
Aos cinco anos, Laura conheceu pela primeira vez o significado da palavra "desemprego".
Com apenas dois anos, os pais alugavam-na diariamente a uma vizinha que a utilizava como chamariz para pedir esmola junto de pessoas condoídas."Beliscava-me para eu chorar e às vezes batia-me até ficar negra, para que as pessoas sentissem pena"- explica sem grande ressentimento.
Um dia, três anos mais tarde, Laura foi devolvida aos seus progenitores por alegadamente estar excessivamente pesada e já não despertar "sentimentos de caridade".No dia em que deixou de ser "menina de aluguer", Laura foi sovada com chicote pelo pai que a acusava de comer demasiados doces que os clientes de uma pastelaria das Avenidas Novas frequentemente lhe ofereciam.Meses mais tarde, carregando com a culpa de "não servir para nada e ter sido despedida", Laura entrou para uma escola primária na zona do Lumiar. Desses tempos, recorda uma professora bondosa e de olhar sereno que constantemente a acarinhava e incitava a estudar "para ser uma grande mulher", mas o sentimento de culpa não a largava e Laura, mal terminadas as aulas, ia expiar as suas culpas vendendo "pensos rápidos" aos automobilistas que passavam na zona do Campo Grande.
Laura repartia o seu tempo entre as filas de trânsito e a escola. E assim foi crescendo, alheia ao mundo que a rodeava, emoldurado de crianças iguais a ela, brincando com "Barbies", sem direito ao sonho de um dia casar de grinalda e flor de laranjeira com o "Ken" do conto de fadas da sua imaginação.
"Menina de aluguer" nasceu... também assim cresceu!A Laura que hoje está diante de mim, sentada à mesa de um "bar americano", tem 19 anos e uma filha de apenas dois, para quem reserva os melhores momentos. No ecrã de uma televisão distante, desfilam figuras de telenovela às quais não se pode equiparar, mas que nela despertam as recordações dos tempos em que o pai e um tio a perseguiam à compita, atraídos pelo despertar de um corpo "de cobiça".
Por trás de um verde olhar mesclado de tristeza, esconde-se ainda uma esperança no futuro com que sonhou no dia em que, incapaz de suportar as disputas familiares e já apaixonada pelo Marco, a ele se entregou , em troca de promessas de "Liberdade". Foi esse o dia da partida (tinha então apenas16 anos) para um destino incerto que "quis o acaso" a conduziu ao mesmo bar onde hoje, em troca de uma garrafa de espumante, me conta a sua ainda curta vida. Vida povoada de sonhos, onde cabe ainda a força para terminar o 11º ano e arrostar com as dificuldades de uma licenciatura como assistente social "porque não quero mais ver crianças a sofrer como eu sofri".
Dos tempos repartidos entre o Campo Grande e a escola, passou a tempos divididos entre o aconchego a clientes da noite e o prazer de "viajar" na companhia dos livros que a acompanham até ao local de trabalho. "Sabe, a vida da noite não está fácil e muitas vezes, como não há clientes, aproveito o tempo para estudar ou para ler".
O patrão, caso raro, também se mostra compreensivo . Perante a força indómita de Laura e a sua "fúria de aprender", quando a noite "está mais fraca" lá a manda para casa, para os braços do seu Marco,onde desfruta de alguns momentos de ternura partilhados com Daniela, a filha de um momento de liberdade.
(Crónica publicada em 1998)
Fiquei a pensar nessa filha, que hoje terá onze anos e talvez cumpra os sonhos da mãe... (Ando muito a pensar nos filhos dos outros ultimamente como sonhos realizados.)
ResponderEliminarTão triste tudo isso... Tão triste!... Permita Deus, ou a vida, que essa menina consiga encontrar seu caminho e o siga rumo aos seus sonhos.
ResponderEliminarEra uma vez uma boneca
ResponderEliminarCom meio metro de altura.
Insinuante, bonita,
Mas pobremente vestida.
Um ar triste - uma amargura
Ddiluída no olhar...
- Grandes olhos de safira,
E um sorriso combalido
Como flor que vai murchar
.......
Ninguém via o seu sorriso!
Excerto de poema de A. Botto
Bela e triste crónica , que me fez lembrar "História breve de uma boneca de trapos"...
Quantas Lauras andarão por aí???
bfds
OLÁ CARLOS
ResponderEliminarMas...que história de vida!!!
Quantas mais haverá idênticas e que nós não sabemos?
Cá estou eu...
Atrasada nas minhas visitas, um pouco ausente da blogosfera, volto devagar...
Hoje li um post sobre:
"sucesso individual"...
Penso que foi o que acabei de obter.
Se quiseres comentar o meu post do blog "Deabrilemdiante" ficarei muito grata.
Bom fim de semana.
Beijo com amizade.
boa tarde carlos
ResponderEliminara fotografia foi tão bem escolhida!
há qualquer coisa de confrangedor quando as sandálias são maiores que os pés ou quando os dedos saem fora dos limites do calçado. não sei porquê, mas é uma visão desoladora para mim. vejo no passado, no presente ou no tempo que há-de vir daquela pessoa qualquer coisa de desconjuntado, de inadaptado, de desfazamento, mas não me pergunte porquê
cumprimentos
zoe
Tantas Lauras... tantos pais que nunca o souberam ser...E vamos criando uma civilização com principios frágeis, onde até mesmo um gigolô se torna o lado bom.
ResponderEliminarbjs
Fique a pensar se isto era ficção 'real' (estória inventada mas sabemos, no entanto, que elas andam por aí, à nossa frente), mas depois vi que tinha sido uma crónica de há uns anos.
ResponderEliminarÉ tão triste, Carlos. É triste tudo. Principalmente que estas situações permanceçam. E vei-me à memória o lado errado da noite do Jorge Palma. Aquela parte do Marco, então, é mesmo isto:
'Amélia encontrou toni numa velha leitaria
Entre as bolas de berlim com creme e o sol que arrefecia
Ele falou-lhe de um presente bom e de um futuro emocionante
E escondeu-lhe tudo o que pudesse parecer decepcionante
Mais tarde, no quarto de pensão, chamou-lhe sua mulher
Seria ele a orientar o negócio de aluguer
Toni tinha todas as qualidades pra ser um rei
No lado errado da noite'
Histórias reais mas, neste caso, ela ainda encontrou algumas âncoras que a fizeram querer mais e melhor para ela e para a filha. Esperemos que tenha conseguido. Sabe se sim?
ResponderEliminara vida , também é triste...
ResponderEliminarComovente. Arrepiante, mesmo...
ResponderEliminarBom post!