Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

A Porta


Não sei as condições em que vive, porque cada vez que lhe bato à porta, apenas uma frincha se entreabre. Sei que vive há 15 anos, com os três filhos, numa exígua casa de porteira com duas assoalhadas. Ao marido, trabalhador da construção civil, expulsou-o de casa há mais de cinco, numa madrugada em que chegou a casa bêbado e lhe deu (mais) uma tareia.
Sei que pelo seu corpo ainda jovem, evidenciando as marcas de maus tratos do homem e da vida que lhe foi madrasta, corre sangue fervente e na ponta da língua tem sempre resposta a um piropo atrevido. Tem um fraco por trabalhadores da construção civil. Daqueles que passam os dias empoleirados em andaimes, fixos ou móveis, balouçando ao sabor do vento. Depois de expulsar o marido de casa, apaixonou-se por um que, ao fim de um mês, desapertou o cinto para lhe cravar as marcas na pele. Disse-me, um dia :“este foi como uma rabanada de vento. Bateu forte, mas pôs-se logo a andar”.
Há dois meses começaram obras lá no prédio. Poucos dias depois, tornou-se perceptível que ela andava de namorico com um dos artistas do andaime. Consta que um fim de tarde ouviram o arfar de ambos na cave, junto aos contentores do lixo. A administração do prédio avisou-a que não toleraria a repetição da cena. Para lá da porta de sua casa, poderia fazer o que entendesse, mas nas partes comuns do prédio, se voltasse a ser apanhada, seria despedida.
O sangue fervia-lhe no corpo, pronto a explodir numa lava de desejo contido mas, com três filhos em casa, ela não arriscava franquear-lhe a porta.
No último sábado, surgiu a oportunidade. O pai dos filhos fazia anos e ela iria ficar sozinha em casa. Comunicou-lhe o facto e traçaram o plano. Ela cozinharia o seu prato preferido, ele apareceria por volta do almoço e, depois, entregar-se-iam um ao outro ao longo da tarde. Havia, porém, um pormenor. Ela não queria que ele tocasse à campainha. Quando chegasse perto do prédio, devia telefonar-lhe e ela deixaria a porta entreaberta para ele entrar. Se a porta estivesse fechada, não tocaria à campainha..
Na manhã de sábado ela aperaltou-se e cozinhou com esmero a feijoada, carregando no piri-piri, comprado pela manhã na mercearia do bairro, para ter a certeza que gozava de todas as suas propriedades.
Faltavam 15 minutos para a uma quando o telefone tocou. Nervosa, atendeu. Pôs mais duas gotas de perfume. Abriu a porta. Ele lembrou-se que se esquecera de lhe levar uma flor. Sem lhe dizer nada correu para a florista da esquina e comprou atabalhoadamente uma rosa encarnada. Voltou ao prédio. Quando chegou, a porta estava fechada. Uma rabanada de vento boicotara o encontro.
Aditamento: História publicada há tempos no Porta do Vento, a convite da Ana Vidal.

16 comentários:

  1. Gostei da lufada de ar que saiu por este post directamente para a porta do meu coração.

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  2. E nao bateu a porta? E diferente do que tocar a campainha :)
    Raios partam o vento !

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  3. Quantas vezes deixamos de dar novas e verdadeiras oportunidades a nós mesmos.O medo de viver , ou quem sabe reviver experiências anteriores, muitas vezes nos impede de viver coisas melhores.
    Quantas rosas deixamos de ganhar.
    Uma reflexão e tanto!
    Tenha um bom dia, Carlos

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  4. Pois é!...
    Às vezes a vida prega peças às pessoas...

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  5. Além de bem redigida, achei engraçada.
    Beijos.

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  6. Ai, o vento, que todo o leva, até as oportunidades. (`_^)

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  7. Mais uma porta que se fechou na vida madrasta dessa mulher...

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  8. no meu tempo de estudante utilizávamos o truque da toalha na porta...

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  9. Carlos
    às vezes o vento também é irónico e pode fazer a diferença no destino de cada um...
    bj

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  10. Ironias do destino. Viveu uma vida inteira ao sabor do vento, de fortes rabanadas de vento marcadas no corpo e por uma simples corrente de ar trava assim uma nova vida atabalhoadamente desejada numa flor.

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  11. Ai o vento esse maroto, esse boicotador de encontros amorosos,..
    quem diria, pois tenho-o em bom conceito1 comigo nunca fez isso...

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  12. Muito bem escrita essa história!
    Adorei!

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  13. Mas ele voltou a telefonar-lhe para ela abrir a porta de novo, certo?

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  14. Carlos

    Que crueldade!
    Logo um com flor e tudo!
    Caramba!

    beijos

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  15. O raio de um pormenor que fez toda a diferença, lá se foi a feijoada...

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