
Isabel, Luísa e Fernando decidiram ir beber um copo à Kapital. O ambiente estava animado, prolongaram a noite até quase ao amanhecer.Isabel e Luísa despediram-se de Fernando à porta da discoteca e foram ao encontro do carro, estacionado na véspera, a umas escassas centenas de metros. Fernando, consciente de que bebera demasiado, optou por apanhar um táxi.
Já Fernando curava a ressaca em casa, quando o telefone tocou. Do outro lado, ouviu a voz de Isabel. Nervosa e chorosa.
-Fernando, temos de nos encontrar depressa. Podes vir ter connosco?
-Que se passa? Ainda agora vos deixei… estou a ressacar…
-Tens de vir. Ou então vamos nós a tua casa, mas é muito urgente.
- Está bem, vou apanhar um táxi e passo já por aí.
Contrariado, mas não querendo deixar de responder ao apelo das amigas, enfiou os jeans e uma t-shirt e desceu à rua para apanhar um táxi.
Fez o trajecto a magicar o que se teria passado, para reclamarem a sua presença urgente.Arrependeu-se de não ter perguntado, mas encolheu os ombros enquanto ruminava “Coisas de gajas. Vá-se lá percebê-las. Há duas horas propus-me acompanhá-las a casa e recusaram; agora querem que vá lá depressa. Devia tê-las mandado dar uma curva…”
Quando Isabel abriu a porta, Fernando deixou escapar um “Ah!” de espanto.
- Que se passou? Foste assaltada? Bateram-te?
Isabel mandou-o entrar. Aninhada no sofá da sala estava Luísa.Aparentemente não tinha nenhum hematoma, como o que Isabel exibia na face. Estava abúlica, de olhar distante e nem sequer fez menção de o cumprimentar.
- Que se passou? Desembuchem, caraças!
- Tens de ir connosco à polícia, Fernando. Fomos assaltadas e roubaram-nos tudo. Dinheiro, cartões de crédito, telemóveis, os colares e as pulseiras…até o Dupont que o meu pai me tinha dado antes de morrer, com o pedido para o estimar...
-E vocês são capazes de reconhecer o gajo?
- Não pode ser! São uns gajos porreiros… estás enganada, Isabel
- Não estou não, Fernando. Eu e a Luísa reconhecemo-los perfeitamente.
-E porque é que te bateram?
-Porque tentei resistir e disse-lhes que os conhecia. O Z deu-me um murro e disse-me que era só um aviso para não dar com a língua nos dentes.
-Vamos apresentar queixa imediatamente.
-Temos medo, Fernando.
-Medo de quê?
- Das represálias. Se apresentamos queixa eles depois vingam-se e não sei do que serão capazes.
Fernando sentou-se no sofá a pensar no que fazer. Passado um minuto disse decidido:
- Tenham lá paciência, mas temos mesmo que apresentar queixa. Se não o fizermos, eles vão assaltar mais pessoas.
As irmãs entreolharam-se em silêncio. Luísa deu finalmente um sinal de que estava a ouvir a conversa. Levantou-se num gesto decidido e com voz firme disse:
- O Fernando tem razão. Temos de apresentar queixa. Não podemos permitir que eles assaltem outras pessoas.
Saíram de casa e foram apresentar queixa na esquadra mais próxima. Foram ouvidos pelo polícia de serviço, cuja lentidão e ar grave os deixou exasperados. No final, perguntou-lhes se queriam formalizar a queixa.
- Claro- respondeu Fernando
- O senhor não estava presente, pois não?
- Não, mas confio nas palavras das minhas amigas
- Bem, fique aqui que eu vou ali ao lado com as suas amigas mostrar-lhes uma coisa.
Fernando aguardou, quase uma hora, o regresso de Isabel e Luísa. Finalmente, assomaram à porta. Vinham assustadas. Despediram-se do polícia que se mostrava agora mais afável.
Chegados à rua, Fernando perguntou:
- Que raio estiveram vocês a fazer com o polícia durante quase uma hora?
- Já te explicamos. Nem vais acreditar! Falámos no carro- respondeu Isabel
Quando entraram no carro. Luísa deixou escapar um grito:
- Como é que esta merda é possível? Cambada de filhos da p***
- Que foi, porra! Digam á o que se passou com o bófia
.- Esteve a mostrar-nos uma série de fotografias para ver se as identificava-mos. Conhecêmo-las quase todas. Tudo seguranças. O gajo diz que já têm várias queixas desde o Verão, de pessoas que têm sido assaltadas depois de saírem da Kapital e do Kubo, mas que nunca ninguém identificou as fotografias. Ele acha que as pessoas dizem que não reconhecem os tipos por medo. Nós fomos as primeiras a identificá-los.
- E sabes quem também está metida nesta merda? A G!
- Quem? A loira? - Sim, essa mesmo a quem tu te fartas de fazer olhinhos e dar trela a noite toda. Imagina a filha da p*** da boazona!
Fernando engoliu em seco. Não disse às amigas que, no Verão de 2007, tivera um caso com G. Decidiu romper quando descobriu que ela estava metida em negócios de droga. Suspeitava que fosse mesmo traficante, porque duas vezes lhe telefonaram a meio da noite e ela desaparecera sem deixar rasto durante uns dias.
-Em que estás a pensar? Não me digas que agora estás com pena daquela cabra!
-Nada disso- disfarçou Fernando. Estava a pensar o que se irá passar a partir de agora.
- O polícia disse-nos que iam chamar todas as pessoas que apresentaram queixa. Têm esperança que, sabendo da nossa identificação, algumas pessoas aceitem colaborar na identificação dos outros. O polícia disse-nos que eles actuam em grupo e querem prendê-los todos de uma vez, para desmantelar o gang.
Dois meses depois, Isabel e Luísa receberam uma notificação para se apresentarem na polícia. Tiveram de reconfirmar a queixa e mandaram-nas para casa.
Duas semanas mais tarde, no último sábado, Fernando estava na esplanada a ler o jornal pela manhã, na companhia de Luísa, quando leu este título:“A PSP prendeu sete indivíduos, seguranças nas discotecas do grupo K, acusados de assaltar clientes”.
Finalmente! - pensou aliviado. Depois foi ler a notícia. “ Os indivíduos foram detidos pela PSP na quarta-feira e foram presentes a Tribunal na quinta feira. Seis saíram em liberdade com termo de identidade e residência e um ficou em prisão domiciliária.O jornal noticiava, ainda, que um dos detidos (Paulo Baptista) era o “braço direito” de um ex-polícia (Alfredo Morais) que se encontra a monte, depois de ter sido condenado a sete anos de prisão. O polícia é também arguido no caso “Passerelle”- acusado de lenocínio e auxílio à imigração ilegal- em que está envolvido Jorge Chaves, o presumível homicida do proprietário do bar “O Avião”.
Fechou o jornal, respirou fundo e, voltando-se para Luísa, perguntou:
- Olha lá, vamos dar uma volta pela praia? Preciso de espairecer um bocado.
E lá foram os dois, gozando o sol da manhã.
Ao fim de algum tempo, Luísa perguntou:
- Quando é que a polícia irá prender os gajos do K?
Fernando apertou-a contra si. “Não penses nisso agora. A polícia fará o que tem a fazer”.
- Não sei não! Não conheces aquele ditado que diz “ Quem tem K sempre escapa?”
-És capaz de ter razão…
(Esta história foi criada a partir de uma notícia do DN do dia 16 de Maio. Qualquer semelhança com a realidade pode não ser pura coincidência)
(Esta história foi criada a partir de uma notícia do DN do dia 16 de Maio. Qualquer semelhança com a realidade pode não ser pura coincidência)


Hiii - tantos casos para onde eu exptrapolava este texto, Carlos!!
ResponderEliminarTenho andado sem Pc, mas ando a pôr a leitura em dia. Não vou comentar os outros posts para não ser 'atrasada'. Mas gostei da visão do caso da jornalista e do Sócrates. Agora vou continuar pelas censuras:))
Já não restam histórias para inventar, Carlos, nem contos de fadas.
ResponderEliminarInfelizmente assim é caro Carlos:...pode não ser pura coincidência.
ResponderEliminarboa semana
A tua estória causou-me arrepios - porque a semelhança com a realidade não é de facto coincidência.
ResponderEliminarAssustador...
ResponderEliminarO que mais me impressiona é a sensação de impunidade....
Li exactamente a mesma notícia e acrescento um ponto a este conto: A cara de gozo com que os três tinham saído do Tribunal, em sessões anteriores, mesmo a condizer com a sentença aplicada.
ResponderEliminarAo que sei, o que estava a monte, a monte continua, concerteza aterrorizado com a possibilidade de ter que ficar em casa, como pena acumulativa dos 7 anos de prisão do outro processo....
Não dizem que não há melhor ficção do que a própria realidade?
ResponderEliminarAí está!
Esta história não eskapa muito à realidade, infelizmente.
ResponderEliminar'acumulativa'??
ResponderEliminarAi, credo!
'CUMULATIVA', era o que eu queria dizer!!
E qual foi a medida de coacção pedida pelo MP? Esta parte nunca nos é contada.
ResponderEliminarjá aqui não vinha faz tempo..e se por um lado fico contentete com a qualidade da narrativa, por outro irrita-me a impunidade curriqueira destas situações. Eu acho que os juízes devem estar...digamos"adquiridos" por estes indivíduos...
ResponderEliminarLúcia: Parece que anda qualquer coisa estranha nos computadores do blogobairro. Eu também tenho alguns problemas neste.
ResponderEliminarTetem: Não diga isso! Os contos de Fadas estão sempre a renascer. Espere mais uns dias e va ver...
ResponderEliminarSi: Não vi, portanto perdi a cara de gozo. Tenho pena...
ResponderEliminarMaloud: É verdade, a maioria das vezes essa parte não é divulgada. Eu como sou ingénuo, acredito que seja culpa dos jornais!
Luís Bento: Seja bem regressado. Eu passo frequentemente pelo seu cantinho, mas tenho tido pouco tempo para comentar
ResponderEliminarInfelizmente é o que temos :((((
ResponderEliminarbjcaaaaa
A carochinha já morreu e o João Ratão está ligado à maquina à espera da expiação. A cinderela tb já está cheia de rugas e o anões morreram soterrados na mina. Tudo isto para dizer que "não acredito em bruxas, mas que as há, há". Nada acontece por acaso e há mais gente metida nisto que aquela que se possa imaginar.
ResponderEliminarExcelente post. Abraço
Infelizmente a impunidade existe em toda a parte, aqui no Brasil as coisas não são nada diferentes do que aí, mas não podemos ficar calados, temos que denunciar e alertar as autoridades para que cumpram seus deveres e nos levem mais a sério! Um abraço
ResponderEliminarHoje à tarde recebi o telefonema de uma amiga.Contou-me que está coberta de hematomas e algiuns ossos quebrados por conta de algo muito sórdido que lhe aconteceu. O ex marido, filho de político à nível estadual, louco de raiva por ter sido detido por não pagar pensão aos filhos, enviou policiais à paisana à casa dela para darem uma "voltinha".
ResponderEliminarEla diz que apanhou como boi ladrão. Foi colocada no banco de trás do carro, no piso entre os bancos e um dos homens mantinha-lhe a cabeça abaixada.Por sorte a filha estava em casa e chamou a vizinha, que saiu em disparada perseguindo o carro aonde levavam minha amiga.A filha dela, que é tb minha afilhada, filmou tudo com o celular.Desde a invasão da casa até a hora que acharam por bem libertá-la.Como diz minha amiga:
- Essa menina puxou a madrinha. Um processo foi aberto por um promotor de justiça, com exame de corpo delito e tudo mais.Ela está fazendo as malas pq muito provavelmente seu ex marido tem k.E sabe no que vai dar a história? Em nada. E eu fiquei bem chateada...