
Vi-te hoje na Versailles. Estavas sentada diante de uma chávena de café, com o olhar distante de quem procura ontens no dia de amanhã. Inerte, como se tivesses parado naquela posição desde o dia em que te vi pela última vez, há quase 20 anos. Entre as mãos tinhas um cigarro apagado, em posição de desafio, mas no teu olhar já não existia a expressão lutadora de outros tempos.
Aproximei-me.
O cigarro começou a rolar entre os teus dedos, como se num momento eu tivesse accionado um interruptor que te trouxe de volta à vida.
Sorri.
Devolveste-me um sorriso apagado e estendeste a face para que te beijasse.
Obedeci.
Arrastaste enfim a voz num esforço perceptível. Há quanto tempo!
Sim, há quanto tempo...
Perguntei por ti.
Respondeste-me em palavras enroladas nos sedativos que te mantêm agarrada à vida.
Perguntei por ele.
Deixaste o olhar fugir na procura de uma resposta que te escapou por entre os dedos, no momento em que deixaste cair o cigarro apagado sobre a mesa.
Mudei de assunto.
Tocaste-me na mão ao de leve e pediste para me sentar.
Obedeci, como nos tempos em que éramos apenas um. Passaste-me os dedos pela face como que a querer fazer-me a barba com as costas da mão.
Continuas charmoso.
Silêncio...
Bom, tenho de ir embora.
Pois, tiveste sempre de partir...
Dei-te um beijo de despedida.
Agarraste a minha mão num quase pedido de socorro.
Desprendi-me e levantei-me. Da porta lancei-te um último aceno.
O cigarro voltara a bailar entre os teus dedos, como a substituir a mão que eu te negara.
Saí. Respirei fundo. Que teria sido de mim se não me tivesse libertado de ti?
No cérebro soaram fortes os acordes.« Je vais et je viens, entre tes reins »
E tu :« Tu es la vague, moi l’île nue»
E eu outra vez:«L’amour physique est sans issue»
*Post publicado em 19 de Junho de 2008
12 comentários:
Carlos! Que lindo! Mais não digo...
Deixas--me levar isto lá para o meu Rosmaninho?
UAULLLLLLL! Carlos, sem palavras, digo, já vi esta cena antes e você a descreveu com perfeição.
" Saí. Respirei fundo. Que teria sido de mim se não me tivesse libertado de ti?
Esta frase é a síntese de uma reflexão inevitável e torturante, não é mesmo? Não há como saber, só rogo que um dia, na hora chegada a hora do balanço, possa me convencer de que valeu a pena a alforria auto concedida.
Gosto daqui. Beijos meus
Gaita, que me calaste...
Ufa...essa é umas piores situações que podemos re)viver nas relações amorosas...só é pior quando o amor físico grita mais alto, principalmente depois de 20 anos, quando vc imagina que o amor, agora não o físico, já não exista mais...
Já o lera no seu momento, mas continua a comover na mesma, Carlos.
È preciso coragem para negar ser a tábua de salvação de quem só se lembra de nós quando está prestes afundar
Só mais tarde nos apercebemos que foi melhor assim, nem que sejam passados 20anos
Boa pergunta:Que teria sido de mim se não me tivesse libertado de ti?
Será um "What if" da sua vida?
Odeio What ifs...
Beijinhos
Que passagem...Realmente há alturas em que temos de ser fortes e dizer não, por muito que nos custe.
Esta ideia de recuperar textos antigos faz bem a quem os escreveu e a quem os lê ou re-lê.
abraço
Que texto tocante, cruel e terno ao mesmo tempo, nostálgico que baste para me obrigar a recuar e recordar alguns momentos esquecidos(ou não...)
Muito belo.
Eu volto à refletir sobre esse texto...e penso que algumas escolhas na vida são realmente necessárias, utilizando-se o bom senso, porque existem amores que nos são mesmo nocivos.E é preciso muita maturidade prá te afastar daquilo que te atrai, mesmo que não seja tão nocivo assim :o)
Eu sei que este texto ainda vai ficar latejando na minha cabeça por uns dias, mas enfim este é o sentido de um texto bem escrito...
Carlos,
Conseguiu que eu "entrasse" na cena toda e saisse dela com uma sensação de tristeza por pensar os erros que por vezes se podem cometer...
Quem não teve uma história assim?
Beijinho
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