Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

A Valsinha*

Há dias, um jovem jogador de futebol morreu num quarto de hotel, em Itália, poucas horas antes de um jogo da sua equipa. Dizem as notícias que tinha acabado de falar ao telefone com a namorada. Chamava-se Jarque, era espanhol e tinha um futuro risonho à sua frente. A sua morte foi uma surpresa, pois nada fazia suspeitar de qualquer problema de saúde. O coração, porém, traiu-o.
Estas notícias impressionam-me particularmente. Tive dois irmãos que desapareceram de forma súbita e inesperada, ainda jovens, ambos com actividades profissionais que amavam e onde já eram mais do que promessas. Um deles parecia ter saúde para dar e vender , o outro amava a vida acima de todas as coisas. As mulheres sentiam uma enorme atracção por ele. Pela sua alegria contagiante, pela bela voz com que acompanhava a sua guitarra, pelo seu gosto - e talento - para a pintura, pela sua bonomia, pela forma desprendida como encarava a vida. Quando morreu o mais velho, era eu ainda um adolescente e a sua morte mudou radicalmente a minha maneira de ser. Não foi só a perda de um irmão quase dez anos mais velho do que eu. Foi a perda de um amigo e conselheiro. A surpresa da sua morte mudou radicalmente a minha maneira de ser. Passei a encarar a vida como algo de passageiro. Nunca mais fiz planos para o futuro. Passei a usufruir o momento presente e a tomar cada decisão como se fosse a última da minha vida. A única decisão que tomei ( mas haveria de quebrar aos 50 anos) foi tornar-me celibatário. Não conseguia suportar a ideia de deixar viúva e filhos. Nenhuma mulher, ou criança, merecem essa pena.
Ao longo da minha vida apaixonei-me , como é óbvio. Vi desaparecer duas namoradas em idades tão tenras e circunstâncias tão inverosímeis, que comecei a pensar se não seria eu a atrair a morte. Sofri. Desesperei, até. Encontrei nas viagens um refúgio. Encontrei na precariedade da vida, um conforto. Habituei-me a viver com essas regras.
Faz hoje muitos anos (era também uma sexta-feira e lembro-me como se fosse hoje) que vi desaparecer o meu segundo irmão. Com menos de quatro anos de diferença, foi com ele que partilhei dos melhores momentos da vida. Fomos sócios em negócios. Na vida. No prazer de a viver. Nunca falámos sobre o desapego que ambos sentíamos por projectos. Éramos ambos boémios, sem medo de correr riscos, amantes de viagens, solteiros, sem qualquer intenção de casar e isso dizia tudo. Para quê falar ?
Hoje, tantos anos depois da tua morte, tenho pena de nunca ter trocado contigo umas palavras sobre o assunto. Estejas onde estiveres, talvez tenhas concluído que esta não é a maneira ideal de viver. Mas é a minha. Como foi a tua. E estou convencido que a sociedade poderia ser bem melhor, se muitos políticos, gestores de empresas, banqueiros e as pessoas em geral, pensassem na precariedade da Vida, antes de tomarem as suas decisões.
Ontem, decidi abandonar um projecto pelo qual lutei nos dois últimos anos e concretizei há pouco tempo. Não quero ficar demasiado agarrado a nada. Já perdi o que de melhor se pode ter na vida- os afectos daqueles com quem partilhámos os melhores momentos da nossa infância- para me preocupar com projectos materiais que apenas contribuiriam para alimentar a minha vaidade e tirar desforço de quem me chamou lunático. Pouco me interessa. O projecto tem o meu ADN e isso basta-me. Não preciso de ficar ligado a ele para o resto da vida.Talvez seja uma decisão errada. Mas é a minha...
*"A Valsinha” era (quase) sempre a canção com que o meu irmão iniciava os “concertos” onde deslumbra as meninas. Espero que a oiça, esteja onde estiver.

32 comentários:

  1. Por ter perdido alguns, durante muito tempo tive medo de abri-me a novos afetos...perdi tempo e VIDA!
    Felizmente descobri que nunca é tarde para tentar se recuperar o perdido.

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  2. Fiquei com a voz embargada - toda a minha solidariedade!
    Carlos, é impossível o seu irmão não ouvir "A Valsinha" enviada por si!
    Um abraço!

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  3. Gostei imenso deste post e identifiquei-me com alguns dos sentimentos que por aqui senti...no entando sinto (talvez utopicamente) que os verdadeiros afectos nunca se perdem e são eles o que de mais importante tem a vida. As nossas escolhas (aquelas que são mesmo as nssas verdadeiras escolhas), essas são o que nos marcam a rota, o caminho, o percurso. Penso que se foi de facto sua (verdadeira e sentida)a decisão nunca será errada! Desejo-lhe umas férias felizes! :-)

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  4. Obrigada por esta partilha, Carlos, e por nos chamar à realidade. Um beijo.

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  5. Carlos,
    Deve ser a primeira vez que leio aqui no Rochedo um post tão profundamente pessoal e revelador de mágoas que nunca passarão.
    Não posso dizer que gostei de ler, obviamente, por todo o conteúdo de amargos de boca que ele traz e que palavras nenhumas poderão apaziguar.
    Por isso, congratulo-me, apenas, de ter, desde há um ano a esta parte, a possibilidade de trocar impressões com alguém, que, não conhecendo de lado nenhum, demonstra, na blogosfera, uma postura correcta, educada e sincera, a sério ou a brincar.
    E congratulo-me também de ver esta música escolhida para homenagear o seu irmão: é a minha preferida, das imensas do Chico, e que ainda hoje sei de cor e salteado.
    Abraço.

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  6. ....

    Quero dizer alguma coisa, mas.... nem sei bem o quê.
    saber sei, mas por outro lado, não sei se devo. Este é um grito seu, um desabafo, é falar para Alguém que sabe que o está a Ouvir, que Sabe o que sente.
    Mas digo-lhe apenas que sei também o que sente.
    Revejo-me tal e qual nessa análise.
    A morte é certa, mas a "justiça" na "escolha" cria-me revolta, deixa-me indiferente, frio.
    Não deveria haver ninguém melhor que ninguém.
    Mas há por aí muita gente que não faz cá falta nenhuma, enquanto Outros....
    Eles estão do seu lado. Fez a escolha certa

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  7. Este post deixou-me com um imenso nó na garganta. Também eu perdi um irmão quatro anos mais novo do que eu, vai para 15 anos. E podia dizer tanta coisa, mas hoje é apenas silêncio o que sinto, um silêncio carregado de afectos e tristeza e...
    Os teus irmãos estão seguramente contigo todos os dias. Os nossos mortos só morrem quando nós morrermos.

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  8. Adorei esta homenagem ao seu irmao.
    Concordo consigo, a vida e demasiado madrasta e devemos aproveitar os momentos ao maximo. Nao sou pessoa de fazer grandes planos, ja fui criticada por isso mas nao me importo.
    Cada um deve viver de forma a ser feliz.

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  9. Acompanho as tuas palavras com o meu silêncio solidário e amigo, ouvindo ao longe os acordes de "A Valsinha".
    Um abraço

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  10. A minha solidariedade, Carlos, só isso.

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  11. Um grande, grande abraço Carlos.

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  12. Não dá para não sentir emoção diante desse seu texto, Carlos. Não dá para conter as lágrimas.
    Talvez porque também tenha perdido meus dois irmãos ainda bem jovens... sim, talvez, mas principalmente por ver passar toda a trajetória de sua vida e entender sentimentos, renúncias, escolhas. Ou nem por entender, mas por respeitar.
    Hoje deixo um abraço terno, amigo, solidário, para você.

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  13. Foi o Segundo post mais pessoal que o Carlos já deixou por aqui, Si.
    E apenas sei o que lhe deve ter custado fazê-lo.

    E sem mais nada, pois o meu tempo é escasso, é por causa de pessoas assim que eu tenho já tantas saudades deste Rochedo e do meu blogobairro.

    Estou quase a voltar...

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  14. Carlos
    Sei o que é a dor da perda. já perdi muitos seres queridos. mas 2 irmãos, duas namoradas...é muita dor.O que me diz a minha fé - e não são meras palavras - é que os que morrem são para sempre nossos guias , nossos protectores. preste atenção, fale com eles como se tivessem vivos, partilhe sonhos e planos com eles. Faço-o no silêncio e no segredo para que não lhe chamem louco, mas ficará espantado por se aperceber que estão mesmo aí aos eu lado.
    Um bj neste dia de recordações, saudades e dor.

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  15. Quando lá fosse dizia-lhe e aqui vou eu até à estrada do Guincho. E hoje levo mais Duas companhias.
    Espero que não se importe.

    Se tb por lá passar, vir um passat cinza e alguem perto, com uma maquina na mão.... liberta-me e dá-me paz.


    Abraço

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  16. Um momento muito pessoal, partilhado num belíssimo texto.

    A blogosfera é um fenómeno, fascina-me esta probabilidade de expandir a esfera das amizades de uma forma completamente inesperada. Faço minhas as palavras do Si.

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  17. Carlos
    é a primeira vez que tenho vontade de chorar lendo você. Fui ouvir a música e não consegui me segurar.

    É com pesar que congratulo-me também ao ouvir esta música escolhida para homenagear o seu irmão.

    Tem um blog que acompanho, ele se chama Para Francisco: http://parafrancisco.blogspot.com/search?updated-min=2007-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&updated-max=2008-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&max-results=50

    Ao ler seu post, lembrei da história dessa mineira que tem nome de Guerra, ela se chama Cris Guerra. Quando puderes, passa lá e leia um pouquinho da história dela.

    Um abraço e bom fim de semana

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  18. às vezes sinto-me mais ligada ao reino dos mortos do que ao dos vivos. todos aqueles que mais amei nesta vida já estão Lá, não sei onde.

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  19. Posso mandar-lhe um grande abraço?
    E ficar a ouvir o meu amado Chico em comunhão consigo.
    :))

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  20. Deve ser terrivel o vazio do sentimento de perda das pessoas que mais amamos.Tenho os meus pais e irmãos comigo e não consigo sequer imaginar a hipótese...
    Percebo bem que o tenha marcado para a vida e que a veja com outros olhos a partir desses momentos.
    A musica do Chico Buarque é lindissima e eu adoro-a.Um beijinho cheio de ternura, Carlos.

    PS - Por coincidencia entrámos no blog um do outro penso que em simultaneo.Estava a ouvir a "Valsinha" quando recebi a notificação da sua mensagem.Coincidencias mas que sabem bem! :D

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  21. É de lágrima a escorrer que lhe digo que sinto muito esatas suas perdas.
    Perdi um grande amigo, muito próximo, aos oito anos. Não o meu primeiro contacto directo com a morte, mas foi muito violento, por se tratar de uma criança como eu. Tive outras perdas muito dolorosas, mas conservo o meu irmão e os meus primos, que são como irmãos. Como não imagino o mundo sem eles, posso ter uma noção do que será.
    Fiquei muito sensibilizada por este post, surpreendente no tom íntimo. Sendo triste, não deixa de ser uma bela mesnagem para quem continua aí dentro, no coração.
    Um abraço.

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  22. Fiquei sem palavras... por muito tempo que passe há coisas que ainda magoam ao lembrar, mesmo sabendo que não perdemos essas pessoas tão queridas apena deixamos de as vêr, pois estão e estarão para sempre guardadas no lugar onde se guardam as preciosidades, o nosso coração.
    As escolhas são sempre as nossas escolhas e valem pelo que valem.
    Ainda bem que aproveita a vida sem grandes "prisões" materiais... mas faz sempre bem deixar a porta entreaberta para novos afectos, por vezes fazem milagres...

    Um braço

    PS: tenho certeza que o seu irmão hoje sorriu ao ouvir esta homenagem que lhe prestou.

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  23. Olá . Tb perdi um irmão assim de repente . Nunca consigo falar dele .

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  24. Este post foi um dos mais bonitos que li até hoje, pela simplicidade, pela emotividade, pela grandeza de alma e por tantos outros motivos...
    Obrigada :o)

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  25. Eu fiqquei lendo e vendo o tanto que voce é bacana. Perdeu dois irmãos, eu não suportaria. E conseguiu transformar esta perda em lição de vida para nós.
    Com carinho Monica

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  26. Boa tarde! Apenas deixo aqui umas palavras de solidariedade. Gostaria de acrescentar carinho, pois foi belo o que acabei de ler, mas nem sei se o posso fazer.
    Encontrei aqui, em si, nas suas palavras, a grande pedra da minha vida- a perda dos que amo.
    Um silêncio que gostaria repleto de palavras certas.

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  27. Carlos, deixa-me dizer-te o quanto me emocionou ler este texto palavras. A vida tem sido boazinha para mim e devo aproveitar ao máximo todo o tempo que estou junto da minha família.

    Onde estejam, os teus irmão estarão certamente bastante orgulhosos de ti.

    Abraço.

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  28. Emocionante este seu post...

    Faz-me pensar na "sorte" que tenho por ter os "meus" todos vivos.

    Um abraço

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  29. Partilho inteiramente a ideia de que a morte nos transforma e transforma num segundo a relação que nós travamos com a vida. Nada será o mesmo. Nunca mais. Um beijo, Carlos.

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  30. Carlos,
    Não tenho palavras somente um grande beijo.

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