
Américo é um "sem abrigo" que, ainda há pouco tempo, gastava as suas noites para os lados da Almirante Reis.Aos oito anos, os pais privaram-no de ir à escola e arranjaram-lhe um trabalho na fábrica têxtil onde trabalhavam "para ajudar o sustento da família". Sempre que podia, fugia da fábrica para a escola, porque "aprender com o que se passa no mundo era tão importante para mim como beber um copo de água ". Perdeu a conta às vezes em que dormiu afogado na dor de uma tareia "por não cumprir os seus deveres com os irmãos mais novos".
Carregado por sentimentos de culpa, lá se foi habituando à ideia de que os livros "eram uma coisa de ricos " a que não podia aspirar e confortou-se com a ideia que o seu destino era ficar naquela aldeia beirã a cuidar dos irmãos mais novos.
Um dia, o Pai disse-lhe que não iam trabalhar porque tinha havido uma revolução em Lisboa e estavam em liberdade. Não sabia bem o que era isso de Liberdade, por isso correu para a escola para perguntar à professora. Encontrou a escola fechada, mas a professora estava à porta avisando os meninos que não havia aulas porque chegara essa tal de Liberdade, uma coisa que devia ser fantástica porque toda a gente falava dela. À sua pergunta, a professora respondeu com uma frase mágica:"Américo, agora ninguém te pode impedir de estudar!".
Tão iludido como a professora, Américo voltou à escola dias depois,ignorando as ameaças do Pai. Às habituais sovas paternas somaram-se outras do patrão e Américo começou a planear a fuga.Arranjou uma boleia, alegando que ia ver o pai" que estava a fazer a revolução em Lisboa". "Quando cheguei a Lisboa, havia tanta gente na rua, que me assustei.Não sabia para onde ir, mas sentia-me feliz porque toda a gente se ria para mim. Durante noites não dormi, mas comi até fartar porque todos me davam de comer e cheguei mesmo acomer em restaurantes".
Américo tinha então apenas 13 anos, não percebia o que se passava à sua volta, até que começou a ver que cada vez menos gente se oferecia para lhe comprar um copo de leite,ou apenas uma sandes.Não sabia o que se passava, mas começou a sentir fome e , como não tinha dinheiro, começou a entrar em cafés e restaurantes oferecendo-se para trabalhar. "Um dia alguém teve pena de mim e deixou-me ficar por um café onde, em troca de comida, levantava as mesas e lavava a louça. Mas durou pouco tempo... Uma manhã o patrão apanhou-me a dar um beijo à mulher- que não me largava- disse-me que me desenrascasse porque a vida estava má e ele ia fechar a loja. Sabia que era tudo "tanga", mas não tive outro remédio que não fosse voltar ao meu poiso no Rossio, até ser expulso para aqui. Trabalho arranjo de vez em quando, mas é tudo trabalho sujo e gostava de voltar à terra. Nunca mais vi ninguém de lá, não sei se os meus pais morreram ou estão vivos, mas tenho medo de voltar. Ninguém mais quis saber de mim, acho que as pessoas nunca me deram trabalho porque tiveram inveja de mim. Era bonito, as "garinas" encantavam-se e quem me podia dar emprego cortava-se. Agora sou um trapo."Américo tem agora 48 anos, poucas razões para sorrir e muitas para desesperar.
Carlos,
ResponderEliminarUma história imensamente triste mas que se repete e repete...
Quantos garotos destes temos por aqui, sem a menor chance na vida... Que pena!... Que imagem tão dolorida para o "Dia Internacional da Criança" quando gostariamos que cada criança fosse um sorriso, um cantar de alegria, uma esperança de um futuro melhor...
Carlos,
ResponderEliminarComo eu sei! Como eles precisam tanto de alguém que os ajude, mais não seja com uma palavra, um conselho! Muito falo e o quanto me contam! Como sabem quem está com eles! Como tenho a certeza que posso deixar chave e o carro e que guardam como sua propriedade!
Quanto ao número 157 sabe que reparei que até aparece em casas de alta tensão(será assim que se chama as construções que abrigam postes ou instrumentos de alta voltagem?). Porque será?
Um beijinho
Carlos: uma história que vem do tempo da velha senhora, mas que poderia ser de agora. Se soubesse os casos que conheço de miudos que não vão à escola apesar das ordens institucionais em contrário...
ResponderEliminarCarlos,
ResponderEliminarSempre que vejo o tema meninos de rua me lembro do Roberto Carlos Ramos.Um menino de rua que vivia brigando na rua, que roubou, sofreu todas as formas de violência,usou drogas.Fugiu mais de cem vezes do abrigo até que encontrou o amor, a disciplina pelas mãos de uma francesa.
Roberto hoje tem mestrado, já escreveu vários livros e adotou vários meninos de rua.
O livro onde ele conta a sua vida: A Arte de Construir Cidadãos: as 15 Lições da Pedagogia do Amor é um livro forte e duro de ler e cheio de sabedorias.
Infelizmente, existem muitos "Americos" no nosso país, continua a não se respeitar os direitos das crianças.
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