Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

"Onze minutos"


Não, não vou falar daquele livro do Paulo Coelho em que a protagonista é uma miúda que foi para Genève, porque acreditava que ganhar a vida na horizontal entre um abrir e fechar de pernas era “fixe”.

O título deste post reproduz um facto real, que ocorre na minha vida, e por vezes me provoca mais incómodos e transtornos do que à protagonista de Paulo Coelho, que ganha a vida em Genéve entre um bar de alterne e quartos de pensões esconsas. ( Se lerem até ao fim, verão que a minha estória, tem um final feliz...)Acreditem ou não, onze minutos é o tempo que dura a viagem de metropolitano entre minha casa e o meu gabinete de trabalho. O tempo exacto que demora Maria ( na versão de Paulo Coelho) a abrir e fechar as pernas, a troco de umas centenas de francos suíços.

Nesse tempo que dura a minha viagem - cronometrei várias vezes e deu sempre certo- não ganho um chavo ( isso fica para os ceguinhos que andam a pedir esmola entre ladainhas e toques de acordeão, ou para crianças-mendigas acompanhadas de cãezinhos amestrados) , mas passo momentos tão desagradáveis como os da Maria. Não levo com nenhum gajo em cima a arfar , é certo, mas ...ouço conversas indiscretas; aturo telemóveis a tocar; levo com jovens generosos que colocam os i-pod nos ouvidos em altos berros, para que os vizinhos possam partilhar a sua música; senhoras com carteiras gigantescas que a meio da viagem decidem procurar um qualquer objecto no meio da bagunçada que deve ser aquele espaço; jovens de mochila às costas que se esquecem que não viajam sozinhos e a cada movimento que fazem atingem o vizinho; crianças romenas ranhosas a pedir esmola; crianças portuguesas a fazer birras, perante o ar complacente das mamãs; ucranianas de decotes generosos e saias justas a fazer lembrar a Maria; sovacos suados a pedir uns esguichos de desodorizante... enfim, uma parafernália de protagonistas que confundem uma viagem de metropolitano com o sofá da sala, onde se esparramam diante do televisor a ver um filme, enquanto comem pipocas e libertam fluidos.

No verão, quando pernoito em Lisboa, costumo fazer o trajecto a pé, mas hoje estava atrasado para mais uma daquelas sessões do Portugal Sentado* e por isso vim de metro. A viagem começou mal. Logo na Quinta das Conchas, senta-se ao meu lado um fulano, na casa dos 50 e muitos , artilhado com i-pod de onde saía, em doses generosas de decibéis, música dos MetalliKa!!! Em pé, junto a mim, um jovem ouvia música que não consegui identificar. Levantei os olhos do jornal, na busca de um lugar mais sossegado. Reparei que vários jovens iam de auscultadores enfiados nos ouvidos, outros faziam exercícios físicos, ginasticando os dedos em teclas de telemóveis e outros acumulavam as duas funções. Havia também gente com olhar distante e algumas jovens lendo livros.Fiquei onde estava. Entre o Campo Grande e Entre Campos, começou o recital dos telemóveis a tocar. Fim de concentração na leitura. Senhoras a remexer nas carteiras à procura do aparelho e, depois, as conversas. Uma senhora dizia em altos berros ( para a filha, presumo) o que devia fazer para o almoço; outra, mesmo em frente a mim, telefonava para a empresa a dizer que estava atrasada, porque a camioneta que a devia ter trazido até ao Campo Grande avariara; um jovem mandava beijinhos sonoros ( presumo que à namorada, mas nos tempos que correm nunca se sabe...); outro, nervoso, anunciava à mãe que ia ter com ela ao local de trabalho porque “20 euros para almoçar e ir ao cinema não dá para nada, mãe!”.Já em Entre Campos o ceguinho - que pessoa amiga afiança ter encontrado a passar férias no ALLGARVE- irrompeu pela minha carruagem na sua lenga-lenga quase milenar. A escassos metros, seguia uma velhota, que conheço há anos, exibindo uma receita. Pede, também há anos, que os passageiros comparticipem em despesas que deveriam ser suportadas pelo Estado.

Chegámos finalmente ao Saldanha. Já não posso mais...Estou na fila para passar a cancela onde devo colocar o passe a oscular a célula fotoelectrica . Vai chegar a minha vez. O Portugal Sentado* espera por mim. À minha frente só há uma senhora. De súbito, uma “murraça” no olho direito. A senhora à minha frente trazia o seu passe na carteira e, para o ir buscar, lançou inadvertidamente a carteira para trás, levando uma daquelas peças metálicas a atingir-me com violência.

É então que me lembro dos “Onze Minutos”. Fico na dúvida. Afinal, Maria é capaz de ter razão. Aguentar cenas destas todos os dias, e ainda ter de pagar por cima, é capaz de ser mais doloroso do que apanhar com um gajo em cima a arfar, a troco de umas centenas de francos suíços.Garanto que não vou tirar a prova, mas que fiquei a pensar na Maria, lá isso fiquei.
O olho direito, infllamado, ainda me dói! A imagem de aflição da senhora e os sucessivos pedidos de desculpas, não me aliviam a dor.Logo à noite, quando for jantar com ela, talvez a dor passe...* Para quem não saiba o que é o Portugal Sentado: ler aqui e aqui

* Post publcado em 26 de Junho de 2008

20 comentários:

  1. Perfeitos onze minutos e um fabulouso Portugal Sentado que não sei como me escapou:)

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  2. Felizmente há muito deixei de usar os transportes públicos. Por comodismo, sim. Uso a mota, que é bem mais confortável, mesmo com chuva, mesmo com calor, mesmo com a poluição, mesmo com as beatas e os escarros, os papéis, as latas e garrafas, a embalagem do iogurte, o aluminio e o guardanapo da "sandes", "habilmente" atirados pelos automobilistas, mesmo com a terra, o pó a lama que os camiões atiram, neste caso "inadvertidamente", pois claro, mesmo com o risco acrescido (claro que o há e motociclista que disser o contrário está a ser hipócrita) das consequências de um acidente. Mesmo com tudo isto e muito mais, POR COMODISMO, sinto que a minha vida é mais saudável (psicologicamente conta muito, certo?) que grande parte das pessoas que todos os dias "comem" com tudo isso, sem sequer verem a ementa.
    Onze minutos, todos os dias, ao fim de alguns anos, são vida que passou ao lado, ou então esperar que parte desse minutos, possam ser de algum prazer, a Maria também deve ter algum, na interacção com alguém.
    Pode parecer contraditório, quando acabo de dizer que passo a vida sozinho na minha mota, mas a experiência com os outros também enriquece.
    Se assim não fosse, não teria esta história para contar, certo?
    Quanto ao Portugal sentado, ele existe para desculpar a falta de ideias, a falta de convicção, a falta de apostar e de arriscar, mas acima de tudo para dar protagonismo a alguém.
    Há por aí muito doutor viciado em poder....

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  3. Excelente!
    E é claro que, me desculpe,mas achei divertida a cena da carteirada.Me lembra uma vez que meu filho, ainda bem pequeno, jogou uma bolinha na parede, ela quicou e bateu na minha boca. Aparentemente não aconteceu nada e eu fui para uma festa de aniversário.Depois de algumas horas percebi que me olhavam de modo estranho.Procurei discretamente o lavabo e quando olhei no espelho eu tinha um hematoma do tamanho da bola entre o nariz e a boca. Eu olhava no espelho e me perguntava o que será que os outros estavam pensando...e não tinha nem mesmo como disfarçar, era um roxo quase preto.Levei alguns bons minutos para voltar prá sala...
    A sensação que descreve no metrô e a mesma que sinto no elevador do escritório. Tem dias em que levamos quase dez minutos do Térreo ao décimo segundo andar. Entra gente e sai gente, aperta daqui e dalí...e é sempre bolsa demais para elevador de menos.Eu me nego à atender o telefone no elevador.Caso ele toque, vai ficar tocando...eu não vou me apertar e apertar os outros para atender uma ligação que pode esperar alguns minutinhos.Para entrar e sair dos elevadores é necessário um cartão digital. Tem gente que deixa para procurá-lo dentro do elevador ou senão estanca na frente da catraca impedindo a passagem. Eu já deixo o cartão na mão ou no pescoço. Eu não concebo a idéia de atrapalhar, dificultar ou bloquear a passagem alheia.Como tb não consigo achar nada divertida a profissão da Maria.O que pega é justamente um estranho arfando sobre vc, sem opção de escolha, nem que seja só por 11 minutos.Sou um ser rebelde por natureza e assim sendo não sei viver sem a liberdade, de escolha, de expressão, de ir e vir :o)
    Acho que estou um tanto prolixa hoje...

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  4. "um gajo em cima" não digo, mas uma..quem sabe, eheheh

    E já agora o jantar correu bem!? (se é que ainda á memória,já foi á tanto tempo)
    Olha a "cusca"!!

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  5. Mas que "odisséia", meu amigo!...
    Espero que ao menos tenha um bom jantar.

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  6. Pois eu demoro muito mais que 11 minutos no trajecto dentro e entre-metros e sei bem o que isso é!
    Se fosse a menina do Paulo Coelho (senhor que nunca li, a não ser entrevistas e chega-me ganhava bastante.

    O Carlos já foi embora do país? É que desde 6ª feira que não se mete num 31! ;)

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  7. Muito boa sua refelexão.

    abraços


    Hugo

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  8. Carlos,
    Que venha o diabo e escolha!!! E querem pôr o País a usar os transportes públicos...
    Deixe lá que mesmo assim ainda teve companhia para o jantar. E espero que agradável ou só falou de doenças dado o dano provocado no seu olho?!
    Beijinho

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  9. 11 minutos, foi também quanto bastou para o nosso intocável pr meter o país na lama (não digo, na merda, porque tenho receio de ofender alguém).
    Piores dias virão. A vida da Maria até parece um mar de rosas e qualquer odor a sovaco, terá cheiro de channel

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  10. Gi: Estive de passagem pelo 31 na segunda-feira, mas só ontem consegui recuperar um bocadinho da normalidade das minhas visitas. Isto tem andadio difícil...

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  11. Bacouca: quanto ao tema de conversa do jantar, nem às paredes confesso!

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  12. TOZE: muito resumidamente, para dizer que apesar de tudo, prefiro estes 11 minutos debaixo de terra, do que horas em engarrafamentos. Já andei muito de moto, mas desisti há uns anos. Estou velhote para esse meio de locomoção que continuo a achar muito agradável.

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  13. Peço desculpa, Carlos, mas fez-me rir com o seu final (Mas pronto, acaso não disse que a história tinha um final feliz?) Não lhe invejo a viagem de metro, mas pense em positivo: tanta desgraça deu um lindo texto. (`_^)

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  14. Velhote???
    Não acredito. A mim também me custa calçar luvas, meter capacete, tirar capacete, descalçar luvas, meter cadeado, tirar cadeado, carregar com o blusão, despir blusão, vestir blusão, calçar........ capacete...... ..... .....
    Mas no fim, o prazer que isso dá, faz esquecer que afinal, andar de mota até tem esses contras....
    É lindo, pela marginal, passar cascais, fazer a estrada do guincho, as curvas do cabo da roca... voltar....
    Velho? Até poder, serei o puto mais feliz deste mundo.
    Grande abraço Amigo

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  15. Uma odisseia bem contada,
    As melhoras Carlos.

    :))

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  16. Subscribo as palavras do Toze Canaveira. Tirei a carta de mota com 39 anos 8ihh, depois de toda uma vida a suspirar quando via passar uma (primeiro o de 125 e dois anos depois o de mota grande, porque a pequena já não dava para tanto horizonte que tinha à frente) e não sei viver sem ela: é a minha felicidade pura, e mais com um pormenor: uso óculos que engadir (tira óculos, põe capacete, põe óculos...). E assim, eu também, até poder...

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  17. Afinal eu tive mais sorte, Sun.
    Foi "logo" aos 32 que comprei a minha 1ª mota. Uma GSXR 600, contra todos os conselhos, opiniões e avisos. Em boa hora fiz "orelhas moucas".
    E se o Carlos já começa a ter dificuldade em dizer "até à proxima", eu vou dizendo, "boas curvas". Ainda por cima, tem mais hipoteses de interpreração... eh eh

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  18. Os onze minutos de Paulo Coêlho é um plágio barato dos Sete minutos de J.Jadway, onde a figura principal não era uma prostituta barata.Assim como existem CD pirata, há livros também.
    Dele há outros plágios:O Monte Cinco, O Mago etc.Evite-os.

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