Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Quem conta um conto...


Hoje, pela manhã, cumpri o ritual de domingo com algumas horas de avanço. Levantei-me cedo. Como habitualmente, quando passo o fim de semana em Lisboa, fui comprar os jornais do dia, mas surpreendi-me com o aparato pouco comum num bairro tradicionalmente pacato. Duas carrinhas da polícia de intervenção pejadas de agentes, aguçaram-me a curiosidade. Perguntei ao dono do quiosque o que se passava:
-“ Dizem que andam à procura dos tipos que assaltaram o ferro velho”(Sim, leitores, para minha desgraça, tenho varanda virada para a sucata. Algo inexplicável numa zona de Lisboa onde, ainda há meia dúzia de anos, via as ovelhas a pastar e podia comprar legumes frescos, arrancados da terra no momento, a um lavrador que ousava resistir. Agora, o meu horizonte restringe-se a um ferro velho e dezenas de prédios em construção, que a breve prazo ameaçam invadir a minha privacidade).
Voltemos à história, ouvindo o resto da narrativa . Acrescentou o sr. Abílio que lhe tinham contado pormenores do assalto:
- “ Parece que não roubaram nada do ferro velho, mas cortaram uma perna com uma serra ao guarda...”
Saí arrepiado com a narrativa e fui até ao café. Fiz a mesma pergunta ao proprietário. A narrativa sr Alberto foi ainda mais arrepiante. Que sim senhor, que tinham cortado a perna ao homem, que tinha uma barra de platina.
“ Veja lá o que estes malandros fazem pelo dinheiro. Ouvi dizer- mas nem acredito- que também lhe tiraram um rim!”
Lidos os títulos dos jornais e tomada a bica, fui passear para o jardim. Encontrei um vizinho que manifestava idêntica surpresa com o aparato policial. Contei-lhe o que ouvira na tabacaria e no café e ouvi a sua versão:
- “Ah sim? Olhe, fui ali à mercearia e o sr Alcides ( é verdade, caros leitores, no meu bairro os proprietários dos estabelecimentos mais populares têm todos nomes começados por A. Podem crer que não é ficção, é mesmo verdade!) contou-me que o assalto tinha sido num ferro velho da Charneca! Por acaso o guarda de lá até parece que é irmão deste daqui! Mas o que ele me disse é que o homem fez frente aos ladrões e deram-lhe um tiro numa perna. Parece que a perna lhe foi cortada, mas foi no Hospital!”
Bom, apesar de tudo, esta era uma versão mais “soft”. Despedi-me confortado, continuei o meu passeio e acabei por me sentar à sombra de uma árvore acolhedora, para continuar as minhas leituras. Ao fim de algum tempo alguns polícias entram discretamente no jardim. Aguardei algum tempo, a ver o que se sucedia, mas os polícias depois de se deterem junto a uns recipientes de lixo deram meia volta e foram-se embora.Regressei a casa. No elevador encontrei um outro vizinho. Satisfeito por ter alguma coisa para dizer que extravasasse o âmbito metereológico que sempre serve de desbloqueador de conversas nos elevadores, perguntei-lhe se sabia as razões de tanto aparato policial.
-“ Parece que andam à procura de uma miúda de 14 ou 15 anos que desapareceu ontem à noite de casa. Saiu com uns amigos para irem até à esplanada, a miúda levantou-se para ir à casa de banho e nunca mais apareceu!”.
Surpreendido com esta nova versão dos acontecimentos, contei-lhe as versões que ouvira ao longo da manhã.
-“ Nada disso! Essa história foi na semana passada, ali na Musgueira. O homem saiu ontem do Hospital numa cadeira de rodas. Imagine o que lhe havia de acontecer! A atravessar a estrada e é atropelado por um carro de uns ladrõezecos que tinham acabado de assaltar umas casas ali na Alta de Lisboa. E eram tudo miúdos, meu amigo! Acho que o mais velho tinha 18 anos...”

Post publicado no dia 24 de Setembro de 2007

11 comentários:

  1. Que grande confusão...mas afinal não foi só um "ponto" foram historias novas, até dava uma novela senão um novelo tal era a confusão, eheh..

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  2. Provérbio actualizado aqui pela Gi: Quem conta um conto é mesmo tonto. ;)

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  3. E você foi por ali, conversou com um e com outro e voltou a casa sem saber o que havia realmente acontecido...
    O jeito seria esperar até a manhã seguinte para ler as noticias nos jornais (esperando que o reporter tivesse tido mais sorte com as fontes de informação que consultassem) caso não tivesse tido paciência para ver os jornais televisivos da noite... rs...
    Tem toda razão... quem conta um conto...

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  4. Ás vezes fazemos bem em recupererar nosso textos já escritos há algum tempo e perceber que continuam a fazer sentido e que nós, que os escrevemos, os escrevemos com algum propósito.
    abraço e boa semana

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  5. Carlos, neste seu caso, quem foi contando o conto, foi acrescentando uma data de pontos. Tem uma vizinhança muito carente de emoções fortes. ;-D

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  6. De antologia...cruelmente delicioso - humor negro;))
    Este texto ainda não tinha lido, porque, na verdade, vou lendo aleatóriamente.

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  7. Esta coisa do dever do jornalista de verificar as fontes tem lá seus fundamentos :o)

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  8. Como diz: quem conta um conto acrescenta um ponto...

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  9. E parou por aí, ou dois anos depois conseguiu acrescentar alguns pontos? :)

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  10. Ah!, o telégrafo popular continua igualzinho com o passar dos anos - sempre indigno de confiança! ;)

    R.

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  11. Maravilhoso!
    :)
    Assim se fazem as notícias, assim se fazem as lendas urbanas.
    :)

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