Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Pela Europe's West Coast


Como esperava, encontrei a estrada quase deserta até S. Pedro de Muel. Gozei a beleza da paisagem, ao som das canções dos anos 60. De um lado e outro da estrada, dizem, há pinheiros a morrer. Por incúria dos homens. Lembro-me das aulas de História da 4ª classe e do sr. Borges (lembram-se?) a enaltecer o feito de D. Dinis com tanto ênfase, que cheguei a pensar tivesse abandonado as fastidiosas tarefas da governança, para se dedicar a plantar pinheiros em perfeita comunhão com a Natureza. Ninguém é perfeito …
Hoje há pinheiros a morrer, por causa de uma doença que os homens não cuidaram de tratar, tão preocupados andam com as novas tecnologias e a economia de mercado. Se morrerem pinheiros, desaparecerão muitos postos de trabalho . Haverá mais famílias em risco de pobreza. Algumas empresas poderão extinguir-se. Não quero este presente. Quero ter direito ao sonho de viver num país que cuide das suas florestas. Que acaricie e trate com desvelo as suas árvores. Regresso ao passado. Resisto a desenterrar da areia alguns amores de Verão enterrados noutros areais. Voo até Península Valdez, ao som de Mercedes Sosa. Vieira, S. Pedro e S. Martinho também fazem as suas despedidas do Verão. Ao contrário, a Nazaré regurgita num bulício de turistas tardios.
Em S. Martinho decido entrar na A8. Num impulso, apeteceu-me acelerar para o Rochedo, deixando Lisboa para trás. Quero desfrutar um pôr do sol que antevejo magnífico, com o Guincho quase só para mim. Acelero.
(…..)
Cheguei. Afinal o Guincho está cheio de gente. Não sei se foram todos atraídos pela vontade de se despedirem do Verão. Lembro-me das têmporas. Outubro vai ser quente. Ainda terei tempo para me despedir. De ver mais vezes o Sol encaminhar-se para a linha do horizonte, interrompendo com a sua língua de fogo aquele abraço entre céu e mar.Fico uns minutos encostado ao carro. À espera do momento em que o Sol ponha fim àquela união. Quando o último raio desapareceu no horizonte- não, não era o verde, esse apenas o consegui ver uma ou duas vezes- despedi-me e regressei a casa agradecendo à Mãe Natureza a dádiva de uma tarde primaveril.
(......)
Sentado diante do computador, termino um artigo sobre as vindimas no Douro. Polvilho-o com as cores do Outono que, por ali, tem outro encanto. Procuro a reconciliação sazonal. Releio o artigo uma última vez. Faço clique e fico a imaginá-lo a atravessar o Atlântico. Espero que, ao lê-lo, as pessoas se sintam apaixonadas pelo Outono do Douro e venham ver como é. Será um contributo para o aumento do turismo em Portugal. Espero que ninguém perceba que o Outono é, para mim, uma ficção romântica. Excepto quando contemplo o Douro e os seus vinhedos, num dia de sol.
Tudo o que lá está escrito eu vi e senti. Mas será que mais alguém poderá sentir aquilo que eu vi?

20 comentários:

  1. Tenho amado a viagem!!!
    É tanta coisa que senti com este post que fica dificíl traduzir em palavras todo o burburinho que agita-se aqui dentro.
    Os pinheiros - toda manhã ao olhar pela janela da cozinha dou de cara com eles e talvez nunca tenha me dado conta de como são importantes para mim, quantas manhãs, ao contemplá-los , me senti uma pessoa melhor.
    As praias - como a do Guincho, eu gosto mesmo é de vê-las vazias.É quando sinto verdadeiramente a minha profunda ligação com o mar. É como se , em silêncio, eu podesse escutá-lo.
    As vindimas - são mesmo apaixonantes, mas seu eu tivesse de escolher um único lugar para conhecer agora, seria sem dúvida alguma Ushuaia, Valdés e Calafate.
    As viagens de carro - são a minha paixão.De avião (que eu não gosto)perdemos detalhes preciosos de uma região, de uma paisagem, de um povo.Perdemos muito de nós mesmos, aquilo que só é despertado quando em contato com algo novo.
    E eu não acredito no impossível, um dia ainda irei de carro daqui ao fim do mundo, e lá terei longas conversas com o oceano, daquelas que não tem hora para terminar
    :o)

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  2. Eu bem lhe disse que para os nossos lados estava cheio de gente. :)

    Se soubesse o que uma minha cunhada do Ministério da Agricultura me contou sobre o bicho do pinheiro e da incopetência que grassa pelo Ministério a esse respeito... ;)

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  3. Certamente sim, Carlos. Da forma como você descreve o seu Douro, suas vindimas, as cores de seu outono, essas imgens acabam por fazer pousada em cada um de seus leitores que passam a sonhar com um outono em Portugal.

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  4. OLÁ CARLOS

    Então, dia 2 de Outubro vais para o Porto!
    Eu também e só vou desmontar a exposição pelas 16h, se quiseres lá passar antes verás tudo ainda tal e qual como está.

    Dizes: ..."Gostaria de poder ainda dar lá uma saltada..."
    e eu respondo-te:
    ADORARIA que lá fosses, pois não é fácil conseguir fazer uma exposição num lugar assim, com história, uma Colectividade centenária com muita actividade social, onde existe uma Universidade Sénior para as pessoas da freguesia, fazem Teatro e neste momento, dito pelo próprio Presidente da colectividade estão a dar apoio a peças de teatro do Teatro Sá da Bandeira, do Porto, pois acho que a sala está em obras...é um marco na minha vida de fotógrafa-amadora ter essa oportunidade.

    Adoraria que deixasses umas palavras no tal livro, por isso, se for possível agradeço-te do coração.
    Beijinhos.

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  5. Eu também encontrei algumas estradas desertas na passada 2ª feira, quando descia para Lisboa, vinda de Vila do Conde.

    Essa zona de S. Pedro de Muel é romântica, pois parece que está ali só para nós, tal é a solidão que a envolve.

    É precisamente isso que faço nas minhas viagens - gozo a beleza da paisagem, ao som de belas canções.

    Que bom que é ler as tuas crónicas, Carlos.

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  6. Ai balhameDeus que o homem me desce das escandinávias e me bém de lá todinho nostáligo, melancólico e euseilámaisoquê!

    São Pedro de Muel: obrigatório!

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  7. Olha Carlos, eu adorei ler os seus dois textos "viajeiros". Uma expressão que você usou no segundo me tocou de forma especial: Procuro a reconciliação sazonal, você disse tão lindamente. De repente, pensando em Douro, nas videiras sob os raios de sol, algo me ocorreu. Que as cepas das videiras conseguem nos mostrar que esta reconciliação é possível.Sei que me entende, porque conhece e ama o Douro. Toda a vida da primavera estará apenas dormindo dentro delas nos próximos meses por aí. Mas quando a primavera se mudar daqui praí novamente,fará os desavisados pensar. Voltou nada, nunca esteve ausente. Estava apenas descansando, em paz, dentro da cepa.
    Ah, o seu artigo atrairá turistas,ou despertará desejos nos potenciais candidatos, estou certa disto, mesmo sem tê-lo lido. Mas não sei se isto é bom ou ruim, mas alguns perceberão ou intuirão o que o outono significa pra ti. Consentirão ou simplesmente dirão: Ah mas em Douro é diferente, e afinal, planejarão chegar por lá em um lindo dia de sol.hehehe.
    Beijos meus.

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  8. Carlos, eu faço planos à distância só para poder antecipá-los...rs... e quase sempre dá certo!
    Se amanhã mesmo surgir a oportunidade, vou sem problemas.
    Obrigada pelo gentil convite... e lhe digo mais, pode ser aqui, aí, alí, ou em qq lugar e em qq tempo :o)

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  9. Outono, praias com sol dourado, pores do sol esplendorosos, vindimas no Douro...: este é o nosso Portugal, apesar dos pesares, Carlos...

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  10. O Douro...o nosso Douro, sabes ainda hoje tive de ir ao Porto e resolvi atravessar pela D.Luís(pois sou do lado de cá do Rio) e fazer o caminho pela marginal só para desfrutar daquele explendor, o brilho do Sol refletido nas águas calmas que me trazem boas recordações...DEMAIS!!

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  11. Turmalina: Adoro a Argentina, como sabe, mas não viveria nunca em nenhum desses locais, por razões diversas. Não conseguiria sportar o Inverno em Ushuaia, Valdez traz-me recordações muito tristes e Calafate está agora inundada de turistas curiosos. Patagónia, sim, mas na zona de Esquel, onde ainda é possível desfrutar da paz a que a Patagónia convida. Vai adorar!

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  12. Gi: Até fiquei assustado quando lá cheguei.
    Calculo que a sua cunhda tenha umas belas histórias para contar...

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  13. Dulce: um Outono ( setembro e Outubro) no Douro é realmente fantástico

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  14. Tulipa: Se conseguir sair de Lisboa pela manhã, terei muito gosto em ir ver a exposição. Vamos a ver se dá, mas mais perto eo dia, digo alguma coisa.

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  15. Patti: O problema não é da Escandiávia, é mesmo do Outono, que me deixa um bocado nostálgico, é verdade.

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  16. Veroca: Mas também não quero que venham muitos, senão aquilo perde o sossego...

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  17. Cristina: Talvez dêmos demasiada importância a coisas que realmente são pouco importantes.

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  18. De dentro para fora:visto de Gaia, o Porto ganha ainda mais bonito.

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  19. É,Carlos, meu roteiro foi feito para o verão...não sou tão intrépida assim de enfrentar uma aventura dessas no inverno de lá.Afinal de contas, eu quero ir dirigindo e o gelo não combina muito com direção. E meus 40 e poucos anos já não me permitem certas extravagâncias...rs... e tb na época do Natal, creio que as estradas estejam um pouco mais movimentadas...talvez cruzarei com uns 3 ou 4 carros à cada hora :o)
    Mas ainda tem bastante tempo para planejar tudo certinho.Eu gosto de estudar minuciosamente o local que vou conhecer.Eu sou boa de roteiros...rs...

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  20. Carlos
    Este post é magnífico. Por tudo.
    E principalmente porque descreve um dos meus refúgios c- S. P. Moel!
    Em qualquer estação do ano, em qualquer hora - sou capaz de fazer desvios na estrada só para lá ir!
    E tb. o Douro.
    Ai, Carlos, que delícia ler isto.

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