dos pais. Uma coisa é ter um filho Diego e outra é ter um que se chame Diogo ou Tiago . Diego faz logo lembrar Maradona , irreverência , multidões vibrando com vitórias e obras de arte desenhadas em rectângulos verdes pelo mundo inteiro . Diogo também faz lembrar multidões mas…. de rostos macambúzios , marcados por derrotas eleitorais num rectângulo à beira mar. Ora isto faz toda a diferença!
Num mundo globalizado não creio que faça sentido esta restrição onomástica.
* A escolha deste título não é nenhuma provocação...

Livrarias e maus tratos

Livraria Lello ( Porto), considerada uma das 10 mais belas livrarias do Mundo

Passo muito tempo em livrarias. Principalmente na Bertrand da Av de Roma e na Almedina, onde as pessoas são normalmente simpáticas e estão sempre prontas a ajudar. Além disso, tenho os cartões que me dão 10% de desconto e oferecem vales de 10€.
Em Julho fui à Bertrand do Picoas Plaza para comprar uns livros. Não tinham dois dos que eu queria, mas disseram-me que os iriam pedir e, na semana seguinte, me telefonavam. O tempo foi passando. Telefonei e enviei e-mails a saber quando viriam. Resposta aos e-mails nunca tive. Pelo telefone disseram-me, por duas vezes, que o assunto não estava esquecido e prometeram telefonar dali a meia hora. Nunca o fizeram.Há duas semanas tive de comprar um livro técnico e voltei à Bertrand da Picoas Plaza. Não tinham o livro que eu pretendia e quando perguntei pela encomenda, uma senhora muito mal educada e arrogante, mandou-me procurar noutro sítio. Pedi-lhe o nome e, claro, apresentei reclamação. Aguardo resposta.
Entretanto, na segunda-feira, fui à Bertrand da Av de Roma. Fui atendido com a simpatia habitual e resolveram-me o problema em menos de 10 minutos. Já cá tenho os livros.Eu sei que cenas destas se passam em todos os ramos do comércio, mas custa-me ser maltratado dentro de uma livraria. E desgosta-me que uma senhora ainda jovem, tenha um comportamento tão arrogante ao balcão. Por isso, não voltarei a pôr os pés na Bertrand do Picoas Plaza.
Bem, agora o lado melhor da coisa… na Betrand da Av de Roma, onde sou também cliente habitual à segunda-feira, ofereceram-me uma semana de estadia na Capadócia! Pena que tenha de pagar a viagem de avião e viajar em grupo, coisa que detesto. Assim sendo, agradeci a oferta, guardei o voucher, mas não vou utilizá-lo.

I'm sorry!...

... mas o tempo não dá para tudo e não tenho podido responder aos vossos comentários. Vou tentar começar hoje a pôr o correio em dia, respondendo aos muitos comentários que exigem resposta.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Notícias do futuro

Era uma vez um país onde uma jovem de 16 anos não podia comprar álcool nem tabaco. Chamavam a isso progresso. E para confirmar o seu empenho no progresso do seu país, o governo decidiu que às jovens de 16 anos que não podiam comprar álcool nem tabaco, devia ser dado o direito de abortar sem necessidade de autorização dos pais.
Isto aconteceu durante a primeira década do século XXI na actual Ibéria, que nessa época se chamava Espanha, e partilhava com Portugal e outras províncias de linguarejares estranhos, todo o espaço da Península situada na ponta ocidental da Europa.

Sugestão do dia

Loba das Estepes

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Quem com ferro mata...


Pensava escrever um post sobre o "Caso Saramago" que está a despertar discussões acaloradas. O mesmo já tinha acontecido com o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", que deu a conhecer ao país um imprestável ser (Sousa Lara) que na altura ocupava o cargo de sub-secretário de estado da cultura.
Entretanto, ao ler este post, percebi que ali estava escrito tudo o que eu pretendia dizer. Só me apetece escrever mesmo uma coisinha. Quero saudar as palavras de Saramago, na medida em que elas permitem perceber melhor a indignação dos muçulmanos perante as caricaturas de Maomé ou os “Versículos Satânicos” de Salmon Rushdie e o que significa a liberdade de expressão para muitos dos que não poupam no ataque a Saramago.
Se estes descendentes de Adão e Eva não se tivessem manifestado contra a reacção muçulmana,com a mesma ira de Caim, acusando-os de intolerantes e fundamentalistas, eu poderia compreender as suas críticas. Assim, torna-se difícil.
Pessoalmente, creio que Saramago alcançou o que pretendia: publicidade gratuita ao livro. As suas palavras ofenderam-me tanto como as de Maité Proença em relação a Portugal: NADA.

A segunda morte dos livros?


Há dias, num comentário a um post sobre a Feira do Livro de Frankfurt no ematejoca azul , sublinhava o facto de a China ser o país convidado de honra e questionava se o convite seria bem aproveitado quer pelo Ocidente, quer pelo pais de Hu Jintao , para melhor conhecimento mútuo.
Durante o fim de semana, não vi quaisquer referências na imprensa portuguesa à feira ( embora tenha de reconhecer que não fiz grande esforço, porque quase não li jornais) mas ontem, no DN, havia uma página- com chamada de capa- dedicada ao maior certame do género que anualmente se realiza na Europa.Qual o meu espanto quando constato que sobre a participação da China, eventuais discussões durante a Feira, ou novidades esperadas no mercado português sobre a riquíssima literatura chinesa, apenas havia uma linha, mencionando o facto de a China ser a convidada de honra.O resto do espaço era reservado ao lançamento da livraria “on line” pelo Google e a essa nova estrela das novas tecnologias que dá pelo nome genéico de e-book e fez a sua aparição em Portugal a semana passada, com o Kindle.
Lê-se no artigo que o e-book foi a estrela em Frankfurt e que os livreiros prevêem que dentro de 10 anos as vendas de livros digitais ultrapassarão as vendas do livro em papel. Quanto às vendas, duvido. Creio que a pirataria será idêntica à que já acontece com a música e que fazer o download de um livro se transformará, a breve prazo, num acto tão corriqueiro como abrir a torneira da água, ou ligar o interruptor da luz.
O aparecimento do e-book talvez cumpra, finalmente, a profecia de Mc Luhan, que vaticinava o desaparecimento do livro em papel. As causas é que serão diferentes, pois os receios de Mc Luhan tinham a ver com o aparecimento da televisão, que acusava de matar o gosto pela leitura. Conclusão: não fiquei a saber nada da feira de Frankfurt, mas fiquei a saber imenso sobre o Kindle. Como, por exemplo, que o aparelho custa 250€- equivalente a mais de 10 livros. Não fiquei a saber, mas adivinho, que muita gente o vai comprar, mas isso não significa que aumente o índice de leitura dos portugueses. O prazer de adquirir a última novidade, ultrapassa em muito o prazer de ler, nesta pátria lusa.
Se quiser saber mais sobre a feira de Frankfurt, tenho duas opções. Ou espero pela Ler e pelo JL , ou vou à Internet consultar a imprensa estrangeira, enquanto me rio dos que se queixam que há cada vez menos gente a comprar jornais.
Adenda: o próximo convidado de honra da Feira de Frankfurt será a Argentina. Ó p’ra mim a lamber os beiços!

Sugestão do dia

A Regra do Jogo. É o mais recente habitante da blogosfera e desejo-lhe uma vida longa.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Pronúncia do Norte (19)

BURRO= = DIVÃ ( articulado)

Nunca percebi a razão de se chamar Burro a um divã articulado, mas sei a razão desta escolha para hoje. Daqui a uns dias, vocês também vão perceber

Vamos ao circo? Ou preferem as touradas?...


Como todas as crianças gostava de circo. Gostava dos palhaços, dos trapezistas, dos malabaristas e de todo o ambiente em volta. Mas- excepção feitas aos cãezinhos- nunca gostei de ver animais a animar as tardes de férias de Natal. Impacientava-me, torcia-me na cadeira , não parava quieto. Sofria com os animais, porque imaginava os maus tratos a que deviam ter estado sujeitos para fazerem aquelas habilidades.
Um dia, alguém me disse que os leões, tigres, panteras e outros animais selvagens eram drogados antes de entrara em pista, mas nunca acreditei muito nisso. Olhava para eles como prisioneiros e escravos que foram obrigados, à força da chibata, a obedecer ao dono. Saúdo, por isso, a entrada em vigor da lei que restringe a compra e reprodução de animais circenses. Sinto, porém uma amargo de boca. A lei parece-me incompleta, porque não contempla as touradas, onde os animais são barbaramente torturados, perante o gáudio da multidão.
Eu sei que vão dizer-me que as touradas são uma tradição secular. Peço desculpa, mas não aceito essa justificação, nem que me digam que é uma arte e se trata de uma luta entre homem e touro ( com o sem cavalo de permeio) . Uma tradição não justifica a barbárie das touradas, a luta é desigual, não faz qualquer sentido e se aquilo é arte, eu manifesto-me desde já artisticamente analfabeto.
Prevejo discussões animadas sobre este assunto na caixa de comentários, pelo que deixo desde já aqui uma notícia. Em Espanha, as touradas de morte são igualmente uma tradição, mas na Catalunha ( cada vez mais europeia e menos ibérica) as touradas estão em vias de extinção. As associações de defesa dos direitos dos animais cumpriram a sua parte, mas o orgulho catalão foi determinante para acabar com o espectáculo.

domingo, 18 de outubro de 2009

(Como um) dia de Domingo*


Tenho uma má relação com as tardes de domingo. Quando era miúdo e os jogos de futebol nas Antas eram às 3 da tarde , acabava de comer à pressa a sobremesa do almoço em família para não perder o pontapé de saída e depois regressava a casa para assistir aos jogos de canasta dos adultos.
Em Lisboa, as tardes de domingo eram passadas a namorar ou estudar, mas quando fui para Inglaterra comecei a encarar os domingos como um dia diferente, cheio de animação. Começava a manhã nos pubs ou em Park Lane a ver os jogos do meu Tottenham, as tardes eram normalmente passadas a voar até Lisboa e terminavam num jantar tardio com amigos, num restaurante turco da Queensway.
Quando iniciei a minha vida de andarilho, fui descobrindo que em cada cidade por onde passava o domingo tinha a sua particularidade. Finalmente, após regressar a Portugal, o cinema ao fim da tarde, no Outono/Inverno, seguido de um jantar no Saraiva’s passou a fazer parte da ementa de domingos que nunca começavam cedo, porque na véspera a noitada tinha ido até às tantas. No Verão, estando por cá, recolho-me no Rochedo a contemplar o mar na companhia de um livro e música. Quando todos estão a regressar a casa, depois de uma banhada de sol, começa para mim o domingo. Normalmente com um jantar em local escolhido a preceito, em frente ao mar. O que se segue é sempre uma incógnita, mas raras vezes a noite acaba cedo.É óbvio que sendo uma pessoa pouco dada a rotinas, a descrição que acabo de fazer aplica-se a um domingo-padrão, mas não é religiosamente cumprida. Olhando para trás, encontro, no entanto, um fio condutor nos meus domingos. É um dia em que gosto de estar sozinho, pelo menos até à noite. (As idas ao futebol não eram em grupo e os fins de tarde numa sala de cinema são, preferencialmente, passados na exclusividade da companhia que faço a mim próprio).
Quando passo o fim de semana fora- o que felizmente faço com muita frequência- o meu maior prazer na manhã de domingo é, hoje em dia, assistir ao despertar da cidade. Gosto de deambular pelas ruas ainda quase desertas e de as ver encher-se aos poucos de gente. Depois, quando já estão suficientemente cheias, recolho-me num local sossegado a ler um livro, como qualquer coisa e depois procuro testemunhar a forma como as pessoas se entretêm nas tardes de domingo nas várias cidades do mundo. Já constatei que as diferenças não são muitas nos países ocidentais, embora na maioria dos países latinos, os domingos acabem de forma bastante mais animada do que é uso aqui em Portugal.
A prosa já vai longa e ainda não falei daquilo que motivou este post. O objectivo era apenas dizer que esta manhã resolvi armar-me em turista e desbravar Lisboa numa manhã de domingo. Já não o fazia há muito tempo e deu-me um especial prazer. Do Rato até ao Chiado e daí até ao Museu do Design (MUDE), fui caminhando lentamente, assistindo ao despertar da cidade, onde a maioria dos caminhantes eram turistas. Juntei-me a eles na contemplação do Tejo, de onde se desprendia uma leve neblina anunciando amanhãs cinzentos. Encontrei também um grupo de estudantes de um curso de fotografia, nas imediações do Príncipe Real, e vestígios de uma noite bem regada no Bairro Alto. Quando saí do MUDE e me dirigi para o elevador de Santa Justa, encontrei as esplanadas pejadas de turistas. Acabei por me sentar numa. Tomei um café, comi um muffin e li um pouco. À minha volta ouvi falar várias línguas, mas nem uma palavra de português. Viajei um pouco pelo mundo sem sair de Lisboa. Quando regressei a casa, liguei a televisão e fiquei a ver a parte final da entrevista da Helena Sacadura Cabral no “Só Visto”. Quando acabou decidi escrever este post.
Raras vezes escrevo no blog ao domingo, (normalmente agendo os posts de fim de semana à sexta-feira) mas hoje, impulsionado pelas recordações de domingos passados, decidi quebrar a regra. Agora vou regressar à leitura e depois logo se vê. Talvez toque o telefone fixo ( desligo sempre o telemóvel ao domingo) e do lado de lá alguém me diga como vai acabar este domingo que já cheira a Outono. Sim, porque os domingos que em Lisboa acabam bem, são normalmente entre Outubro e Abril.

sábado, 17 de outubro de 2009

La solitude, ça n'existe pas?


Um informático está numa ilha deserta há anos, depois de um naufrágio .Certo dia avista um ponto brilhante no horizonte e começa a segui-locom o olhar. "Não é um navio", pensa o nosso herói. E o ponto aproxima-se, aproxima-se."Não é uma barcaça".E cada vez o vulto estava mais perto!"Não é uma jangada!?!..."
E eis que das águas emerge uma Mulher, com fato de mergulho! Dirige-se a ele e pergunta:
- Há quanto tempo não fumas um cigarro?
- Há dez anos! - responde o náufrago espantado.
Ela abre um bolso interior do seu fato impermeável e dá-lhe um cigarro.
- Mas que bem que isto me está a saber! - diz ele.
- Há quanto tempo não bebes um whisky?
- Há pelo menos dez anos!!! - responde o náufrago, ainda meio atarantado.
Então ela abre outro bolso interior, tira uma garrafinha de whisky e dá-lha! O homem bebe tudo de um trago, ainda descrente com o que lhe estava a acontecer, mas muito, muito feliz! Então a Mulher começa a baixar o fecho principal do fato e pergunta-lhe:
- E há quanto tempo é que não te divertes a sério?...
Aí, o nosso homem grita, louco de felicidade:
- EPÁ!!! Tu não me digas que tens aí um portátil?!...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Parabéns ao blogobairro

Em nome da Martinha, da Brites, do Sebastião e do CBO , venho agradecer a todos os que participaram no Blog Action Day.
Presto-vos aqui uma singela, mas sentida homenagem.
Assina : O ambiente

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Martinha e o buraco de ozono

Olá, amigas e amigos do Rochedo, para aqueles que ainda não me conhecem, apresento-me aqui. Se seguirem a etiqueta Intromissões, podem ler todos os posts que já escrevi.
Volto hoje, a pedido do Carlos, para vos falar um bocadinho do ambiente.

Confesso-vos que em miúda não dava importância a essas coisas e achava que eram histórias para nos assustar até um dia em que me disseram que os sprays iam ser proibidos por causa de um senhor chamado Ozono que eu não conhecia de lado nenhum , mas que vi logo que só podia ser americano, porque só os americanos é que têm poder para dar ordens ao mundo.
Vocês imaginam como sofri só de pensar que ia deixar de gozar todas as manhãs o prazer de sentir as cócegas provocadas pelo desodorizante spray? E tudo por causa de um tal de Ozono que deve ser amigo do Bush?
Fiquei furiosa e pus-me a pesquisar sobre esse tal de Ozono, para lhe enviar um mail a protestar, mas nunca consegui encontrar o endereço dele. Só fiquei a saber que o problema dele era estar a alargar um buraco qualquer que, segundo percebi, devem ser as narinas, porque um dia, quando passei numa celulose perto de Aveiro, que cheirava muito mal, o Carlos disse-me “Isto é horrível para o buraco de ozono” . Bem, não sei se foi assim que ele disse, mas foi mais ou menos eu fiquei ainda mais furiosa e perguntei-lhe mas porque é que eles não fecham essa porcaria em vez de proibirem os sprays que tanta falta me fazem? O Carlos olhou para mim com aquela cara de zangado que vocês nunca viram mas eu sei como é e só não me chamou estúpida porque a minha mãe ia connosco. Mas eu é que não me fiquei e quando cheguei a casa fui fazer mais pesquisas e descobri esta notícia do meu país que me deixou preocupada:
“Milhões de chineses ficaram bloqueados com sucessivas e violentas tempestades de neve que cortaram estradas e linhas férreas em mais de metade do país. No princípio da semana havia 1,8 milhões de desabrigados, bloqueados em estações de comboio, como em Guanzhou, quando queriam voltar às suas terras para celebrar o Ano Novo Lunar chinês. O caos provocado pelo pior Inverno dos últimos 50 anos causou pelo menos 60 mortos e prejuízos de 5 mil milhões de euros;232 mil imóveis foram derrubados pelos peso da neve e 862 mil ficaram danificados. Para manter a ordem, Pequim destacou 306 mil soldados, um milhão de milicianos e 65 mil médicos”.

Apesar de já ter vindo para Portugal há muitos anos, as notícias do meu país ainda me deixam muito preocupada, por isso falei com o Carlos que me voltou a falar do tal de ozono. Foi então que lhe perguntei quem era esse gajo e o Carlos, desta vez, cheio de paciência, explicou-me tudo muito direitinho. Foi então que percebi que o Ozono não era um homem , mas uma espécie de protector da atmosfera que impede que os raios de sol nos queimem a pele quando vamos à praia. Desde esse dia comecei a pedir ao ozono, que passei a tratar por senhor embora não seja um homem , nem amigo do Bush , até parece que não gosta nada dele, para me proteger dos raios ultravioletas, para eu continuar a poder ir à praia.
Também foi a partir desse dia que comecei a querer saber tudo sobre quem andava a tratar mal o sr Ozono e que era responsável pela desgraça que ia na minha querida Pátria que é a China. Aprendi muita coisa, fiquei a saber que também nos Estados Unidos, na Índia e até na Europa, ( e se calhar em Portugal, mas não li nada sobre isso) toda a gente o trata mal. Só fico um bocadinho mais descansada, por viver em Portugal, porque parece que por aqui toda a gente trata bem o sr. Ozono, a única excepção são aqueles senhores da celulose lá de Aveiro.
O Carlos falou-me também de uns PIN que estavam a destruir o ambiente mas eu a princípio julguei que ele tivesse comido cogumelos mágicos, como é que os PIN iam sair dos chips dos cartões multibanco para fazer mal ao sr. Ozono alguém me explica? Só quando fui investigar é que percebi que os PIN afinal eram uns negócios de Interesse Nacional que este governo criou para salvar a economia, não sei se salvam, mas fiquei a saber que tratam mal o sr. Ozono e fiquei chateada, mas não posso fazer nada, por isso prontos, só espero que não façam um PIN em frente à minha janela e me tirem a minha vista do quarto para o rio Trancão que dantes cheirava sempre muito mal, mas agora tem dias em que anda mais lavadinho e fica logo com outras cores.
O meu medo é que um dia o sr.Ozono se zangue de vez e enterre a Humanidade nos escombros do seu progresso assente na desigualdade, no livre arbítrio, na indiferença e nessa tremenda vaidade de querer ter sempre mais e melhor ( ai, nem sei como consegui escrever esta frase tão bonita, deve ser dos livros que ando a ler sobre ambiente, mas adiante…).
Pronto, isto tudo para vos dizer que foi graças à proibição dos sprays que eu me comecei a interessar pelo ambiente e agora sou uma pessoa muito consciente.Diz o Carlos que me tornei uma cidadã, mas na verdade eu continuo a viver na província e acho que quando ele diz isso está a gozar comigo, mas prontos, finjo que fico muito contente. Só quero é que não aconteçam mais desgraças no mundo e na China e por isso venho pedir-vos para tratarem o sr. Ozono muito bem. Prometem?

Pronto, agora vou ter de me ir embora, porque continuo a enviar currículos para tudo o que é sítio, a ver se arranjo um emprego, mas isto não está fácil. A princípio ainda pensei que fosse por causa das pessoas que andam a tratar mal o Ozono, mas o Carlos disse-me que era de uma coisa qualquer que se chama recessão, que não sei o que é, mas sei que os senhor Primeiro Ministro não gosta que se fale disso. Pronto, eu faço-lhe vontade, não há crise! Que seja tudo a bem do sr. Ozono e de um emprego que preciso muito, porque já estou farta de trabalhar na loja de produtos chineses da minha mãe que fica lá na Lapa e um dia destes ainda vai ter de fechar, porque os portugueses não gostam de lojas de chineses, e só fazem fila todos os dias à porta da loja da minha mãe, por causa da crise.
Ah, é verdade! O Sebastião e a Brites, que davam um bom almoço lá em casa, se não fosse o Carlos estar sempre a protegê-los, já não voltam aqui hoje. Assim que me viram chegar piraram-se para longe, com medo de acabarem no tacho. Lá vou eu ter de ir ali comprar uns jaquinzinhos para o jantar. Dizem que é proibido, mas eu não acredito. Se é proibido comer, porque é que deixam pescá-los? Adeus , interessem-se por alguma coisa e cuidem do ambiente. Sejam conscientes como eu.
Beijinhos e abraços
Martinha
(Olha, deixei cair um saco de plástico no chão. Prontos, agora fica ali que me doem as costas que é um horror, quando chegar ao super peço outro).


Brites e as boas maneiras

Se o Sebastião fosse um mocho de boas maneiras, eu teria postado antes dele, mas ele não conhece essas regras dos homens e comportou-se como um bicho. Não faz mal, fica registado e na volta lá terá a paga. Mas vamos ao que interessa. Como responsável pelo economato cá do Rochedo, cabe-me dar-vos alguns conselhos. Aqui vão:
- Em casa, mantenha portas e janelas bem isoladas para evitar perda de calor e economizar energia;
- Ao comprar electrodomésticos, como frigoríficos ou máquinas de lavar, certifique-se do seu consumo de energia. Leia o rótulo energético e faça uma escolha amiga do ambiente;
- Tire o melhor partido dos electrodomésticos, fazendo uma boa utilização que lhe permita poupar energia;
- Separe os lixos e cumpra a regra dos 3 R: Reduza, Reutilize e Recicle;
- Quando conduz, evite acelerações desnecessárias, para poupar combustível;
- Mantenha os pneus com a pressão correcta, pois além de evitar o seu desgaste prematuro, poupa gasolina;
- No seu dia a dia não compre, nem consuma, peixes com tamanhos abaixo dos permitidos por lei;
- Não compre peças de vestuário fabricadas com peles de animais. Se o fizer, está a contribuir para a extinção de espécies ameaçadas;
- Não compre rochas nem corais, pois ao fazê-lo está a contribuir para a destruição dos recifes.
Voltarei mais logo, com outras dicas. Por agora, sugiro-vos uma visita à casa do lado, onde este dia também está a ser assinalado.

As perguntas do Sebastião

Vocês sabiam que:

- Uma rede de nylon perdida no mar pode levar mais de 600 anos a degradar-se?
- Milhares de animais marinhos morrem sufocados nestas redes?
- Uma “beata” atirada ao mar demora dois anos a degradar-se, um copo de plástico 50 anos e uma lata de alumínio, nunca se chega a degradar completamente?
- Todos os anos cerca de 40 milhões de toneladas de peixe são deitadas ao mar , por não terem interesse comercial?
- Cerca de 40% da água consumida em Portugal ( 1400 milhões de metros cúbicos) é desperdiçada devido à falta de eficiência das redes de distribuição?
- A água é um recurso ameaçado de extinção dentro de algumas décadas, caso não sejam tomadas medidas para racionalizar o seu uso e evitar desperdícios?
- Existe um bilião de pessoas sem acesso a água potável e dois biliões sem saneamento básico?
- A falta de acesso à água tem sido causa de várias guerras e constitui um dos factores determinantes no crescimento da pobreza?
Informação adicional: No final da manhã passará por cá a Brites, para dar alguns conselhos. Eu volto mais tarde

À guisa de introdução

Hoje é o Blog Action Day. Como avisara, o tema de hoje no Rochedo será o Ambiente. Por aqui passarão, ao longo do dia, o Sebastião, a Brites, eu próprio e talvez a Martinha ( Lembram-se dela?)

Para começo de conversa, sugiro-vos a leitura deste post. escrito em Outubro de 2007.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

E o estúpido sou eu?

Vasco Graça Moura chamou-me estúpido. Devo dizer que nunca dei importância às opiniões de intelectuais de sarjeta como VGM. Considero-o um imbecil. Aquele ar de superioridade de quem olha para os portugueses como pobres coitados irrita-me e nunca me dou ao trabalho de ler as suas imprestáveis crónicas. Este post da Teresa Ribeiro obrigou-me a abrir uma excepção. A meio da leitura da crónica já estava quase a vomitar em cima do computador. Com certos intelectuais acontece-me isto. Da próxima vez lerei a crónica ao pé dele. Talvez o meu vomitado ajude a lubrificar-lhe os neurónios, já que piorar o cheiro que VGM exala parece-me impossível.

Preso no emaranhado das palavras


Como jornalista, fui sempre escravo das palavras. Ou melhor: escravo dos espaços por elas ocupados. Muitas vezes me amputaram textos, porque não cabiam no espaço das publicações. Foram prosas mutiladas. Não pela ditadura censória, mas pela regra espartana do espaço. Por vezes revoltei-me, porque o corte amputava os textos da sua faceta sensitiva, tornando a reportagem demasiado fria e assertiva; outras vezes anuí com indiferença e sem qualquer reparo. Nestes casos os textos eram geralmente apenas noticiosos . Quando um editor acredita que cortar um pequeno (ou grande) detalhe na notícia não tem qualquer importância, para quê contrariá-lo?
Como editor , passei a ser algoz em vez de vítima. Também obriguei autores a cortarem os seus textos, tornei-me intransigente no domínio do espaço de uma publicação. Por vezes custava-me fazê-lo, porque sabia que estava a obrigar os autores a mutilar o seu trabalho apenas por uma questão de espaço. Outras vezes fi-lo por dever profissional. Ou porque os textos eram tão minuciosamente explicativos, que se tornavam enfadonhos; ou porque o autor fazia introduções demasiado longas; ou simplesmente porque eram demasiado grandes para as características da publicação. Nestes casos, procurei sempre explicar ao autor que o excesso de adjectivação, as descrições demasiado elaboradas, as introduções disperrsivas, não cabem no espaço de uma publicação periódica e, quando se trata de livros, podem contribuir para o desinteresse do leitor. Normalmente, recorro ao “Pêndulo de Foucault” e à minha experiência pessoal com aquele livro. É, em minha opinião, o melhor livro de Umberto Eco, mas só consegui lê-lo à enésima tentativa, depois de ultrapassar a barreira das entediantes primeiras 60 ou 70 páginas. Uns ficam convencidos perante a minha argumentação, outros nem por isso. Mas já deu para perceber que não foram muitos os que leram o “Pêndulo”.
O único conselho que prometera nunca dar a ninguém, porque também não aceito que me dêem, é que deve escrever textos mais curtos, senão ninguém lê. Ouvir isso é insuportável . Dizê-lo é falta de senso. Um dia destes dei por mim a aconselhar alguém a escrever textos curtos, porque senão as pessoas não lêem. Devo caminhar a passos largos para a senilidade...
Todo este arrazoado para vos dizer que uma das coisas que me delicia na blogosfera é a liberdade de poder escrever sem preocupações de espaço. Sei que textos muito longos podem ser desmotivadores para quem me visita, mas também sei que se alguns desistem de ler um determinado post, muito provavelmente voltarão no dia seguinte para ler outro, porque são leitores fiéis. No caso de se tratar de um leitor que visita o Rochedo pela primeira vez, um post longo pode desmotivá-lo, mas logo a seguir encontra outros posts mais curtos e incisivos, dos quais pode gostar e o levam a tornar-se um leitor fiel. A inversa ( gostar mais de posts longos) também é verdadeira, por isso os blogs têm essa inegável vantagem de poder agradar ( ou desagradar) a uma vasta audiência, criando um equilíbrio e oferecendo diversas opções aos leitores. É mais ou menos o que acontece com os livros de contos. Uns agradam a um tipo de leitores, outros serão mais apreciados por um público diferente. Há, porém, possibilidade de captar a atenção de mais leitores. O mesmo acontece com um cronista. Até Lobo Antunes- que muito aprecio- tem crónicas menos boas, mas não é por isso que deixo de ler todas as quinzenas as suas crónicas da Visão.
Os blogs não escapam a estas regras. Tenho a certeza que muitos leitores que diariamente me visitam saem por vezes daqui com alguma frustração a pensar “hoje só fui lá perder tempo” ou “ que grande seca de post”. Provavelmente, alguns pensarão isso deste que acabaram de ler.
Sei que não é possível agradar a todos, mas esse também não é o objectivo primeiro de um blog. Pelo menos para mim, o objectivo é escrever sobre o que me dá na real gana, exprimir através das palavras o que me vai na alma. Se conseguir “agarrar” as pessoas, tanto melhor. Caso contrário tenho pena, mas creio que não devo coibir-me de escrever sobre o que me apetece, com medo de desagradar a alguns leitores, porque este é o meu espaço de liberdade total . Essa preocupação fica para os jornais e revistas onde trabalho. O blog é apenas prazer em esatdo puro. Espero que compreendam.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Súplica às mulheres do meu país


Explicai-me, POR FAVOR!!!!!, porque é que a maioria das mulheres que utiliza transportes públicos guarda o passe dentro da mala e na altura de passar as barreiras inicia um bailado circular, volteando a mala no identificador, até conseguir fazer coincidir o chip do passe com o olho mágico que lhe autoriza a passagem?
Porque é que em vez de trazerem os passes na mão como qualquer representante do sexo masculino, nos fazem perder tempo desnecessário? Será uma forma subliminar de marcarem o vosso direito à diferença, ou apenas um pretexto para nos chatearem?

Uma cidade enjeitada


Como todos já saberão, nasci no Porto. Já aqui expliquei a razão porque deixei a cidade e a relação de distanciamento que com ela mantive durante décadas. Na altura de regressar a Portugal, ponderei a hipótese de ir para o Porto, mas nessa altura o Porto não me quis. Não tinha trabalho para mim. Esta segunda rejeição da minha cidade, deixou-me algumas marcas e percebi que afinal a amava mais do que supunha.
Já alguém me disse que a minha relação com o Porto é semelhante à daqueles homens que amam uma mulher, mas um dia trocam-na por outra que, seja qual for a razão, os seduziu. Passado uns tempos querem voltar e, ao serem rejeitados, ficam completamente apanhados e nunca mais a esquecem.
Discordo.
Nunca rejeitei o Porto. Apenas percebi que a cidade se comportava, pelo menos em relação a mim, como aquelas mulheres muito ciumentas que querem que o namorado lhes dê tudo, mas não são capazes de dar nada em troca e, ainda por cima, passam a vida a acusá-lo de traição. O Porto não me deu nada na minha juventude. Era uma cidade demasiado cruel para um jovem que queria Liberdade. Consumia-me a vida em mexericos, padecia de um bairrismo insuportável, mas tinha uma incompreensível falta de ambição. Faltava-lhe mundo, enquistava-se em volta das suas tradições e queria moldar os jovens aos seus padrões de vida- que eu detestava.
Por isso parti.
Primeiro para Lisboa- que amei desmesuradamente- e depois para o mundo. Mas, enquanto andei por fora, pensava mais vezes no Porto do que em Lisboa. Talvez porque a minha relação com o Porto tenha deixado de ser de dependência, para passar a ser mais crítica e distanciada. Por outro lado, Lisboa era uma cidade que eu tinha descoberto, amado e possuído e não tinha segredos para mim.
Este post não tem nada a ver com política mas, enquanto escrevia, fui assaltado por esta ideia. Elisa Ferreira não perdeu as eleições, apenas por ter cometido diversos erros de palmatória imperdoáveis, como ter-se candidatado a Presidente da Cãmara do Porto, deixando ficar um pé em Bruxelas. Perdeu-as por ter mundo, amar o Porto e querer o melhor para a cidade. Não soube transmitir a sua ideia, comportou-se como uma provinciana e perdeu.
Rui Rio não gosta do Porto, mas soube adaptar-se às suas características. Não a hostilizou, finge-se fiel, mas trai-a com frequência. Como Rui Rio é sabidola, o Porto ainda não percebeu que está a ser traído. O progresso que Rui Rio lhe dá é artificial. Corridas de aviões e automóveis, mas zero de cultura. Um desprezo imenso pelo património da cidade e pela sua história, mas valorização do pedantismo dos novos ricos. Rui Rio fez ao Porto uma operação plástica cujo inêxito disfarçou com o recurso à cosmética, mas a seu tempo ficarão visíveis os sulcos provocados pelas rugas e cicatrizes.
Afinal, talvez o Porto não tenha mudado tanto, como eu às vezes penso. Apenas está mais bonito e cosmopolita. Em parte, graças a um grande autarca que vive na outra margem, chamado Luís Filipe Meneses.

Sugestão do dia

No próximo dia 15 de Outubro assinala-se o BlogAction Day. Como acontece todos os anos, as Crónicas do Rochedo associam-se a este evento blogosférico que tem por objectivo alertar a comunidade blogueira para as questões ambientais.
Proponho a todos os vizinhos do blogobairro e a todos os leitores/as que visitam o CR que nesse dia se associem à data, escrevendo um post alusivo ao tema. A Natureza merece que nos lembremos dela e façamos um esforço para a preservar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Eu já tinha avisado...

Já aqui escrevi várias vezes que ela é uma grande jornalista. Aqui está mais uma prova.

Olhá castanha fresquinha!

São três horas da tarde em Lisboa e a temperatura está acima dos 30 graus. No Saldanha, esta senhora continua teimosamente a querer vender castanhas. Perguntei-lhe como ia o negócio. “Vai mal, meu rico senhor, não vê que nunca mais vem o frio?”
“Pois é, dantes as castanhas chegavam depois do frio, mas agora é ao contrário! Já não há Outono como antigamente”
“Diz qu’ é do clima. Eu cá não, sei, é o que ouço p’raí dezer!”
“Um dia destes ainda tem de voltar aos gelados”
"P’ra quê? Quem é que come gelados no Inverno? Só se forem as madamas, mas essas não vêm p´ráqui comê-los, vão p’rás pastelarias. Aqui só compram castanhas. São elas e a canalha, mas com este calor nem a canalha as quer.
Vim-me embora a pensar que a senhora está a precisar de um patrocínio como este.

Oeiras é uma lição

Nos concelhos rurais e “pouco instruídos” de Marco de Canavezes e Felgueiras, o povo disse claramente que não queria a gerir as autarquias pessoas já condenadas pela Justiça.
No concelho “modelo” de Oeiras, onde há o maior número de licenciados e doutorados “per capita” em todo o país, os eleitores quiseram reconduzir Isaltino Morais, um autarca condenado com pena pesada em primeira instância. Com tão instruídos eleitores a fazer uma opção tão clara, há quem garanta que Portugal tem o futuro garantido.
Pessoalmente, penso que o caso de Oeiras é a prova do falhanço do sistema de ensino em Portugal.

domingo, 11 de outubro de 2009

Enigmas de domingo

Portugal comeu os
e a Argentina engasgou-se com o


mas lá conseguiu comê-lo.
Agora Portugal e Argentina andam de ..... na mão para ver se chegam à África do Sul. Tinha sido melhor comprarem umas .....
(Preencher os espaços em branco, para completar o enigma)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Crónicas de Graça # 1

O DOURO
Perto de Mesão Frio, olho o Douro desde a varanda de um dos muitos hotéis de charme que ladeiam as suas margens. Deixo-me envolver pela beleza ora romântica, ora agreste, da paisagem envolvente. Aqui o rio segue lento, descrevendo curvas largas, entre margens elevadas, onde se pode ver a azáfama das vindimas. As cores acobreadas do Outono emprestam uma beleza ímpar à paisagem, que não tem cotejo semelhante em nenhuma das outras estações do ano.
Vêm oferecer-me um Porto. Acompanhado de umas uvas rosadas criadas naquelas margens. Lembro-me de D. Antónia, a arrojada empresária que no século XIX introduziu profundas inovações no cultivo do vinho do Porto. Indiferente às críticas dos ingleses e ao desprezo da Coroa que, em Lisboa, apenas se preocupava com os impostos que poderia arrecadar, D. Antónia expandiu o negócio com o recurso a novas técnicas de cultivo. Como a Coroa abrilhantava as suas festas com vinhos espanhóis, desprezando o vinho do Douro, vendeu-o aos sabidos e emproados ingleses que o erigiram a néctar de príncipes em muito bem frequentados círculos da nobreza.
Bebo mais um gole. Espraio a vista para poente e deixo-me levar pelas águas do Douro. Atravesso barragens, faço o rewind de episódios da sua e da minha história, fixo alguns instantâneos ao longo do percurso até ao cais de Gaia, onde ele se espreguiça num amplexo ao casario da Ribeira e lança um aceno ao Palácio e Cristal e ao Museu do Vinho do Porto antes de, decidido, mergulhar na águas do Atlântico, junto à Foz. Neste seu trecho final, que Carlos Tê fixou em poema e Rui Veloso imortalizou na canção “Porto Sentido”, o Douro encerra boa parte da sua História. É o Douro de exportação. Não por ser do cais de Gaia, que partiam os barcos carregados de vinho para terras de Sua Majestade. Antes, por ser este trecho do Douro, “Da Ribeira até à Foz”, o mais retratado por pintores, filmado na sua faina por Manoel de Oliveira, ninho de histórias de amor transpostas em livro, cenário do episódio trágico da Ponte das Barcas, ou palco de enredos de mistério, tragédias, segredos e traições, que o americano Richard Zimmler verteu para um dos seus mais belos livros, traduzido em várias línguas: “Meia-Noite ou o Princípio do Mundo”.
No último fim de semana, quando o Palácio do Freixo renasceu transformado na mais recente Pousada de Portugal, os hóspedes que a encheram terão tido oportunidade de observar o encanto do Douro e de lembrar alguns destes episódios, apreciar algumas imagens fixadas pelas câmaras de fotógrafos - poetas ou pelo pincel de artistas como Júlio Resende. Mas este trecho do Douro de exportação, cantado por poetas e levado além fronteiras como bilhete postal para atracção de turistas, encerra apenas uma ínfima parte da sua História e beleza. Quem fizer a viagem de barco desde a Foz até à fronteira espanhola, terá muitas razões para, terminada a viagem, sair do barco com o estupor estampado nas faces. Porquê?

Porque um bom guia não se terá limitado a chamar repetidas vezes a atenção do viajante para a beleza do percurso entre a Régua e o Pinhão, ou dali a Barca d’Alva, onde a paisagem se torna mais agreste e majestática e o atravessar das barragens lhe confere uma pitada de nobreza e esplendor. Não se terá sentido satisfeito perante o êxtase rendido dos turistas, de câmaras apontadas para fixar o serpenteado irrequieto entre vinhedos, descendo em socalco até às margens. Um bom guia terá aproveitado para chamar a atenção do viajante para o local onde D. Antónia viu desaparecer, sugado pelas águas, o seu extremoso amigo Barão de Forrester. Terá assinalado os locais que foram palco de batalhas durante a Guerra Peninsular- que haveria de ter repercussões de enorme relevância no redesenhar do mapa político da América do Sul- e as Guerras Liberais – que determinaram a derrota dos absolutistas de D. Miguel- e terá realçado, ao longo da viagem, os 10 locais da bacia do Douro classificados pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade. Depois de confrontar o viajante com o significado histórico do Douro, para a construção do Portugal do século XXI, o guia ter-lhe-á despertado a vontade de ficar hospedado, duas ou três noites, num dos hotéis de charme que bordejam o Douro e de o descobrir, através das suas margens, num passeio de automóvel que o levará a conhecer algumas das Quintas onde se produzem os magníficos vinhos desta região. Vinhos cuja categoria é muitas vezes desdenhada, mas isso não é novidade para estas gentes bem lembradas do desprezo com que a Coroa tratava o vinho do Porto e todos os que diariamente labutavam na melhoria da sua qualidade. As gentes do Douro habituaram-se a ser vistas pelo poder de Lisboa como pacóvios de ideias tontas, mergulhados na ruralidade, alheados dos progressos do mundo. É assim desde os tempos da Coroa. Calejadas de tanta indiferença, as gentes do Douro vêem, orgulhosas, o seu rio tornar-se , em 2009, palco de um Festival Internacional de Cinema que, nesta sua primeira edição, trouxe à região alguns grandes nomes da 7ª Arte. Mais um cartaz internacional de promoção do Douro.
Acabo de beber o cálice de Porto. Olho para nascente. Imagino-me na varanda de um quarto da pousada de Stª Catarina em Miranda do Douro. Lá em baixo vejo o Douro a sair de Espanha. Ainda minúsculo, mas já rebelde, cavando fundo o seu leito, entre margens encrespadas. É aqui, ao entrar em Portugal, que o Douro começa a moldar o seu carácter. E o das nobres gentes que comungam diariamente com ele, na sua faina diária.
Haverá em Portugal, algum outro rio com a importância e a beleza do Douro?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Revelação

Finalmente, em antecipação, revelo o primeiro episódio da novela que vai agitar o blogobairro. E não cobro nada, é mesmo de graça. Ouçam esta canção, porque é nela que está a chave do enigma. Mais explícito não posso ser. Se não conseguiram adivinhar, terão de esperar que passe um minuto da meia-noite, hora a que será publicado o primeiro capítulo de uma saga que vai dissecar o país. Começámos com um tema soft, mas a coisa vai esquentar já no segundo capítulo. Preparem os blogocomandos e, à meia-noite e 1 minuto, satisfaçam a vossa curiosidade. Esperamos que gostem. De qualquer modo, como são de Graça, não devolvemos o dinheiro das Crónicas.

Noticiário das 16 horas

A senhora PresidentA anda a aguçar o dente, porque pensa que vou publicar aqui umas fotos sujeitas a coimas. Desiluda-se, PresidentA! Isto é assunto mesmo sério, como pode(m) ver aqui... Aconselho que vejam, mas espero que as vozes dos actores que amanhã aqui estarão não sejam tão dissonantes como as do video. Ah, é verdade! Também vai haver a imagem de uma Senhora, mas apresentar-se-á em bom recato. FINALMENTE... a chave do primeiro capítulo da novela que amnhã se inicia neste blogobairro,será aqui divulgada às 20 horas. Se forem perspicazes, a dica será suficiente para perceberem do que se trata.

Amanhã...

É altura de começar a desvendar um pouco do mistério de amanhã. Hoje , em 3 capítulos, começarei a desvendar o que se vai passar amanhã no blogobairro. Como podem ver aqui, vai haver emoção, suspense e acção

Mais revelações às quatro da tarde.

Tirem-me daqui!

Não posso deixar de me interrogar sobre a sociedade onde vivo, quando leio a notícia do suicídio de 24 trabalhadores da France Telecom que, alegadamente, não aguentaram a pressão a que o seu posto de trabalho os sujeitava.
É este o resultado da maravilhosa globalização, assente na economia de mercado, que nos prometeram com tanto entusiasmo? Então não é nesta sociedade que quero viver. Já vi este filme na última década do século XX noutras paragens. Como se atrevem a chamar a isto liberdade?

Sugestão do dia

Em Banho Maria

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Só faltam 2 dias

Sentem-se confortavelmente. Costas direitas, neurónios alerta. Preparem os blogocomandos para fazer "zapping".

Autumn Leaves

Aviso prévio: este post é uma prova de resistência. E de paciência.


Estes dias plúmbeos em que o Céu, como que alijando as suas responsabilidades, deposita sobre as nuvens o peso de todas as agruras do mundo, obrigando-as a derramar sobre a Terra as lágrimas de desconforto provocadas por tantas injustiças, catástrofes humanas e naturais, deixam-me macambúzio.
Sempre que posso procuro o mar, na tentativa de aproveitar a circunstância da praia deserta para dialogar com ele. Invariavelmente pergunto-lhe:
-Ó Mar! Tu que estás constantemente em diálogo com o Céu, numa linha do horizonte que nós, humanos, não conseguimos alcançar, já alguma vez lhe perguntaste a razão de ter posto cá na Terra seres humanos tão ignóbeis e hipócritas, prenhes de maldade, que enchem a boca com conselhos que não cumprem? Porque falam os homens de igualdade, justiça ou paz, mas os seus actos são sempre contrários àquilo que apregoam?
O mar traz-me a resposta na espuma de uma onda que se espreguiça no areal. É uma resposta cifrada que nunca consigo traduzir. Volto um e outro dia até que, desalentado, vazio de esperança, decido rumar a Sul ao encontro do Céu azul e do calor das gentes da América Latina. Lá já não procuro o Mar. Refugio-me na calma dos parques naturais da Patagónia ainda por descobrir, onde a avidez do Homem ainda não matou o sonho.
Ontem, a minha agenda não me permitiu ir falar com o mar. Trabalho pela manhã e, à tarde, acompanhamento de um familiar a uma consulta. Como já conheço o médico, sei que a consulta marcada para as quatro da tarde não se realizará antes das sete. Decidi, por isso, comprar um livro para me entreter enquanto esperava. Entrementes, pensei que deveria pedir ao médico que descontasse na consulta o preço do livro, mas desisti porque seria falta de educação afrontar o senhor doutor na sua catedral onde exerce medicina privada, zombando dos seus pacientes, a quem sujeita à obrigatoriedade de expiarem os seus pecados na dura prova da paciência purificadora. Com um médico do SNS que se atrase meia hora na consulta, todos podem protestar, mas com um senhor doutor professor e o raio que o parta, que cobra 100 euros por cada consulta (sem direito a recibo), ninguém pode protestar, porque seria uma falta de educação que Sua Sumidade não toleraria.
Não sei se já vos disse como odeio consultórios médicos. A maioria deles não tem luz directa, são tão sombrios como a antecâmara da morte, com a diferença de existir sempre um televisor sem som,cuja utilidade nunca descortinei, salvo quando estão a transmitir um combate de boxe ou outra qualquer actividade desportiva que não precisa de legendas. Só que a maioria dos médicos não paga a Sport TV, por isso as imagens que saem do televisor de um consultório são tão inúteis e inexpressivas como os programas da SIC durante a tarde. Na verdade, aquilo não precisa de som. Adivinha-se que entre sorrisos e lágrimas, desfila pela pantalha a descrição do lado mais sombrio da vida dos portugueses. Há queixas e lamúrias, campanhas de solidariedade ou exaltação do voluntariado, acopladas a cenários de desgraça que numa sociedade que se pretende justa não deveriam existir. (Ontem, percebi quando cheguei a casa, era dia de festa em Carnaxide).
De qualquer modo, talvez seja preferível ver um daqueles programas, a ter de suportar o canal da Assembleia da República em dia de sessão plenária, como me aconteceu um dia em que uma forte dor de dentes me atirou para o consultório de um dentista.
A dor era tão forte que não conseguia concentrar-me na leitura de um livro e, folhear uma dessas revistas da imprensa cor de rosa que enxameiam qualquer consultório médico que se preze onde, com sorte, podemos encontrar uma edição com três meses de atraso, não é actividade que se recomende. Entretive-me, por isso, a tentar decifrar o que os deputados e o primeiro-ministro diziam. Em vão. O que não me causou qualquer embaraço, pois muitas vezes também não consigo perceber o que dizem, mesmo com o som ligado. A verdade, porém, é que naquele esforço consegui distrair-me e aliviar a dor. Quando me chamaram para a consulta já nem sabia ao certo identificar o dente que me doía e a custo cedi à tentação de dizer à zelosa e curvilínea funcionária, que afinal já não precisava da consulta, porque a dor tinha passado. Limitei-me a sugerir à dentista que acabara de fazer uma descoberta sensacional: a AR TV é um excelente analgésico. Pelo menos para as dores de dentes.
Bem, mas voltemos ao consultório onde ontem passei a tarde. Já as sete da tarde se tinham esfumado há um bom pedaço, quando a empregada, mais carcomida do que a madeira da mesa onde repousavam as revistas, anunciou com voz de enfado, ser a nossa vez. Meia hora e 100 euros depois estávamos na rua.


A noite já caíra sobre a cidade, disfarçando o céu plúmbeo. Filas de carros conduziam de regresso a casa, em marcha lenta, milhares de almas no fim de mais um dia de trabalho. Muitos deles passaram o dia enjaulados, como eu, mas em escritórios assépticos, privados da luz do dia. Alguns regressam com a sensação de alívio de quem justificou o seu vencimento. Outros, ansiando pelo dia seguinte, porque quanto mais tarde saírem do escritório, menos tempo são obrigados a viver no ambiente familiar que já não suportam.
O senhor do Audi vai com o ar satisfeito de quem enganou alguém num negócio. A senhora do Fiat Uno leva, no banco traseiro, o fruto de uma noite de amor, preso a uma cadeirinha. O jovem do Opel Corsa vai a falar ao telemóvel . Pelo ar entusiasmado, deve estar a combinar uma patuscada com amigos. As jovens do Clio vão em conversa animada. Irão a contar as aventuras do fim de semana? No semáforo, pára ao nosso lado um Renault Laguna. Lá dentro, um casal na casa dos quarenta. Nos minutos em que estão parados não trocam uma palavra. Cada um vai mergulhado nos seus pensamentos. Que provavelmente nunca se cruzarão.
Eu vou num táxi. Disfarço a preocupação com as notícias do médico. Uma intervenção cirúrgica nunca se encara de ânimo leve. Pego no livro que não li. Releio o título e respiro fundo: “ A Sombra do que Fomos”. Decido escrever um post sobre o primeiro livro que li deste autor, quando chegar a casa. Gosto do velhos que lêem romances de amor. E gosto do Luís.
(…….)
Terminei o post. Não escrevi sobre aquilo que pretendia. Não cumpri os objectivos. Como muitos dos que ontem passaram por mim, ao fim do dia, e no final do ano serão avaliados. Eu tenho a sorte de não ter de me preocupar com isso. São os leitores que me irão avaliar. Na caixa de comentários e no sitemeter. O post sobre o Luís Sepúlveda pode esperar. Vocês importam-se?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sugestão do dia

Crónicas do Rochedo

Hoje decidi aconselhar-me a mim próprio, mas a responsabilidade é vossa. É que descobri, no sitemeter, que o Rochedo atingiu, na segunda-feira,

100 mil visitantes

O número real será superior, pois os contadores de visitas apenas estiveram activos durante pouco mais de 22 meses. A todos MUITO OBRIGADO por me darem o privilégio de visitar este Rochedo. Sem o vosso apoio e paciência, certamente já teria desistido. Bem hajam!

Faltam só 3 dias

Para que as sextas -feiras deixem de ser desejadas apenas pelo prenúncio do fim de semana.
A partir 9 de Outubro, as sextas-feiras ( pelo enos algumas) passarão a ser diferentes no blogobairro. Contamos com a participação dos condóminos. Eu escrevi " contamos"... é uma dica para estimular a vossa imaginação.
Amanhã, novas revelações sobre as sextas dos Blogobairro

O lado B da gripe A

A Direcção Geral de Saúde admite que a Gripe A vai melhorar os hábitos de higiene dos portugueses. Só acredito quando os transportes públicos cheirarem menos a sovaco, mas fico desde já a desejar que apareça por aí uma pandemia qualquer que torne os portugueses mais civilizados. Entretanto, há males que vêm por bem…

Sugestão do dia

Miluzinha-Blog

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Tango Património da Humanidade

Na Plaza Dorrego ( San Telmo) todos os domingos se dança o tango

O Tango foi reconhecido, pela UNESCO, Património Imaterial da Humanidade. Não sei se fique contente, se triste, com a notícia. Apesar de o "Imaterial" não lhe retirar a volúpia e sedução que confere ao tango aquela magia ímpar, receio que este reconhecimento universal lhe possa conferir um estatuto aristocrático que nada tem a ver com as suas origens. Tal como o Fado, também o tango tem, nas suas raízes, uma boa parte da sua riqueza. Talvez percebam melhor o que quero dizer, se lerem esta pequena sinopse sobre a chegada do tango a Portugal,que escrevi em tempos para fins académicos. Hoje, decidi tirar-lhe as amarras e dar a conhecer aos leitores do Rochedo um pequeno extracto.


O Tango em Portugal


A história do tango em Portugal faz-se por ciclos, cada um deles marcado por diferentes influências. O primeiro remonta à segunda década do século passado, quando vários emigrantes argentinos desembarcam em Paris levando consigo o tango, como símbolo da sua Pátria. A melodia e a sensualidade da dança fazem furor na capital francesa, que então dita a moda na Europa, razão porque rapidamente se espalha pelo velho continente e chega a Portugal, no meio de enorme celeuma. A Igreja é a primeira a dar o mote, apelidando o tango de “dança do demónio”. A alta sociedade acata respeitosamente o aviso dos clérigos e o tango circunscreve-se a pequenos redutos populacionais, constituído por pessoas de baixa condição social.


A entrada do tango nas danças de salão em Portugal far-se-á apenas no final dos anos 20 e durante os anos 30, por força da voz de um uruguaio radicado na Argentina: Carlos Gardel. Mi noches tristes” e “Mi Buenos Aires Querido” são os primeiros tangos de Gardel a agitar a alta sociedade portuguesa da época. As senhoras conhecem as letras de cor, os homens apaixonam-se pela dança, mas é sempre sob olhares de reprovação que um par se afoita a dançar um tango nos bailes da burguesia . Como dança de salão, porém, o tango é tolerado, sob o pretexto de se tratar de “danças de exibição”, fazendo sucesso nas sociedades recreativas.


A morte de Gardel ( uma espécie de James Dean dos anos 30) em 1935, deixa em convulsão milhares de fãs, e os seus filmes continuaram a ser exibidos até à exaustão em todo o mundo. É no início dos anos 50 que aparece uma escola de tango vanguardista, onde se notam influências de Bach, Strawinsky e do Cool Jazz. Inicia-se então um novo ciclo “tanguero”, cujo expoente máximo é Astor Piazzola.


Nos salões dos ateneus e clubes onde as filhas das famílias ricas debutavam, a valsa continuava a ser a dança de abertura dos bailes, mas ao tango já era dado algum espaço: recatado e em fim de noite. Só que o tango que ganha raízes em Portugal tem pouco a ver com a dança sensual que punha a alta sociedade portuguesa escandalizada em público, mas em polvorosa em festas privadas. O tango dançado naqueles espaços selectivos era uma versão “soft” que viria a conhecer o seu apogeu com uma estrela mexicana elevada a “sex symbol”: Sara Montiel.


O analfabetismo musical dos portugueses não lhes permitia perceber a diferença, razão porque as músicas de El último Cuplé” , “ Mi Ultimo Tango” ou “La Violetera” eram dançadas como se de verdadeiros tangos se tratassem.(terá tido aí origem a expressão “ Isso é tudo tanga”?).


A revolução musical e “dançante” dos anos 60 erradicou o tango das salas de baile portuguesas, com os jovens a repartirem as suas preferências entre as melodias delicodoces da canção francesa e os sons mais trepidantes dos Beatles ou dos Rolling Stones. A voluptuosa “Je t’aime, moi non plus” representa o extertor da música francesa, dando lugar aos sons anglo-saxónicos. O tango é remetido para o “guetto” de grupos recreativos como “Os Alunos de Apolo” em Lisboa, ou o “Clube Fenianos” no Porto, onde animava os “chás dançantes” de bailarinos mais idosos.


Só no final da década de 90 o tango conhece um novo impulso em Portugal. Em 1997, abre no Porto o clube “Tang’r Easy”, mas o “boom” acontece no ano seguinte durante a “Expo 98”. No pavilhão da Argentina realizam-se exibições diárias e, nesse mesmo ano, realiza-se em Lisboa a Cimeira Mundial do Tango. A bailarina portuense Solange Galvão e o músico bonaerense Alejandro Laguna decidem abrir na capital uma escola de tango ( Dance Factory) e ao domingo recebem alunos na Barraca. O tango-dança estava de regresso a Portugal, assistindo-se a uma crescente adesão dos portugueses à música do Rio La Plata. Desde então, o número de praticantes e os locais de aprendizagem têm crescido um pouco por todo o país, como que acompanhando o recrudescimento do interesse pelo tango na capital argentina.


Informação adicional: Tenho uam relação estranha com o tango, de que já falei aqui. Quem tiver curiosidade, é so fazer clique e ir lá ver.