quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Je t'aime. Moi non plus?


Vi-te hoje na Versailles. Estavas sentada diante de uma chávena de café, com o olhar distante de quem procura ontens no dia de amanhã. Inerte, como se tivesses parado naquela posição desde o dia em que te vi pela última vez, há quase 20 anos. Entre as mãos tinhas um cigarro apagado, em posição de desafio, mas no teu olhar já não existia a expressão lutadora de outros tempos.
Aproximei-me.
O cigarro começou a rolar entre os teus dedos, como se num momento eu tivesse accionado um interruptor que te trouxe de volta à vida.
Sorri.
Devolveste-me um sorriso apagado e estendeste a face para que te beijasse.
Obedeci.
Arrastaste enfim a voz num esforço perceptível. Há quanto tempo!
Sim, há quanto tempo...
Perguntei por ti.
Respondeste-me em palavras enroladas nos sedativos que te mantêm agarrada à vida.
Perguntei por ele.
Deixaste o olhar fugir na procura de uma resposta que te escapou por entre os dedos, no momento em que deixaste cair o cigarro apagado sobre a mesa.
Mudei de assunto.
Tocaste-me na mão ao de leve e pediste para me sentar.
Obedeci, como nos tempos em que éramos apenas um. Passaste-me os dedos pela face como que a querer fazer-me a barba com as costas da mão.
Continuas charmoso.
Silêncio...
Bom, tenho de ir embora.
Pois, tiveste sempre de partir...
Dei-te um beijo de despedida.
Agarraste a minha mão num quase pedido de socorro.
Desprendi-me e levantei-me. Da porta lancei-te um último aceno.
O cigarro voltara a bailar entre os teus dedos, como a substituir a mão que eu te negara.
Saí. Respirei fundo. Que teria sido de mim se não me tivesse libertado de ti?
No cérebro soaram fortes os acordes.« Je vais et je viens, entre tes reins »
E tu :« Tu es la vague, moi l’île nue»
E eu outra vez:«L’amour physique est sans issue»
*Post publicado em 19 de Junho de 2008

Onze minutos ( 2ª parte)

Quando ontem escolhi o post "Onze Minutos", estava longe de imaginar que o seu significado poderia ser muito mais abrangente. Onze minutos foi a duração do discurso do PR, cujas consequências podem incendiar o país.
Ler mais aqui

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Parabéns a uma amiga especial

Gostaria de estar aí hoje a dar-te um beijinho de parabéns, ao pé da casa do teu pai, mas há muito mar a separar-nos e as viagens de avião são caras.
Quero que saibas que tenho saudades tuas. Converso muitas vezes contigo, tenho várias fotografias tuas espalhadas pela casa, mas o meu desejo hoje era mesmo dar-te dois beijinhos repenicados nessas bochechas e tirar uma fotografia ao teu lado.
Finalmente fizeram-te justiça e ergueram-te uma estátua. Bem a mereces. Sempre apreciei a tua inteligência, o teu humor, a tua assertividade e a tua faceta verrinosa. Não gostas de sopa? Mas como é que uma contestatária pode gostar de sopa? Seria tão contraditório como a MFL elogiar o Sócrates!
Contigo aprendi que o humor pode ser educativo e útil na denúncia das injustiças do mundo. Sabes, melhor do que eu, que muitos dos que se riem com as tuas histórias, se comportam como alguns dos teus amigos. Há cada vez mais Manelinhos obcecados pelo dinheiro que acreditam que o bem estar no mundo depende dos bancos e de paióis bem equipados, que garantam a democracia à força. Uma democracia bem temperada com exploração dos trabalhadores, uma justiça que perdoa os banqueiros corruptos e persegue os pilha-galinhas e onde os grandes empresários constroem as suas fortunas à custa da exploração de quem trabalha.
Tiveste sorte. Se tivesses nascido nesta década, terias provavelmente acabado colada a um electrodoméstico , a fazer publicidade ao MEO, a incentivar os jovens ao consumo de marijuana, ou como comentadora política num qualquer canal de televisão. Escapaste de boa!
Também tiveste sorte por não nascer em Portugal. Não foste militante do MRPP, nem correste o risco de acabar em Bruxelas a fazer companhia ao Durão Barroso. Assim, aos 45 anos, continuas “firme e hirta” na recusa do mundo tal como ele é, como diz o nosso amigo Umberto Eco.
Por isso não cairás na tentação de posar nua para a “Playboy” portuguesa, depois de fazeres um implante mamário e um "lifting", resistirás a participar no episódio nº 153467 dos “Morangos com Açúcar”, não andarás atrás dos colunistas sociais para te tirarem uma fotografia na companhia do Cristiano Ronaldo e escaparás à devassa do jornalismo de investigação da Manuela Moura Guedes.
Continuo a gostar muito de ti e, no dia do teu aniversário, quero enviar-te um grande beijo de agradecimento pela companhia que me tens feito ao longo da vida. Dá também um grande abraço ao teu pai e amigo Quino que sempre soube cuidar tão bem de ti.
Obrigado, querida Mafalda. Que tenhas um aniversário muito feliz. Até daqui a umas semanas, aí em Buenos Aires.

"Onze minutos"


Não, não vou falar daquele livro do Paulo Coelho em que a protagonista é uma miúda que foi para Genève, porque acreditava que ganhar a vida na horizontal entre um abrir e fechar de pernas era “fixe”.

O título deste post reproduz um facto real, que ocorre na minha vida, e por vezes me provoca mais incómodos e transtornos do que à protagonista de Paulo Coelho, que ganha a vida em Genéve entre um bar de alterne e quartos de pensões esconsas. ( Se lerem até ao fim, verão que a minha estória, tem um final feliz...)Acreditem ou não, onze minutos é o tempo que dura a viagem de metropolitano entre minha casa e o meu gabinete de trabalho. O tempo exacto que demora Maria ( na versão de Paulo Coelho) a abrir e fechar as pernas, a troco de umas centenas de francos suíços.

Nesse tempo que dura a minha viagem - cronometrei várias vezes e deu sempre certo- não ganho um chavo ( isso fica para os ceguinhos que andam a pedir esmola entre ladainhas e toques de acordeão, ou para crianças-mendigas acompanhadas de cãezinhos amestrados) , mas passo momentos tão desagradáveis como os da Maria. Não levo com nenhum gajo em cima a arfar , é certo, mas ...ouço conversas indiscretas; aturo telemóveis a tocar; levo com jovens generosos que colocam os i-pod nos ouvidos em altos berros, para que os vizinhos possam partilhar a sua música; senhoras com carteiras gigantescas que a meio da viagem decidem procurar um qualquer objecto no meio da bagunçada que deve ser aquele espaço; jovens de mochila às costas que se esquecem que não viajam sozinhos e a cada movimento que fazem atingem o vizinho; crianças romenas ranhosas a pedir esmola; crianças portuguesas a fazer birras, perante o ar complacente das mamãs; ucranianas de decotes generosos e saias justas a fazer lembrar a Maria; sovacos suados a pedir uns esguichos de desodorizante... enfim, uma parafernália de protagonistas que confundem uma viagem de metropolitano com o sofá da sala, onde se esparramam diante do televisor a ver um filme, enquanto comem pipocas e libertam fluidos.

No verão, quando pernoito em Lisboa, costumo fazer o trajecto a pé, mas hoje estava atrasado para mais uma daquelas sessões do Portugal Sentado* e por isso vim de metro. A viagem começou mal. Logo na Quinta das Conchas, senta-se ao meu lado um fulano, na casa dos 50 e muitos , artilhado com i-pod de onde saía, em doses generosas de decibéis, música dos MetalliKa!!! Em pé, junto a mim, um jovem ouvia música que não consegui identificar. Levantei os olhos do jornal, na busca de um lugar mais sossegado. Reparei que vários jovens iam de auscultadores enfiados nos ouvidos, outros faziam exercícios físicos, ginasticando os dedos em teclas de telemóveis e outros acumulavam as duas funções. Havia também gente com olhar distante e algumas jovens lendo livros.Fiquei onde estava. Entre o Campo Grande e Entre Campos, começou o recital dos telemóveis a tocar. Fim de concentração na leitura. Senhoras a remexer nas carteiras à procura do aparelho e, depois, as conversas. Uma senhora dizia em altos berros ( para a filha, presumo) o que devia fazer para o almoço; outra, mesmo em frente a mim, telefonava para a empresa a dizer que estava atrasada, porque a camioneta que a devia ter trazido até ao Campo Grande avariara; um jovem mandava beijinhos sonoros ( presumo que à namorada, mas nos tempos que correm nunca se sabe...); outro, nervoso, anunciava à mãe que ia ter com ela ao local de trabalho porque “20 euros para almoçar e ir ao cinema não dá para nada, mãe!”.Já em Entre Campos o ceguinho - que pessoa amiga afiança ter encontrado a passar férias no ALLGARVE- irrompeu pela minha carruagem na sua lenga-lenga quase milenar. A escassos metros, seguia uma velhota, que conheço há anos, exibindo uma receita. Pede, também há anos, que os passageiros comparticipem em despesas que deveriam ser suportadas pelo Estado.

Chegámos finalmente ao Saldanha. Já não posso mais...Estou na fila para passar a cancela onde devo colocar o passe a oscular a célula fotoelectrica . Vai chegar a minha vez. O Portugal Sentado* espera por mim. À minha frente só há uma senhora. De súbito, uma “murraça” no olho direito. A senhora à minha frente trazia o seu passe na carteira e, para o ir buscar, lançou inadvertidamente a carteira para trás, levando uma daquelas peças metálicas a atingir-me com violência.

É então que me lembro dos “Onze Minutos”. Fico na dúvida. Afinal, Maria é capaz de ter razão. Aguentar cenas destas todos os dias, e ainda ter de pagar por cima, é capaz de ser mais doloroso do que apanhar com um gajo em cima a arfar, a troco de umas centenas de francos suíços.Garanto que não vou tirar a prova, mas que fiquei a pensar na Maria, lá isso fiquei.
O olho direito, infllamado, ainda me dói! A imagem de aflição da senhora e os sucessivos pedidos de desculpas, não me aliviam a dor.Logo à noite, quando for jantar com ela, talvez a dor passe...* Para quem não saiba o que é o Portugal Sentado: ler aqui e aqui

* Post publcado em 26 de Junho de 2008

Sugestão do dia

A Terceira Noite

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Há razão para festejos?

A resposta aqui

Angústia para o jantar

São quase quatro horas da tarde. Arrumo os meus parcos haveres e espero a chegada dos Serviços de Apoio à Emigração. Estive toda a manhã a reflectir na previsão de MFL: "se o PS ganhar as eleições acaba o país". Não sei a que horas acaba, mas já escolhi a minha nova nacionalidade. Espero que cada um possa optar livremente. Estou angustiado. Espero que MFL não escolha a minha e seja a primeira a desaparecer pela fronteira da insensatez, por onde os néscios se vão escapulir. Acredito que todos optem por ser apátridas, embora admita que hoje, na hora de tomar chá na companhia de Cavaco, ou do grupo de amigas com que habitualmente se reúne para se exercitar na nobre arte do mexerico,discutam a possibilidade de se tornarem ingleses. Pesoalmente, preferia que fossem para a Islândia...ou para o Alasca. Agora que a lufada de ar fresco abandonou o cargo, seria uma óptima escolha.

Na hora do rescaldo

Deixarei para mais tarde uma análise mais pormenorizada ( no Delito de Opinião) sobre o futuro que antevejo face aos resultados da noite eleitoral. Por agora, apenas uma leitura aos resultados de cada partido
PS- Foi o vencedor das eleições. Razão suficiente para cantar vitória. Na perspectiva de Sócrates, o facto de não ter ficado refém do BE para uma eventual maioria parlamentar justifica o seu rasgado sorriso, mas não vai ter vida fácil. A vitória desta noite, pode ter significado o seu esvaziamento a breve prazo. Precisará de gerir com pinças os acordos que vier a estabelecer à direita e à esquerda, até que uma moção de censura determine a sua queda.
PSD- O grande derrotado. Quando o maior partido da oposição sobe apenas 0,4%, num momento em que o governo é criticado à direita e à esquerda, demonstra a inabilidade da líder e o falhanço rotundo da sua estratégia. Não se derrota um governo sem propostas concretas e sem credibilidade.
CDS- O grande vencedor. Não tanto pelo crescimento em número de votação ( o BE subiu mais), mas por ter conseguido fazer o pleno dos seus objectivos. Reforço significativo da representação parlamentar e único partido com possibilidade de fazer um entendimento com o PS para a formação de um governo de coligação.
BE- O partido que mais subiu e duplicou a sua representação parlamentar, falhou o seu grande objectivo: obrigar o PS a entender-se com ele. Nem o significativo aumento da votação e o facto de ter eleito deputados em nove distritos, evitam algum amargo de boca na hora do balanço final. Foi um dos grandes vencedores, mas a vitória de nada lhe servirá, se continuar a cometer os erros em que a esquerda europeia persiste. O PS estará à espreita de recuperar muitos dos votos que o BE agora lhe roubou, nas próximas legislativas. Corre o risco de se esvaziar, se continuar a persistir nos mesmos erros. Os eleitores não deixarão de perguntar, para que servem 16 deputados, se o BE não conseguir fazer passar algumas das suas propostas.
CDU- Conseguiu eleger mais um deputado que em 2005 e, apesar de ter passado a ser a quinta força política, continua a ser a formiguinha laboriosa que vai levando a água ao seu moinho. Já muitos lhe decretaram a morte, mas resiste. A explicação é simples. Juntamente com o CDS, é o partido que tem ideologia e princípios programáticos bem alicerçados. Ali há convicções, não há clubites.
MRPP- Como é que um partido com 0,9% pode cantar vitória? Simples... teve mais de 50 mil votos, o que lhe confere o direito a receber uma subvenção anual de 3,33€ por voto! Nada mau...

domingo, 27 de setembro de 2009

Dever cumprido!

Já votei. Sensivelmente à hora habitual.
Desde que passei a votar em Lisboa, não me recordo de ter de esperar quase 15 minutos para exercer o meu direito. Nunca vi tanta gente a votar na minha freguesia. Senti-me um jovem, enquanto estava na fila de espera. Prenúncio de alguma surpresa?

sábado, 26 de setembro de 2009

Dia de Reflexão: Passatempo Cinha Jardim


Pedro Correia pergunta a Cinha Jardim no DN:

Gostaria de viver num hotel?
Adorava. E tenho a certeza de que ainda acabarei a viver num hotel como aconteceu com a Beatriz Costa.
Gostaria de viver num determinado hotel em particular?
Sim. No hotel da Lapa. Assim tinha a certeza de ficar pertinho de casa.
Depois de ler isto, lembrei-me de vos propor um exercício para este dia de reflexão:Se Cinha Jardim pretende viver num hotel, qual é o interesse em ficar a viver num hotel "pertinho de casa"?
Respostas para caixa de comentários

Humor em Dia de Reflexão

O dia de reflexão também pode servir para resolver outras dúvidas...

O presidente de certa empresa, casado há 25 anos, está com uma grande dúvida: fazer amor com a própria mulher, depois de tanto tempo de casamento,é trabalho ou prazer?!
Na dúvida, ligou ao Director Geral e perguntou.
Por sua vez, o Director Geral ligou ao Sub-Director e fez a mesma pergunta.
O Sub-Director, também em dúvida, ligou ao Gerente e fez a mesma pergunta.
E assim se seguiu a corrente de ligações, até que a pergunta chegou ao Sector Jurídico e o Advogado, como é normal, perguntou ao Estagiário que estava todo atarefado a fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo:
- Rapaz, quando o Presidente da empresa faz amor com a mulher dele,é trabalho ou prazer?
- É prazer, Doutor!! - Respondeu prontamente o estagiário.
- Como é que você pode responder a isso com tanta segurança e rapidez?
- Se fosse trabalho, já me tinham mandado a mim!...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Portugal: The End



MFL acaba de declarar, durante uma "arruada" no Chiado, que se o PSD não vencer as eleições de domingo, será o fim do país.
Na segunda -feira seremos todos espanhóis, ou podemos optar por outras nacionalidades?

Sim, vou votar!

Em vésperas de eleições, considerei oportuno recuperar este post. É por esta e outras razões que não deixarei de votar. A Liberdade é um bem demasiado precioso, que me recuso a desprezar, abstendo-me, ou votando nulo. Quero ter razão para protestar ou aplaudir o governo que sair das eleições do próximo domingo.

O meu 25 de Abril
Pelas seis ou sete da manhã, pouco depois da alvorada, ligo o meu minúsculo rádio de pilhas comprado em Gibraltar e fico atónito com o que ouço. Por entre os acordes de marchas militares e comunicados evasivos, digo ao Zé Calvário:
"Isto é cá dentro, são os gajos da Acção Psicológica a experimentar-nos".
Sabia do que falava e conhecia bem as práticas e proveniências de uma boa parte dos milicianos que então andavam pela Acção Psicológica. O Zé Calvário alvitrou entre dentes que podia ser um golpe da extrema-direita, chefiado por Kaúlza de Arriaga, descontente com as aberturas de Marcelo. Só de pensar na hipótese, assustei-me.
O pequeno almoço foi comido em silêncio, com "cochichos" à mistura. O suspense aumentou à medida que o dia foi passando. O nervosismo era evidente em cada rosto, seguíamos atentamente todas as movimentações, para ver se percebíamos o que estava a acontecer. Da parte da tarde começaram a correr alguns boatos, sendo o mais insitente o de que o Comandante tinha sido preso. Alguém alvitrou que, a ser verdade, não poderia tratar-se de um golpe da extrema-direita. Agarrei-me a essa hipótese de uma forma tenaz. Se não fosse de extrema-direita, só poderia ser o golpe Redentor.
O alferes miliciano , comandante de pelotão, respondia de forma evasiva a todas as questões que lhe colocávamos,enquanto aprendíamos a desmontar, limpar e voltar a montar uma G3. Só ao final da tarde, quando diante do televisor instalado no bar ouvimos o comunicado da Junta de Salvação Nacional, tivemos a certeza que Marcelo Caetano tinha sido deposto e a ditadura derrubada. Respirei de alívio e, juntamente com outros camaradas, dei azo à alegria, companheira de uma bebedeira colectiva que fez esgotar as bebidas.
Havia nomes , naquela Junta de Salvação Nacional, que não incutiam grande confiança, mas as dúvidas quanto à possibilidade de se tratar de um golpe da extrema-direita haviam-se dissipado.
No dia seguinte, as dúvidas não ficaram todas esclarecidas. Dentro de um quartel, com a informação limitada , impedidos de aceder aos transistores que apenas emitiam um ruído ensurdecedor ( sem que ninguém percebesse as razões de não ser possível escutar a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português) e a televisão do bar desligada por pretensa avaria, a tensão subia a olhos vistos.
Na manhã do dia 27 foi-nos finalmente comunicado o que se tinha passado. Senti vontade de fugir dali e juntar-me às pessoas que festejavam na rua. Só no dia 1 de Maio tivemos essa possibilidade. Deixaram-nos sair no dia 30 e eu, em vez de ir para o Porto, onde era suposto uma namorada estar à minha espera, saí disparado para Lisboa. Mergulhei naquela multidão imensa , abracei e beijei centenas de pessoas que não conhecia e acabei com meia dúzia de amigos a comemorar no único restaurante que devia estar aberto em Lisboa naquele dia, a comer umas omoletas feitas por especial favor por se tratar de jovens militatres. (Não recordo o nome, lembro apenas que fica junto ao Hotel Rex e ainda existe).
Nunca vi - e provavelmente nunca voltarei a ver- uma manifestação como a do 1º de Maio de 74. Foi a coisa mais inesquecível e inebriante que se me ofereceu viver em toda a vida.Foram dias felizes os que se seguiram.
É por recordar aquele dia e me lembrar do que era este desgraçado país antes do 25 de Abril, que vou votar no domingo.
*Post publicado em 25 de Abril de 2008

Sugestão do dia

Abirritante

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pronúncia do Norte (18)

PERSIANAS=


= ESTORES

Pela Europe's West Coast


Como esperava, encontrei a estrada quase deserta até S. Pedro de Muel. Gozei a beleza da paisagem, ao som das canções dos anos 60. De um lado e outro da estrada, dizem, há pinheiros a morrer. Por incúria dos homens. Lembro-me das aulas de História da 4ª classe e do sr. Borges (lembram-se?) a enaltecer o feito de D. Dinis com tanto ênfase, que cheguei a pensar tivesse abandonado as fastidiosas tarefas da governança, para se dedicar a plantar pinheiros em perfeita comunhão com a Natureza. Ninguém é perfeito …
Hoje há pinheiros a morrer, por causa de uma doença que os homens não cuidaram de tratar, tão preocupados andam com as novas tecnologias e a economia de mercado. Se morrerem pinheiros, desaparecerão muitos postos de trabalho . Haverá mais famílias em risco de pobreza. Algumas empresas poderão extinguir-se. Não quero este presente. Quero ter direito ao sonho de viver num país que cuide das suas florestas. Que acaricie e trate com desvelo as suas árvores. Regresso ao passado. Resisto a desenterrar da areia alguns amores de Verão enterrados noutros areais. Voo até Península Valdez, ao som de Mercedes Sosa. Vieira, S. Pedro e S. Martinho também fazem as suas despedidas do Verão. Ao contrário, a Nazaré regurgita num bulício de turistas tardios.
Em S. Martinho decido entrar na A8. Num impulso, apeteceu-me acelerar para o Rochedo, deixando Lisboa para trás. Quero desfrutar um pôr do sol que antevejo magnífico, com o Guincho quase só para mim. Acelero.
(…..)
Cheguei. Afinal o Guincho está cheio de gente. Não sei se foram todos atraídos pela vontade de se despedirem do Verão. Lembro-me das têmporas. Outubro vai ser quente. Ainda terei tempo para me despedir. De ver mais vezes o Sol encaminhar-se para a linha do horizonte, interrompendo com a sua língua de fogo aquele abraço entre céu e mar.Fico uns minutos encostado ao carro. À espera do momento em que o Sol ponha fim àquela união. Quando o último raio desapareceu no horizonte- não, não era o verde, esse apenas o consegui ver uma ou duas vezes- despedi-me e regressei a casa agradecendo à Mãe Natureza a dádiva de uma tarde primaveril.
(......)
Sentado diante do computador, termino um artigo sobre as vindimas no Douro. Polvilho-o com as cores do Outono que, por ali, tem outro encanto. Procuro a reconciliação sazonal. Releio o artigo uma última vez. Faço clique e fico a imaginá-lo a atravessar o Atlântico. Espero que, ao lê-lo, as pessoas se sintam apaixonadas pelo Outono do Douro e venham ver como é. Será um contributo para o aumento do turismo em Portugal. Espero que ninguém perceba que o Outono é, para mim, uma ficção romântica. Excepto quando contemplo o Douro e os seus vinhedos, num dia de sol.
Tudo o que lá está escrito eu vi e senti. Mas será que mais alguém poderá sentir aquilo que eu vi?

Sugestão do dia

Fio de prumo

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O jipe e a dondoca

A “dondoca” seguia a boa velocidade por uma das faixas laterais da Av. da República em direcção ao Saldanha, conduzindo o seu “Jeep”. Já há algum tempo tinham batido as seis badaladas vespertinas mas, àquela hora, carrinhas e camiões ainda estacionavam descontraidamente em segunda fila, numa azáfama modorrenta de cargas e descargas. Ziguezagueando entre os camiões estacionados, a “dondoca” ia gesticulando com alguma agressividade, manifestando o seu desagrado por conduta tão desrespeitosa quanto ilegal, que os brandos costumes da polícia toleram com bonomia.
“Vai certamente com presa de regressar a casa” – pensei na minha inocência -quando a vi passar descontraidamente um sinal vermelho, provocando um “guinchar” de travões dos carros que vinham da Miguel Bombarda com o sinal verde aberto, na desesperada tentativa de evitar a colisão. Acelerou e continuou o seu caminho, acenando com a mão direita , enquanto a esquerda segurava o telemóvel. Cem metros adiante, abrandou, ligou os piscas, estacionou em segunda fila, trancou as portas e dirigiu-se em marcha lenta para a farmácia.
*Post publicado em 18/02/2008

Derniers baisers*


“Quand vient la fin de l'été sur la plage
Il faut alors se quitter peut-être pour toujours
Oublier cette plage et nos baisers
Quand vient la fin de l'été sur la plage
L'amour va se terminer comme il a commencé
Doucement sur la plage par un baiser
Le soleil est plus pâle mais nos deux corps sont bronzés
Crois-tu qu'après un long hiver notre amour aura changé ?...”
(Derniers baisers- Les Chats Sauvages)
Inicio o regresso a Lisboa ao fim da manhã, depois de me despedir do Douro. O dia está magnífico, faço um desvio para almoçar em Pedrógão. Praia quase deserta, apesar da temperatura convidativa. Um casal joga raquetes, outro passeia de mão dada à beira mar. Mais adiante, vislumbro um guarda sol que protege dois corpos femininos. Dois casais com aspecto nórdico irrompem no meu campo de visão. Devem andar na casa dos quarenta. Usam todos gangas e t-shirts. Avançam em correria alegre em direcção ao mar. Molham os pés durante uns segundos e voltam para trás em passo lento. Caminham em direcção ao restaurante.
Na esplanada e lá dentro, bastantes turistas. Quase todos nórdicos. Enquanto aguardo a chegada do robalo grelhado, mantenho os olhos fixos na paisagem. A luminosidade, a cor do céu e do mar,a quase ausência de vento e de pessoas na praia, a maioria do comércio fechado, são indícios do fim do Verão. Apenas a elevada temperatura teima em nos confundir nesta dança de estações, cada vez mais mescladas.
Chega o robalo. Não tenho apetite. Sem querer, deixei-me invadir pela força nostálgica do Outono. Olho em volta. É de praias quase desertas que eu gosto mas, neste momento, preferia que estivesse cheia. Tenho sentimentos contraditórios em relação ao Outono. Gosto dos tons acobreados das folhas, da luminosidade dos seus dias de sol. Não gosto do anúncio de fim de ciclo, que culminará no Inverno. Não gosto dos dias chuvosos em que anseio a noite. Já não sinto tristeza. É mais uma sensação de amargura, de quem se despede de um amigo, sem ter a certeza se o vai voltar a ver.
Vendo o robalo quase intacto, a empregada pergunta-me se há algum problema. Não há problema nenhum. Eu é que tenho um problema com estes dias que me provocam sentimentos contraditórios. Animo-me quando penso que o paredão do Estoril vai voltar às suas manhãs felizes. Que vou poder voltar a percorrer o caminho entre o Estoril e a Casa da Guia, sem estar constantemente a tropeçar em gente. Sem ouvir gritos de crianças em birra. Sem me arriscar a apanhar com uma bola, enquanto leio o jornal ou folheio um livro.
O meu Rochedo ganha mais encanto com a paisagem desanuviada. Animado, acabo o robalo e peço a conta. Quero passear um pouco junto à praia antes de retomar a viagem. Decido que vou continuar junto à costa. Quero dizer um último adeus ao Verão em Vieira de Leiria, S.Pedro de Muel, Nazaré, S. Martinho do Porto... com o cabelo ao vento e a música de outras férias a ribombar nos meus ouvidos. Como a que escolhi para título deste post. Espalharei beijos pelos areais. Recordarei estios que ficaram selados com um beijo** e promessas de amor eterno. Quando chegar a Lisboa, conto-vos como foi.
*Derniers baiser é uma canção de 1962 dos “Les Chats Sauvages”, mas a versão que vos deixo aqui é mais recente, interpretada por Laurent Voulzy . Dos criadores desta canção deixo-vos outro dos seus grandes sucessos.
** O título da versão inglesa era “Sealed with a kiss”

Eles divertem-se no Rochedo

Brites- Socorro! Socorro! Estou a morrer asfixiada…
Sebastião- Já não é assim, estás desactualizada. Agora tens de gritar “tenho medo, tenho medo”
Brites- Caramba, estão sempre a mudar!
Sebastião- Que queres que te faça? Desde que o sr. Silva entrou na campanha, temos de dançar às suas ordens. Vá lá, muda o slogan...
Brites- Tenho medo, tenho medo!
Sebastião- De que é que tens medo?
Brites – Tenho medo de ser despedida, porque ontem entrei numa sede do PSD (choro convulsivo)
Sebastião- O que foste lá fazer? Não sabes que isso é crime e o governo tem instaladas câmaras de vigilância ocultas para ver quem entra e sai das sedes do PSD?
Brites- Julgava que isso era só no Público. Tenho medo, tenho medo!
Sebastião- Olha Brites, lamento desiludir-te, mas vais ter de mudar outra vez...
Brites- Então que é que foi agora?
Sebastião- Agora há um refrão novo. “Tenham medo, tenham medo, o PS vai formar governo com o Bloco de Esquerda”!
Brites- Ahahahahahah! Estou a morrer de riso…
Sebastião- Não e de riso, é de medo! Olha que isto é muito sério...Quando é que percebes o guião?
Brites- Olha, chama mas é o boxeur, o Morais Sarmento, porque eu não tenho paciência para isto!
Sebastião- Só mais um bocadinho, Brites. Já só faltam três dias…
Entra o proprietário do Rochedo ( Eu)
Vocês querem acabar com essa mania parva de brincar às campanhas eleitorais?Se querem brincadeiras e palhaçadas vão mas é para a Madeira, porque aquilo é que é uma democracia! Este Rochedo é uma casa séria...

Sugestão do dia

Lisboa S.O.S.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sebastião defende a Amazónia

"A devastação das florestas tropicais é responsável pelo aumento, em 20%, das emissões de gases do efeito estufa. Mais do que o sector de transportes de todo o planeta", afirma um relatório da Greenpeace.
Intitulado "A farra do boi na Amazónia", o estudo da Greenpeace mostra as consequências da cadeia devastadora da carne bovina, que é responsável por uma série de subprodutos como o couro e a glicerina, além do bife que vai para o prato dos consumidores.De acordo com aquela ONG , é fundamental parar com a devastação para evitar mudanças climáticas catastróficas. Nesse cenário, o gado bovino na Amazónia é tido como o maior devastador do mundo, responsável por um em cada oito hectares destruídos no planeta. Mas quem haveria de dizer que a devastação da floresta Amazónica está também relacionada com a produção de produtos de higiene e beleza , componentes para automóveis e com o fabrico de calçado?
A explicação é simples: o gado processado em frigoríficos industriais também gera subprodutos que vão parar a empresas como Adidas, Audi, BMW, Carrefour, Casino, Colgate Palmolive, Honda, Johnson & Johnson, Kraft, Marks & Spencer, Metro, Morrisons, Nike, Northern Foods, Sainsbury s, Tesco, Toyota, Unilever, VW e Wal-Mart.
O IDEC (Instituto de Defesa do Consumidor, do Brasil) também já colocara esta questão, ano passado, na sequência de um estudo sobre as implicações do consumo nas alterações climáticas. Na altura comunicou os resultados às empresas, a quem pediu informação sobre as medidas que cada uma delas pretende tomar. Apenas três responderam.
Entretanto, o Ministério Público Federal do Pará apreciou 21 acções pedindo uma indemnização total de R$ 2,1 bilhões às pecuárias e empresas de refrigeração que comercializaram animais criados em fazendas desmatadas ilegalmente. As acções visam reparar os danos ambientais supostamente provocados.

Numa cidade sem carros

Estávamos no último fim de semana de Agosto. Sentado no sofá da sala, Frederico ia folheando o jornal sem entusiasmo, quando deparou com a notícia de que o dia 22 de Setembro seria o Dia Europeu sem Carros. À memória, acorreu-lhe um artigo onde se enumeravam os perigos do monóxido de carbono,- substância libertada pelos automóveis que contribui para o aumento da poluição urbana e é responsável por inúmeras doenças cardiovasculares e respiratórias.
Mas Frederico não é pessoa que se deixe convencer com facilidade, principalmente quando em causa está a sua comodidade. Afinal, de que serve não andar um dia de carro, para além de causar graves transtornos a quem o utiliza como ferramenta de trabalho.?-pensou.
É claro que esse não é o seu caso, pois sai de manhã para o emprego e só deixa o escritório ao fim do dia para regressar a casa. Poderia facilmente fazer o percurso de metropolitano, bastando-lhe para tal andar uma escassa centena de metros a pé, mas Frederico sofre da síndrome de “ carrodependência” e considera os transportes públicos insuportáveis, preferindo gastar mais de uma hora por dia em longas filas de trânsito, a fazer o trajecto entre a casa e o escritório de forma mais rápida e confortável.
Quando à hora do jantar se foi encontrar com Matilde logo puxou para tema de conversa a iniciativa do Dia Europeu sem Carros que, sem delongas, rotulou de demagógica e inútil.Foi com surpresa que constatou ser Matilde uma acérrima defensora da iniciativa, pois embora aquela com quem cada vez mais pensava vir a unir o seu destino sempre se deslocasse para o trabalho em transportes públicos, fora levado a pensar que o fazia por questões económicas e não por pura convicção.
Foi , por isso, com a boca meia aberta que ouviu Matilde defender a ideia de que o acesso automóvel às grandes cidades deveria ser condicionado, alvitrando mesmo a hipótese de que em Lisboa se seguisse o exemplo de outras cidades europeias, como Londres, Roma ou Estocolmo, onde quem quiser entrar de carro é obrigado a pagar portagem.Frederico lembrava-se vagamente de ter lido alguma coisa sobre o assunto e, com ar conhecedor acrescentou:
- Pois, na Noruega também se passa uma coisa semelhante: os carros para entrarem nas cidades pagam uma portagem, que é tanto menor, quanto maior for o número de passageiros, mas isso são países civilizados que nada têm a ver connosco!
Ao ouvir as palavras de Frederico, Matilde quase se engasgava... de raiva!
-Então achas que Portugal, um País que já foi o melhor aluno da União Europeia, que se tem desenvolvido em termos económicos de forma considerável, não deve também progredir em termos civilizacionais? Não te esqueças que durante o Verão a poluição nas nossas cidades passa frequentemente os valores admissíveis e em Lisboa, só no ano passado, foram 261 as vezes em que esse limite foi ultrapassado!
- Está, bem, está bem,! Mas não seria melhor, então, discutirmos a vida nas cidades, em vez de andarmos com este folclore todo? E não me digas que os automóveis são os culpados de todos os males que afectam a vida nas cidades... ou estarei eu, sem saber, a falar com uma fundamentalista?
- Não me venhas com chavões! Claro que não sou fundamentalista, mas também não sou ignorante e preocupo-me com os problemas que afectam o nosso Planeta. Sei perfeitamente que é preciso repensar a vida nas cidades, mas também não ignoro que o automóvel, enquanto erigido a objecto imprescindível se tornou um problema e um obstáculo à melhoria da qualidade de vida urbana. Por isso acho que esta iniciativa do Dia Europeu sem Carros, se não tiver outro mérito, tem pelo menos o de levar as pessoas a pensar a sua relação com o automóvel. E acredito que todos os anos há mais pessoas a deixarem o carro em casa e a optarem pelos transportes públicos, porque pelo menos um dia pararam para pensar. Ou julgas que todos são insensíveis e comodistas como tu, que não dispensas o carro, apesar de teres uma estação de metro a cem metros de casa e outra à porta do escritório?
- Pronto, eu prometo que vou pensar no assunto. Mas agora vamos embora, tomar um copo, que já estou farto de estar sentado...
- Ah estás? Então espero que não te queiras levantar daqui para te meteres no carro até ao sítio onde vamos tomar um copo e depois alapares-te outra vez!...-
-....
- Pois, eu logo vi! Mas olha, hoje eu não vou nessa... Se queres ir beber um copo, vamos a pé!
E foi assim que Matilde e Frederico passaram a dispensar o carro na maioria das suas saídas nocturnas. Agora passeiam os dois de mão dada à beira rio depois do jantar, param para tomar um copo e ao fim da noite apanham um táxi para regressar a casa. E, para surpresa de todos, Frederico tornou-se num dos maiores animadores da empresa para criar programas alternativos no Dia Europeu Sem Carros. E promete iniciativas de grande animação para a cidade. Palavra de Frederico!...

Sugestão do dia

Cão como tu

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ainda a "Rentrée"

Ei-los que chegam! Pele tisnada dos ares algarvios, carregando no acelerador o peso das amarguras, ou ensaiando malabarismos em ultrapassagens acrobáticas, num treino para o equilíbrio do orçamento mensal, desaguam nas ruas da grande cidade com o ar triste de quem regressa às rotinas diárias.Voltam a abarrotar –se os transportes; regressam as filas intermináveis caracoleando nos acessos à cidade; os balcões das pastelarias voltam a animar-se em refeições rápidas de come em pé, num menu “standard” SFB ( sopa, folhado e bica); as escolas voltam a ser palco de disputas entre professores e alunos e a ministra voltará à sua função de árbitro parcial numa contenda interminável.A cidade volta a tornar-se insuportável, os que cá ficaram suspiram pelo próximo Agosto, ou por aqueles dias de Natal e Ano Novo, quando a cidade se volta a esvaziar, para um encontro repetido de famílias, cumprindo o ritual de troca de presentes.Até lá suceder-se-ão fins de semana, num movimento de io-io entre a cidade e a “terrinha”, continuaremos a assistir ao regresso a casa de carros a abarrotar de mantimentos e agruras.Para a maioria das pessoas é assim que se renova a vida. Na sequência repetitiva do asfalto, nas areias de uma praia a abarrotar, no contar de mortos em acidentes de viação, provocados pela incúria e loucura de uns quantos. Para telenovela, o argumento até não me parece mau… mas para modo de vida parece-me curto de ambição!

Momento de Humor (32)

Como sabem estou no Porto, por isso. a Mouraria tem de desculpar este momento acintoso. Mas vocês sabem que tenho o meu coração dividido, não é verdade?

Um tripeiro e um lisboeta caminhavam pela praia, quando um deles deu um chuto numa lâmpada mágica, e despertou o génio do sono milenar. O génio bradou então:

- Cada um de vós tem direito a um pedido.
Lisboeta: - Eu quero que seja construído um muro em redor de Lisboa, impedindo a entrada dos tripeiros. Não precisamos de aguentar esses gajos e outros menos capacitados do que nós... Génio - O seu desejo e uma ordem, meu amo...ZAS... E o muro foi construído...
Génio - E tu, Tripeiro, o que desejas?
Tripeiro- Oube lá, ó murcón, o muro que construíste é sólido?
Génio - Nada neste planeta o pode destruir.
Tripeiro - E é alto?
Génio - Mais alto que os mais altos edifícios em toda Lisboa
Tripeiro - Tá benhe, atón enche essa merda de água até cima!!

Uma boa semana para todos

Sugestão do dia

Em prosa e verso

domingo, 20 de setembro de 2009

AVISO MUITO IMPORTANTE!

Por razões a que sou totalmente alheio, a maioria dos comentários que me enviaram na sexta-feira e no sábado "evaporaram-se" no momento em que os publiquei. Como não acredito que o Rochedo esteja a ser "vigiado" e considero pouco provável a existência de bruxas por estas bandas, resta-me pedir desculpa e esperar que as aceitem. Boa semana!

Cartão Vermelho


A Luísa e o Maldonado (por esta ordem), exibiram-me o cartão vermelho e intimaram-me a enunciar 10 coisas ou pessoas a quem exibiria o cartão vermelho. Antes de ser expulso da blogosfera, aqui vai a indicação:
- Aos políticos que proclamam a verdade, mas não a utilizam na sua prática
- Ao jornalismo de interesses, que não respeita a verdade e aindependência
- Aos que contribuem para a degradação do nosso planeta
- Aos que maltratam os animais
- Aos que utilizam a prepotência para fazer valer as suas ideias
- Aos que desrespeitam os direitos humanos
- Aos que exploram os trabalhadores
-Aos que proclamam a paz, mas tudo fazem para fomentar a guerra
-Aos tiranos e ditadores
-Aos opressores dos povos latino-americanos

E agora passo ( sem link, por falta de tempo, mas estão todos na coluna da direita) o desafio aos seguintes blogs:
- Só falta um 31 na minha vida
- Em prosa e verso
-Criativemo-nos
- Desconversa
-Grande Jóia
- Branco no Branco
- Rosmaninho da Serra
-Formiguita Bipolar
-No gabinete
-Cartório Mental

Recordações...

Ando por aqui desde sexta-feira. Por isso me lembrei de recordar este post

sábado, 19 de setembro de 2009

Desencanto à hora da sobremesa


No sábado de manhã o Jaime telefonou. Tinha chegado da Patagónia, onde esteve a passar férias com a Marta. Pelas suas palavras, percebi que vinha eufórico.Trazia também saudades de peixe e do mar do Guincho. Combinámos, por isso, um jantar à beira do Atlântico.
Fiquei feliz quando me apercebi da euforia do Jaime. Afinal eu fora co- responsável pela escolha da Patagónia como destino de férias, tantas vezes ele e a Marta me ouviram enaltecer a Argentina e esse paraíso imenso que é a Patagónia. Ajudara-os a preparar a viagem com todos os detalhes, mas avisando-os sempre que a Patagónia é o destino de férias ideal para podermos reprogramar itinerários diariamente, de acordo com a vontade do momento. Nunca, em nenhum lugar do planeta, dei melhor significado à expressão “férias em liberdade” do que na Patagónia.
O jantar foi animado, com o mar do Guincho em pano de fundo. Eu e a Ana estávamos ansiosos por ouvir o relato da viagem e o Jaime e a Marta por contar tudo ao pormenor. Tenho as minhas dúvidas que tenham apreciado a santola recheada e o peixe ao sal como pretendiam, tal era a sua sofreguidão em contar todos os detalhes das três semanas de aventura. Percorremos a Patagónia de Bariloche a Calafate, num mosaico de aventuras, partilhando descrições quando descobríamos que tínhamos pernoitado, comido, ou apenas parado para tomar uma bebida, num lugar que nos trazia recordações comuns.Mas quando chegou a sobremesa, a conversa ficou suspensa. É que a mousse de avelã das “Furnas do Guincho”, meus amigos, é um daqueles manjares que só um momento de luxúria divina permite conceber. Durante alguns minutos, subimos ao Olimpo e comungámos com Zeus e Athena momentos de lascívia, enaltecendo a criação.
Foi neste momento de suprema comunhão que eclodiu numa mesa à nossa esquerda uma conversa onde se falava de “rating”, reserve banking, índices Dow Jones spreads e taxas de juro. Creio ainda ter ouvido falar ( mas não estou certo...) de off shores e PSI 20. Rodei a cabeça 90 graus, no intuito de identificar os animados interlocutores, imaginado-os desde logo anciãos saídos de “limousines” de vidros fumados. A muito custo, não abri a boca de espanto, ao constatar que os intervenientes em tão animada conversa eram dois casais jovens, seguramente “under –30”. A tonalidade da tez denunciava um recente regresso de férias.
Foi então que desci do Olimpo e dei por mim, de pés assentes na Terra a perguntar-me ( estupidamente, claro) o que estaria errado naquele quadro. A animação de uns cinquentões falando de aventuras de férias ou os jovens, regressados de férias, a falarem com transbordante entusiasmo do Dow Jones?
A resposta, enviada por um qualquer mensageiro de Zeus, foi arrepiante e desoladora!

* Post publicado em 10/09/2007

Sugestão do dia

Viagens Lacoste

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Jerónimo "on the road"

Puxo de uma cigarrilha a seguir ao jantar e sinto-me a deslizar para fora da sala, levado pela voz de Kate Melua. Sentado no sofá ( ou estarei já a levitar?) resigno-me à minha condição de cidadão proscrito, por cometer duas vezes ao dia o pecado de fumar. Eu, que lamentava a sorte daqueles que tendo nascido nas ex-colónias tinham “gravada” no Bilhete de Identidade a sua condição de cidadãos de segunda ( ou de terceira, no caso de serem pretos), provo agora do mesmo veneno.Estava decidido a começar a elaborar uma lista telefónica dos restaurantes do País onde se pode fumar ( olha que boa ideia para abrir um negócio, jovens licenciados à procura do primeiro emprego precário neste País das Maravilhas à espera de ser envenenado com cicuta! Porque não se lembram de criar uma espécie de Páginas Amarelas ou de Roteiro com os restaurantes e bares onde se pode fumar neste País? Sejam empreendedores, vamos lá!) quando oiço as sirenes de carros da Polícia.
Regresso à Terra, já não sentado no sofá, mas com os pés na varanda. Lá em baixo há um grande ajuntamento, vozeares imperceptíveis, um grito, choros, espernear de um vulto.Não é uma cena típica do meu bairro, por isso é sem espanto que quando olho em redor vejo inúmeros rostos assomar às janelas de marquises que ocupam o lugar de varandas iguais à minha, para dar mais meia dúzia de metros a uma sala fechada. Volto a dirigir o olhar para a cena que se passa seis andares abaixo e vejo um polícia enfiar um corpo que, apesar da distância, me parece ser de um jovem. O carro arranca com a sirene a tocar e aquele pirilampo espalhando a sua luz azulada, ao ritmo de compasso.
- Não me digas que era o Jerónimo... – ouço sair de uma marquise.( O Jerónimo é um menino que escapou a ter “gravado” no seu BI cidadão de 3ª, mas que na vida não se libertou desse ferrete. É um bom menino, o Jerónimo! Toda a gente lhe conhece os bons modos, e tinha fama de ser aluno exemplar até ao momento em que o Pai se suicidou, depois de ter sido engrominado por um construtor civil sem escrúpulos que lhe roubou o salário e a fidelidade da mulher. Viviam numa casita modesta a cuja porta muita gente do meu bairro ia bater, para solicitar as habilidades do Julião, na prática do biscate.)
“ Não, não pode ser o Jerónimo” – pensei para os meus botões. Por que razão um miúdo tão afável - que apesar da desdita do pai, e de uma mãe a tentar em parte incerta cobrar com os favores do corpo as refeições de cada dia- a quem ninguém conhecia indícios de mau comportamento, ia agora preso? Tirei mais uma fumaça, tentando afastar a ideia de tal sorte e deixei deslizar o olhar pelo horizonte, acompanhando a imagem “virtual” de Jerónimo a ser conduzido aos calabouços. Já não sei em que ponto estava, quando ouço uma voz ofegante a sair de uma qualquer marquise:
- Mãe, mãe! Era o Jerónimo!
- Como é que isso é possível, filha? O que é que o miúdo fez?
- Mãe, o Jerónimo andava metido na droga.
- Estás maluca! Onde é que ele tinha dinheiro para isso?
- “Eles caçaram-no” Mãe! Depois obrigavam-no a roubar carros e coisas assim. A gente já suspeitava que ele ‘tivesse metido em alhadas. ‘tava a assaltar a mercearia do sr. Casimiro com mais dois, mas os outros fugiram e ele veio tentar esconder-se nas obras do prédio aqui ao lado, mas alguém viu tudo e chamou a polícia ...
- Coitado do Jerónimo. Queres um chazinho para acalmar, minha filha?
- Não Mãe, quero ir à esquadra saber do Jerónimo!
- Estás completamente doida! Que é que vão pensar na esquadra se apareces lá a perguntar por um preto? Se calhar ainda julgam que também andas metida nisso. Não andas, pois não, minha filha? Ai meu Deus, para o que te havia de dar, querer ir agora atrás do Jerónimo. Anda mas é deitar-te, filhinha, que a Mãe faz-te um chazinho para acalmares.
Volto para dentro de casa .Na pantalha, a RTP anuncia o regresso de “Quem quer ser Milionário?”

Liberdade de imprensa? Assim não, obrigado!

A minha posição sobre o “não caso” Manuela Moura Guedes foi alvo de diversas censuras. Fui fortemente criticado por ter escrito que a liberdade de expressão pouco me interessa, quando serve apenas para apoiar obscuros interesses de alguns. Sabia- e sei- a razão porque fiz essa afirmação e, mais dia menos dia, toda a verdade à volta do “jornalismo de investigação” de MMG será conhecida.
Também fiz críticas em relação à telenovela lançada pelo “Público” em Agosto, dei uma pista que à maioria dos leitores terá passado despercebida sobre a “fonte anónima”, e afirmei que nada daquilo era jornalismo. Como era expectável, choveram as críticas…
Estava era longe de imaginar que o assunto tinha estado a marinar durante 17 meses na secretária de José Manuel Fernandes, para ser lançado na altura que o director do “Público” considerasse mais oportuna.
O Provedor do “Público”, Joaquim Vieira, começou no último domingo a desvendar a trama de uma notícia que o próprio director do “Público” sabia não ter fundamento, mas não teve qualquer pejo em publicar. Quando o caldo se começou a entornar, e se percebeu que seria uma questão de tempo, até ser descoberta a verdade, ficou a saber-se que JMF iria ser afastado. Desta vez, porém, o “timing” não deu oportunidade à criação de mais uma vítima da liberdade de imprensa, nem pretextos para acusar José Sócrates de ingerência na comunicação social.
Sou acérrimo defensor da liberdade de expressão e comecei a escrever em jornais no tempo da Censura. Sei bem o que é escrever sob a ameaça de cortes de censores idotas. Nunca confundi as duas coisas. Por isso não alinhei, como virgem ofendida, no coro de apoios corporativos que João Marcelino oportunamente denunciou nas páginas do DN.
Não me custa admitir que o governo procure influenciar os media. Que atire a primeira pedra, aquele governo que nunca caiu nessa tentação.
Joaquim Vieira alertava, no último domingo, para a gravidade do caso, manifestava a sua “tristeza” face a este tipo de jornalismo e deixava perceptível que algo bombástico iria ser conhecido. Foi hoje.
A divulgação feita pelo DN sobre o caso das escutas, fabricado em Belém, é um serviço à democracia e à liberdade de expressão e desmistifica as carpideiras que, em torno de MFL, defendem uma liberdade de expressão que não praticam. Mais… demonstra que, afinal, aqueles que acusavam Sócrates de ingerência na comunicação social, são os primeiros a tentar intoxicar a opinião pública com notícias falsas.
Sempre gostei - e pratiquei- de jornalismo de verdade e nunca o vi em perigo com Sócrates. Pelo contrário, sempre alertei para o perigo de haver jornalistas que não respeitam essa verdade. A liberdade de imprensa está em perigo? Infelizmente temo que sim. O problema é que são alguns jornalistas a pô-la em risco!
Compreende-se agora pior o silêncio de Cavaco. Acredito que não esteja envolvido mas, para evitar quaisquer dúvidas, tem obrigação de falar.
A liberdade de imprensa está em risco mas, pior ainda, é a própria democracia que começa a estar em causa. A compra de votos pelo candidato “fetiche” de MFL acaba por ser apenas um “fait divers” da prática de mentira que se acoberta no estafado “slogan” da “Política de Verdade”. MFL continuará a dizer que não sabia de nada. Então o que estava a fazer à frente da distrital de Lisboa do PSD? Se desconhecia o que se passava numa distrital, como podemos acreditar que ela algum dia venha a saber o que se passa no país?

Sugestão do dia

Com a luz acesa

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Terça- feira fui à feira

Mercado em Goroka ( Papua Nova Guiné)
Gosto de feiras. Daquelas que estão incluídas nos roteiros das principais cidades europeias, onde se vendem roupas e quinquilharias adjacentes, como relógios Rolex “made in Thailand” e óculos RayBan, provenientes de Taiwan, misturados com “antiguidades” feitas num vão de escada de uma vila esconsa.Mas as feiras de que realmente gosto são as tradicionais, onde se pode comprar de tudo e ter a sensação de estar num gigantesco centro comercial, com hipermercado acoplado, com a vantagem de gozar os prazeres do ar livre.
Nos espaços estreitos entre as bancadas cruzam-se, na azáfama das compras, pessoas de todas as idades, raças, credos, cores políticas e escalões sociais.Peças de lingerie misturam-se com sacos de grão, camisas Benetton com blusões Levis, garrafas de Coca Cola com latas de Red Bull , numa orgia de marcas. Brancos coelhos, de olhar rosáceo, ruminam pacientes , lado a lado com galos cacarejantes. Pregões de feirantes ecoam no ar, enquanto “vendedores de banha da cobra” exaltam, empoleirados no tejadilho de uma Ford Transit, a qualidade de atoalhados, lençóis e colchas indianas, feitas numa qualquer fabriqueta do Vale do Ave. De repente, eclode uma zaragata e o burburinho entrecorta os ares. É uma "vendedeira" que, cansada de tanta “regateirice”, por parte de uma senhora envergando um casaco de pele de coelho ameaça, de "cachucho" em riste, teatralizar um poema de Tolentino, pondo em sentido a impertinente que ousou pôr em dúvida a frescura do pescado.
O regateio é uma cena peculiar das feiras, chegando a confundir-se a feirante com a cliente, igualizadas democraticamente no vernáculo do linguarejar. Por vezes, putos mal educados envolvem-se em rixas na defesa das matriarcas, emprestando um ar picaresco à confusão reinante.A feira nunca mais se olvida. Não há nada igual. A feira pode ser a rixa momentânea, o insulto democratizado, mas também é altivez. A feira é a desconfiança, mesclada com o prazer de lá ir. É Rui Veloso lado a lado com Quim Barreiros. É prostitutas ombreando com senhoras “queques”. É putos reguilas, em tirocínio para a idade adulta, construída em malgas de sopa onde fumega um pouco de água fervida, misturados com “betinhos” mal educados em aprendizagem das regras da lei do mais forte, do desrespeito pelos outros, com personalidades deformadas construídas em pretensos berços de oiro. É nas feiras que encontramos o verdadeiro retrato , sem maquilhagem, do fenómeno do consumo. É lá que reina a contrafacção? Será... mas que importa se as pessoas, embriagadas pela publicidade aspiram mais a “parecer” do que a “ser”?
Cá por mim, continuo a gostar de feiras onde não há sorteios de Mercedes, nem cartões Visa ou de fidelização, mas há o calor dos feirantes. Onde não há empregadas anoréticas, vestidas a rigor com sorrisos de plástico, mas há um rosto humano por trás de cada banca. Não há luzes psicadélicas imitando o sol e o estralejar de foguetes, nem cassettes gravadas imitando o canto de passarinhos, porque tudo isso está lá, em estado natural , fazendo também parte da grande festa. E nas feiras há, acima de tudo, a mescla de odores e sons que faziam parte da minha infância.
( Post publicado em 25/01/2008)

Deixem-nos respirar! *



No ano 2000, a União Europeia lançou a iniciativa do “Dia Sem Carros”, no propósito de alertar os cidadãos para o ( mau) ambiente urbano. A adesão das autarquias foi grande. Era uma novidade e fez-se muita festa. Mas houve também muita gente a protestar, pelo que no ano seguinte já foram menos as autarquias a aderir. Enquanto Pedro Santana Lopes considerava a iniciativa uma medida folclórica, a União Europeia salientava o seu sucesso e, em 2003, substituiu o Dia sem Carros pela Semana da Mobilidade. Portugal aderiu.
Não sei se a iniciativa tem resultados positivos e contribui para que todos os anos algumas pessoas troquem o carro pelos transportes públicos. Duvido…
Basta ver as imagens das caravanas partidárias durante a presente campanha eleitoral, para perceber como os diversos partidos dão importância ao assunto.
Não será, porém, pelo facto de os partidos se estarem marimbando, que deixarei de lembrar as questões colocadas pelo excesso de trânsito nas cidades, durante a Semana da Mobilidade que se iniciou ontem e termina no dia 22.
Aqui fica o meu primeiro contributo.

Em média um homem precisa para sobreviver, em condições ditas normais, de cerca de um quilo de alimentos e mais de 1 litro de água por dia. Compreende-se, pois, que haja uma grande preocupação com a qualidade dos alimentos que ingerimos ou da água que bebemos. Mas precisamos também de 25 quilos de ar!
Todos sabemos que ninguém vive apenas de ar... no entanto, a importância do ar para a nossa sobrevivência é tão determinante, que se estivermos apenas alguns minutos sem respirar morremos, mas poderemos sobreviver alguns dias sem nos alimentarmos ou sem beber qualquer líquido.
Todos somos afectados pela deficiente qualidade do ar, especialmente idosos, recém nascidos e pessoas com problemas respiratórios. Mas que sabemos acerca da qualidade do ar que respiramos? Sabemos, por exemplo, que os parisienses respiram ar de má qualidade um em cada quatro dias do ano, que morrem anualmente milhares de pessoas nas grandes capitais europeias, vítimas de doenças respiratórias e cardiovasculares, provocadas pela má qualidade do ar que respiram, mas em Portugal, embora desde o Verão de 1998, Lisboa e Porto estejam dotadas de estações de controlo e medição da qualidade do ar, pouco sabemos.
É certo que esses dados estão disponíveis e ainda este Verão nos informaram que estivemos vários dias a respirar ar impróprio para consumo, mas desafio os leitores a enunciarem uma única medida que tenha sido tomada para debelar o problema. Ao contrário, em circunstâncias idênticas ( e só para dar um exemplo...) o trânsito automóvel foi proibido, de uma assentada, em oito cidades francesas.
E nós, cidadãos, porventura nos preocupamos com a qualidade do ar que respiramos? Todos os dias queremos saber as condições metereológicas, mas acerca da qualidade do ar, talvez falemos de fugida numa roda de amigos. Depois seguimos em frente, com um encolher de ombros, como se nada pudéssemos fazer, ou o assunto seja pouco importante.
Compreende-se... a chuva molha e podemos apanhar uma constipação no dia seguinte, enquanto o ar poluído mata, mas demora algum tempo!
* Este post nada tem a ver com a asfixia democrática

Sugestão do dia

Caminhos da Memória

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Contra os chineses, marchar, marchar!


Circula na Internet mais uma daquelas petições disparatadas pedindo o boicote dos produtos chineses e das Olimpíadas de Pequim. Desta vez não se trata de acusar os chineses de explorarem mão de obra barata, nem violarem direitos humanos. Seria demasiada hipocrisia invocar o facto de a China não respeitar os direitos humanos, depois de na Cimeira UE/China os líderes europeus terem mantido um prudente ( apetecia-me dizer cobarde, mas enfim...) silêncio sobre o assunto.
Depois de Manuel Pinho ter ido a Pequim apelar aos chineses para investirem em Portugal porque aqui a mão de obra é barata, o argumento de que na China os trabalhadores são explorados também já não pega. De que se lembraram então os promotores deste novo mail anti-China? Recorreram a algumas imagens onde se procura transmitir a ideia de que os chineses tratam mal os animais.Os europeus em geral - e os portugueses em particular - andam a precisar de tomar alguma coisa que lhes avive a memória, pois já se esqueceram de alguns pormenores que penosamente recordo:
- As torturas praticadas sobre animais em laboratório, para fazer testes a perfumes;
- A forma selvagem como são transportados os animais;
- As práticas regulares de abandono de animais
E fico-me por aqui... porque a hipocrisia desse mail/petição, que me abstenho de reproduzir revolta-me e enoja-me quase tanto, como a falsa piedade com que os seus promotores olham para os animais. É preciso ter muita lata para falar dos outros, esquecendo as nossas práticas...

* Alterei o título deste post, publicado em 18/12/07, porque infelizmente mantém a sua actualidade. Depois de MFL ter atacado os espanhóis a propósito do TGV, esquecendo que logo que deixou de ser ministra foi ganhar a vida como administradora do Santander ( banco espanhol, para quem não saiba), quebrando as regras mais elementares da ética política, foi a vez de Manuel Monteiro vir atacar os chineses.
O líder do PND disse, no "Prós e Contras", que uma das medidas do seu partido seria "acabar com todas as lojas de chineses"!
A xenofobia que se está a instalar em Portugal ( é bom não esquecer os ataques serôdios que MFL fez aos imigrantes ucranianos e e cabo-verdianos) preocupa-me. Quando um líder político ataca imigrantes, esquecendo que Portugal é um país de emigração, não está apenas a ser populista. Está também a ser estúpido! Como reagirão se países como França, África do Sul ou Venezuela, para apenas citar três exemplos de países onde a emigração portuguesa tem forte expresssão, decidirem proclamar, como bandeira de campanha eleitoral, a expulsão de imigrantes portugueses? Esta gente não se enxerga!

Regresso às aulas

A “Pública” lembrou-se de perguntar a jovens estrangeiros que vieram viver para Portugal, as diferenças que encontraram entre as escolas portuguesas e as dos seus países. Achei a ideia interessante e o resultado muito curioso. Respiguei alguns excertos para partilhar convosco:

O mais esquisito aqui é o horário das aulas… Quase não podes fazer mais nada, é como se a tua vida ficasse centrada na escola(16 anos, Brasil)
Na minha aldeia ter boas notas é fácil: compra-se uma prenda ao professor. Aqui temos mesmo de estudar(20 anos, Moldávia)
Os meninos daqui usam as calças descaídas, a mostrar o rabo. No início perguntava-me “ O que é isso são todos gay?” Não gosto dessa moda. Na Ucrânia, na escola, usamos todos fato, com a camisa por dentro das calças(13 anos, Ucrânia)
Os professores aqui são mais exigentes e eu não gosto de pessoas muito exigentes(14 anos, Itália)
No meu país, chumbar é uma falta de respeito pelos pais. Aqui, acho que os pais se estão nas tintas se os filhos chumbam.(17 anos, Moldávia)
Os professores cá têm mais paciência. Lá são mais rigorosos, zangam-se muito.( 16 anos, Bangladesh)
Lá, os alunos são mais bem comportados; não se viram para trás, estão quietinhos a olhar para o professor. Quando alguém entra, levantam-se todos da cadeira e quando sai fazemos o mesmo.Agora aqui, às vezes já me viro para trás durante as aulas para falar.(16 anos , Moldávia)
Há professores que não compreendem que há coisas que eles dizem que acham que são básicas, mas eu nunca aprendi. Há países que estão mais atrasados. Não tenho culpa.(16 anos, Guiné-Bissau)

Foi você que falou de impostos?

A discussão em torno do aumento dos impostos, que tem sido um dos temas de animação da campanha eleitoral, não me entusiasma particularmente. Mais do que estar preocupado com o aumento dos impostos ( questão que afecta essencialmente os endinheirados) gostaria que se discutisse o seu destino.Não me importaria de pagar mais impostos, se tivesse a certeza que seriam utilizados na melhoria das condições de vida dos portugueses.
Estou cansado de ver os meus impostos esbanjados em submarinos e material de guerra - certamente muito úteis para alguns militares se divertirem- mas, face à inexistência de um perigo real de entrarmos num conflito armado, não têm qualquer serventia nem aumentam a minha qualidade de vida. Bem pelo contrário… porque Portugal já gastou milhões de euros em material de guerra que com o tempo se foi tornando obsoleto e foi necessário trocar por material novo. Esse dinheiro, aplicado na saúde ou na educação teriam tido mais serventia.
Eu sei que o sr Dick Cheeney e outros patrões do armamento, criam de quando em vez uns conflitos para incendiar o mundo, mas isso não justifica que Portugal despenda avultada fortunas em desperdícios inúteis. Enfurece-me bastante ver, diariamente, os meus impostos serem derretidos com deputados faltosos, banquetes opíparos de ministros, cartões de crédito sem plafond, ajudas de custo pagas a quem melhor sabe ludibriar a lei, vaidades pessoais, automóveis topos de gama e por aí adiante. Eu queria ouvir os partidos discutir o destino dos impostos. Queria que os meus impostos fossem utilizados na compra de livros para as crianças e jovens do meu país; no pagamento dos medicamentos e das despesas de saúde dos velhos que trabalharam uma vida inteira e não conseguem pagar os medicamentos, porque a reforma que recebem é miserável; na melhor redistribuição da riqueza, no combate à pobreza e à info-exclusão. Sei que vivo num país pobre e de parcos recursos, que não é possível exigir tudo ao mesmo tempo, mas também sei que este país vive há muitos anos acima das suas possibilidades e ninguém põe travão a este estilo de vida de novos ricos, que a sociedade de consumo erigiu a paraíso terreno.
Ando há 30 anos à procura de um partido que me diga claramente como vai aplicar os meus impostos e cumpra as suas promessas. Três deles já deram repetidas provas de serem incapazes. Porque não apostar noutro desta vez? Se um partido me disser que os impostos serão aplicados nas melhorias da saúde e da educação e apresentar medidas concretas em que eu acredite, terá o meu voto. Caso contrário (porque nunca deixarei de votar), talvez dê a oportunidade a quem nunca governou.

Sugestão do dia

Blogkiosk

terça-feira, 15 de setembro de 2009

As vindimas


“ Não se me dá que vindimem
Vinhas que eu já vindimei,
Não se me dá que outros logrem
Amores que eu já rejeitei”
( Cântico popular)

As vindimas constituem, no meu imaginário, a referência do Outono. Quando Setembro se aproximava do final, íamos para a quinta “fazer as vindimas” e isso significava que as férias estavam a chegar ao fim.Terminei essa vivência, quando tive de procurar outras paragens para estudar. Em Inglaterra as aulas começavam cedo, não me permitindo participar naquele ritual adventista do “regresso às aulas”.
Ainda hoje recordo, com alguma saudade, alguns cânticos que acompanhavam a azáfama da “colheita” e os olhos verde água da Emília, moçoila minhota por quem me embeicei um ano e que desapareceu da minha vida para sempre, depois de um beijo de despedida no último dia da faina. Ao longo dos anos sempre associei as vindimas ao Alto Douro, aos cânticos dolentes, ao fim do verão e, claro, ao beijo inesperado e furtivo da Emília.
Hoje, uma pequena notícia de jornal devolveu-me estas recordações e deixou-me com um ligeiro amargo de boca. A Real Companhia Velha está a utilizar uma máquina para fazer a vindima, prescindindo dos trabalhadores sazonais que se dedicavam à tarefa.Os cânticos cadenciados acompanhando os movimentos de vai-vem dos “jornaleiros” enquanto esmagavam as uvas estão a ser substituídos pelo ronronar monocórdico de uma máquina.
Acabou-se a festa das vindimas.

* Post publicado em 7/10/2007

Porque não te calas?

Aquilo que mais me preocupa em Manuela ferreira Leite, não é a sua idade física ( Vai fazer 69 em Dezembro). Preocupa-me a sua idade mental. Em cada proposta que faz, é fácil descortinar o retrocesso do país, o seu empobrecimento,o regresso ao tempo em que todos andávamos de burro por caminhos de terra batida.
A minha mãe, quase a completar 95 anos e fiel votante do PSD, já me disse que não irá votar, porque vê em MFL aquilo que eu também vejo: representa o regresso à pior faceta do nosso passado recente e tem uma visão miserabilista da sociedade portuguesa. Cada vez que MFL abre a boca é para dizer uma barbaridade pior do que a anterior.
MFL é, muito provavelmente, uma pessoa mal formada. A frase que atirou a Sócrates no debate ( "Faz-me lembrar aquele que matou o pai e amãe para dizer que é órfão") é própria de uma pessoa sem princípios, sem educação, sem carácter.
A fúria anti-espanhola, além de ser de mau gosto, representa um tipo de pensamento que só alguns trogloditas ainda sustentam. Ainda por cima, o adiamento do TGV representará um enorme prejuízo para o país e isola-o da Europa, como se pode ler aqui.
O futuro que MFL nos promete assusta-me.
Alguém no PSD devia dizer à senhora o que Juan Carlos disse um dia a Hugo Chavez: Porque não te calas?

Vamos brincar à caridadezinha?

Não acredito que os problemas da pobreza se resolvam com a caridade. Nunca recuso comida a quem me bate à porta pedindo-a, ou me aborda na rua dizendo que tem fome. Levo-o ao café ou pastelaria mais próximas e procuro dar-lhe o que ele pede. No entanto, raras vezes dou esmola a um mendigo que me aborda na rua, ou nos transportes. Qualifiquem esta minha atitude como quiserem, mas não me acusem de insensibilidade.
Já embarquei na história da fulana a quem todos os dias faltavam uns trocos para a camioneta; já fui enrolado com a história do sujeito a quem todos os dias roubam a carteira; já me deixei enganar pela mulher com a criança ao colo que pedia dinheiro para comprar leite para o bebé; já me comovi com a história do imigrante que afinal era português e tinha várias casas espalhadas pelo país. Chegou uma altura que decidi dizer BASTA! Conheço demasiados casos de falsos mendigos e, cada vez que um me pede esmola, vêm-me estes e outros exemplos à memória. Ainda há dias o DN noticiava o caso de um falso mendigo que foi preso em Aveiro. São conhecidos casos de mendigos que vendem os lugares onde habitualmente pedem esmola por quantias avultadas, a outros mendigos. Nas imediações do Centro Comercial do Lumiar- como provavelmente noutros pontos da cidade e do país- rebentam com frequência rixas entre “moedinhas” que disputam os melhores lugares. No dia em que um ameaçou riscar-me o carro, se não lhe desse uma moeda, denunciei-o à polícia. Não sei o que se passou depois, mas nunca mais o vi por aquelas paragens.Há já alguns anos, um moedinhas que costumava parar em frente ao Galeto, confessou-me que ganhava, em média, 20 contos por dia!
Não gosto, pois, de dar esmola. Já tem acontecido, porém, que depois de recusar uma esmola, mude de ideias e volte atrás para a dar. Porque “pressinto” que aquele mendigo precisa mesmo de ajuda. Já me terei enganado algumas vezes, mas paciência. Também já caí no “conto do coitadinho”, como vos contei aqui. Acontece a todos. No entanto, como me chateia ser enganado, decidi há uns anos que, para aliviar a consciência, passaria a fazer serviço social, colaborando com instituições que ajudam os mais necessitados. Desde que tomei essa decisão, passei a sentir-me melhor comigo.Sair nas noites frias de Inverno para dar de comer aos sem abrigo, participar nas Ceias de Natal de instituições de solidariedade social, trabalhar como voluntário numa IPSS, são coisas que me dão enorme alegria. Dar esmolas só me aviva o remorso.

Sugestão do dia

Foi desse jeito que eu ouvi dizer

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Patroa demite o "inho"

Uma senhora da socialite portuense, agastada com a frequência com que a empregada doméstica utilizava o diminutivo “inho” disse-lhe por um destes dias:
- Acabe lá com o “inho”, mulher ! Estou farta de a ouvir dizer “é só um minutinho, vou ali fazer um recadinho, o jantar está prontinho”...
- Está bem, minha senhora. Agora posso ir à mercearia?
- Que é que vai lá fazer?
- Vou comprar 100 gramas de touço!

* Post publicado em 3/10/ 2007

Passagem para o abismo


Quando andava no 3º ano do liceu (actual 7º ano), o meu professor de Geografia falou, numa aula, das vantagens que adviriam para a navegação - e para o comércio - em encontrar uma passagem navegável e comercialmente rentável que permitisse passar da Ásia à Europa através do Árctico. Não foi, porém, esta informação que despertou a nossa curiosidade. Foi o que se seguiu.
O professor Portocarrero contou, nessa aula, algumas tentativas que já tinham sido feitas para atravessar o Árctico- a maioria delas mal sucedidas- e terminou dizendo mais ou menos isto:“Felizmente, a marinha mercante não poderá utilizar essa rota. No dia em que o conseguir, todos vocês se devem preocupar, porque isso significa que os gelos do Árctico estão a derreter e a Terra corre perigo”.
Hoje, mais de 40 anos depois, acordei preocupado. No metro, ao ler a primeira página do “Global”, deparei com esta notícia: “NAVIOS JÁ PASSAM O ÁRCTICO. As alterações climáticas permitiram a dois navios alemães ligar a Ásia à Europa através do Oceano Árctico, uma rota que poupa sete mil quilómetros à viagem tradicional com passagem pelo canal do Suez”.
Fui ler o resto. A notícia revela que a travessia só se tornou possível devido ao degelo provocado pelo aquecimento global e que vários armadores já anunciaram a intenção de adoptar este trajecto.Imagino que, por todo o mundo, muitos predadores estejam a abrir garrafas de champagne e a celebrar a proeza. Pessoalmente, estou preocupado, mas grato ao professor Portocarrero por ter feito aquele aviso numa aula há mais de 40 anos.

Sugestão do dia

Blue Moon

domingo, 13 de setembro de 2009

A Brites do século XXI é assim...


-Que vais fazer com uma pá na mão, Brites?
-Vou-me alistar no PSD, Sebastião
- Bem, admira-me muito que agora torças pelo PSD, mas podes explicar-me para que é a pá?
- É para ajudar a MFL a combater os espanhóis! Não queres vir?
- Não, obrigado. Nunca tive jeito para herói e detesto fazer figuras ridículas.

Momento de humor (31)

No Alentejo, um autocarro que transportava o governo chocou com uma árvore.
Pouco depois, chegou um jornalista e encontrou Manuela Ferreira Leite, que estava por ali com uma pá na mão:
- A senhora doutora viu o que se passou?
- Vi,sim senhor. O autocarro com o governo espetou-se no chaparro.
- E onde estão os políticos?
- Enterrei-os todos!
- Mas... não estava nenhum vivo?
- O 1º Ministro dizia que sim, mas você sabe como ele é mentiroso...

(Esta história foi-me enviada, tendo como protagonista um alentejano. Optei por alterá-la, adaptando-a ao momento eleitoral)

sábado, 12 de setembro de 2009

Alkimias de Outono

( cenário: Figueira da Foz, numa tarde soalheira de Outono)
O nome ( Alkimia) sublinhado pela palavra “creperie” chamou-me a atenção. Vinha mesmo a calhar um crepe àquela hora tardia para almoçar e ainda temperana para a janta. Entrei, resoluto. A lista contemplava apenas meia dúzia de ofertas. Variedade escassa para uma “creperie”, mas enfim... decidi-me por um crepe tropical ( fiambre queijo e ananás) . A proprietária, senhora idosa, franziu o sobrolho e perguntou:
- Não prefere um Florestal?
Remirei a lista , mas os ingredientes não me despertaram qualquer salivar . As papilas gustativas mostravam-se indiferentes à proposta.
- Não, prefiro mesmo o Tropical.
A sexagenária hesitou e depois, enfrentando-me “olhos nos olhos” disse de sus justiça:
- Esse não lho posso fazer. Sabe, tinha que abrir uma lata de ananás e depois, se não vierem mais clientes pedir um igual , fico com a lata aberta e tenho que a deitar fora. É muito prejuízo!
Apreciei a sinceridade da senhora ( poderia ter dito simplesmente que não tinha ananás e o assunto ficava por ali). Optou por ser sincera mas, ao mesmo tempo, pôs-me a reflectir sobre a realidade dos negócios familiares em Portugal. Falta profissionalismo, sobra ganância e subsidiodependência. Não é assim que vamos lá...
* Post publicado em 8/10/2007

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Deixem sonhar o André!

Vive em Aveiro e tem 29 anos. Chama-se André e era desconhecido dos portugueses até há poucos dias. Saiu do anonimato quando foi chamado a substituir Marques Mendes no Parlamento e, deslumbrado, afirmou: os deputados ganham demais.
Mas André não se ficou pelas palavras. Passou aos actos e decidiu oferecer 10 por cento do seu vencimento a uma instituição de solidariedade social do distrito que o elegeu.Talvez por ser um rapaz genuíno, André pensou que estava a agir bem. Enganou-se. Não previu que os seus colegas de bancada reagissem como abutres a quem estão a roubar a presa. Reunião de emergência do Grupo Parlamentar, duras críticas e a exigência de que pedisse desculpas publicamente. Leram bem. PUBLICAMENTE. Ao bom estilo de uma "famiglia" calabresa, os deputados quiseram mostrar as regras ao neófito e mostrar o que acontece a quem não cumpre. André foi obrigado a admitir que tinha errado. Apenas por ter dito aquilo que pensava? Não. André talvez não soubesse que os deputados se preparam para duplicar o seu vencimento meio às escondidas. Sem aumentar o vencimento base, mas aumentando as mordomias. As declarações de André tornaram-se, por isso, ainda mais incómodas.
Aposto que no meio das críticas houve um deputado que lhe sugeriu a oferta do dinheiro ao Partido e uns quantos que o acusaram de ser populista.Pouco importa para o caso o partido de André, porque os partidos do arco do poder comportam-se todos da mesma maneira. Sob o guarda-chuva da disciplina partidária, tudo se justifica.
Imagino a amargura e a desilusão do André. Corromperam-lhe a boa-fé. Impediram-no de sonhar que em política se pode ser genuíno.
Não te percas, André! Sai da política enquanto é tempo...
* Post publicado em 22 de Fevereiro de 2008

As árvores morrem de pé*

Ainda que toda a vida tenha sido um profissional exemplar, ninguém está livre de um dia ver aparecer-lhe pela frente um qualquer idiota que o olha de alto a baixo e sentencia:
- Você está velho. Porque é que não se reforma?
Exemplos destes não faltam na administração pública. Uma "plêiade" de jovens , resguardados na força de um cartão partidário da jota rosa, laranja, ou azul e amarela que miraculosamente lhes confere a competência para dirigir qualquer estaminé, onde apenas procuram protagonismo político, sentencia amiúde a reforma antecipada de pessoas que muito tinham ainda para dar na sua vida profissional.
Foi o que aconteceu com Ruy de Carvalho, esse actor de excelência que um qualquer director do Teatro Nacional D. Maria II mandou para casa por ser “velho e reformado”. Contrariando a profecia, Ruy de Carvalho voltou ontem, aos 82 anos, ao palco do D. Maria II, integrando o elenco da peça “O Camareiro” . O convite partiu de Diogo Morgado, um jovem que soube reconhecer o valor de um “velho” com idade para ser seu avô. São exemplos destes que me permitem acreditar nos jovens. Nem todos crescem à sombra de partidos que os desumanizam e transformam em imbecis inúteis.

* Quando era miúdo fui ver, levado pela mão dos meus pais, a peça “As árvores morrem de pé”. Tinha apenas 14 ou 15 anos, foi a relação de amizade entre minha mãe e Vasco Morgado que me permitiu ver essa maravilhosa interpretação de Palmira Bastos, então com 90 anos. Nunca mais esqueci a cena magistral que fazia a plateia levantar-se num aplauso tremendo, capaz de fazer vir abaixo o teatro Monumental. Aquela estatura meã e aparentemente frágil de Palmira Bastos, batendo vigorosamente com a bengala e sentenciando de forma loquaz: “Morta por dentro, mas de pé. De pé, como as árvores!”

Sugestão do dia

Lavandaria

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Almada Negreiros no Saldanha


Nos últimos anos o Metro decidiu colocar frases e pensamentos de autores portugueses nas novas estações. É uma ideia que aplaudo. Na estação Saldanha II há, todavia, frases em excesso e, em minha opinião, algumas pouco apropriadas como estas de Almada Negreiros:
" Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido”.
Num país com baixos índices de leitura, a escolha parece-me infeliz. Em vez de incentivar a leitura, passa a ideia de que a leitura é uma perda de tempo. É esta a minha interpretação, mas admito que esteja a ver mal o problema, pelo que gostava de saber a vossa opinião.
Há ainda outro erro. A frase não está completa. Falta-lhe este excerto:“No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se”. Alguém encontra uma explicação para terem amputado Almada em “A invenção do dia claro”? Aceitam-se sugestões.

Milícias atacam na Ericeira


(cenário: três da tarde de um sábado, num restaurante à beira-mar, na Ericeira)

Quando entrei, a “minha” mesa estava ocupada por um casal. Ao fundo, uma longa mesa de comensais ocupava a sala em toda a sua extensão. Era um daqueles grupos que, pela forma como se dispunham e pelo traje que usavam, não colocavam dúvidas em relação à sua actividade profissional. Elas, acantonadas numa ponta tomando conta de uma prole ruidosa, conversavam em tom perfeitamente audível sobre fraldas, biberões, infantários e centros comerciais. Eles, cabelo cortado nos preceitos regulamentares, alinhavam-se frente a frente, separados por garrafas de cerveja em quantidade suficiente para satisfazer um Regimento.
A contra gosto escolhi uma mesa no meio da sala de onde podia desfrutar a vista do mar .Tinha acabado de saber que não podia tomar café, porque tinha faltado a água, quando vejo um corpulento “cabeça regulamentar” abeirar-se da senhora senhora e dizer:
-“Desculpe se a respiração do meu bébé a está a incomodar!”
Olhei na direcção da janela e vi que a mulher, que ainda tivera a sorte de poder tomar café, completava a refeição tirando umas fumaças. Incomodada com a abordagem, retorquiu:
- “Não acha que há maneiras mais educadas de pedir para não fumar?”
O aspirante a cavalheiro prosseguiu:
-“ É assim que costumo falar com quem não se sabe comportar num restaurante...”
- “ E por acaso não lhe ocorreu que o barulho das suas crianças também me pode incomodar?”
- “ Não me diga que eu é que estou a mais! Por acaso até cheguei primeiro e não esperava encontrar aqui selvagens que não se sabem comportar num restaurante... ”
- “ Então tem bom remédio. A porta é por ali!”
Valentão, o macho esboçou um gesto de agredir a mulher, deixando que um forte odor a cavalo, mesclado de Lavanda, invadisse a sala. Suspendeu a viagem quando o homem, de cabelos brancos, se levantou e mostrou o seu corpanzil de um metro e noventa. Por momentos julguei que o caldo se ia entornar. Felizmente enganei-me, pois o homem limitou-se a dizer:
- “ O que a minha mulher quis dizer, é que há uma esplanada lá fora, neste restaurante não é proibido fumar e se o senhor se sente incomodado e não sabe falar educadamente, pode ir lá para fora. Percebeu, ou quer uma aula prática?”
O valentão baixou a guarda, agarrado pela mulher, que pegando-lhe no braço lhe disse com ar delicodoce a lembrar o “Calor da Noite”:
- “ Deixa lá, querido! São um casal estéril, coitados, e não gostam de crianças ... vamo-nos sentar”
A frase assassina saiu num tom de Carolina Salgado em fase de reciclagem. Mas a “madame” não a aprendeu em nenhum bar de alterne, mas sim numa daquelas sessões promovidas por milícias antitabágicas que ensinam frases como esta, ou a que abriu a altercação, para aplicar em situações em que o tabaco os esteja a incomodar.Eu próprio, quando decidi deixar de ser fumador, cheguei a frequentar algumas sessões destes “ayatollas”. Os líderes espirituais das milícias ani-tabágicas compraziam-se a debitar um conjunto de frases que denominavam como “desarmantes” , aplicáveis em diferentes situações, que eram recebidas com enorme gáudio por exércitos de seguidores embasbacados com tanta prosápia.
Quando a calma regressou ao restaurante saí , tentando fingir que acreditava que aquele grupo de provocadores afinal era apenas um bando de mercenários inaptos para qualquer outra actividade, que não seja a de agredir o próximo. Com a sua verborreia de caserna, conseguiram pelo menos estragar uma bela tarde de sol à beira mar.Belo saldo para um dia de folga, estarão esta hora a pensar, aquartelados nos seus bordéis de ódio e intolerância que lhes garante o pão de cada dia.
* post publicado em 25/09/ 2007, antes da aprovação da Lei anti-tabágica