
“ Não se me dá que vindimem
Vinhas que eu já vindimei,
Não se me dá que outros logrem
Amores que eu já rejeitei”
( Cântico popular)
As vindimas constituem, no meu imaginário, a referência do Outono. Quando Setembro se aproximava do final, íamos para a quinta “fazer as vindimas” e isso significava que as férias estavam a chegar ao fim.Terminei essa vivência, quando tive de procurar outras paragens para estudar. Em Inglaterra as aulas começavam cedo, não me permitindo participar naquele ritual adventista do “regresso às aulas”.
Ainda hoje recordo, com alguma saudade, alguns cânticos que acompanhavam a azáfama da “colheita” e os olhos verde água da Emília, moçoila minhota por quem me embeicei um ano e que desapareceu da minha vida para sempre, depois de um beijo de despedida no último dia da faina. Ao longo dos anos sempre associei as vindimas ao Alto Douro, aos cânticos dolentes, ao fim do verão e, claro, ao beijo inesperado e furtivo da Emília.
Hoje, uma pequena notícia de jornal devolveu-me estas recordações e deixou-me com um ligeiro amargo de boca. A Real Companhia Velha está a utilizar uma máquina para fazer a vindima, prescindindo dos trabalhadores sazonais que se dedicavam à tarefa.Os cânticos cadenciados acompanhando os movimentos de vai-vem dos “jornaleiros” enquanto esmagavam as uvas estão a ser substituídos pelo ronronar monocórdico de uma máquina.
Acabou-se a festa das vindimas.
* Post publicado em 7/10/2007
Havia uma canção que dizia " recordar é viver "; também, acrescento eu.
ResponderEliminarMais um texto excelente, poético, revelador da sua sensibilidade. Partilho da sua memória das "Vidimas" e como já não é como dantes, também, com saudade - ficou nos "sentidos".
ResponderEliminarMinha mãe contava sobre as vindimas, com os olhos cheios de saudades e na voz a doçura de quem fala de amor...
ResponderEliminarE essas coisas que me lembram minha mãe, sempre me comovem, como um texto que a Ná publicou outro dia sobre as mulheres do Minho e era como se descrevesse minha mãe. Gosto muito quando isso acontece porque a sinto perto de mim.
Obrigada
No meu caso constituem, no meu imaginário, dores nas costas. ;)
ResponderEliminarMas digamos que nem tudo foi mau. Também fui feliz nas vindimas. :)
Que saudades eu tenho da vindima!
ResponderEliminartambém tenho saudades da vindima, um ritual na família.
ResponderEliminarEstou a ver me no tanque a pisar uvas e a acompanhar as pessoas que iam a casa dos meus avós fazer a aguardente, pois era o único alambique lá da terra.
Á memória não me vem um vinho tão bom como o seu, mas a água pé do meu avô...
A região da Figueira também não é boa cêpa....
:))
É a ditadura da máquina sobre o homem...
ResponderEliminarPS: Quando puderes, passa pelo meu canto sff, pois tenho algo para ti. ;)
Já participei de vindimas, acreditas? Todas na Beira Alta. Nenhuma pros lados do Porto. É bonito de se ver e gostoso de fazer. Já a arranca das batatas, livra!
ResponderEliminarboa noite, Carlos
Eu não consigo imaginar como sejam as vindimas...tenho uma vaga noção...
ResponderEliminarTambém tenho muito que contar sobre os tempos em que ajudei a vindimar as vinhas do meu avô. O meu texto está agora na fase da fermentação.
ResponderEliminarAbraço
:) Percebo-o, Carlos. Mas a festa ianda não acabou.
ResponderEliminarNo Douro (pelo menos lá sei que sim) há quintas que promovem a vindima, principalmente o pisar da uva pelo pé, para que os turistas participem. Cantam a tarde toda, mergulhados naquelas tinas e é uma animação.