
(cenário: três da tarde de um sábado, num restaurante à beira-mar, na Ericeira)
Quando entrei, a “minha” mesa estava ocupada por um casal. Ao fundo, uma longa mesa de comensais ocupava a sala em toda a sua extensão. Era um daqueles grupos que, pela forma como se dispunham e pelo traje que usavam, não colocavam dúvidas em relação à sua actividade profissional. Elas, acantonadas numa ponta tomando conta de uma prole ruidosa, conversavam em tom perfeitamente audível sobre fraldas, biberões, infantários e centros comerciais. Eles, cabelo cortado nos preceitos regulamentares, alinhavam-se frente a frente, separados por garrafas de cerveja em quantidade suficiente para satisfazer um Regimento.
A contra gosto escolhi uma mesa no meio da sala de onde podia desfrutar a vista do mar .Tinha acabado de saber que não podia tomar café, porque tinha faltado a água, quando vejo um corpulento “cabeça regulamentar” abeirar-se da senhora senhora e dizer:
-“Desculpe se a respiração do meu bébé a está a incomodar!”
Olhei na direcção da janela e vi que a mulher, que ainda tivera a sorte de poder tomar café, completava a refeição tirando umas fumaças. Incomodada com a abordagem, retorquiu:
- “Não acha que há maneiras mais educadas de pedir para não fumar?”
O aspirante a cavalheiro prosseguiu:
-“ É assim que costumo falar com quem não se sabe comportar num restaurante...”
- “ E por acaso não lhe ocorreu que o barulho das suas crianças também me pode incomodar?”
- “ Não me diga que eu é que estou a mais! Por acaso até cheguei primeiro e não esperava encontrar aqui selvagens que não se sabem comportar num restaurante... ”
- “ Então tem bom remédio. A porta é por ali!”
Valentão, o macho esboçou um gesto de agredir a mulher, deixando que um forte odor a cavalo, mesclado de Lavanda, invadisse a sala. Suspendeu a viagem quando o homem, de cabelos brancos, se levantou e mostrou o seu corpanzil de um metro e noventa. Por momentos julguei que o caldo se ia entornar. Felizmente enganei-me, pois o homem limitou-se a dizer:
- “ O que a minha mulher quis dizer, é que há uma esplanada lá fora, neste restaurante não é proibido fumar e se o senhor se sente incomodado e não sabe falar educadamente, pode ir lá para fora. Percebeu, ou quer uma aula prática?”
O valentão baixou a guarda, agarrado pela mulher, que pegando-lhe no braço lhe disse com ar delicodoce a lembrar o “Calor da Noite”:
- “ Deixa lá, querido! São um casal estéril, coitados, e não gostam de crianças ... vamo-nos sentar”
A frase assassina saiu num tom de Carolina Salgado em fase de reciclagem. Mas a “madame” não a aprendeu em nenhum bar de alterne, mas sim numa daquelas sessões promovidas por milícias antitabágicas que ensinam frases como esta, ou a que abriu a altercação, para aplicar em situações em que o tabaco os esteja a incomodar.Eu próprio, quando decidi deixar de ser fumador, cheguei a frequentar algumas sessões destes “ayatollas”. Os líderes espirituais das milícias ani-tabágicas compraziam-se a debitar um conjunto de frases que denominavam como “desarmantes” , aplicáveis em diferentes situações, que eram recebidas com enorme gáudio por exércitos de seguidores embasbacados com tanta prosápia.
Quando a calma regressou ao restaurante saí , tentando fingir que acreditava que aquele grupo de provocadores afinal era apenas um bando de mercenários inaptos para qualquer outra actividade, que não seja a de agredir o próximo. Com a sua verborreia de caserna, conseguiram pelo menos estragar uma bela tarde de sol à beira mar.Belo saldo para um dia de folga, estarão esta hora a pensar, aquartelados nos seus bordéis de ódio e intolerância que lhes garante o pão de cada dia.
* post publicado em 25/09/ 2007, antes da aprovação da Lei anti-tabágica
Realmente esta história é extraordinária! :-o
ResponderEliminarHá muitos matarruanos por aí que, a coberto do respeito das leis, gostam de dar nas vistas duma forma rude...
É o povo que temos! :|
Conheço alguns militantes dessas forças anti-tabágicas, Carlos, e, por acaso, são todos ex-fumadores inveterados. Ai de quem lhes falasse nos malefícios do tabaco para a sua própria saúde. Reagiam então com a violência com que reagem hoje contra quem fuma. É curioso como nem a memória-do-que-já-fui resiste (e amansa) a fúria destes fundamentalistas. Característica dos fundamentalismos, presumo. :-)
ResponderEliminarAqui perseguiram os fumantes até que fosse PROIBIDO fumar em locais fechados, cobertos e com mais de duas paredes.Agora começaram as queixas sobre as bitucas acumuladas nas calçadas, que não possuem local para o descarte das mesmas e os fumantes não podem engulí-las. Muito menos voltar para dentro com a bituca que logo os colegas estariam reclamando do cheiro de cigarro, ou melhor, da bituca, que é bem pior. Me parece que as narinas andam mais vigilantes...
ResponderEliminarPois bem, apesar de meio segregacionista, a idéia de locais específicos para fumantes ainda é melhor saída. Evitaria confrontos como o que vc citou. Porque hoje o confronto parece ter saído de ambientes fechados para as ruas.E realmente não sei aonde estes anti-tabagistas vão parar, ainda mais com o apoio do Estado. O bom Estado que está nos protegendo, numa atitude deveras paternalista, de um dos grandes males da atualidade, enquanto nos tapa os olhos para questões mais urgentes :o(
opppsss..perdão pelo engulí-las...é que estava dificíl de engolir :o)
ResponderEliminarA Europa está a tornar-se puritana. Soube hoje que em França não pode haver programas televisivos sobre vinhos.
ResponderEliminarCarlos, para esses sitos aos sábados e no verão, correm-se enormes riscos...
ResponderEliminarQue incomodidade ...
:))
Ó Carlos desculpa mas não havia nada mais desgostoso do que eu ainda estar almoçando e já o sujeito da mesa ao lado estar soltando uma baforada em minha direção. Dentro dos aviões, então, era um martírio! Nove horas de voo e um senhor da Venezuela a fumar um cigarro atras do outro, porque eu tive a má sorte de me sentar na última fila destinada aos não fumantes, então o homem que estava atrás de mim podia intoxicar a ele e a mim, o quanto quisesse.
ResponderEliminarEducação serve para os dois segmentos: para fumantes e não.
E olha, além de ler o texto ampliei a tua foto porque a vista é maravilhosa!
E desculpa lá a brincadeira dos fogos do Funchal. Isto é inveja de quem nunca foi lá. hehehe
Não há paciência, temos que seguir o conselho, sábio, da anamar, mesmo correndo o risco de nos chamarem elitistas.
ResponderEliminarMaldonado: A actividade porofissional do povo deste postal exigia um pouco mais de tento na língua...
ResponderEliminarLuísa: Normalmente, quando se fala de tabagismo, as mulheres ex-fumadores são as piores. O seu fundamentalismo ultrapassa todos os limites
ResponderEliminarTurmalina: As bitucas aqui chamam-se "beatas", sabia?
ResponderEliminarMa o fundamentalismo em Portugal é demais! Sabe que existe uma associação que pretende que o Estado proiba as pessoas de fumarem dentro dos prédios onde vivem?
maloud: e em Inglaterra, os filmes onde houver alguma personagem a fumar, vão passar a ser classificados paar Maiores de 18! Estão bêbados!
ResponderEliminarAnamar: A cena já se passou no final de setembro, mas como o dia estava bonito, havia realmenyte muita gente.
ResponderEliminarPitanga: Eu sei que há gente mal educada que se esquece de respeitar o próximo, por falta de civismo. Nunca fumava num restaurante, se na mesa ao lado estivesse alguém a comer.
ResponderEliminarÑos aviões era diferente, porque havia zonas para fumadores e não fumadores. Eu viajava sempre em não fumadores e, depois d sevirem arefeição ia até à zona dos fumadores puxar uma passa.
Hoje em dia, quando vou jantar fora com amigos, procuramos sempre restaurantes para fumadores. Já não sou fumador, mas depois de uma bela refeição não dispenso a minha cigarilha.
Maria: Eu sei que a Anamar tem razão, mas a Ericeira é uma praia belíssima. No Verão também não vou lá muito, porque está sempre nevoeiro ou uma nortada horrível
ResponderEliminarQuero comentar os comentários(espero que o Carlos me permita a intromissão):
ResponderEliminarPitanga: eu tb ampliei a foto..hehe...
Maria: não é elitismo é a sabedoria da maturidade!
Luisa: sou ex-fumante, defendo até a última "beata" o direito dos fumantes e condeno a pressão dos fundamentalistas.
Maloud: estou impressionada, daqui à pouco nos filmes e programas televisivos deverão estar todos ajoelhados e rezando.Aí sim é o fim do mundo!
==== Fim da intromissão ===
Turmalina: Não se intromete nada, a caixa de comentários serve precisamente para quem cá vem expôr as suas posições e, no caso de o desejarem, trocar opiniões.
ResponderEliminarJá agora.... que me diz à ideia dos ingleses em relação so filmes?
Bem, qto aos filmes ingleses eu poderia chocar-me e dizer indignada que é uma barbaridade, uma tremenda ditadura de costumes. Mas se observarmos os filmes da última década vamos perceber que já não se fuma mais tanto nas telas. Se faz coisa pior, mas fumar, não! Não querendo ser puritana, o sexo e a violência banalizaram-se...e eles estão preocupados agora em impôr proibições como se esta atitude fosse ajudar a salvar a humanidade. Meu caro, existem pecados bem maiores não indicados a menores de 18 anos e olha que não estou falando de sexo.
ResponderEliminarClaro que não posso aprovar uma atitude arbitrária assim no cinema, pois abre precedentes para outras proibições.Eu tenho até medo do que virá depois, afinal o cinema tb já viveu seus anos de repressão.
Carlos
ResponderEliminarvisualizei bem o filme. é mais comum do que pensamos..
bjs
Carlos, nesta questão do tabaco não estamos de acordo. Para mim é incompreensívelmete bárbaro que alguém se lembre de fumar num restaurante com crianças e bébés. O texto foi escrito antes da lei anti-tabágica e portanto o caso hoje não seria possível. E ainda bem. Por isso é que a lei foi necessária e do meu ponto de vista, bem vinda. Quando os cidadãos não têm capacidade e civismo q.b. para se auto-regularem o estado tem obrigação de zelar pelo interesse geral.
ResponderEliminarAriel:apesar de algum fundamentalismo, que me levam a fazer algumas críticas,não estou totalmente em desacordo com a lei anti-tabágica. Precisamente pela falta de civismo dos portugueses. De qualquer modo, nada justifica as frases utilizadas neste diálogo. A minha vontade foi desferir uma série de murros no casal de idiotas militantes das brigadas anti-tabágicas. As frases "desarmantes" que utilizam tiram-lhes qualquer razão e evidenciam uma falta de respeito inadmissível. Creio que concorda comigo neste ponto...
ResponderEliminarClaro que sim. Não me debrucei na análise do diálogo, porque me parece que estiveram "bem" uns para os outros. A frase assassina dos filhos é nojenta.
ResponderEliminarSou um ex. "2 maços, fumador" e se havia coisa que me irritava era estar num restaurante e o "vizinho" do lado debitar fumo estilo "chaminé da sacor".
ResponderEliminarSempre respeitei os outros, o contrário raramente aconteceu. Concordo não ser permitido fumar em locais fechados. Se há por aí muito filho da mãe que está a borrifar-se para os outros, então pelo menos que sejam "obrigados" a fazê-lo.
Também me irrita o barulho excessivo das mesas do lado, gritos para dar nas vistas, conversas para divulgar "caganças", crianças sem lei nem ordem (se bem que este seja o mal menor, coitadas das criancinhas). Enfim, tipicamente português. Mas os espanhois também berram que se farta...
Quanto ao sexo, deixem-me só dizer que não entendo, mas respeito, o porquê de tanto pudor, ao longo dos tempos, ainda hoje, por cenas de sexo, (ou simulação).
ResponderEliminarAfinal o sexo (a par com a morte) não é a coisa mais Natural da Humanidade?
Não é assim que o Homem evolui?
O nascimento é o resultado de alguma coisa, certo?
Ou é acto divino?
Pela parte que me toca, prefiro o acto terreno.
Toze, concordo com vc, tanto que um dos melhores filmes sobre o tema que eu já assisti chama-se "ironicamente" Une Liaison Pornographique, de 1999, de Fréderic Fonteyne. Por outro lado reclamo de muitas produções que são apelativas por demais, principalmente aqui no Brasil :o)
ResponderEliminarE agora voltemos ao cigarro..rs...