Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Uma vida sobre rodas...

Sentado à mesa de um café nos arredores do Redondo, Júlio Simões exibe triunfante a “manilha” de copas com que “cobre” o rei, e arrecada a “vaza”. Pega na esferográfica e desenha uma bolinha na extremidade de um segmento de recta, que assinala mais uma vitória no jogo de sueca. O marcador fixa-se nos 4 a 2, é altura de celebrar a vitória com mais uma rodada de imperiais paga pelos derrotados.
A vida de Júlio, 54 anos, não tem sido, no entanto, preenchida por vitórias. Pelo contrário... o destino derrotou-o numa noite em que regressava a casa para passar uns dias com a família, depois de uma viagem à Alemanha.
Rebobina o filme da sua vida numa tarde de sábado, pedindo aos colegas uma pausa para dar uma entrevista. “ Mas olhe que tem de ser rápido, porque eles estão raivosos e querem a desforra”. Cerca de uma hora depois, fica registado no meu gravador que começou a trabalhar aos 19 anos como ajudante de motorista. Três anos mais tarde já era ele a conduzir um dos camiões da empresa. As primeiras viagens eram curtas, não passando dos Pirinéus. A sua segurança na estrada e o zelo que punha no trabalho, depressa o levaram a ganhar a confiança dos patrões. As viagens passaram a ser mais distantes e mais frequentes. “Às vezes chegava a Portugal depois de uma viagem de 15 dias, descarregava, ia a casa dar um beijo à mulher e aos filhos e no dia seguinte já estava outra vez a conduzir o camião”.
Durante 31 anos, a sua vida foi passada num camião, calcorreando as estradas da Europa, fazendo cargas e descargas ao ritmo dos ponteiros do relógio. A idade ia avançando e desde os 45, todos os anos, pelo Natal, prometia à mulher que o ano seguinte ia ser o último a conduzir camiões. “ Eu era sincero quando dizia aquilo... Sentia-me mesmo cansado, mas não tinha jeito de arranjar outro trabalho que me permitisse continuar a pagar os estudos dos filhos e sustentar a casa. A minha mulher trabalhava como auxiliar numa escola lá do Seixal, mas nunca teve contrato e não sabíamos com o que podíamos contar. Ao menos o meu era certo, não podíamos ser os dois a arriscar...”.

As promessas de mudança foram passando de ano em ano, até àquela fatídica noite de Fevereiro de 2003. “Há quase uma semana que guiava 16 horas por dia e estava ansioso por regressar a casa. Devia chegar nessa noite, não fosse esse momento maldito!”. Já em solo pátrio, Júlio Simões parou no local do costume para jantar. Confessa que “bebeu um copito” e tomou uns cafés para “arrebitar”. Depois meteu-se à estrada a pensar no reencontro com a família, mas foi vencido pelo sono. Despistou-se, os prejuízos materiais foram avultados. Júlio foi parar a uma cama do hospital, onde soube que o companheiro de viagem morrera no acidente. “Nunca mais voltaria a ser o mesmo, depois de saber que tinha causado a morte de um colega, mas pensava que ficar retido numa cama durante mais de um ano e ter ficado incapacitado para o resto da vida era castigo que chegasse.”
Mas não foi. Teve de enfrentar um processo de recuperação de mobilidade muito doloroso durante quase dois anos e, durante esse período, recebeu uma carta a comunicar que fora considerado culpado pelo acidente e por isso despedido “com justa causa”. Já estava tão magoado com a empresa, que nem pensou em recorrer aos tribunais. “O que mais me dói é que ninguém me foi ver, nem perguntar se precisava de alguma coisa. Ao fim de 30 anos sem um acidente, sem uma repreensão no trabalho, merecia um pouco mais de respeito.”
Arranjar emprego aos 54 anos está fora do seu horizonte. Como a mulher, entretanto, também ficou desempregada, optaram por regressar ao Alentejo, para a casa que fora dos sogros dele. Vivem da pensão de Júlio e das pequenas economias que conseguiram fazer ao longo da vida, porque a mulher apesar de ter sido auxiliar no Ministério da Educação, mais de 10 anos, não recebe qualquer subvenção do Estado. “Se não fosse as economias que fizemos, decerto que morríamos à fome. Aqui sempre gastamos menos que no Seixal. Os filhos de longe em longe vêm ver a gente e eu cá me entretenho a jogar às cartas e a beber uns copitos. A minha senhora de vez em quando também vai fazer umas limpezas ao monte de uns ricaços de Lisboa que lhe dão uns cobrezitos . Mas tenho que ter cuidado, porque sempre que chego a casa com um copito, a minha senhora diz que na próxima vez me põe na rua. E um dia põe mesmo!”
De cenho um pouco mais carregado, pelas recordações que acabara de me relatar,voltou a juntar-se aos amigos para a desforra. Fiquei a ver, à distância, durante uns minutos. Saí quando a voz de Júlio voltou a irromper no ar "Toma lá a manilha! Com esta enganei-te bem, macaco...". Seguiu-se uma sonora gargalhada. A vida de Júlio voltara à normalidade. Nos arredores do Redondo, para onde uma curva da estrada inopinadamente o atirou, num breve piscar de olhos.





20 comentários:

  1. Comovente estória de vida!!!!
    Belo quadro, de que gosto muito!
    Já vivi algo muito parecido com o meu pai, que ficou desempregado aos 57 anos, numa empresa vidreira!!
    Alguns suícidos houve!!!
    Já no meu blogue contei a estória ,em Janeiro, dia em que faria anos!!!

    P.S.- um destes dias deixei-lhe um presentinho , assim como aos restantes adeptos da blogosfera, lá na minha capelinha...

    ResponderEliminar
  2. Circular é viver ... já que não pode ser sobre rodas que seja no Redondo.
    A vida é um jogo de sorte e azar; para a maioria o jogo fica viciado logo no início.

    ResponderEliminar
  3. Tenho uma carta/email para ser enviada para a CM de Sintra, contra a realização de um espectáculo de circo com animais selvagens
    Peço a tua ajuda, para que envies também um email para eles, para acamarmos com os circos com animais.
    Vai ao meu Blogue está lá tudo explicado
    http://troca---letras.blogspot.com/

    ResponderEliminar
  4. AS voltas que a vida dá são tão surpreendentes!!
    Umas pela coragem que os volte-faces negativos provocam, outras pela tristeza de querer fazer sofrer quem não merece.
    É aí que às vezes pergunto onde andam as entidades superiores ou os 'puppeters' que seguram os fios do n/ destino....

    ResponderEliminar
  5. E assim se termina uma vida, quase sem o ter sido.
    Que triste vazio.

    ResponderEliminar
  6. Excelente reportagem Carlos. É a história de uma vida real, igual a tantas outras, que foi juntando pequenas vitórias para depois quase tudo se perder numa jogada mal realizada. No fim baralham-se de novo as cartas e volta-se a dar à espera dos trunfos.

    ResponderEliminar
  7. Estava a pensar, Carlos, no triste que deve ter sido (passado?) a vida da mulher dele. Dava uma história também.

    ResponderEliminar
  8. É terrível vê-los nas áreas francesas à hora do almoço.

    ResponderEliminar
  9. Carlos,

    Uma história triste, de muita luta que deu em nada e, lamentavelmente, não rara pelas estradas da vida...

    ResponderEliminar
  10. As cartas que uma pessoa joga! Cada jogo uma jogada diferente com a sorte e o azar à porta.
    É só mais um jogo e venho rápido. Muitas vezes não se chega a regressar. Foi o caso desta vida com jogadas e em que a última cartada o mantém para o resto da vida, provavelmente, a jogar cartas num café à porta da Cooperativa do Redondo.
    Uma história de ânimos e de desânimos. Gostei de o ler, Carlos.

    ResponderEliminar
  11. Olá!
    Uma história de vida ,como muitas outras...
    A vida pode ser madrasta.
    Por vezes a sabedoria popular, não tem razão :" a vida é bela, nós é que damos cabo dela" !!!!
    Há horas de azar.

    Beijocas

    ResponderEliminar
  12. Que relato!...
    Impressionante.E mais Júlios haverá por aí...

    ResponderEliminar
  13. As histórias de vida são um património fundamental das nações, sem elas nunca teriamos «a substância» das comunidades.
    Foi bom visitar o seu blogue.
    um abraço
    Anad

    ResponderEliminar
  14. histórias de vida que marcam quem as vive e faz pensar quem as ouve ou lê.Fez-me lembrar o filme o escafandro e a borboleta que falo lá no meu cantinho.
    abraço

    ResponderEliminar
  15. Fantástico. Um dia, se quiser, conto-lhe umas histórias, sobres estas histórias.

    ResponderEliminar
  16. Júlio me lembrou uma das vítimas( não fatais, claro) que entrevistei em 89, do acidente com o Césio 137,ocorrido em setembro de 87, em Goiânia.Chamava-se Ernesto Fabiano e eu entrevistei-o no hospital da Unicamp. Ele tinha uma ferida na perna direita,na altura do bolso aonde ele carregou a pedra, que não cicatrizava.Mas o pior nele era o sentimento de culpa pela contaminação que ajudou à causar e a discriminação.Seus olhos eram tristes demais e no final da entrevista ele despedaçou-se num choro sentido.

    ResponderEliminar
  17. Júlio me lembrou uma das vítimas( não fatais, claro) que entrevistei em 89, do acidente com o Césio 137,ocorrido em setembro de 87, em Goiânia.Chamava-se Ernesto Fabiano e eu entrevistei-o no hospital da Unicamp. Ele tinha uma ferida na perna direita,na altura do bolso aonde ele carregou a pedra, que não cicatrizava.Mas o pior nele era o sentimento de culpa pela contaminação que ajudou à causar e a discriminação.Seus olhos eram tristes demais e no final da entrevista ele despedaçou-se num choro sentido.

    ResponderEliminar
  18. Caro Carlos,
    Quem não navega na blogosfera perde textos de rara beleza como este seu.
    A blogosfera é um espaço de liberdade criativa.
    E essa liberdade criativa conduz a abrigos lindos como este.
    Um abraço

    ResponderEliminar