Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

"Punhos de renda" e crimes de guerra


Fizeram-se amigas nos bancos da primária do colégio do Rosário, no Porto. Cresceram em bailaricos e tertúlias, onde conviviam com grandes vultos da cultura portuense dos anos 20. O casamento separou-as durante uns anos mas, quando a minha mãe regressou à sua sempre amada Foz, o convívio restabeleceu-se, então a nível de casais.

Lembro-me bem da figura do marido dela. Era conhecido entre as senhoras que frequentavam a casa dos meus pais como o “senhor dos punhos de renda”, epíteto que lhe foi atribuído como reconhecimento pelas mesuras cheias de “nove horas”, (onde se incluía a vénia e o beija- mão) próprios de um cavalheiro de educação esmerada. Muito religioso, todos os domingos ia à missa do meio –dia na Igreja das Antas, não faltando à comunhão. Eram frequentadores assíduos das tardes domingueiras de canasta lá de casa- onde só chegavam depois do jogo das Antas a que eu assistia como apêndice daquele casal sem filhos. À época não eram muitas as senhoras que iam ao futebol e muito menos as que se permitiam vibrar em pleno estádio. Mas quem me deixava boquiaberto era o “senhor punhos de renda”. Sempre tão educado… perdia a compostura no Estádio das Antas! A cada erro do árbitro, a sua voz levantava-se num coro de protestos, mas nunca o ouvi insultar a mãe do árbitro. Apenas aquele típico vocabulário nortenho – que apesar de tudo eu estranhava, por sair da boca de uma pessoa tão educada.

Assim me fiz portista, adepto vibrante e dedicado, mas sempre resisti às tentativas de doutrinação com que ele pretendia pautar a minha conduta junto do Senhor. Convites para ir ao futebol nunca recusei, mas para ir à Missa, só mesmo por imposição materna.

Já eu era um adolescente que passava os dias a sonhar com a minha vinda para Lisboa, quando o escândalo rebentou. Soube-se um dia que o marido extremoso, de conduta irrepreensível, afinal partilhava uma outra cama e uma outra casa onde sustentava a amante e os dois filhos. Ainda hoje estou convencido que foi ele próprio a desvendar a história. Tê-lo-á feito em defesa dos interesses dos filhos pois, menos de um ano após a tão inesperada notícia, partiu para a companhia do Senhor, vitimado por um cancro.

Já se passaram uns bons 40 anos, mas hoje lembrei-me deste casal ( ela ainda é viva e continua a ser a melhor amiga da minha mãe) ao ler a crónica do Baptista- Bastos no DN sobre Donald Rumsfeld.

Ia o “ tão cristão, tão tranquilo, tão imaculado” ( palavras de Baptista Bastos) a caminho de uma festa , quando uma mulher ainda nova lhe barra o passo aos gritos. Indignada, colérica, abre as mãos molhadas de sangue, aproxima-as do rosto de Rumsfeld e grita: “Criminoso de guerra! Criminoso de guerra!”.

Passada a surpresa, Rumsfeld retomou o seu caminho, sorrindo. Seguro de que o Senhor lhe perdoará os pecados? Ou apenas com a certeza de que a justiça terrena não julgará os seus crimes, porque só condena apagados exterminadores da zona dos Balcãs, ou líderes de países onde as jazidas de petróleo permitem opíparos banquetes?

Rumsfeld, Bush, Cheney ou Condolezza Rice , com a cumplicidade de Aznar, Blair e Barroso são responsáveis pela morte de milhares de inocentes. Montaram um cenário de mentira para satisfazer a sua soberba, mas vão a uma festa ou entram na Igreja de consciência tranquila, porque sabem que estão imunes à justiça que eles próprios criaram. Essa só julga os que lhe fazem frente. Que o Senhor saiba fazer a justiça que os homens são incapazes de aplicar.

16 comentários:

  1. Carlos, já dizia o meu avô que de falsos moralismos está o mundo cheio e quem quem, veemente, bate com a mão no peito só para o alheio ver é do pior que a sociedade tem :-S

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  2. Desculpe o comentário egoísta:
    abençoado senhor dos punhos de renda que o ajudou a ficar azulão! rsrsr

    :))))

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  3. Só acredito na justiça dos homens, esse grupo pode dormir em paz porque os homens não estão dispostos a condená-los, ao fazê-lo estariam também a condenar-se a si próprios por assistirem impávidos a tão tenebrosos horrores.

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  4. Carlos

    é muito simples, não a possuem, a tal de consciência.
    Até escolhem uma religião onde a confissão a um sacerdote e meia duzia de rezas os iliba de qualquer acto.

    beijos

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  5. Ele é apenas criminoso. Ponto final.
    E a justiça, se não forem os homens a fazê-la, bem podemos esperar...

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  6. Carlos

    Eles que esperem pela justiça divina, ela virá.


    Estudei num colégio chamado Rosário!E rindo concordo com mdsol
    beijinhos

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  7. Viver com a verdade nos punhos (de renda ou do que forem) é que deve dar nisso. Sempre desconfiei dos que dormem com a consciência tranquila, havendo como há tanta injustiça no mundo da que em certa maneira todos somos cúmplices (alguns até responsáveis directos).

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  8. ...falta o blair!
    mas estão todos na maior! Com a desculpa que já não cola de que 'com os dados que tínhamos na altura...' Uma tristeza!

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  9. E o que escrevi em cima ajuda-me aqui.

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  10. cerejinha: Não tenha dúvidas...

    mdsol:não foi só ele, mas que deu um forte contributo, deu. Pena que só tenha podido festejar um título do nosso clube, quando ele já tinha desasparecido.

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  11. salvo: eses de que fala também não têm consciência
    Ana: e depois também tem aquele aspecto de podrer pecar, desde que pague, como acontece com as "Bulas(?)" na Quaresma. Se pagas, podes comer carne à fartazana. Se não pagas podes comer na mesma, mas vais ter de expiar os pecados. Brrrr!

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  12. justine: Bem sentadinhos. Aqui no Rochedo, por exemplo, que tem bela vista para o mar.

    Luz: Talvez venha, mas será tarde para quem fica cá em baixo.
    O seu azulão vai estra na próxima semana cá em Portugal, sabia?

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  13. Sun Iou Miou: De consciência tranquila, eu durmo. O que me provoca insónias é a dor que os mais fortes inflingem aos fracos, quando tinham todas as condições para os poder aliviar do sofrimento.

    Lúcia: Não falta, não? Está lá...Então ia esquecer esse figurão?

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  14. "Rumsfeld, Bush, Cheney ou Condolezza Rice , com a cumplicidade de Aznar, Blair e Barroso são responsáveis pela morte de milhares de inocentes. Montaram um cenário de mentira para satisfazer a sua soberba" são uns criminosos de punhos de renda , o seu amigo era só mentiroso ,coitado do homem e amoral:)mas enfim não matou ninguem.Não o faz pensar o porque ainda acontecem cenários destes montados mesmo debaixo do nariz de toda a gente e nada se faz para impedir?Tal como quando da I e principalmente II guerra , todos sabiam ....existe alguma coisa de profundamente estranho na passividade com que deixamos ....isto a mim deixa-me perplexa e pouco segura em relação ao futuro do Homem.

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  15. Nas justiças divinas eu não acredito. O destino esse será igual para todos, no entanto a lembrar o do Saddam sempre se poderiam marcar com alguma antecedência!
    Ai qu' esta crónica fez surgir na minha mente uns suaves toques de malvadez.

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  16. annie: há sobejas razões para estarmos apreensivos, não tenho dúvida.

    paulo: naõ queres partilhar connosco ?

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