Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Rochedo das Memórias (112)- Códigos da Moda

Escreve Umberto Eco:“ quando um homem , pela manhã, diante do espelho, dá o nó da gravata, está a fazer uma opção ideológica”.
Bastaria relacionar o culto de Che Guevara e o aparecimento da boina na moda masculina, ou a conotação ideológica do vestuário de cor preta muito em voga em determinada época do século XX, para justificar a asserção de Eco. Mas voltemos um pouco mais atrás para analisar outros códigos da moda através dos tempos...
Nos tempos em que a moda era hegemónica e traduzia o mimetismo do ambiente vivido na Corte ou na aristocracia e, mais tarde, na burguesia endinheirada, o vestuário dava-nos uma informação precisa sobre o sexo, profissão, nacionalidade e meio social de quem o usava.
A partir da década de 60, do século XX, assiste-se a uma progressiva transformação desta
identificabilidade, pois os códigos do vestuário começam a sofrer profundas transformações. Para as compreender e perceber a sua influência, será necessário recuar ao século XIX.
É em meados desse século que Charles Worth funda na rue de La Paix, em Paris, a casa onde pela primeira vez modelos inéditos, preparados com antecedência e frequentemente mudados, são exibidos em salões luxuosos a clientes ávidos, que os escolhem e os mandam executar por medida. Estes protótipos são apresentados por mulheres jovens e esbeltas, o que vai provocar o início de uma autêntica revolução, já que os modelos de referência e os códigos da moda se vão deslocar de epicentro.
Com efeito, o centro mimético transfere-se da Corte e da aristocracia para a “modelo” ou “manequim”, embora não ainda definitivamente. Está-se ainda na fase em que a nova burguesia endinheirada se cobre de fausto, jóias e tecidos preciosos, tentando igualar-se à nobreza. A moda (criada pelos costureiros, que começam a assinar os seus modelos) é exibida nas festas desta classe emergente. Deixa de ter como pontos de referência as classes sociais mais elevadas para, com o aparecimento da burguesia, deixar de exercer a sua influência mimética de cima para baixo.
Com a Alta Costura, a moda perde também as suas características nacionais e regionais, nasce uma Internacional da Moda. Primeiro Paris, depois Milão, Roma, Nova Iorque e Londres passam a ser as catedrais da moda que ditam a lei do mercado das vestes. Para trás ficavam os tempos em que só os alfaiates tinham o privilégio de vestir ambos os sexos, aproximava-se a passos largos a era do estilista e do criativo.


Foto: Dorian Leigh, uma das primeiras "top models"

A universalização da moda, regida de forma hegemónica e demiúrgica pelos costureiros , vai culminar nos meados da década de 60,com o apogeu da sociedade de consumo. Deixa então de se vender uma criação que impõe regras e modelos, para se passar a vender apenas um estilo, uma ideia. Em vez do costureiro exibindo as suas criações em passagens de modelos reservadas a “elites”, aparecem o criador e o estilista, que diante da pantalha e perante milhões de consumidores se comportam como ilusionistas tirando da cartola a última obra da sua criatividade, exibida por uma “top-model” de cortar a respiração.
Mas, apesar de ter apenas 3000 clientes por ano em todo o mundo, a Alta Costura não morreu. Transformou-se num laboratório de novidades que lança as tendências do ano e, aliada à moda, sobrevive à custa da produção em série, especialidade de uma sociedade de consumo que não se contenta com uma pequena faixa de consumidores abastados, sedentos de exibir riqueza e luxo. Quer usufruir de fatias cada vez maiores de consumidores e, quanto mais moribundo esteja o sistema económico que a suporta, mais sequiosa se torna, pretendendo abarcar o bolo todo. Lança-se no teatro, no desporto, no bailado ou na ópera, alia-se à publicidade e aos “media”, cria as marcas, invade o desporto e as actividades de lazer, gera os seus ícones, a sua imprensa especializada e alimenta uma corte à sua volta, com os seus actores .
Do mimetismo iniciático em que reproduzia os modelos da corte, passa a incarnar ela própria uma corte onde o papel de cada um dos actores tem o seu lugar numa hierarquia rígida. Mantendo embora alguma criatividade, não hesita em entrar na reciclagem de modelos antigos, recupera a tatuagem, fura narizes, orelhas e lábios, recria os adereços e adornos e sai para a rua em busca de fontes de inspiração que, não raras vezes, sorve em modelos de sociedades primitivas ou em grupos que criaram a sua própria moda, fora dos padrões tradicionais e hegemónicos.
(Continua)

9 comentários:

  1. bom... já a mimha avó dizia : "está tão bem... que nem se nota! "

    ResponderEliminar
  2. A sua frase final, resume aquilo que eu sempre pensei da moda. É um ciclo, que se reinventa.
    Lembro-me de ver fotos dos meus pais e irmãos, do início dos anos 70 e, nos anos 80 e 90, achar 'pirosíssimas' aquelas calças à boca de sino e os óculos de sol de armações gigantescas, de eu usar calças de ganga justíssimas e saias e coletes indianos...
    Soa-lhe familiar, Carlos??

    ResponderEliminar
  3. Teresa: Ai nota, nota, e às vezes desafina...

    Si: Então não soa? Nunca usei calças de boca de sino, nem aqueles óculos d sol, mas eu nunca fui padrão, andei sempre tresmalhado.

    ResponderEliminar
  4. Quando lhe falei em familiar, quis referir-me à moda actual: as calças à boca de sino que voltaram a ser usadas desde há 6/7 anos e as justíssimas, 'estrelicadas', como eu lhes chamo, que se usam agora, juntamente com os padrões e tecidos indianos!!
    Mas acredito que o Carlos não repare. Não só hoje se usa de tudo um pouco, como ter uma adolescente em casa nos faz reparar mais nas coisas, de facto!

    ResponderEliminar
  5. Si: Eu percebi, mas o que quis dizer foi que não usava na altura e, por isso, também não uso agora. Como bem diz -e vou referir mais para o final da série de posts sobre a moda- hoje cada um faz a sua própria moda e os códigos são mais grupais e claramente identificadors do que há 30 ou 40 anos. Bem, mas estou a adiantar-me...

    ResponderEliminar
  6. Concordo que a moda tenha ondas ciclícas sim.
    Sempre mais criativas mas é um ciclo que se repete e fala muito do incosnciente coletivo. Não achas?
    Beijinho cheio de bossa ( risos)

    ResponderEliminar
  7. E hoje que moda temos? Um pouco de todas as décadas do século XX revisitadas. É dificil definir um estilo . Não acha? Aquilo que lhe posso dizer é que hoje pela maneira de vestir podemos fazer uma pequena leitura de uma pessoa.
    Anad

    ResponderEliminar
  8. Luz: concordo em parte... há ciclos, concerteza, mas a partir daí.... bem o melhor é esperares pelo desenrolar da história.

    ResponderEliminar
  9. Anad: provavelmente o estilo colectivojá não existe. A forma de vestir deixou de se pautar por padrões de figurinos e tornou-se tão individualista como a sociedade. Cada um tem o seu estilo, cada grupo tem os seus códigos dd vestuário qu os identifica...

    ResponderEliminar