
Segunda-feira é, durante todo o ano, o dia da semana por excelência para o embate provocado pelo reencontro com os bytes, os links, os offset, os offshores e off the record, os clips e os chips, o software e o hardware, o copy right , o copy desk e o copy and paste, as notícias do jet-set , os press release , o lay out e o design.
Esta cena ocorreu na passada segunda-feira , 3 de Setembro, data consagrada para a rentrée. Bronzeado de férias e ainda um pouco atordoado pelo trânsito lisboeta, o Pires chegou ao escritório e deu de chofre com uma discussão sobre a melhor manchete do dia, as estratégias de marketing, e o merchandising, o escoamento dos stocks e o novo spot de promoção. O cabotino do Mendes, self made man em vertiginosa ascensão nos quadros da empresa, falava a um canto com a Sofia que, mesmo sem tirar os auscultadores do ipod parecia seguir atentamente o seu discurso sobre o rendimento per capita, o cashflow e as prime rate. O Pires estava quase a perder o selfcontrol e já tinha decidido que naquele dia não iria com os colegas do costume comer ao self service, quando se lembrou das poses da Marina que namora com o disc jockey de uma boîte do basfonds lisboeta. Decidiu inverter o caminho, antes que fosse amarrado a qualquer discussão em que não estava interessado em participar e dirigir-se ao gabinete da Marina para lhe espreitar a pose que, invariavelmente, oferece à cobiça dos homens um pedaço de coxa entre a racha da saia, ou um peito descoberto pela generosidade do decote. Pelo caminho, deu de caras com o pateta do Abreu, à volta do scanner, gritando para o estagiário:
- Já printáste? Faz delete! Esqueceste-te de clicar, como é que querias abrir o CD? Faz save as se não queres perder o documento, meu palerma ! Já recebeste o e-mail de Inglaterra? Se os gajos não se apressam mandamos-lhes um fax!
- Porque é que não mandas antes um MMS? – alvitrou o Pires enquanto se esgueirava, sorrateiro, para o gabinete da Marina. Estava a conversa a animar, o pobre do Pires urdia, babado, uma fórmula imbatível de a convidar para jantar, quando entra o chefe Lopes de uísque na mão e começa a dissertar sobre a entourage política , o elan do novo Governo, a élite cultural os collants que a mulher lhe pediu para comprar e de que se esqueceu, do tailleur que ofereceu à amante, dos éclairs da pastelaria da esquina, do baile de debutantes da filha mais nova que se vai realizar em Outubro e dos progressos da mais velha no ballet.
Quase uma hora depois dá por interrompida a conversa e pede à Marina que lhe reserve uma mesa para dois no restaurant, sem se esquecer de recomendar ao maître, para pôr a garrafa de vinho no frappé. Ainda teve tempo para perguntar ao Pires como tinham sido as férias e pedir à Marina que lhe lembrasse para marcar na Agenda um dia para um almoço “com todo o pessoal”.
“É preciso motivar a rapaziada para o trabalho, que esta empresa é uma nau muito pesada, precisa de gente activa e sangue jovem. Com as novas tecnologias, quem não souber dançar tem que dar lugar aos novos! ”-ouviram-no dizer enquanto se afastava em direcção à porta.
O pobre do Pires esqueceu a fórmula do convite irrecusável que congeminara para convencer Marina a jantar com ele. A cabeça encheu-se-lhe de soundbytes, lembrou-se das conversas do Abreu e do Mendes e declarou-se indisposto.
“Diz ao chefe que não me senti bem e vou para casa”.
Até hoje, ninguém mais pôs a vista em cima do Pires.
* Texto publicado no dia 6 de Setembro de 2007
Ai,meu Deus, Carlos...eu não quero jogar confetes nem superinflar-lhe o ego, mas você faz misérias com a língua portuguesa. Você sobe, desce, freia, troca, volta e acaba tudo no lugar.
ResponderEliminarAcho sensacional, talvez por conseguir enxergar todas as cenas do seu texto, quadro à quadro. E este em especial, está divertidíssimo. Eu já vejo aqui a cara do pobre do Pires, logo agora que voltara de férias assim tão autoconfiante. Ó vida...
Talvez o pires tenha encontrado uma chávena comme il faut e, nesta altura, já fez um download de belos filhotes luso-chineses ou de outra nacionalidade qualquer de fina porcelana.
ResponderEliminardelicioso, cheguei cansada ao fim do texto...
ResponderEliminarAté eu me vi enredada nessa agitação toda! :) E tadinho do Pires... Mas, passa. Se ele tivesse a coragem de fazer o convite à Marina, com certeza o dia seria bem mais fácil! ;)
ResponderEliminarEu li e se não confundi as coisas entendi.
ResponderEliminarMas me deu uma dozinha do Pires.
Até hoje ele não pareceu? Será que não poderiam lhe dar outra chance?
Com carinho
Monica
a mais nova e inexperiente observadora do seu blog.
:) lembrei disto:
ResponderEliminarhttp://www.youtube.com/watch?v=RmjEvfOZCbY
E também deuma magnífica série britância - The office - Alguns episódios passei-os em sessões de formação profissional.
Bem actual, este texto, Carlos
Foi a partir da leitura desta crónica que eu avancei a data de aniversário do "blog" e, afinal, não acertei.
ResponderEliminarGostei imenso e hoje voltei a lê-la é um relato em forma e conteúdo muito bom não sei se é factual , não interessa, de qualquer modo é revelador de quem tem talento para a "dramaturgia"! Acontece-me imensas vezes, ao ler as suas crónicas, visualizar uma acção nun filme ou numa peça de teatro, já falamos de "argumentos" e agora o que também diz a Turmalina - ela sabe bem do que fala...;))
Bela idéia, Carlos, essa de revisitar as "crónicas"!
Formatar poderia ter sido a salvação do Pires embora reconheça que é uma operação a não ser utilizada de ânimo leve.
ResponderEliminarPor um momento pensei que estava a ter um "dejà vu" (ou melhor dito, um "dejà lu") e afinal era mesmo, real, não produto da minha fantasia: já o lera quando cheguei ao Rochedo e fui às origens... (`_^)
ResponderEliminarAgora lembrou-me um livro que li recentemente de Daniel Kehlman (Um romance em nove histórias): numa das histórias, um gajo que fala assim exactamente, enchendo o seu alemão de anglicismos puros, depois chateia-se com o chefe porque lhe manda redigir um documento em inglês!
(Mas cá entre nós, gostei mais do seu texto, `_^)
Pudera!...
ResponderEliminarLi num crescendo de curiosidade: até onde iria a capacidade de resistência do Pires?
Nossa língua portuguesa!... Tão enfeitada de vocábulos estrangeiros, tão chegada ao internacional (será a tal da globalização chegando aos dicionários?)Who knows? (rs...)
ResponderEliminarUm texto fantástico e muitissimo atual. Aliás, cada vez mais atual.
Voltei...eu fiquei o dia todo pensando no texto. Primeiro porque meu trabalho, o burocrático, me permite vivenciar muito do que escreveu e segundo porque meu pai, um Lopes original e verdadeiro, não passa um domingo sequer sem tomar seu uísque "on the rocks"!
ResponderEliminarFelizmente o meu regresso de férias não foi nada assim, senão fazia como o Pires. Suponho que nesta altura continue bem bronzeado.
ResponderEliminarbeijinhos
E já googlou hoje?
ResponderEliminarParabéns, Carlos, 2º aniversário do Rochedo, é?
ResponderEliminarCuidado com o Pires não ficou com a chávena mas não perdeu a asa. Se nunca mais ninguém o viu, deve estar em casa a googlar, como diz a Patti.
Interessante esta forma de comemorar... olhar a distância o que se escreveu...
ResponderEliminarSerá uma nova forma de reflectir? Uma forma de crescimento?
Ou uma forma de nos obrigar a pensar cada gesto, cada acto...cada ponto...cada virgula… cada símbolo...
estou a gostar...Parabéns