Curiosamente, foi em Macau que foi apreendido e censurado o primeiro livro de um autor português durante o Estado Novo. Estávamos em 1926, quando o então Governador de Macau, Maia Magalhães, mandou apreender a segunda edição do polémico Historic Macao de Montalto de Jesus.
A ordem de confiscar o livro foi cumprida com tal zelo, que a polícia foi de casa em casa em busca de exemplares existentes. Salvaram-se, porém, alguns exemplares que foram enviados para Hong-Kong e Xangai, e outros que os seus possuidores conseguiram guardar em locais inexpugnáveis. A razão apontada pelo Governo Português para a apreensão do livro era a de que continha “matéria subversiva, atentatória da nossa soberania”, pelo facto de Montalto de Jesus defender a ideia de que o Território de Macau deveria ser internacionalizado sob a égide da Sociedade das Nações.
Obrigado a defender-se no Tribunal de Polícia Correcional de Macau, Montalto de Jesus queixou-se da apreensão de que o seu livro fora vítima, nos seguintes termos:
“Visa a lei de imprensa manter a ordem e decência, suprimindo publicações, sediciosas ou imorais, legalmente condenadas. Ora, no meu livro Historic Macao, nada há que conscientemente possa ser tido como violação daquela lei. Foi por ordem deste Tribunal que se confiscou e suprimiu a obra em Macau, sem que eu fosse julgado primeiramente, ou que o livro fosse condenado legalmente”.
Montalto de Jesus faleceria pouco tempo depois e o seu livro só viria a conhecer a primeira edição em português em 1990. Como escreve Jack Braga no seu livro Primórdios da Imprensa em Macau, “Macau só esteve isento de Censura entre 1842 e 1844”, razão porque a Censura foi sempre uma instituição abertamente assumida e até capaz de suscitar elogios públicos. Atente-se nesta notícia publicada no diário “A Voz de Macau” de 29 de Janeiro de 1945: “Segundo o Boletim Oficial de sábado último, foi, a seu pedido, exonerado do cargo de presidente da Comissão de Censura (de Macau), cargo que desempenhou com todo o zelo, lealdade, dedicação, e competência, o capitão de artilharia sr. José Joaquim da Silva Costa, sendo nomeado para esse cargo o capitão de artilharia, sr. Eduardo de Madureira Proença (...)”.
Não deixa de ser curioso que um jornal que via a sua liberdade coarctada por uma instituição, e que nem sequer defendia as ideias do regime, desse notícia de um louvor publicado em Boletim Oficial do Território!Henrique de Senna Fernandes, autor de "Amor e Dedinhos de Pé", afirma, por seu turno que “os censores eram extremamente incompetentes. Não tinham preparação para aquele trabalho e cortavam a torto e a direito.”
A ignorância é uma coisa incrível! Não fazia a mínima ideia que Camilo Pessanha tinha sido censurado... e sabe do que é que gostei mais? Da imagem de Macau, que é igualzinha a dezenas que tenho em caixas, porque os meus pais nunca foram adeptos de albuns de fotografias. A próxima vez que estiver com eles vai haver um verdadeiro interrogatório. O meu pai não se esquece de nada, nem de um único nome...
ResponderEliminarTambém pensei que ia gostar da imagem.
ResponderEliminarEu também só soube que o Pessanha tinha sido censurado quando andei a fazer as pesquisas.