Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Sim, vou votar!

Em vésperas de eleições, considerei oportuno recuperar este post. É por esta e outras razões que não deixarei de votar. A Liberdade é um bem demasiado precioso, que me recuso a desprezar, abstendo-me, ou votando nulo. Quero ter razão para protestar ou aplaudir o governo que sair das eleições do próximo domingo.

O meu 25 de Abril
Pelas seis ou sete da manhã, pouco depois da alvorada, ligo o meu minúsculo rádio de pilhas comprado em Gibraltar e fico atónito com o que ouço. Por entre os acordes de marchas militares e comunicados evasivos, digo ao Zé Calvário:
"Isto é cá dentro, são os gajos da Acção Psicológica a experimentar-nos".
Sabia do que falava e conhecia bem as práticas e proveniências de uma boa parte dos milicianos que então andavam pela Acção Psicológica. O Zé Calvário alvitrou entre dentes que podia ser um golpe da extrema-direita, chefiado por Kaúlza de Arriaga, descontente com as aberturas de Marcelo. Só de pensar na hipótese, assustei-me.
O pequeno almoço foi comido em silêncio, com "cochichos" à mistura. O suspense aumentou à medida que o dia foi passando. O nervosismo era evidente em cada rosto, seguíamos atentamente todas as movimentações, para ver se percebíamos o que estava a acontecer. Da parte da tarde começaram a correr alguns boatos, sendo o mais insitente o de que o Comandante tinha sido preso. Alguém alvitrou que, a ser verdade, não poderia tratar-se de um golpe da extrema-direita. Agarrei-me a essa hipótese de uma forma tenaz. Se não fosse de extrema-direita, só poderia ser o golpe Redentor.
O alferes miliciano , comandante de pelotão, respondia de forma evasiva a todas as questões que lhe colocávamos,enquanto aprendíamos a desmontar, limpar e voltar a montar uma G3. Só ao final da tarde, quando diante do televisor instalado no bar ouvimos o comunicado da Junta de Salvação Nacional, tivemos a certeza que Marcelo Caetano tinha sido deposto e a ditadura derrubada. Respirei de alívio e, juntamente com outros camaradas, dei azo à alegria, companheira de uma bebedeira colectiva que fez esgotar as bebidas.
Havia nomes , naquela Junta de Salvação Nacional, que não incutiam grande confiança, mas as dúvidas quanto à possibilidade de se tratar de um golpe da extrema-direita haviam-se dissipado.
No dia seguinte, as dúvidas não ficaram todas esclarecidas. Dentro de um quartel, com a informação limitada , impedidos de aceder aos transistores que apenas emitiam um ruído ensurdecedor ( sem que ninguém percebesse as razões de não ser possível escutar a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português) e a televisão do bar desligada por pretensa avaria, a tensão subia a olhos vistos.
Na manhã do dia 27 foi-nos finalmente comunicado o que se tinha passado. Senti vontade de fugir dali e juntar-me às pessoas que festejavam na rua. Só no dia 1 de Maio tivemos essa possibilidade. Deixaram-nos sair no dia 30 e eu, em vez de ir para o Porto, onde era suposto uma namorada estar à minha espera, saí disparado para Lisboa. Mergulhei naquela multidão imensa , abracei e beijei centenas de pessoas que não conhecia e acabei com meia dúzia de amigos a comemorar no único restaurante que devia estar aberto em Lisboa naquele dia, a comer umas omoletas feitas por especial favor por se tratar de jovens militatres. (Não recordo o nome, lembro apenas que fica junto ao Hotel Rex e ainda existe).
Nunca vi - e provavelmente nunca voltarei a ver- uma manifestação como a do 1º de Maio de 74. Foi a coisa mais inesquecível e inebriante que se me ofereceu viver em toda a vida.Foram dias felizes os que se seguiram.
É por recordar aquele dia e me lembrar do que era este desgraçado país antes do 25 de Abril, que vou votar no domingo.
*Post publicado em 25 de Abril de 2008

17 comentários:

  1. "Liberdade, liberdade!
    Abra as asas sobre nós
    E que a voz da igualdade
    Seja sempre a nossa voz"
    Trecho do samba enredo da Imperatriz Leopoldinense de 1989.
    O refrão da música fala da libertação dos escravos... mas de certa forma somos todos escravos do sistema, mais ainda numa ditadura :o)

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  2. Concordo, Carlos.
    Ao votar, bem ou mal, exercemos o direito de escolher quem nos governa e o direito de exigir deles que nos governe com justiça e sabedoria, se bem que este último não está sendo cumprido, pelo menos no aquém-mar, e o povo que os colocou no comando não tem lutado para fazer valer esse direito. E, exatamente por isso, o voto que é a arma que melhor podemos usar, deve ser exercido com critério e responsabilidade. Parece-me que isso o povo (pelo menos o daqui) ainda não aprendeu a fazer.

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  3. Ao ler este post, lembrei-me de o meu Pai ter dito que no da 25 de Abril, o de 74, se estar a barbear quando ouviu a notícia. Apesar de sozinho na casa de banho, não teve reacção nenhuma ( efeito do estado que se vivia), saiu de casa como se nada se passase ( a ferver por dentro) e quando chegou ao escritório fez de conta que não se passava nada, mas, diz ele, o coração dele estava a 200 à hora e com atenção dividida entre a reacção dos funcionários e a eventual entrada de elementos 'estranhos'.

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  4. Já o tinha lido e comentado na altura; um texto muito presente e vivido intensamente.
    Votemos pois então!

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  5. Que voces tenham um bom dia votando pelo futuro de seu país.
    Com carinho Monica

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  6. Também vou votar, porque acho que tem mesmo de ser.

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  7. Olha meu nesse dia o teu amigo mais novo estav nas ruas a dizer morte ao fascismo e viva a liberdade. E na António Maria Cardoso quando os pides começaram a disparar das janelas e os da fila da frente levaram os tiros. E nas barricadas e no 25 de Novembro a fazer coctails molotov a espera de morrer. Que bom é saborear a liberdade porque ainda a sabemos grata e rara. A alguns que não têm memória do antes vêem-na com fastio, mas há-de haver um dia - se calhar nem tu nem eu estamos vivos - que serão postos `a prova. lá estaremos em cima para ver. bem hajas amigo.

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  8. Todavia não sendo estas eleições minhas, espero que os portugueses exerçam um direito que custou conseguir. Nada é pior que não poder escolher quem queremos que nos governe.

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  9. 74 ! 25 de abril de 1974 ! Tinha ido mostrar o meu filho mais velho ao pai que estva como oficial miliciano medico em angola.Decidi fazer um passeio :)))era destemida e inconsciente:)Fui de berliê de bolangongo até luanda e depois de gipe para nova lisboa . De Nova Lisboa até ao sul a uma terra chamada de Perreira de Eça tinhamos dois gipes velhos mas bons..Tinham-me dito que era uma zona de savana , que podia ver elefantes e zebras ....sonhei com uma aventura linda e cheia de por de Sol africanos.Claro que esqueci dos mosquitos , do calor , da humidade , de que havia guerra ( a sério ) só pensava na grande aventura:))) E fui , com um capitão que devia estar gaseado de tanta liamba , num gipe da tropa c.om o banco acolchoado com mantas:)))Levámos dois soldados que o que queriam era sair do acampamento( estavam em Bolamgongo , no norte).
    Foi muito engraçado , não dei conta de perigos , passei o tempo feliz por estar a fazer uma coisa que ninguem queria que eu fizesse e vi realmente por de Sol africano mais bonito que o de luanda , ou do norte .Parámos na noite de 25 numa casa já perto de perreira de eça , uma herdade ou quinta ,gente simpatica que tinha um rádio....e ouvimos que em lisboa havia um motim , que na rocia(rossio) estava tudo bombardeado, o rio estava cheio de navios de guerra que "deitavam" bombas para a cidade.....a emissão caiu , fez uns barulhos e deixou de se ouvir ...era habitual.
    Dormi agarrada ao meu filho contente por estar longe da guerra:))))
    Ter 20 anos é muito bom, não acha?:)
    Beijos .
    Tb voto e torno publico em quem , no Paulo Portas que talvez salve a agricultura...ou talvez não ,mas ao menos fala nisso.

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  10. Annie:
    Excelente aventura, história, vivência, experiência, memória e tantas coisas mais que me passam pela cabeça depois de a ler.
    Devia colocar estas histórias todas lá no Outsider!

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  11. Porventura ainda saberei desmontar, limpar e voltar a montar uma G3, até dormi com ela colada ao corpo, qual namorada possessiva! E o dever foi cumprido, o militar e o cívico. E viva o 25 de Abril que nos permitiu o direito de escolha.

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  12. Turmalina: mas somos também escravos numa democracia que só defende os interesses de uma das partes.

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  13. Dulce: O povo é soberano, mas raras vezes usa os neurónios para perceber a força que tem.

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  14. Reflexos: como o seu pai, houve milhares de portugueses que tiveram de conter a sua alegria, até as coisas se clarificarem. Imagina como foi passar esse dia dentro de um quartel? Indescritível!

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  15. AG: Tiveste bem mais sorte do que eu, amigo. Tive de me conter durante muitas horas e de viver na angústia da incerteza, poruqe não sabia o que se estava a passar lá fora. apesar de tudo, valeu a pena!
    Abraço e boas férias

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  16. Annie: Faço minhas as palavras da Patti. Tem deixado, na caixa de comentários aqui do Rochedo, belos textos que mereciam ser transpostos para posts.
    Obrigado por partilhar connosco algumas das suas vivências de uma vida cheia de episódios dignos de registo.

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