Ainda que toda a vida tenha sido um profissional exemplar, ninguém está livre de um dia ver aparecer-lhe pela frente um qualquer idiota que o olha de alto a baixo e sentencia:- Você está velho. Porque é que não se reforma?
Exemplos destes não faltam na administração pública. Uma "plêiade" de jovens , resguardados na força de um cartão partidário da jota rosa, laranja, ou azul e amarela que miraculosamente lhes confere a competência para dirigir qualquer estaminé, onde apenas procuram protagonismo político, sentencia amiúde a reforma antecipada de pessoas que muito tinham ainda para dar na sua vida profissional.
Foi o que aconteceu com Ruy de Carvalho, esse actor de excelência que um qualquer director do Teatro Nacional D. Maria II mandou para casa por ser “velho e reformado”. Contrariando a profecia, Ruy de Carvalho voltou ontem, aos 82 anos, ao palco do D. Maria II, integrando o elenco da peça “O Camareiro” . O convite partiu de Diogo Morgado, um jovem que soube reconhecer o valor de um “velho” com idade para ser seu avô. São exemplos destes que me permitem acreditar nos jovens. Nem todos crescem à sombra de partidos que os desumanizam e transformam em imbecis inúteis.
* Quando era miúdo fui ver, levado pela mão dos meus pais, a peça “As árvores morrem de pé”. Tinha apenas 14 ou 15 anos, foi a relação de amizade entre minha mãe e Vasco Morgado que me permitiu ver essa maravilhosa interpretação de Palmira Bastos, então com 90 anos. Nunca mais esqueci a cena magistral que fazia a plateia levantar-se num aplauso tremendo, capaz de fazer vir abaixo o teatro Monumental. Aquela estatura meã e aparentemente frágil de Palmira Bastos, batendo vigorosamente com a bengala e sentenciando de forma loquaz: “Morta por dentro, mas de pé. De pé, como as árvores!”
E que enorme actor ele é!
ResponderEliminarEste país não é para velhos.
ResponderEliminarAinda bem que há gente que quer contrariar essa situação.o Ruy de Carvaklho é um SENHOR e merece o respeito do País, e isso é deixar que faça o que ama, ou seja, teatro.
Belo post , Carlos! Ternurento e sério como o artista citado...
ResponderEliminarBom vê-lo de volta por mão coerente e séria, que é o que cada vez mais encontro em gente nova...
Quanto Sr. D. Palmira, via -a na dita peça, pela TV, e chorei muito, e marcou-me para sempre...
Bfs
È verdade, ainda ontem estava a ver o cartaz das artes na sic e comentei os seus belos 82 anos.
ResponderEliminarTomara a muitos...mas ainda bem que há quem reconhece o valor onde ele continua a existir.
O actor Ruy de Carvalho foi certamente reformado como funcionario publico que era no teatro nacional .Nunca deixou de trabalhar , tem sido presença permanente na televisão , fez que me lembre teatro noutras salas.A idade da reforma que é imposta é muito discutivel ,princpalmente quando o trabalho é intelectual .
ResponderEliminarTenho pena de recordar este ponto ,mas o actor Ruy de Carvalho apenas foi reformado da função publica.
Não sou nada piegas... mas com este teu artigo vieram-me as lágrimas aos olhos!!!
ResponderEliminarEu também fui ver, quando era miúda, a peça “As árvores morrem de pé”, também levada pela mão dos meus pais. Penso mesmo, que ainda não tinha 14 anos. Nunca mais me esqueci dessa fantástica noite de teatro e continua a ser uma das minhas peças preferidas.
“Morta por dentro, mas de pé. De pé, como as árvores!” Com esta frase, a minha mãe esqueceu-se da pintura dos olhos, tirou um lencinho da carteira e limpou as lágrimas, que lhe corriam pelas faces. Não chorei, mas decidi nesse momento ser dramaturga. Quando cheguei ao Porto repeti essa frase para a minha melhor amiga meses seguidos.
Vendia a minha alma ao diabo para voltar atrás no tempo e viver essa noite mais uma vez.
Annie: Não deixou de trabalhar, é certo, mas o Teatro Nacional devia tê-lo respeitado mais e deixá-lo fazer mais teatro, que é aquilo que ele verdadeiramente gosta.
ResponderEliminarÉ verdade que "apenas" foi reformado da função pública, mas a maneira como o "expulsaram" foi ignóbil. E um dia destes, quando ele morrer, lá virão os elogios post mortem. Acho muita hipocrisia.
Confesso que nem sabia que ele entrava em telenovelas...
Ematejoca: eu também não consegui reprimir as lágrimas no final da peça, o que me deixou em estado de fúria, porque ainda sou do tempo em que "Um homem não chora" e vi naquilo um sinal de fraqueza.
ResponderEliminarNão venderia a minha alma ao diabo, mas gostaria de viver essa noite outra vez. Desde que não fosse obrigado a passar novamente por algumas agruras que a Fortuna me foi reservando ao longo da vida...
Pelo menos aqui temos uma triste história com um desenvolvimento feliz.
ResponderEliminarEstive a ver, há 2/3 dias, uma reportagem com o ensaio.
Ele ainda se movimenta fantasticamente.
Caro Carlos tem um prémio no meu espaço que pode ser reclamado a qualquer altura.
ResponderEliminar1 abraço
Também vi a peça As árvores morrem de pé", mas no Teatro Nacional D. Maria. 1973? Memorável.
ResponderEliminarE a sua descrição encheu-me de ternura...
ResponderEliminarbom fim de semana
Carlos, o mal dele foi não ter trabalhado na Rebelde ou no Morangos com Açúcar! É assim que é, meu amigo!
ResponderEliminarArrepia só imaginar! Quantos, numa sociedade torculenta, poderão dizer isso? Quantos?
ResponderEliminarAchei o post tão lindo que nem pensei em comentá-lo.Fui refletir e acabei escrevendo um pequeno, bem pequeno, post dele... e continuo refletindo...rs....
ResponderEliminarLacoste: Obrigado pela simpatia. Já fui ver e, embora já me tenha sido atribído por outros leitores do Rochedo, fico muito sensibilizado e grato pela sua lembrança.
ResponderEliminarAriel: eu vi mais cedo e no Monumental.
ResponderEliminarainda hoje o Herman declama na brincadeira essa parte da peça.
ResponderEliminarPermitam-me esclarecer que "As Árvores Morrem de Pé", nunca estiveremr em cena no Teatro Monumental.
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