Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Jerónimo "on the road"

Puxo de uma cigarrilha a seguir ao jantar e sinto-me a deslizar para fora da sala, levado pela voz de Kate Melua. Sentado no sofá ( ou estarei já a levitar?) resigno-me à minha condição de cidadão proscrito, por cometer duas vezes ao dia o pecado de fumar. Eu, que lamentava a sorte daqueles que tendo nascido nas ex-colónias tinham “gravada” no Bilhete de Identidade a sua condição de cidadãos de segunda ( ou de terceira, no caso de serem pretos), provo agora do mesmo veneno.Estava decidido a começar a elaborar uma lista telefónica dos restaurantes do País onde se pode fumar ( olha que boa ideia para abrir um negócio, jovens licenciados à procura do primeiro emprego precário neste País das Maravilhas à espera de ser envenenado com cicuta! Porque não se lembram de criar uma espécie de Páginas Amarelas ou de Roteiro com os restaurantes e bares onde se pode fumar neste País? Sejam empreendedores, vamos lá!) quando oiço as sirenes de carros da Polícia.
Regresso à Terra, já não sentado no sofá, mas com os pés na varanda. Lá em baixo há um grande ajuntamento, vozeares imperceptíveis, um grito, choros, espernear de um vulto.Não é uma cena típica do meu bairro, por isso é sem espanto que quando olho em redor vejo inúmeros rostos assomar às janelas de marquises que ocupam o lugar de varandas iguais à minha, para dar mais meia dúzia de metros a uma sala fechada. Volto a dirigir o olhar para a cena que se passa seis andares abaixo e vejo um polícia enfiar um corpo que, apesar da distância, me parece ser de um jovem. O carro arranca com a sirene a tocar e aquele pirilampo espalhando a sua luz azulada, ao ritmo de compasso.
- Não me digas que era o Jerónimo... – ouço sair de uma marquise.( O Jerónimo é um menino que escapou a ter “gravado” no seu BI cidadão de 3ª, mas que na vida não se libertou desse ferrete. É um bom menino, o Jerónimo! Toda a gente lhe conhece os bons modos, e tinha fama de ser aluno exemplar até ao momento em que o Pai se suicidou, depois de ter sido engrominado por um construtor civil sem escrúpulos que lhe roubou o salário e a fidelidade da mulher. Viviam numa casita modesta a cuja porta muita gente do meu bairro ia bater, para solicitar as habilidades do Julião, na prática do biscate.)
“ Não, não pode ser o Jerónimo” – pensei para os meus botões. Por que razão um miúdo tão afável - que apesar da desdita do pai, e de uma mãe a tentar em parte incerta cobrar com os favores do corpo as refeições de cada dia- a quem ninguém conhecia indícios de mau comportamento, ia agora preso? Tirei mais uma fumaça, tentando afastar a ideia de tal sorte e deixei deslizar o olhar pelo horizonte, acompanhando a imagem “virtual” de Jerónimo a ser conduzido aos calabouços. Já não sei em que ponto estava, quando ouço uma voz ofegante a sair de uma qualquer marquise:
- Mãe, mãe! Era o Jerónimo!
- Como é que isso é possível, filha? O que é que o miúdo fez?
- Mãe, o Jerónimo andava metido na droga.
- Estás maluca! Onde é que ele tinha dinheiro para isso?
- “Eles caçaram-no” Mãe! Depois obrigavam-no a roubar carros e coisas assim. A gente já suspeitava que ele ‘tivesse metido em alhadas. ‘tava a assaltar a mercearia do sr. Casimiro com mais dois, mas os outros fugiram e ele veio tentar esconder-se nas obras do prédio aqui ao lado, mas alguém viu tudo e chamou a polícia ...
- Coitado do Jerónimo. Queres um chazinho para acalmar, minha filha?
- Não Mãe, quero ir à esquadra saber do Jerónimo!
- Estás completamente doida! Que é que vão pensar na esquadra se apareces lá a perguntar por um preto? Se calhar ainda julgam que também andas metida nisso. Não andas, pois não, minha filha? Ai meu Deus, para o que te havia de dar, querer ir agora atrás do Jerónimo. Anda mas é deitar-te, filhinha, que a Mãe faz-te um chazinho para acalmares.
Volto para dentro de casa .Na pantalha, a RTP anuncia o regresso de “Quem quer ser Milionário?”

14 comentários:

  1. Aqui o negro, ou o preto como vcs dizem, é sempre associado à violência, furtos e drogas.
    Muito pessoalmente luto contra o preconceito por ter um filho negro, ou como dizem algumas tias mais conservadoras: "douradinho". Detesto qdo tentam branqueá-lo.
    Fui buscá-lo na maternidade, aos 15 dias de vida e o primeiro médico que o examinou me perguntou:
    - Vc tem certeza que quer ficar com ele? Ainda dá tempo de devolver...pq ele vai ficar meio "passadinho".
    Eu demorei para entender o que ele me dizia e tive vontade de responder-lhe que passadinha era a avó dele, embora não a conhecesse. Foi melhor eu não ter dito nada mesmo. Me levantei, disse somente um Passar Bem e nunca mais voltei.
    Poderia ficar dias escrevendo aqui o que é ser mãe branca de um menino negro e todo a discriminação velada que ele sofre.Principalmente no ambiente escolar. As pessoas só se sentem intimidadas qdo eu entro na história. E nessas horas, munida de muito argumento, confesso que bato sem piedade. E agradeço à minha mãe ter me ensinado a ser uma moça fina com luvas de pelica. Aqui claramente as pessoas ainda acreditam que algumas raças são inferiores. Eu é que me sinto inferior à grandeza de uma raça tão marginalizada. Só para terminar, qdo ele tinha aproximadamente dois anos e minhas cunhadas estavam grávidas, minha sogra me perguntou:
    - Quando é que vc vai fazer um tratamento e ter um filho realmente seu?
    Outro ponto utópico: a evolução da humanidade :o)
    Me desculpe ter fugido um pouco do tema,só prá variar, mas é que ele me fala diretamente ao coração!

    ResponderEliminar
  2. A perversidade dos preconceitos a coarctar os gestos de solidariedade. Que retrato duro deste nosso mundo nós dás com a tua excelente história!

    ResponderEliminar
  3. teias que a vida tece... e que a sua narrativa nos deixa embalar.
    :))

    ResponderEliminar
  4. Que texto tão bonito... até um certo momento pensava eu que estava a falar do Jerónimo, dirigente do PC, talvez levada pelo título - "...on The Road" e também por não saber nada do seu passado...Carlos, gostei - disse-me muito.

    ResponderEliminar
  5. 'Tem certos dias
    Em que eu penso em minha gente
    E sinto assim
    Todo o meu peito se apertar
    Porque parece
    Que acontece de repente
    Como um desejo de eu viver
    Sem me notar
    Igual a tudo
    Quando eu passo no subúrbio
    Eu muito bem
    Vindo de trem de algum lugar
    E aí me dá
    Como uma inveja dessa gente
    Que vai em frente
    Sem nem ter com quem contar'
    (do Chico Buarque - Gente Humilde)
    ...

    Abraço, Carlos

    ResponderEliminar
  6. Infelizmente uma realidade!
    Um beijo desta "branca de segunda". ;D

    ResponderEliminar
  7. Estas histórias, Carlos... o mundo é um desatino.

    ResponderEliminar
  8. O que vale é que há por aí Jerónimos a quem lhes saiu a sorte grande e, acredito, que há pelo menos um que será milionário. ;)

    ResponderEliminar
  9. Turmalina: Este seu testemunho é impressionante e aplicável a Portugal. Valia bem um post!

    ResponderEliminar
  10. Justine: Por vezes custa acreditar que vivemos em democracia há 35 anos, não é?

    ResponderEliminar
  11. Pior do que qualquer preconceito é quando se tem alguém como amigo, e que na altura do "aperto" lhes vira as costas.

    ResponderEliminar
  12. Bonito texto e com uma grande mensagem, porque nos mostra a hipocrisia das pessoas.
    Ainda que o Jerónimo não fosse preto, basta-lhe a circunstância de ter sido levado pela polícia para logo ser ignorado. E esta mãe esqueceu completamente que são os seus próprios actos que mais educam a filha. E solidariedade não foi exemplo que tenha dado.

    ResponderEliminar