
“Sittin' in the mornin' sun
I'll be sittin' when the evenin' come
Watching the ships roll in
And then I watch 'em roll away again…”
(Otis Redding, 1968)
Estou sentado no meu Rochedo, desfrutando desta magnífica paisagem de mar imenso que o Guincho oferece. Já peguei em vários jornais e revistas de leituras atrasadas. As notícias provocam-me um ligeiro frémito. Rejeito –as com um esgar de enfado. Sinto algum desconforto. Olho outra vez o mar à minha frente. Penso no país de maravilhosas paisagens que está nas minhas costas. O sempiterno Gerês. O Douro beijando as margens do meu amado Porto onde nasci , espreguiçando-se em direcção à Foz, depois de um percurso que o trouxe das profundezas de Sória, atravessando a agreste paisagem transmontana. Recordo as paisagens suaves da planície alentejana. Dou um mergulho no Vale do Tejo. Imagino a costa oeste, nublada e ventosa oferecendo-se, luminosa, à câmara de Nick Knight. Hesito entre desfrutar o momento presente e o regresso a dias atrás.
Um chiar de travões desperta a minha atenção. Um táxi acaba de evitar, “in extremis”, um atropelamento em cima de uma passadeira. Esta manhã, quando saí de casa para gastar quase 50 euros em notícias que só me trazem desânimo, desgosto, revolta, quase fui atropelado. Atravessei a passadeira com o sinal verde, depois de dois carros terem desrespeitado o sinal encarnado que os mandava parar. Não sabia, mas ainda havia um terceiro transgressor. Um taxista. Provavelmente daqueles que exibem no vidro traseiro auto-colantes do Correio da Manhã e se alinham em manifestações contra o governo gritando “slogans” de estiva.
(Otis Redding, 1968)
Estou sentado no meu Rochedo, desfrutando desta magnífica paisagem de mar imenso que o Guincho oferece. Já peguei em vários jornais e revistas de leituras atrasadas. As notícias provocam-me um ligeiro frémito. Rejeito –as com um esgar de enfado. Sinto algum desconforto. Olho outra vez o mar à minha frente. Penso no país de maravilhosas paisagens que está nas minhas costas. O sempiterno Gerês. O Douro beijando as margens do meu amado Porto onde nasci , espreguiçando-se em direcção à Foz, depois de um percurso que o trouxe das profundezas de Sória, atravessando a agreste paisagem transmontana. Recordo as paisagens suaves da planície alentejana. Dou um mergulho no Vale do Tejo. Imagino a costa oeste, nublada e ventosa oferecendo-se, luminosa, à câmara de Nick Knight. Hesito entre desfrutar o momento presente e o regresso a dias atrás.
Um chiar de travões desperta a minha atenção. Um táxi acaba de evitar, “in extremis”, um atropelamento em cima de uma passadeira. Esta manhã, quando saí de casa para gastar quase 50 euros em notícias que só me trazem desânimo, desgosto, revolta, quase fui atropelado. Atravessei a passadeira com o sinal verde, depois de dois carros terem desrespeitado o sinal encarnado que os mandava parar. Não sabia, mas ainda havia um terceiro transgressor. Um taxista. Provavelmente daqueles que exibem no vidro traseiro auto-colantes do Correio da Manhã e se alinham em manifestações contra o governo gritando “slogans” de estiva.
Mas neste país não vivem apenas taxistas trogloditas e transgressores. Há também camionistas. E empresários gananciosos, trabalhadores desmotivados, classes sócio - profissionais eivadas de corporativismo, olhando apenas para o seu umbigo, juízes que trocam a sua função pelo calor dos holofotes, políticos que se julgam deuses infalíveis e outros que se apresentam como salvadores, brigadas anti-aborto, gente indignada com as coligações à esquerda e vice-versa, e uma comunicação social que se demitiu do seu papel.
Portugal é um país maravilhoso mas, por algum desígnio sobrenatural, foi escolhido para residência da Besta. É a Besta que nos governa (pelo menos desde o tempo do Estado Novo), que põe e dispõe, adormecendo-nos com uma parafernália de bens de consumo com que nos entretemos, na ilusão de que decidimos os nossos destinos. No fundo, os portugueses gostam da Besta e vivem com ela no coração. Por isso olham com nostalgia para o Estado Novo e lamentam o que perderam com a democracia. Os portugueses gostam de “sol na eira e chuva no nabal”, mas isso não é possível, porque a Besta não faz milagres….
Volto a pegar nos jornais. Leio agora que um jardim qualquer quer a Constituição a proibir o comunismo. Desde quando é que os jardins falam? São certamente jardins de papoilas,mas é preciso ter cuidado com os alucinogéneos...
Rejeito mais uma vez os jornais e pego num livro de Chatwin. Tal como ele, pergunto-me “O que faço aqui”?
A brisa serena leva-me até paragens distantes, no hemisfério sul, onde me aguarda o descanso final, junto ao Parque Nacional de Los Alerces, em convívio com as lendas de Butch Cassidy. Encarno a personagem de José Mauro de Vasconcellos em “Meu Pé de Laranja Lima”. Aí reside a minha esperança . Um dia destes, recebem um post meu a dizer: “Adeus, vou para a Patagónia”. Chatwin fez isso e não se deu mal…
Para já, vou continuar as minhas visitas pelo blogobairro, o melhor bairro do mundo!
* (Sittin’ on) The dock of the bay é uma magistral canção de Otis Redding de 1967 que vale a pena ouvir vezes sem fim e marcou um Verão da minha adolescência.
Portugal é um país maravilhoso mas, por algum desígnio sobrenatural, foi escolhido para residência da Besta. É a Besta que nos governa (pelo menos desde o tempo do Estado Novo), que põe e dispõe, adormecendo-nos com uma parafernália de bens de consumo com que nos entretemos, na ilusão de que decidimos os nossos destinos. No fundo, os portugueses gostam da Besta e vivem com ela no coração. Por isso olham com nostalgia para o Estado Novo e lamentam o que perderam com a democracia. Os portugueses gostam de “sol na eira e chuva no nabal”, mas isso não é possível, porque a Besta não faz milagres….
Volto a pegar nos jornais. Leio agora que um jardim qualquer quer a Constituição a proibir o comunismo. Desde quando é que os jardins falam? São certamente jardins de papoilas,mas é preciso ter cuidado com os alucinogéneos...
Rejeito mais uma vez os jornais e pego num livro de Chatwin. Tal como ele, pergunto-me “O que faço aqui”?
A brisa serena leva-me até paragens distantes, no hemisfério sul, onde me aguarda o descanso final, junto ao Parque Nacional de Los Alerces, em convívio com as lendas de Butch Cassidy. Encarno a personagem de José Mauro de Vasconcellos em “Meu Pé de Laranja Lima”. Aí reside a minha esperança . Um dia destes, recebem um post meu a dizer: “Adeus, vou para a Patagónia”. Chatwin fez isso e não se deu mal…
Para já, vou continuar as minhas visitas pelo blogobairro, o melhor bairro do mundo!
* (Sittin’ on) The dock of the bay é uma magistral canção de Otis Redding de 1967 que vale a pena ouvir vezes sem fim e marcou um Verão da minha adolescência.
Belíssimo texto!! acompanhado de uma música intemporal!
ResponderEliminarBem-vindo, Carlos! A última vez que por cá passei fazia-nos inveja, naquele postal de férias. Hoje começa por nos lembrar o que de bom há por aqui, também, mas logo somos confrontados com a parte negra..., e que negra ela é!...
ResponderEliminarLer Chatwin alivia um bocado, mas depois...
Nós gostamos da Besta, porque somos narcisistas. :)
ResponderEliminarDelicioso o pormenor dos auto-colantes do Correio da Manhã no vidro traseiro.
ResponderEliminarOh Carlos não fique assim tão desanimado com o nosso Portugal.
ResponderEliminar(Ainda) não há blogues bloqueados, podemos dizer o que pensamos. Claro que depois vem a parte dos que tanto dizem que dá em Besta.
Agora fez-me lembrar o meu pai: quando vai de férias deixa os jornais e as revistas reservadas e quando volta fica uma data de tempo em retiro a lê-los e começa a dizer: ' ISto está tudo na mesma, para não dizer pior... vou deixar de comprar jornais.'
Atenção que compará-lo ao meu Pai é um elogio. Claro que será mais velho que o Carlos uns bons anos, mas essa parte não está aqui considerada... só memso a atitude.
Carlos, não poderá ser que o mundo distante lhe pareça melhor do que o próximo apenas porque está distante? Às vezes, receio que os problemas e o descontentamento sejam universais. :-)
ResponderEliminarÉ bom tê-lo de volta... inteiro, sem atropelos nem desgastes com as notícias.
ResponderEliminarTudo de bom.
Percebo: stress pós férias! Imagino-o com uma caneca de café na mão, com os jornais em desalinho pelo joelho e o olhar parado de tantas coisas bonitas ver: distante!
ResponderEliminarAí, as notícias incomodam, sim!
BEM-VINDO!
Acho engraçado falar da Patagónia porque o meu pai fala-me nisso com frequência em ir viver para lá ou pelo menos passar por lá uma temporada. E não é a brincar...
ResponderEliminarLivre-se de ir para a "sua Patagónia" sem passar pelo Porto. :)))))))
ResponderEliminarCarlos
ResponderEliminarQue bom ter você de volta e que texto maravilindo meu amigo!!
Que inspiração. Me arrepiei.
Deixo aqui um pouco mais de poesia e Manuel Bandeira.
Vou-me Embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
E Carlos quando estiveres triste, lembre-se há aqui o seu Pasárgada
Beijinhos
Só para dizer que a letra da música é maravilhosa.
ResponderEliminarAcho que não conheço a música, mas gostei de ler este excerto.
Bom fim de semana.
Insisto ... é bom tê-lo de regresso, e não se apresse a entrar no registo anterior pois está muito bem assim!
ResponderEliminarAi, Carlos, credo!
ResponderEliminarEu quero o Carlos de antes de ir de férias.
Acho até que vou fazer uma petição online, interpor uma providência cautelar, sei lá, para impedirem o Carlos de ir de férias.
Há países bem piores e não é preciso irmos longe.
Vamos relativizar as coisas porque quem se lida é o mexilhão que habita o rochedo.
Bom regresso caro Amigo!!
ResponderEliminarabraço
Gostei dessa do jardim de papoilas:))
ResponderEliminarE fico-me a catarolar o "Sittin' on the dock of the bay" desejando-te que encontres a tua Pasárgada, "wasting time"!
Olha, adorei o teu post! Para já, adoro a canção que lhe empresta a banda sonora. É daquelas imortais, felizes canções que não se esquecem.
ResponderEliminarDepois, lembras-me de que não conheço nada deste país paisagístico e que esse conhecimento tenho sempre como um projecto adiado sine die, sempre a intenção, nunca a materialização da mesma. Por outro lado, na negatividade até me assustas, é que eu troquei uma nacionalidade outra por esta e não me apetece arrepender, embora às vezes tenha essa sensação de pergunta se fiz bem ou mal.
Quanto ao jardim falante: ignora!
Carlos,
ResponderEliminarPara quê ler noticias retardadas? O que foi ontem já não é hoje, podendo ser pior ou ficar em compasso de espera para Outubro...!
Sabe que foi numa passadeira com sinal verde para peões que, no Porto, um autocarro conduzido por um dito motorista profissional a colheu tendo um fim trágico? Nem aí somos respeitados.
Acho que temos a Besta que merecemos
Essa música também marcou a minha adolescência!!!
Vem vindo!
Um beijinho
Que pena não ter olhado para a nossa Serra de Sintra!!!
ResponderEliminarCristina: Ler Chatwin alivia mesmo muito! Pelo menos a mim que sou apaixonado pela Patagónia. Este país tem tanta coisa bonita, que merecia políticos que o estimassem mais e um povo que lhe desse o devido valor, não acha?
ResponderEliminarReflexos: Na verdade não deixo os jornais reservados, porque prometo sempre a mim mesmo que quando regressar não quero saber do que se pasou. A contece é que no primeiro dia que chego compro vários jornais e revistas. Leio alguma coisa, mas depois deixo ficar para ler mais tarde, até cabar por as deitar ao lixo. É oq ue se chama deitar dinheiro fora, eu sei, mas há cronistas que não gosto de perder e só por isso acabo por comprar muitos jornais e revistas. E claro que interpretei a comparação com o seu pai como um elogio...
ResponderEliminarAbraço
Luísa: acredite que há países onde as pessoas se sentem felizes e, em muitos deles, não têm sequer metade do que nós temos. Eu mesmo já fui feliz em vários países onde vivi ( Portugal incluído...)
ResponderEliminarVioleta:Obrigado! Espero com muita curiosidade o seu regresso a uma nova plataforma. Tenho saudades dos Fragmentos, mas felizmente ainda tenho uns post atrasados para ler.
ResponderEliminarLúcia: Tirando o café, foi mesmo assim...
ResponderEliminarLacoste: a Patagónia é, para mim, um mundo de encantos indescritíveis. Vivi lá um ano e vou lá todos os anos. Em breve penso instalar-me por lá definitivamente. Compreendo bem o seu pai. Pode acreditar que tem MUITO bom gosto.
ResponderEliminarMD SOL: Daqui a duas semanas estarei no Porto, mas ainda não é para a despedida!
ResponderEliminarLuz: Obrigado pelo poema do Manuel Bandeira. Gosto tanto que até já o soube de cor. Como sabe a minha Pasárgada é a Patagónia... mas sem telefone automático!
ResponderEliminarbeijo
ferreira-pinto: Não tenho presas, nem interesse, sinceramente. Vou fazer os possíveis por aguentar até Setembro. Então, falaremos.
ResponderEliminara propósito: estou curioso para conhecer o seu novo projecto...
Gi: Por amor de Deus, não faça isso! Sem me ausentar do país 3 ou 4 vezes por ano, morria de sufoco!
ResponderEliminarAgora a sério: não estou assim tão desgostoso, bem pelo contrário.Desta vez até fui muito comedido, porque a noss PresidentA avisou-me logo que me aplicaria umas coimas se eu não me portasse bem!
blonde: Talvez o passes a conhecer melhor se não fores de férias em Agosto, pois vai ser o mote de um dos passatempos de Verão daqui do CR.
ResponderEliminarBacouca:Neste país não há notícias retardadas... vira o disco e toca o mesmo.
ResponderEliminarVirita: tem razão, mas a verdade é que Sintra também está sempre dentro de mim. Vou lá tantas vezes, que até me esquedci de mencionar. E do meu Rochedo vejo o castelo ( quando aquela nuvem de nevoeiros se dissipa, claro...)
ResponderEliminarAcho que tenho andado distraído, ou melhor, não tenho, faço-o de propósito. Tenho receio também de ser atropelado pela mesquinhez e sobranceria destes oportunistas cegos. Neste jardim à beira mar plantado nem todas as plantas cheiram bem!
ResponderEliminarAdoro esta música.