Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Numa cidade sem carros

Estávamos no último fim de semana de Agosto. Sentado no sofá da sala, Frederico ia folheando o jornal sem entusiasmo, quando deparou com a notícia de que o dia 22 de Setembro seria o Dia Europeu sem Carros. À memória, acorreu-lhe um artigo onde se enumeravam os perigos do monóxido de carbono,- substância libertada pelos automóveis que contribui para o aumento da poluição urbana e é responsável por inúmeras doenças cardiovasculares e respiratórias.
Mas Frederico não é pessoa que se deixe convencer com facilidade, principalmente quando em causa está a sua comodidade. Afinal, de que serve não andar um dia de carro, para além de causar graves transtornos a quem o utiliza como ferramenta de trabalho.?-pensou.
É claro que esse não é o seu caso, pois sai de manhã para o emprego e só deixa o escritório ao fim do dia para regressar a casa. Poderia facilmente fazer o percurso de metropolitano, bastando-lhe para tal andar uma escassa centena de metros a pé, mas Frederico sofre da síndrome de “ carrodependência” e considera os transportes públicos insuportáveis, preferindo gastar mais de uma hora por dia em longas filas de trânsito, a fazer o trajecto entre a casa e o escritório de forma mais rápida e confortável.
Quando à hora do jantar se foi encontrar com Matilde logo puxou para tema de conversa a iniciativa do Dia Europeu sem Carros que, sem delongas, rotulou de demagógica e inútil.Foi com surpresa que constatou ser Matilde uma acérrima defensora da iniciativa, pois embora aquela com quem cada vez mais pensava vir a unir o seu destino sempre se deslocasse para o trabalho em transportes públicos, fora levado a pensar que o fazia por questões económicas e não por pura convicção.
Foi , por isso, com a boca meia aberta que ouviu Matilde defender a ideia de que o acesso automóvel às grandes cidades deveria ser condicionado, alvitrando mesmo a hipótese de que em Lisboa se seguisse o exemplo de outras cidades europeias, como Londres, Roma ou Estocolmo, onde quem quiser entrar de carro é obrigado a pagar portagem.Frederico lembrava-se vagamente de ter lido alguma coisa sobre o assunto e, com ar conhecedor acrescentou:
- Pois, na Noruega também se passa uma coisa semelhante: os carros para entrarem nas cidades pagam uma portagem, que é tanto menor, quanto maior for o número de passageiros, mas isso são países civilizados que nada têm a ver connosco!
Ao ouvir as palavras de Frederico, Matilde quase se engasgava... de raiva!
-Então achas que Portugal, um País que já foi o melhor aluno da União Europeia, que se tem desenvolvido em termos económicos de forma considerável, não deve também progredir em termos civilizacionais? Não te esqueças que durante o Verão a poluição nas nossas cidades passa frequentemente os valores admissíveis e em Lisboa, só no ano passado, foram 261 as vezes em que esse limite foi ultrapassado!
- Está, bem, está bem,! Mas não seria melhor, então, discutirmos a vida nas cidades, em vez de andarmos com este folclore todo? E não me digas que os automóveis são os culpados de todos os males que afectam a vida nas cidades... ou estarei eu, sem saber, a falar com uma fundamentalista?
- Não me venhas com chavões! Claro que não sou fundamentalista, mas também não sou ignorante e preocupo-me com os problemas que afectam o nosso Planeta. Sei perfeitamente que é preciso repensar a vida nas cidades, mas também não ignoro que o automóvel, enquanto erigido a objecto imprescindível se tornou um problema e um obstáculo à melhoria da qualidade de vida urbana. Por isso acho que esta iniciativa do Dia Europeu sem Carros, se não tiver outro mérito, tem pelo menos o de levar as pessoas a pensar a sua relação com o automóvel. E acredito que todos os anos há mais pessoas a deixarem o carro em casa e a optarem pelos transportes públicos, porque pelo menos um dia pararam para pensar. Ou julgas que todos são insensíveis e comodistas como tu, que não dispensas o carro, apesar de teres uma estação de metro a cem metros de casa e outra à porta do escritório?
- Pronto, eu prometo que vou pensar no assunto. Mas agora vamos embora, tomar um copo, que já estou farto de estar sentado...
- Ah estás? Então espero que não te queiras levantar daqui para te meteres no carro até ao sítio onde vamos tomar um copo e depois alapares-te outra vez!...-
-....
- Pois, eu logo vi! Mas olha, hoje eu não vou nessa... Se queres ir beber um copo, vamos a pé!
E foi assim que Matilde e Frederico passaram a dispensar o carro na maioria das suas saídas nocturnas. Agora passeiam os dois de mão dada à beira rio depois do jantar, param para tomar um copo e ao fim da noite apanham um táxi para regressar a casa. E, para surpresa de todos, Frederico tornou-se num dos maiores animadores da empresa para criar programas alternativos no Dia Europeu Sem Carros. E promete iniciativas de grande animação para a cidade. Palavra de Frederico!...

18 comentários:

  1. Bom dia, Carlos

    Mas não é mesmo uma pena que nem todos os Fredericos tenham a seu lado uma Matilde para convencê-los a deixar o carro na garagem?

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  2. Oi Carlos, passando pra lhe deixar um alô. Pois é, seu post evidencia bem o que é o poder do bom argumento hehehe. Há sempre um caminho para conseguir a adesão de alguém para nossas causas. Resta-nos descobri-lo e percorrê-lo, quando sentimos valer a pena. Beijo meu, Veroca

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  3. Antes de vir morar aqui eu era adepta fiel do transporte público. Mas morando longe de tudo, quase que no meio do mato, o automóvel faz-se indispensável, ainda por cima pq sou um desastre na bicicleta desde garotinha.Se procurar bem ainda acho umas marcas das experiências mal sucedidas impressas em meus joelhos e cotovelos.E justamente meus joelhos hoje não me permitem muitas extravagâncias.
    Mas dentro da minha necessidade de utilizar o carro, tento sempre compartilhar as indas e vindas com outras pessoas que estejam indo para o mesmo lugar.É pouca a minha contribuição, mas é consciente :o)

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  4. O verdadeiro sucessor do Fred Flintstone ... este Frederico. ;D

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  5. Este dia sem carros que podia ser uma boa iniciativa está tornar-se um problema para quem trabalha.O centro da Marinha grande está uma confusão.Ideias criativas são urgentes.

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  6. Sarava!


    E essa de voltar de táxis ainda traz a mais valia de se poderem emborrachar...rsrsrsr


    beijocas

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  7. Carlos,
    É assim com Matildes que Federicos se vão modificando e aos poucos e poucos tomando consciência que cada um pode tornar este mundo sustentável.
    Um beijinho e não me esqueci de email sobre Macau! Quase juro que nos cruzamos e então no LokUn...! Mas havemos de aprofudar isso!!!

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  8. O Dia Europeu sem Carros em Portugal, só servirá para as pequenas cidades de província e mesmo assim com muito boa vontade.

    Mas onde esse Dia cai que nem ginjas é naquelas aldeias transmontanas onde as ruas são tão estreitinhas que os carros não cabem.

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  9. E as motas??
    Não são o milagre por todos esperado, mas são de certeza a solução mais equilibrada, coerente e racional.
    Mais rápido, menos poluente, gasta menos em MENOS tempo, logo também mais barato, ocupa menos espaço, etc...

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  10. Dulce: Infelizmente há muito mais Fredericos do que Matildes

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  11. Veroca: veremos se quando passar a paixão o Frederico não muda de ideias.

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  12. Turmalina: Claroq ue há situações em que o carro se torna indispensável, mas a maioria das pessoas utiliza-o apenas por comdismo

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  13. Gi: bem visto... mas já conhecia o Frederico de outras histórias aqui do CR, ou não?

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  14. Pedro. Criatividade é precisa para isso e outras coisas eventualmente até mais importantes, mas parece-me que ela não abunda neste país.

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  15. Patti: Pois, nesses locais praica-se todos os dias

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  16. TO ZE: As motas são um problema menor, mas não deixam de ser problema. Compreendo o seu fascínio, porque eu também já fui fã...

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