sexta-feira, 29 de maio de 2009

Rochedo das Memórias (115)- A moda no pós guerra


Terminada a guerra, o vestuário torna-se, novamente, mais ligeiro e prático. A moda "new look", criada por Christian Dior, realça as linhas femininas. Saias de pregas, casacos justos realçando o busto e o fim dos enchumaços nos ombros, caracterizam as linhas do estilista francês. As meias de nylon, com costura atrás realçando o contorno das pernas, são a grande sensação da década que no entanto não terminaria, sem que as praias ficassem mais movimentadas, com os homens embasbacados a olhar para as mulheres que apenas cobriam o corpo com o biquini. Curiosamente, a moda do biquini não é lançada por nenhum costutreiro ou estilista, mas sim por um designer de automóveis francês: Louis Réard.
Nos anos 50,quando as mulheres começam a usar saltos altos, a roupa desportiva faz sucesso e uma ida à praia obriga a revolucionar o vestuário, são criadores como Christian Dior, Givenchy e Pierre Cardin a ditar as regras, mas é na década de 60 que se vai dar a grande transformação. A moda democratiza-se com a perda de influência dos costureiros- e das suas passagens de modelos reservadas a élites - agora destronados pela emergência dos estilistas que, diante do televisor e perante milhões de consumidores, exibem as suas criações nos corpos de "top-models" de cortar a respiração. Comprendendo a evolução da vida moderna, a moda adapta-se ao seu ritmo, criando modelos que facilitam a liberdade de movimentos e adoptam um estilo juvenil. A saia começa por ser mini, para depois virar maxi, aparecem as calças e são abolidos os saltos altos. "En blues jeans et blouson de cuir" se faz a moda jovem masculina, que Adamo pede de empréstimo para título de uma canção.
A moda deixa de ser luxo, perde a sua identidade como arte perene e passa a cultivar o efémero. O nome de Mary Quant(criadora da mini-saia) junta-se aos de Rabane, Courrèges e Yves Saint Laurent, sempre que se fala de moda. No mundo das top-models, Twiggy é o nome que anda nas bocas do mundo.
Mas a moda gosta de contrastes e decide brincar ao yo-yo. Depois do êxito obtido com a mini -saia, desafia-se a si própria com a maxi. E para as mulhers indecisas, cria a midi, que esconde os joelhos menos fotogénicos.

Lágrimas de crocodilo

O juiz presidente do colectivo que condenou Alexandra ao degredo na Rússia, manifestou-se chocado com as imagens que viu na televisão, mas diz não estar arrependido “ porque julguei de acordo com o que era a minha consciência e com os factos constantes do processo”.
Já todos sabíamos que um dos problemas da justiça portuguesa é a (falta de) consciência, mas também é bom saber que um juiz escreve coisas deste jaez nos seus veredictos:
“…a maternidade serôdia que através da confiança [a pessoa idónea] Florinda quis concretizar" era "apenas um desígnio pessoal".
"Cometemos alguns excessos de linguagem", concede o juiz. Gouveia Barros compreendeu que Florinda queria ser mãe de uma menina por ter dois rapazes.
Vale a pena, depois de tanta arrogância e irresponsabilidade vir agora penitenciar-se e reconhecer que os maus tratos a Alexandra não foram equacionados?
Não vale, porque o caso já não tem recurso. Valia a pena era haver uma lei que punisse severamente quem comete erros irreparáveis.

Momento de Humor (25)

Um fulano vivia sozinho e decidiu que a sua vida seria melhor se tivesse um animalzinho de estimação como companhia.
Assim, foi a uma loja de animais e disse ao dono da loja que queria um bichinho que fosse incomum.
Depois de algum tempo de discussão, chegaram à conclusão que ele deveria ficar com uma centopeia.
Centopeia seria mesmo um bichinho de estimação incomum... um bichinho tão pequeno, com 100 pés... é realmente incomum!!!
A centopeia veio dentro de uma caixinha branca, para ser usada como casinha.
Bom... ele levou a caixinha para casa, arranjou um bom lugar para colocar a casinha, e achou que o melhor para a sua nova companhia seria levá-la atomar uma cervejinha...
Assim, perguntou à centopeia, que estava dentro da caixinha:
-Gostavas de ir comigo ao Bar tomar uma cerveja?
Não houve resposta da sua nova amiguinha. Meio chateado com isso, ele esperou um pouco e perguntou de novo:
-Que tal ir comigo ao bar tomar uma cervejinha, hein?
De novo, nada de resposta da nova amiguinha... Ele esperou mais um pouco, pensando sobre o que estava a acontecer... e decidiu perguntar de novo mas, desta vez, chegou bem perto da caixinha e gritou:
-EI, Ó SURDA!!! QUERES IR OU NÃO COMIGO AO BAR TOMAR UMA CERVEJA?
Finalmente veio a resposta, lá de dentro da caixinha:
-POOOOORRRRRRAAAAAA!!!!!!!!!!!! JÁ TINHA OUVIDO!!!!!ESTOU SÓ A CALÇAR OS SAPATOS, C......!!!!!!!!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Rochedo das Memórias(114)- A moda dos "anos 20"


A história da moda fez-se de confrontos e por isso não admira que em Chicago, nos anos 20, as mulheres fossem multadas por usar saias pelo tornozelo e o mesmo acontecesse quando apareceu o biquini. Mais surpreendente é que, nas últimas décadas do século XX, os homens se tenham deixado enfeitiçar pela moda e que a figura das “top models” emergisse graças a um fotógrafo.
Mas vejamos,agora, como evoluiu a moda durante o século XX
O século começa com as saias a subir até ao tornozelo, o fraque e o smoking a destronar a casaca e o chapéu de aba acenando um adeus à moda "fin de siècle". O costureiro francês Paul Poiret, inspirado em modelos japoneses, procura dar à moda feminina uma maior liberdade e menos formalismo. No entanto, só após a primeira guerra Mundial, no alvorecer dos anos 20, e com o fecho éclair a fazer furor, as ideias que Poiret tinha da moda se começam a impôr. O espartilho cede o seu lugar ao soutien gorge, a saia sobe até ao joelho, o chapéu "cloche" substitui o de aba e o corte de cabelo à "garçonne" dá um toque de jovialidade.
A moda começa a dar sinais de que vai enveredar por outros rumos, invadindo o mundo dos adereços e a cosmética. A modista francesa Coco Chanel dá o primeiro sinal dessa mudança ao lançar o seu eternamente famoso perfume Channel nº5.
Com o "charleston", o corpo da mulher tinge-se de cosméticos e as pernas enluvam-se em meias de seda. Mas a moda moderna não agrada aos conservadores, que apelidam as mulheres que a ela aderem, se pintam, fumam e bebem em público de FLAPPERS, e em Chicago, uma mulher que mostrasse o tornozelo era multada em 10 dólares.
Os homens, por sua vez, abandonam o colete e passam a envergar calças à golfe e jaquetão, enquanto os jovens começam a impôr uma moda própria. As calças Oxford bags- assim denominadas por terem surgido em Oxford- acompanhadas de sapatos de camurça e a cabeça coberta por um boné, são a moda jovem dos anos 20.
A década seguinte, marcada pelos efeitos da depressão económica e pela emergência do fascismo na Europa, caracteriza-se por um retorno a uma moda mais austera. O fato saia e casaco era uma espécie encapotada de uniforme e a bainha dos vestidos ficava pelo tornozelo. O último grito, nos Estados Unidos, eram as saias curtas à frente e compridas atrás e o penteado ondulado, exigia o corte de cabelo curto. No entanto, ainda houve espaço para Marlene Dietrich escandalizar o mundo vestindo roupa de homem. Nos EUA a moda pega e muitas mulheres seguem o estilo Marlene.
A alta sociedade da época é marcada pelo luxo que se faz mostrar na bijuteria e nos acessórios e nas jóias e carteiras de noite. Quem não tem acesso a estes luxos lê as primeiras páginas do jet set publicadas nos periódicos ou as revistas femininas que entetanto saem a público, como a Marie Claire.
Nota: a foto reproduz modelos actuais, que realçam o carácter ciclo da moda, ao recuperar o estilo dos anos 20.
(Continua)

Ironias...

90 pessoas apanham a gripe suína e toda a gente quer usar uma máscara.
Um milhão de pessoas tem SIDA e ninguém quer usar um preservativo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Rochedo das Memórias (113): Do desfile, à top model


Combinando o “show-bizz” com os efeitos mediáticos, a moda põe a desfilar os seus actores em cenários como a Piazza di Spagna ou o mar de Portofino, a Torre Eiffel ou Central Park e despudorada (ou desesperada à procura de novos mercados?) invade terrenos durante muito tempo proibidos, como a Muralha da China.
A moda perde, porém, alguma liberdade criativa, porque o sistema económico que lhe permitiu estender os seus tentáculos, cobra contrapartidas. E a principal, é que os modelos sejam apresentados em datas certas, estações fixas e locais de culto apropriados. Ao estilista é-lhe exigida inovação, dando como recompensa à moda, o direito de integrar o mundo das Belas Artes, outrora reservado a pintores, escultores, músicos e outros artistas.
No século XIV, como refere Gilles Lipovetsky, o talento artístico dos mercadores de moda está concentrado no costureiro e reside “ no talento decorativo, na capacidade de enfeitar e enobrecer as roupas por meio de fantasias de moda (chapéus, boinas, berloques, fitas, plumas, luvas, leques, lenços de pescoço,etc.) e não apenas na invenção de linhas originais". A tatuagem, por exemplo, é um fenómeno de moda underground ao qual a moda tradicional recorre no intuito de chamar a si alguns elementos novos.
A especialização da moda permite o triunfo de sapateiros, cabeleireiros, produtores de moda e uma vasta gama de artistas que se especializam em partes da moda e não na moda como um todo. O artista procura incessantemente modelos que façam brilhar as suas criações, os quais se tornam ainda mais famosos que os próprios criadores e são disputados a peso de ouro. É a revolta na Corte?
As top models atingiram uma tal notoriedade que se tornaram mais importantes que os estilistas- afirmam alguns. Mas será bem assim? A nível internacional as top-models são fruto da sociedade de consumo, sendo produzidas e vendidas da mesma forma que as peças que vestem. Por isso não se pode falar de revolta na Corte, mas apenas das circunstâncias criadas pela sociedade de consumo, que favoreceram o emergir dos manequins. Foi esta sociedade, onde a publicidade e o “look” se tornaram fundamentais, que fez das modelos as figuras centrais dos desfiles mas, na verdade, o mais importante é a forma como a modelo usa aquilo com que desfila. Além disso, a modelo não faz milagres ...Se a criação que exibe é má ,não há nada a fazer. Excepto, claro, quando se chamam Claudia Schiffer, Linda Evangelista, Naomi Campbell, Giselle Bundchen ou McPherson, modelos conhecidas em todas as latitudes e disputadas por toda a corte da moda incluindo as capas de revista e a publicidade.
( Continua)

Vêm aí os russos...

Não costumo alimentar seriados aqui no Rochedo ( a excepção é o Rochedo das Memórias, por razões que me parecem óbvias)). Normalmente esgoto o tema em um ou dois posts e, se for caso disso, volto a falar do assunto mais tarde. O caso Alexandra, porém, tem-me apaixonado, pelas diferentes componentes que o envolvem.
Para além do problema jurídico- que decisões contraditórias de juízes tornam mais relevante- e do problema humano a que os juízes parecem não prestar qualquer atenção porque - como dizia ontem uma amiga advogada- apenas lhes interessa o aspecto processual, há outras vertentes que merecem análise.
Desde logo, o tratamento jornalístico do caso em Portugal e na Rússia, irá permitir uma análise ainda mais rica do que o caso Maddie, em que a manipulação noticiosa da imprensa britânica era demasiado visível.
Temos, depois, a análise do comportamento social e cívico. Os imigrantes russos podiam ter ficado calados, mas decidiram sair em defesa da família portuguesa e ponderam organizar uma manifestação para o demonstrar aos portugueses, mas também às autoridades russas.
Finalmente, temos a vertente política. Se já havia sinais de que o caso Alexandra se poderia transformar num caso político, esta notícia do "Público" vem retirar quaisquer dúvidas.
A partir de agora, o caso Alexandra joga-se em mais um tabuleiro e convém estar atento ao desenvolvimento das jogadas.
Adivinho, a breve prazo, a abertura de uma outra frente. Na cabeça de alguns guionistas já anda certamente a bailar a hipótese de fazer um filme ou uma novela sobre o assunto. Em breve, aparecerá um livro ( pelo menos) onde toda a história será relatada. Tal como Maddie, também Alexandra irá permitir a obtenção de lucros. Esperemos é que as histórias que surjam, sejam bem contadas.
Entretanto, é bom não esquecer, estamos a cinco dias do Dia Mundial da Criança. Espero que este caso seja lembrado nessa data. Como caso exemplar de violação dos seus direitos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Dia Europeu do Vizinho

Neste blogobairro bem frequentado, onde os vizinhos se cumprimentam amiúde e a boa educação é uma regra por todos respeitada, o Dia do Vizinho é um bom momento para reflectir sobre as diferenças entre a vizinhança virtual e a do mundo real, que vemos nos nossos prédios diariamente, mas sobre a qual pouco ou nada sabemos.
Hoje queria contar-vos a história do meu primeiro contacto com os vizinhos do prédio onde vivo desde que regressei a Portugal. Era solteiro e bom rapaz, regressava com a sensação de que, em quase 25 anos de regime democrático, a mentalidade dos portugueses se tinha alterado.
A maioria dos leitores do Rochedo deve saber o que significa instalar-se numa casa nova. Gente que entra trazendo mobílias, a senhora dos cortinados, a em pregada doméstica que tacteia os cantos e entra e sai várias vezes ao dia, porque é preciso comprar mais qualquer coisa, o electricista, o homem que vem trazer o televisor e a aparelhagem de som, ,mais o da máquina de lavar, do fogão e do frigorífico, gargalhadas de amigos que não víamos há muito e apareceram para dar uma ajuda, o barulho de pregar na parede ( sempre durante o dia e nunca ao fim de semana, porque respeito a Lei do Ruído…) quadros e fotografias que fixam memórias de países longínquos, caixotes que chegam com aquilo que se foi acumulando ao longo de anos, noutras paragens, enfim, uma parafernália de sons e ruídos que mexem com o quotidiano de um prédio, mas que são inevitáveis quando nos queremos instalar confortavelmente e dar início a uma nova vida.
Saía do elevador carregando as últimas malas, quando uma senhora que já vira várias vezes, me abordou nestes termos, sem sequer me dizer boa tarde:
- Olhe, eu sou uma das administradoras do prédio. O sr. está a mudar-se para aqui, não é?
-Bem, neste momento só me estou a instalar, parto outra vez no final da próxima semana e só volto daqui a três meses. Estou a tratar de tudo para, quando regressar definitivamente, estar tudo em ordem e não ter sobressaltos.
-Vai voltar para Macau, é?
Arregalei os olhos. Como é que uma fulana com quem nunca falara sabia que eu tinha andado por Macau? E como é que se atrevia a fazer uma pergunta tão desconchavada, no primeiro contacto que tinha comigo? Mesmo assim, numa atitude de boa vizinhança esclareci-a:
- Já saí de Macau há uns tempos, agora estou a viver na Argentina. É para lá que vou…
- Bem, mesmo assim, deixe-me avisá-lo já de uma coisa. Já percebi que vem para aqui viver sozinho e quero que saiba que este prédio é muito calmo, não estamos habituados a gente solteira, por isso, não queremos barulho. Os homens solteiros gostam de fazer festas, trazer amigas e depois é um reboliço durante toda a noite. Para evitar problemas, é bom que saiba desde já quais são as regras do prédio.
Fiquei sem fala durante uns segundos. Depois lá consegui perguntar:

-Desculpe, como é que sabe que vivi em Macau e que sou solteiro?
- Quando o senhor andava em negociações para a compra da casa quisemos saber tudo a seu respeito. Quem era, de onde vinha, por onde tinha andado.
- Bem, pelos vistos a informação que lhe deram está desactualizada, uma vez que já não estou a viver em Macau …
- Mas vem para cá viver sozinho, não vem?
-Porque pergunta?
-Como não usa aliança e não vi ainda nenhuma senhora a acompanhá-lo com ar de ser sua esposa, penso que seja solteiro ou divorciado…
Não acreditava no que se estava a passar. Comprara casa numa zona onde, supostamente, o nível sócio-cultural das pessoas era pouco dado a mexericos e conversas de vão de escada. Pedi desculpa e, alegando cansaço, despedi-me. Sosseguei a senhora- que aparentava ser mais ou menos da minha idade- dizendo que respeitaria o direito ao repouso dela e de todos os vizinhos. Entrei em casa a remoer a situação e a dizer mal da minha vida. Ainda não me instalara e já estava com vontade de mudar de casa.
Quando voltei, ao fim de cinco meses- e não dos três que planeara – meti as malas em casa e decidi ir falar com a vizinha. Tinha o discurso estudado. Dir-lhe-ia “cheguei, agora vou ficar de vez e espero que não espiolhe a minha vida, não queira saber com quem entro em casa , salvo se estiver interessada em fazer-nos companhia”. Assim, curto e grosso a fim de evitar mais conversas.
Quando ela abriu a porta, fez um ar de espanto e disse:
- Ah! Até que enfim! Tinha dito que só demorava três meses, até pensei que tinha decidido ficar por lá por Macau… Olhe seja muito bem vindo, esperamos que se dê bem e gostávamos de o convidar para um dia destes vir jantar cá a casa. Eu e o meu marido cultivamos a boa vizinhança, sabe... e como não temos filhos, gostamos de receber os amigos em casa.
A minha cara deve ter-se coberto de um carregado sorriso amarelo, mas ainda consegui dizer:
-“ Um dia mais tarde combinamos, agora não é oportuno. Acabo de chegar e tenho que organizar primeiro a minha vida.”
Até hoje. A senhora já lá não mora, mas enquanto lá viveu, sempre nos cumprimentámos educadamente. Mais convites para jantar é que, felizzmente, não houve.Muitos dos vizinhos daquele tempo já se mudaram e chegaram alguns novos. Muitos são casais jovens. Tal como com os anteriores, os contactos são poucos. Apenas com meia dúzia de pessoas me demoro alguns minutos a conversar. Não frequentamos as casas uns dos outros. Vivemos com a urbanidade possível – uma palavra que detesto- discutindo duas vezes por ano os problemas do condomínio. Uma questão de Química... Lembram-se?


From Russia With Love?

Na sequência do post anterior, recomendo a leitura desta notícia do "Público". A mão biológica faz gravíssimas acusações à família portuguesa a quem entregou a criança e a outra filha chega ao desplante de afirmar que vai pedir uma indemnização "por danos morais". Além de estúpidas, são ingratas.

Vale a pena acompanhatr o trabalho que a televisão russa está a fazer sobre este assunto. Começou por divulgar as condições em que a miúda está a viver e vai entrevistar, na quinta -feira , os "pais portugueses" que se deslocam a Moscovo a convite do Canal 1 da televisão russa. O advogado da família também estará presente e afirmou que exige a presença de um tradutor idóneo, a fim de garantir que a conversa não seja deturpada. Vale a pena seguir o assunto com atenção. Não só pela "história", mas também sob o ponto de vista do tratamento jornalístico.

E agora, ninguém é responsabilizado?

Não ponho em causa a justeza da decisão, à luz da legislação que nos rege. Causa-me, no entanto, algum desconforto, saber que um juiz ordenou que uma menina de seis anos entregue pela mãe a uma família de acolhimento, com um ano de idade, seja devolvida à mãe biológica para ir com ela viver para a Rússia. A menina não fala uma palavra de russo, praticamente nunca conheceu a mãe, nem qualquer outro elemento da família sanguínea.
Admito estar a fazer um juízo precipitado. Não deixo, porém, de me interrogar como será o futuro desta criança, retirada em menos de 24 horas do ambiente onde nasceu e enxertada num meio familiar que, por muito amigável que seja, lhe coarcta a capacidade de comunicar.
Tal como no caso Esmeralda, vai ser necessário esperar vários anos para avaliar os efeitos da decisão judicial. Que poderão ser irreversíveis. Mesmo que venha a haver culpados, nunca serão punidos.
Espero que o video hoje exibido nas televisões, mostrando os maus tratos a que a menina está a ser sujeita pela mãe, tenha sido visto pelas pessoas que tomaram a decisão "no interesse da criança". E espero que seja obrigado a ver o video pelo menos 3 vezes ao dia antes das refeições . Já que a decisão não lhes tira o sono, pelo menos que lhes tire o apetite!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Rochedo das Memórias (112)- Códigos da Moda

Escreve Umberto Eco:“ quando um homem , pela manhã, diante do espelho, dá o nó da gravata, está a fazer uma opção ideológica”.
Bastaria relacionar o culto de Che Guevara e o aparecimento da boina na moda masculina, ou a conotação ideológica do vestuário de cor preta muito em voga em determinada época do século XX, para justificar a asserção de Eco. Mas voltemos um pouco mais atrás para analisar outros códigos da moda através dos tempos...
Nos tempos em que a moda era hegemónica e traduzia o mimetismo do ambiente vivido na Corte ou na aristocracia e, mais tarde, na burguesia endinheirada, o vestuário dava-nos uma informação precisa sobre o sexo, profissão, nacionalidade e meio social de quem o usava.
A partir da década de 60, do século XX, assiste-se a uma progressiva transformação desta
identificabilidade, pois os códigos do vestuário começam a sofrer profundas transformações. Para as compreender e perceber a sua influência, será necessário recuar ao século XIX.
É em meados desse século que Charles Worth funda na rue de La Paix, em Paris, a casa onde pela primeira vez modelos inéditos, preparados com antecedência e frequentemente mudados, são exibidos em salões luxuosos a clientes ávidos, que os escolhem e os mandam executar por medida. Estes protótipos são apresentados por mulheres jovens e esbeltas, o que vai provocar o início de uma autêntica revolução, já que os modelos de referência e os códigos da moda se vão deslocar de epicentro.
Com efeito, o centro mimético transfere-se da Corte e da aristocracia para a “modelo” ou “manequim”, embora não ainda definitivamente. Está-se ainda na fase em que a nova burguesia endinheirada se cobre de fausto, jóias e tecidos preciosos, tentando igualar-se à nobreza. A moda (criada pelos costureiros, que começam a assinar os seus modelos) é exibida nas festas desta classe emergente. Deixa de ter como pontos de referência as classes sociais mais elevadas para, com o aparecimento da burguesia, deixar de exercer a sua influência mimética de cima para baixo.
Com a Alta Costura, a moda perde também as suas características nacionais e regionais, nasce uma Internacional da Moda. Primeiro Paris, depois Milão, Roma, Nova Iorque e Londres passam a ser as catedrais da moda que ditam a lei do mercado das vestes. Para trás ficavam os tempos em que só os alfaiates tinham o privilégio de vestir ambos os sexos, aproximava-se a passos largos a era do estilista e do criativo.


Foto: Dorian Leigh, uma das primeiras "top models"

A universalização da moda, regida de forma hegemónica e demiúrgica pelos costureiros , vai culminar nos meados da década de 60,com o apogeu da sociedade de consumo. Deixa então de se vender uma criação que impõe regras e modelos, para se passar a vender apenas um estilo, uma ideia. Em vez do costureiro exibindo as suas criações em passagens de modelos reservadas a “elites”, aparecem o criador e o estilista, que diante da pantalha e perante milhões de consumidores se comportam como ilusionistas tirando da cartola a última obra da sua criatividade, exibida por uma “top-model” de cortar a respiração.
Mas, apesar de ter apenas 3000 clientes por ano em todo o mundo, a Alta Costura não morreu. Transformou-se num laboratório de novidades que lança as tendências do ano e, aliada à moda, sobrevive à custa da produção em série, especialidade de uma sociedade de consumo que não se contenta com uma pequena faixa de consumidores abastados, sedentos de exibir riqueza e luxo. Quer usufruir de fatias cada vez maiores de consumidores e, quanto mais moribundo esteja o sistema económico que a suporta, mais sequiosa se torna, pretendendo abarcar o bolo todo. Lança-se no teatro, no desporto, no bailado ou na ópera, alia-se à publicidade e aos “media”, cria as marcas, invade o desporto e as actividades de lazer, gera os seus ícones, a sua imprensa especializada e alimenta uma corte à sua volta, com os seus actores .
Do mimetismo iniciático em que reproduzia os modelos da corte, passa a incarnar ela própria uma corte onde o papel de cada um dos actores tem o seu lugar numa hierarquia rígida. Mantendo embora alguma criatividade, não hesita em entrar na reciclagem de modelos antigos, recupera a tatuagem, fura narizes, orelhas e lábios, recria os adereços e adornos e sai para a rua em busca de fontes de inspiração que, não raras vezes, sorve em modelos de sociedades primitivas ou em grupos que criaram a sua própria moda, fora dos padrões tradicionais e hegemónicos.
(Continua)

Filme português ganha Palma de Ouro em Cannes

Mais uma razão para lamentar não ter estado este ano em Cannes...
O filme "Arena", de João Salavisa, ganhou a Palma de Ouro de Cannes para curtas metragens. Vitória histórica de um jovem português que estudou na Argentina e que, para além de outras reflexões, me permite cofirmar os tons divinatórios da Gi. Se duvidam, vejam o comentário que ela deixou neste post

Um Rochedo viciante?

Esta semana recebi mais duas prendas. Esta veio da Margarida do excelente blog Criativemo-nos.
É uma criação da autora e fiquei muito sensibilizado com a distinção. Viciem-se com o Rochedo à vontade, porque não faz mal à saúde! Obrigado, Margarida.

sábado, 23 de maio de 2009

Rochedo das Memórias (111)- Moda: De jóia da Coroa a elixir da juventude


Considerada por muitos como uma das Belas Artes, a moda constitui, hoje em dia, fonte inesgotável de receitas para uma vasta panóplia de indústrias e de profissionais que gravitam nas suas zonas de influência. Tal como na história da galinha e do ovo, talvez valha a pena perguntar o que nasceu primeiro: a moda, ou o vestuário?
Afirma Gilles Lipovetsky que a moda não faz furor no mundo intelectual. Afirmação no mínimo controversa, quando constatamos que inúmeros escritores e estudiosos se têm debruçado pormenorizadamente sobre o assunto ao longo dos tempos. De Barthes a Levi Strauss, de Alberoni a Baudillard, passando por Umberto Eco e pelo próprio Lipovetsky, para só citar alguns, muitos têm sido os intelectuais a debruçar-se sobre a moda.Estilistas e modelos convergem na opinião de que só os pseudo intelectuais criticam a moda, mas poucos serão os que neguem que a moda é sinónimo de controvérsia. Não só quanto à sua origem ,como quanto à sua essência e objectivos, sendo difícil compreender o problema se não fizermos a sua abordagem histórica.

Do pudor à queda da máscara

Na escola, ensinaram-nos que o aparecimento do vestuário, - subjacente ao aparecimento da moda- estava vinculado a três razões fundamentais: protecção do frio, pudor e adorno.No concernente à primeira razão invocada, não se pode deixar de levantar uma questão. Como explicar que os índios da Patagónia ou dos Andes, continuem ainda hoje a sentir a neve derreter na sua pele nua, sem terem necessidade de vestir-se?


A teoria que defende a moda como tendo origem no adorno, parece ganhar cada vez mais adeptos, com base nos estudos feitos aos costumes das tribos da Papuásia e da América Latina que, embora continuando a não usar vestuário, dão grande importância à imagem corporal, colocando objectos de adorno nas orelhas, no nariz, nos lábios ou mesmo, como acontece em algumas tribos da Papua, manufacturando artefactos, para colocarem no pénis, das mais variegadas cores e recorrendo a pinturas muito elaboradas que, ao contrário do que um visitante mais incauto possa pensar, não são objectos de protecção, mas sim de exibição sexual. Para os defensores desta teoria, o vestuário e a moda que lhe está subjacente, desenvolveram-se para acentuar o encanto sexual, chamar a atenção para determinadas partes do corpo, despertando a libido e o erotismo.
Como diz Fernando Dogana, o vestuário torna-se um prolongamento do corpo, a moda explora os símbolos da feminilidade e da virilidade.
Na verdade, também o homem exprime, através da sua forma de vestir, a sua virilidade. Já no século XVIII, a gola alta e rígida tinha essa função e, até tempos não muito recuados, a gravata exercia função similar.
O progressivo desnudamento da mulher e o aligeirar da moda masculina representa para Fernando Dogana a queda da ”máscara” que ambos estão cansados de usar na sua vida de trabalho, fazendo assim o mesmo que os guerreiros faziam no final dos combates: livrarem-se dela com alívio.
( Continua)

Degradante, mas elucidativo...


Não costumo ver o jornal da TVI à 6ª feira. Àquela hora gosto de ver notícias e não gosto de ser enganado…
Hoje, por um mero acaso, estava a fazer zapping e deparo com MMG em estado apopléctico, esgrimindo argumentos com Marinho Pinto. Fiquei.
Durante algum tempo não queria acreditar! Uma jornalista que acusa um entrevistado de ser "bufo", ou está em estado mental muito debilitado, ou desconhece totalmente as regras do jornalismo. Gosto de jornalistas acutilantes e frontais, não gosto de jornalistas que usam a profissão como vingança, nem de jornalismo de “vendetta”.
O jornal da TVI à sexta –feira é um "Case Study". Devia ser visto em todos so cursos de jornalismo, para mostrar o que jornalismo mascarado. Uma sucessão de ataques pessoais, perpetrados por uma pivô que, para além dos trejeitos e comentários, nem sequer tem um discurso fluido…quanto mais argumentar? O diálogo com Vasco Pulido Valente é de uma pobreza confrangedora, apesar dos esforços de VPV em salvar a sua interlocutora. As notícias são carregadas de opinião da pivô, que não gosta de ser contrariada. Reage mal. Hoje teve azar e encontrou um oponente à altura. Ao perceber que estava na Lota do Peixe, quando pensava ter ido a um telejornal, reagiu em conformidade. Foi um espectáculo. Degradante, à altura do Jornal da 6ª.
Marinho Pinto é um homem de coragem que diz, com frontalidade, aquilo que outros murmuram nos corredores. Paga um preço por isso. Excedeu-se? Concerteza que sim, mas qual a hipótese? Calar-se, servil, perante uma mulher que entra para estúdio pensando que é a única detentora da verdade? Marinho Pinto disse na cara de MMG aquilo que muitos portugueses gostariam de lhe dizer: envergonha e denigre um cojunto de bons jornalistas que se esforçam, diariamente, para fazer um trabalho credível.
Marinho Pinto conseguiu, como Bastonário da Ordem dos Advogados, ganhar um considerável número de inimigos. É o preço que terá de pagar pela frontalidade. Mas isso, já eu previra aqui.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Vá lá, MUDE!

Foi hoje inaugurado o MUDE ( Museu de Moda e Design). Fica na Rua Augusta e as entradas são gratuitas até final de Junho.
O CR associa-se às cerimónias e, a partir de amanhã, publicará uma série de posts sobre a evolução da Moda, na rubrica Rochedo das Memórias.
Para aguçar o apetite, aqui fica um pequeno excerto da pesquisa que fiz sobre esta matéria:
…Nos tempos em que a moda era hegemónica e traduzia o mimetismo do ambiente vivido na Corte ou na aristocracia e, mais tarde, na burguesia endinheirada, o vestuário dava-nos uma informação precisa sobre o sexo, profissão, nacionalidade e meio social de quem o usava.
A partir da década de 60, do século XX, assiste-se a uma progressiva transformação desta identificabilidade, pois os códigos do vestuário começam a sofrer profundas transformações. Para as compreender e perceber a sua influência, será necessário recuar ao século XIX.
É em meados desse século que Charles Worth funda na rue de La Paix, em Paris, a casa onde pela primeira vez modelos inéditos, preparados com antecedência e frequentemente mudados, são exibidos em salões luxuosos a clientes ávidos, que os mandam executar por medida. Estes protótipos são apresentados por mulheres jovens e esbeltas,assinalando o início de uma autêntica revolução, já que os modelos de referência e os códigos da moda se vão deslocar de epicentro.
Com efeito, o centro mimético transfere-se da Corte e da aristocracia para a “modelo” ou “manequim”, embora não definitivamente. Está-se ainda na fase em que a nova burguesia endinheirada se cobre de fausto, jóias e tecidos preciosos, tentando igualar-se à nobreza. A moda (criada pelos costureiros, que começam a assinar os seus modelos) é exibida nas festas desta classe emergente. Deixa de ter como pontos de referência as classes sociais mais elevadas para, com o aparecimento da burguesia, deixar de exercer a sua influência mimética de cima para baixo
Espero que gostem.

Justiça (muito pouco) verde

Quando, há dias, o governo anunciou que ia reduzir as multas ambientais, alegando pretender, com essa medida, facilitar a vida aos cidadãos e às empresas saltou-me a tampa. Nem queria acreditar. Hoje, ao ler esta notícia do “Público” percebi a intenção.
O Ministério do Ambiente perdeu, nos últimos dois anos, cerca de metade dos recursos apresentados em tribunal por pessoas ou empresas multadas por infracções ambientais. A Inspecção-Geral do Ambiente e do Ordenamento do Território, que aplica a maior parte das coimas, revela que, em 2007 e 2008, houve 1723 decisões judiciais sobre recursos relativos a multas ambientais. Em 841 casos (49%), o alegado infractor foi absolvido.
Ora, sendo assim, a redução das coimas pode ter dois objectivos: contribuir para que haja menos recursos por parte das empresas e sensibilizar os tribunais para as questões ambientais. Um curso intensivo de sustentabilidade e boas práticas ambientais, destinado a juízes, também era capaz de ser uma boa ideia…

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Gata


Era a gata mais feia que algum dia vi na vida, mas era uma gata simpática que me cumprimentava sempre que nos cruzávamos. Nas manhãs frias de Inverno sentava-se no beiral da garagem gozando os favores do sol e à minha passagem lançava-me um “miau” desprendido. Fazia-o por educação, porque àquela hora não estava para conversas.
Diferente era o seu comportamento se nos cruzávamos durante o dia. Por vezes abria-lhe a porta e deixava- a entrar no prédio, à minha frente. Saltava para a mesa do hall de entrada e lançava-me um miau dengoso de agradecimento.
Outras vezes, normalmente ao início da noite, quando chegava a casa, ela lá estava sentada nas patas traseiras. Assim que eu entrava lançava-me um longo miau. Era nessa hora que, habitualmente, conversávamos. Fixava o olhar dela no meu, tentando perceber as minhas palavras até que, em determinada altura, levantava a pata esquerda e coçava os olhos, como a perguntar: “quando é que aprendes a falar língua de gato para eu te entender? Nessa altura dava-lhe as boas noites e despedíamo-nos entre miaus amistosos.
Se chegava a casa cansado ou sem me apetecer conversar, ela só parava de miar quando eu entrava no elevador. Por vezes, já no elevador, lançava-lhe um desafio em voz de cão e ela elevava o tom do seu miar, mostrando o seu desagrado. “ Não estejas a desconversar!”.
Convivi com ela durante 10 anos. Ontem de manhã não a encontrei a apanhar banhos de sol, nem a vi durante todo o dia. Hoje de manhã perguntei por ela à porteira. Na terça–feira ficou doente. Morreu ontem de manhã nos braços do veterinário, que fez tudo para a salvar. Ataque de coração, foi o diagnóstico.
Não me pude despedir da minha amiga gata. Trocar com ela um último miar. Com quem vou conversar quando entrar no prédio logo à noite?
Que sejas feliz no céu dos gatos!

Uma questão táctica

Quando leio qualquer coisa sobre as habilidades de João Rendeiro no BPP, lembro-me sempre de Júlio Rendeiro, hoquista de uma das melhores selecções portuguesas da modalidade. Não sei se existe entre eles algum grau de parentesco, mas é inegável que este João, tal como o Júlio, é um apreciador da táctica a melhor defesa é o ataque...

Ópera (do video) bufa

Tornou-se banal as televisões transmitirem, em horário nobre, vídeos gravados por jovens nas salas de aula. Parece-me uma prática perigosa. Incentiva os jovens a práticas malsãs. Cultiva a prática da bufaria, favorece comportamentos desviantes que lhes moldam irremediavelmente o carácter.
A professora excedeu-se? Parece que não há dúvidas. Mas alguém se interrogou sobre os antecedentes? Alguém tentou perceber se não havia outra forma de resolver o problema? Alguma coisa vai mal quando a única forma que as pessoas encontram para resolver as situações, é ir para a televisão gritar. Pior ainda é que sejam uns pais a industriarem um filho a agir assim.
Espero que para além da punição das escolas aos jovens que gravam estas situações, a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social) saiba cumprir o seu papel, contribuindo para a reeducação dos meios de comunicação social. Em nome da liberdade de imprensa.
É que este país está a cheirar a um mofo salazarento que me enoja!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

"Punhos de renda" e crimes de guerra


Fizeram-se amigas nos bancos da primária do colégio do Rosário, no Porto. Cresceram em bailaricos e tertúlias, onde conviviam com grandes vultos da cultura portuense dos anos 20. O casamento separou-as durante uns anos mas, quando a minha mãe regressou à sua sempre amada Foz, o convívio restabeleceu-se, então a nível de casais.

Lembro-me bem da figura do marido dela. Era conhecido entre as senhoras que frequentavam a casa dos meus pais como o “senhor dos punhos de renda”, epíteto que lhe foi atribuído como reconhecimento pelas mesuras cheias de “nove horas”, (onde se incluía a vénia e o beija- mão) próprios de um cavalheiro de educação esmerada. Muito religioso, todos os domingos ia à missa do meio –dia na Igreja das Antas, não faltando à comunhão. Eram frequentadores assíduos das tardes domingueiras de canasta lá de casa- onde só chegavam depois do jogo das Antas a que eu assistia como apêndice daquele casal sem filhos. À época não eram muitas as senhoras que iam ao futebol e muito menos as que se permitiam vibrar em pleno estádio. Mas quem me deixava boquiaberto era o “senhor punhos de renda”. Sempre tão educado… perdia a compostura no Estádio das Antas! A cada erro do árbitro, a sua voz levantava-se num coro de protestos, mas nunca o ouvi insultar a mãe do árbitro. Apenas aquele típico vocabulário nortenho – que apesar de tudo eu estranhava, por sair da boca de uma pessoa tão educada.

Assim me fiz portista, adepto vibrante e dedicado, mas sempre resisti às tentativas de doutrinação com que ele pretendia pautar a minha conduta junto do Senhor. Convites para ir ao futebol nunca recusei, mas para ir à Missa, só mesmo por imposição materna.

Já eu era um adolescente que passava os dias a sonhar com a minha vinda para Lisboa, quando o escândalo rebentou. Soube-se um dia que o marido extremoso, de conduta irrepreensível, afinal partilhava uma outra cama e uma outra casa onde sustentava a amante e os dois filhos. Ainda hoje estou convencido que foi ele próprio a desvendar a história. Tê-lo-á feito em defesa dos interesses dos filhos pois, menos de um ano após a tão inesperada notícia, partiu para a companhia do Senhor, vitimado por um cancro.

Já se passaram uns bons 40 anos, mas hoje lembrei-me deste casal ( ela ainda é viva e continua a ser a melhor amiga da minha mãe) ao ler a crónica do Baptista- Bastos no DN sobre Donald Rumsfeld.

Ia o “ tão cristão, tão tranquilo, tão imaculado” ( palavras de Baptista Bastos) a caminho de uma festa , quando uma mulher ainda nova lhe barra o passo aos gritos. Indignada, colérica, abre as mãos molhadas de sangue, aproxima-as do rosto de Rumsfeld e grita: “Criminoso de guerra! Criminoso de guerra!”.

Passada a surpresa, Rumsfeld retomou o seu caminho, sorrindo. Seguro de que o Senhor lhe perdoará os pecados? Ou apenas com a certeza de que a justiça terrena não julgará os seus crimes, porque só condena apagados exterminadores da zona dos Balcãs, ou líderes de países onde as jazidas de petróleo permitem opíparos banquetes?

Rumsfeld, Bush, Cheney ou Condolezza Rice , com a cumplicidade de Aznar, Blair e Barroso são responsáveis pela morte de milhares de inocentes. Montaram um cenário de mentira para satisfazer a sua soberba, mas vão a uma festa ou entram na Igreja de consciência tranquila, porque sabem que estão imunes à justiça que eles próprios criaram. Essa só julga os que lhe fazem frente. Que o Senhor saiba fazer a justiça que os homens são incapazes de aplicar.

Don't cry for me Argentina...

"I had to let it happen, I had to change
Couldn't stay all my life down at heel
Looking out of the window, staying out of the sun
So I chose freedom
Running around, trying everything new
But nothing impressed me at all
I never expected it to
Don't cry for me Argentina

The truth is I never left you
All through my wild days
My mad existence
I kept my promise
Don't keep your distance...."

Obrigado a todos os que na caixa de comentários, ou através de e-mail, me enviaram mensagens de apoio no dia de ontem. A vossa força foi fundamental para vencer esta batalha. Foram quase três anos de muito esforço, muita luta, muitos avanços e recuos, muito trabalho e teimosia, muitos momentos de euforia e de desânimo. Agora digo que valeu a pena e que este Rochedo muito contribuiu para isso. Ou seja, todos vós, que com os vossos comentários, a vossa amizade e o vosso incentivo me ajudaram a acreditar que o sonho era possível.
Hoje estou feliz e quero agradecer-vos por isso. Saberei retribuir, acreditem...
Um abraço também para uns amigos que por aqui passam em silêncio e ontem concretizaram um projecto há muito acalentado. Depois da minha euforia, pude partilhar a alegria deles, para a qual também contribuí com um pequeno quinhão.
Há dias felizes e ontem foi um deles.
É bom ter os melhores vizinhos do mundo!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Pensamento do dia (2)

"Quando o vento sopra forte, devemos construir moinhos e não muralhas".
( Provérbio chinês)

Homo Sapiens

A Luz ofereceu-me este prémio que muito agradeço e junto à minha preciosa colecção. Veio num momento muito importante para mim ( o dia de hoje pode alterar a minha vida) e recebi-o como um sinal de que as coisas vão correr como eu espero.
Aceitá-lo, implica que defina o que é um Homo Sapiens. Se bem me lembro, é ser responsável, respeitar as pessoas, o meio ambiente e os outros animais; contribuir para a concórdia entre povos e civilizações. Ser Homo Sapiens é querer saber sempre mais, mas reconhecer os limites das suas capacidades e ter bom senso para saber parar no momento exacto. É partilhar, em vez de dividir.
A verdade é que não sei se o Homo Sapiens existe, mas se existir deve ser assim!
Obrigado uma vez mais, Luz!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

É só fumaça!

Às vezes há uns tipos na Comissão Europeia que se põem a pensar sobre a Europa e depois dá nisto!

Quem tem K sempre esKapa


Isabel, Luísa e Fernando decidiram ir beber um copo à Kapital. O ambiente estava animado, prolongaram a noite até quase ao amanhecer.Isabel e Luísa despediram-se de Fernando à porta da discoteca e foram ao encontro do carro, estacionado na véspera, a umas escassas centenas de metros. Fernando, consciente de que bebera demasiado, optou por apanhar um táxi.
Já Fernando curava a ressaca em casa, quando o telefone tocou. Do outro lado, ouviu a voz de Isabel. Nervosa e chorosa.
-Fernando, temos de nos encontrar depressa. Podes vir ter connosco?
-Que se passa? Ainda agora vos deixei… estou a ressacar…
-Tens de vir. Ou então vamos nós a tua casa, mas é muito urgente.
- Está bem, vou apanhar um táxi e passo já por aí.
Contrariado, mas não querendo deixar de responder ao apelo das amigas, enfiou os jeans e uma t-shirt e desceu à rua para apanhar um táxi.
Fez o trajecto a magicar o que se teria passado, para reclamarem a sua presença urgente.Arrependeu-se de não ter perguntado, mas encolheu os ombros enquanto ruminava “Coisas de gajas. Vá-se lá percebê-las. Há duas horas propus-me acompanhá-las a casa e recusaram; agora querem que vá lá depressa. Devia tê-las mandado dar uma curva…”
Quando Isabel abriu a porta, Fernando deixou escapar um “Ah!” de espanto.
- Que se passou? Foste assaltada? Bateram-te?
Isabel mandou-o entrar. Aninhada no sofá da sala estava Luísa.Aparentemente não tinha nenhum hematoma, como o que Isabel exibia na face. Estava abúlica, de olhar distante e nem sequer fez menção de o cumprimentar.
- Que se passou? Desembuchem, caraças!
- Tens de ir connosco à polícia, Fernando. Fomos assaltadas e roubaram-nos tudo. Dinheiro, cartões de crédito, telemóveis, os colares e as pulseiras…até o Dupont que o meu pai me tinha dado antes de morrer, com o pedido para o estimar...
-E vocês são capazes de reconhecer o gajo?


- Esse é que é o problema, Fernando. Todos os conhecemos. Foram o Z e o L, os seguranças da Kapital
- Não pode ser! São uns gajos porreiros… estás enganada, Isabel
- Não estou não, Fernando. Eu e a Luísa reconhecemo-los perfeitamente.
-E porque é que te bateram?
-Porque tentei resistir e disse-lhes que os conhecia. O Z deu-me um murro e disse-me que era só um aviso para não dar com a língua nos dentes.
-Vamos apresentar queixa imediatamente.
-Temos medo, Fernando.
-Medo de quê?
- Das represálias. Se apresentamos queixa eles depois vingam-se e não sei do que serão capazes.
Fernando sentou-se no sofá a pensar no que fazer. Passado um minuto disse decidido:
- Tenham lá paciência, mas temos mesmo que apresentar queixa. Se não o fizermos, eles vão assaltar mais pessoas.
As irmãs entreolharam-se em silêncio. Luísa deu finalmente um sinal de que estava a ouvir a conversa. Levantou-se num gesto decidido e com voz firme disse:
- O Fernando tem razão. Temos de apresentar queixa. Não podemos permitir que eles assaltem outras pessoas.
Saíram de casa e foram apresentar queixa na esquadra mais próxima. Foram ouvidos pelo polícia de serviço, cuja lentidão e ar grave os deixou exasperados. No final, perguntou-lhes se queriam formalizar a queixa.
- Claro- respondeu Fernando
- O senhor não estava presente, pois não?
- Não, mas confio nas palavras das minhas amigas
- Bem, fique aqui que eu vou ali ao lado com as suas amigas mostrar-lhes uma coisa.
Fernando aguardou, quase uma hora, o regresso de Isabel e Luísa. Finalmente, assomaram à porta. Vinham assustadas. Despediram-se do polícia que se mostrava agora mais afável.
Chegados à rua, Fernando perguntou:
- Que raio estiveram vocês a fazer com o polícia durante quase uma hora?
- Já te explicamos. Nem vais acreditar! Falámos no carro- respondeu Isabel
Quando entraram no carro. Luísa deixou escapar um grito:
- Como é que esta merda é possível? Cambada de filhos da p***
- Que foi, porra! Digam á o que se passou com o bófia
.- Esteve a mostrar-nos uma série de fotografias para ver se as identificava-mos. Conhecêmo-las quase todas. Tudo seguranças. O gajo diz que já têm várias queixas desde o Verão, de pessoas que têm sido assaltadas depois de saírem da Kapital e do Kubo, mas que nunca ninguém identificou as fotografias. Ele acha que as pessoas dizem que não reconhecem os tipos por medo. Nós fomos as primeiras a identificá-los.
- E sabes quem também está metida nesta merda? A G!
- Quem? A loira? - Sim, essa mesmo a quem tu te fartas de fazer olhinhos e dar trela a noite toda. Imagina a filha da p*** da boazona!
Fernando engoliu em seco. Não disse às amigas que, no Verão de 2007, tivera um caso com G. Decidiu romper quando descobriu que ela estava metida em negócios de droga. Suspeitava que fosse mesmo traficante, porque duas vezes lhe telefonaram a meio da noite e ela desaparecera sem deixar rasto durante uns dias.
-Em que estás a pensar? Não me digas que agora estás com pena daquela cabra!
-Nada disso- disfarçou Fernando. Estava a pensar o que se irá passar a partir de agora.
- O polícia disse-nos que iam chamar todas as pessoas que apresentaram queixa. Têm esperança que, sabendo da nossa identificação, algumas pessoas aceitem colaborar na identificação dos outros. O polícia disse-nos que eles actuam em grupo e querem prendê-los todos de uma vez, para desmantelar o gang.


……………………………………..
Dois meses depois, Isabel e Luísa receberam uma notificação para se apresentarem na polícia. Tiveram de reconfirmar a queixa e mandaram-nas para casa.
Duas semanas mais tarde, no último sábado, Fernando estava na esplanada a ler o jornal pela manhã, na companhia de Luísa, quando leu este título:“A PSP prendeu sete indivíduos, seguranças nas discotecas do grupo K, acusados de assaltar clientes”.
Finalmente! - pensou aliviado. Depois foi ler a notícia. “ Os indivíduos foram detidos pela PSP na quarta-feira e foram presentes a Tribunal na quinta feira. Seis saíram em liberdade com termo de identidade e residência e um ficou em prisão domiciliária.O jornal noticiava, ainda, que um dos detidos (Paulo Baptista) era o “braço direito” de um ex-polícia (Alfredo Morais) que se encontra a monte, depois de ter sido condenado a sete anos de prisão. O polícia é também arguido no caso “Passerelle”- acusado de lenocínio e auxílio à imigração ilegal- em que está envolvido Jorge Chaves, o presumível homicida do proprietário do bar “O Avião”.
Fechou o jornal, respirou fundo e, voltando-se para Luísa, perguntou:
- Olha lá, vamos dar uma volta pela praia? Preciso de espairecer um bocado.
E lá foram os dois, gozando o sol da manhã.
Ao fim de algum tempo, Luísa perguntou:
- Quando é que a polícia irá prender os gajos do K?
Fernando apertou-a contra si. “Não penses nisso agora. A polícia fará o que tem a fazer”.
- Não sei não! Não conheces aquele ditado que diz “ Quem tem K sempre escapa?”
-És capaz de ter razão…
(Esta história foi criada a partir de uma notícia do DN do dia 16 de Maio. Qualquer semelhança com a realidade pode não ser pura coincidência)






domingo, 17 de maio de 2009

Conto de Fadas


Não vi o Festival da Eurovisão. Já não tenho idade para perder o meu tempo com essas brincadeiras de adultos. Sabia que a canção portuguesa- que nunca ouvi- estava na final e fui ver na Internet a sua classificação. 15º lugar entre 25 não me pareceu mau, tendo em consideração os jogos políticos que giram em volta das votações. Fiquei mais satisfeito ao saber o nome da canção vencedora. É norueguesa e chama-se "Conto de Fadas". Um título apropriado para a crise, proveniente de um país que lhe tem passado ao lado. Precisávamos deste sinal de esperança. Mesmo vindo de um Festival de "faz de conta", é uma mensagem de esperança em dias melhores. A Noruega casa bem com "Contos de Fadas". Esbocei um sorriso. Coincidências. Terá sido por acreditar em contos de fadas que escolhi a Escandinávia como meu destino de férias este ano?
Bem, o melhor é ir ao You Tube ouvir a canção.

Rochedo das Memórias (110): A Censura do Livro no Estado Novo-XIII

O Polvo: a censura em Macau


Macau: anos 60

Curiosamente, foi em Macau que foi apreendido e censurado o primeiro livro de um autor português durante o Estado Novo. Estávamos em 1926, quando o então Governador de Macau, Maia Magalhães, mandou apreender a segunda edição do polémico Historic Macao de Montalto de Jesus.

A ordem de confiscar o livro foi cumprida com tal zelo, que a polícia foi de casa em casa em busca de exemplares existentes. Salvaram-se, porém, alguns exemplares que foram enviados para Hong-Kong e Xangai, e outros que os seus possuidores conseguiram guardar em locais inexpugnáveis. A razão apontada pelo Governo Português para a apreensão do livro era a de que continha “matéria subversiva, atentatória da nossa soberania”, pelo facto de Montalto de Jesus defender a ideia de que o Território de Macau deveria ser internacionalizado sob a égide da Sociedade das Nações.

Obrigado a defender-se no Tribunal de Polícia Correcional de Macau, Montalto de Jesus queixou-se da apreensão de que o seu livro fora vítima, nos seguintes termos:
“Visa a lei de imprensa manter a ordem e decência, suprimindo publicações, sediciosas ou imorais, legalmente condenadas. Ora, no meu livro Historic Macao, nada há que conscientemente possa ser tido como violação daquela lei. Foi por ordem deste Tribunal que se confiscou e suprimiu a obra em Macau, sem que eu fosse julgado primeiramente, ou que o livro fosse condenado legalmente”.
Montalto de Jesus faleceria pouco tempo depois e o seu livro só viria a conhecer a primeira edição em português em 1990. Como escreve Jack Braga no seu livro Primórdios da Imprensa em Macau, “Macau só esteve isento de Censura entre 1842 e 1844”, razão porque a Censura foi sempre uma instituição abertamente assumida e até capaz de suscitar elogios públicos. Atente-se nesta notícia publicada no diário “A Voz de Macau” de 29 de Janeiro de 1945: “Segundo o Boletim Oficial de sábado último, foi, a seu pedido, exonerado do cargo de presidente da Comissão de Censura (de Macau), cargo que desempenhou com todo o zelo, lealdade, dedicação, e competência, o capitão de artilharia sr. José Joaquim da Silva Costa, sendo nomeado para esse cargo o capitão de artilharia, sr. Eduardo de Madureira Proença (...)”.

Não deixa de ser curioso que um jornal que via a sua liberdade coarctada por uma instituição, e que nem sequer defendia as ideias do regime, desse notícia de um louvor publicado em Boletim Oficial do Território!Henrique de Senna Fernandes, autor de "Amor e Dedinhos de Pé", afirma, por seu turno que “os censores eram extremamente incompetentes. Não tinham preparação para aquele trabalho e cortavam a torto e a direito.”
Também o jornalista Adam Lee, de um jornal em língua chinesa que se publica em Macau, o Si Man, retrata alguns dos tabus da Censura nos anos 60: “não se podiam publicar fotografias de mortos e era impossível criticar os militares, mesmo quando estivessem envolvidos em desacatos. Logo no início dos anos sessenta, cortaram-me uma tradução de um telex da Associated Press que referia a disponibilidade do governo português em negociar a devolução de Macau à China. A bem do Império, as autoridades jamais o admitiram.”
Por força da aplicação a Macau dos diplomas legais de 1927 e 1937, as restrições à liberdade de imprensa acentuaram-se e o mundo da edição tornou-se extremamente cauteloso. Não admira por isso, que Camilo Pessanha, um dos mais notáveis poetas portugueses, mas cujo modo de vida não agradava às autoridades, (era magistrado em Macau, mas vivia com uma chinesa, afogado em ópio) só viesse a ser conhecido em Portugal muitos anos depois da sua morte, sendo as referências à sua obra, em colectâneas escolares, anteriores ao 25 de Abril, reduzidas à amputada Clepsidra, (publicada em 1920 e reeditada integralmente, acompanhada de Outros Poemas em 1969) e ignorando as notáveis elegias chinesas, traduzidas e publicadas em 1944. Mas se o 25 de Abril aboliu formalmente a Censura, a verdade é que, durante muitos anos, os editores dos jornais chineses continuaram a entregar os textos nas instalações da Comissão de Censura. Até ao dia em que lá foi instalada a Comisão Anti-Corrupção que, ao contrário do que acontecia com a Censura, nunca funcionou!


sábado, 16 de maio de 2009

Rochedo das Memórias (109) a Censura do Livro no Estado Novo-XII

O Polvo: A Censura em Moçambique...



Lourenço Marques: 1968


Logo em 1927, é publicado o Decreto-Lei 18841 de 27 de Junho que regulamenta a Liberdade de Imprensa nas colónias e 10 anos mais tarde, a 27 de Janeiro de 1937, é publicado o Decreto 27495 que reúne toda a legislação dispersa promulgada para as colónias, visando a aplicação das normas censórias no Portugal ultramarino.
A acção da Censura é, no entanto, irregular naquelas parcelas do território nacional e escasseia informação sobre a sua actividade, apesar de serem conhecidos relatórios dos Censores acerca de livros de autores africanos, ou publicados por editoras sediadas nas nossas ex-colónias.
A avaliar pelo episódio da atribuição, pelo Governador de Angola, do prémio Mota Veiga a Luandino Vieira, pelo seu livro Luuanda, que não mereceu quaisquer reparos na Metrópole (contrariamente ao que viria a acontecer quando a SPE lhe atribuiu o Grande Prémio da Novela), é de calcular que a Censura não tivesse o mesmo peso, os mesmos procedimentos, quiçá a mesma formação no Portugal de “Aquém e Além Mar”.
Em relação a Moçambique sabe-se, por exemplo, que o livro de Almeida SantosJá Agora…” que teve ordem de apreensão, a qual chegou à Beira (Moçambique), foi adquirido por um leitor após a apreensão. Este livro estava exposto em grande relevo numa montra de uma livraria daquela cidade. No dia seguinte, um cliente dirigiu-se à dita loja para adquirir um exemplar desse livro. Espantado, verificou que já não havia nenhum à venda e, ignorando a presença de um agente que acabara de fazer a apreensão dos ditos livros, pediu com alguma insistência ao livreiro que lhe conseguisse um exemplar, recebendo como resposta que seria impossível.
No dia seguinte chegou ao local de trabalho desse cliente um exemplar de “Já Agora…”, com os cumprimentos da Censura… Isto seria impensável na metrópole e aqui se vê que, apesar de haver ordens de actuação iguais para todos os pontos do território nacional, a verdade é que nuns sítios elas eram mais iguais do que noutros.
( Amanhã: a censura em Macau)





As melhores séries e programas de televisão

A Cristina Mendes Ribeiro desafiou-me a dizer quais as 15 séries e programas de televisão que mais gostei. Nestas coisas cometem-se sempre algumas injustiças, mas aqui ficam as que me vieram à memória, com a certeza de que amanhã a escolha seria diferente:
- Simpsons ; Get Smart ;Ally Mc Beal ;Seinfeld ;Colombo ;Sopranos ;O Polvo ;O Tal Canal ;Zip-Zip ;L'île ;Hitchcock ;Conta-me como foi ;Six Degrees ;Twin Peaks ;Brideshead Revisited
E agora passo o desafio a todos quantos queiram pegar na corrente.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Em Cannes, rumo ao hemisfério sul

Eu sabia que ia perder muito por não estar este ano em Cannes. Logo no dia de abertura, o filme de animação "Up" deu-me razão. Gostaria de estar no lugar do vendedor de balões, mas não queria ter de esperar até aos 78 anos. Pode ser um bocadinho mais cedo?

Pelo país dos blogs (49)

Quem passa por este Rochedo há bastante tempo, sabe que um dos meus desejos adiados é criar um blog sobre viagens, onde coloque as minhas fotografias e relatos de viagens que tenho feito pelo mundo.
O nome até já está registado mas por variadas razões- a que a escassez de tempo não é alheia- tenho adiado a concretização desse desejo.
Por outro lado, cada vez que visito blogs de viagens recuo na intenção, porque não sou grande fotógrafo e creio que se calhar não é boa ideia meter-me nisso.
Há uns meses descobri um blog de viagens de que me tornei frequentador assíduo. Costumo viajar através das fotografias que o autor lá coloca ( muitas delas de lugares que conheço e me trazem recordações, outras de locais que gostaria de conhecer).
Provavelmente, muitos dos que visitam o Rochedo já por lá passaram mas a quem gosta de viajar através das imagens e dos mapas dos locais, deixo uma óptima sugestão para o fim de semana.
Vão até ao Viagens Lacoste e viagem pelo mundo inteiro. Uma beleza de blog, garanto-vos. Logo a abrir encontrarão indicações sobre a forma de melhor desfrutarem do que o Viagens Lacoste vos oferece.
Façam uma boa viagem!

Censura e Liberdade de Imprensa

A propósito dos posts que tenho vindo a publicar sobre “A Censura do Livro no Estado Novo”, alguns leitores lembraram-me a proibição do livro de João Ubaldo Ribeiro ( A Casa dos Budas Ditosos) pela Auchan.
Embora não me pareça que haja comparação possível, acedi ao desafio de comentar o assunto.
Em primeiro lugar, a censura efectuada por um supermercado, é bastante diferente da censura sistemática feita pelo Estado. Não compro o livro no Jumbo, compro noutro sítio, porque o livro não está proibido em Portugal. Se os consumidores fossem coerentes, manifestariam a sua indignação boicotando as compras de produtos da Auchan, durante uns tempos não punham os pés no Jumbo e faziam questão de divulgar a razão do boicote. Se a DECO não andasse entretida com outras coisas, tinha a obrigação de denunciar e apelar ao boicote dos seus associados.
A decisão da Auchan é própria de merceeiros e não tem outra consequência que não seja revelar a sua estupidez. A censura, durante o Estado Novo, não revelava apenas a estupidez do regime e dos censores que dele se alimentavam. Impedia o acesso dos cidadãos portugueses a livros, filmes, peças de teatro, etc. Parece-me, obviamente, bastante mais grave.
Ao escrever estas linhas, lembrei-me de outra questão que gostaria de discutir convosco: a liberdade de imprensa.
Tomei conhecimento, há dias, de uma cena que ilustra bem como algumas pessoas encaram a liberdade de imprensa em Portugal .Uma jornalista em reportagem ( não a que está na foto, mas outra...) disse ao PM : “você não morde, mas rosna e muito…” .
Trata-se de um caso de imbecilidade, de uma idiota que desconhece totalmente o que é o jornalismo e o desacredita. Daí não vem mal nenhum ao mundo e, provavelmente, até houve quem se risse muito e aplaudisse a coragem. ( Pessoalmente apenas fiquei envergonhado por saber que há jornalistas deste quilate a trabalhar em redacções, mas isso explica bem algum jornalismo que por cá se vai fazendo).Adiante…
Imagine-se, agora, que a mesma jornalista escreve num artigo “ O PM rosna e muito”.
O editor tem, obviamente, o dever de lhe cortar essa passagem. Poderá ela queixar-se de estar a ser censurada? É evidente que não… Quando não há bom senso e as pessoas não sabem gozar a liberdade de que usufruem, correm o risco de cometer abusos que, obrigatoriamente, deverão ser cortados cerce. O jornalismo não é para idiotas que pretendem ser protagonistas, mas para profissionais que prezam o rigor e a verdade.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"i" Obrigado!

Fim da manhã na zona do Saldanha. Levo um jornal debaixo do braço, quando uns jovens me interpelam.
-Conhece este jornal?
-Conheço.
-Já leu?
-Já.
-Gostou?-
Mais ou menos...
-Porque não comprou então este em vez do que leva aí?
- Porque hoje me apeteceu comprar este.
- Faço-lhe uma proposta. Dou-lhe este e dá-me esse em troca.
(Como acabara de comprar o jornal e ainda não tinha lido respondi):
- Não quero trocar.Gosto de ler um colunista que hoje escreve aqui.
- Pronto, então está bem. Não posso fazer isto mas, como é simpático, ofereço-lhe este mesmo sem me dar esse em troca.
Amanhã vou tomar café antes de comprar o jornal. Pode ser que me ofereçam o “i” outra vez à borla. A verdade é que começo a gostar do jornal, embora deteste os agrafes.
Entretanto, assim que olhei para a capa fui a correr ler esta notícia.

Pelo país dos blogs (47)

Ela bateu à porta aqui na caixa dos comentários. Respondi com uma visita e gostei de ler este post no Azul ao Longe.
Nunca serão demais as reflexões sobre a necessidade de sermos mais tolerantes com os outros.O contacto com a Natureza dá uma ajuda preciosa.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Uma baixa em Cannes

Começou ontem o Festival de Cannes. Este ano não vou lá estar. Espero que seja apenas uma interrupção antes de iniciar uma nova série de 10 anos de presenças consecutivas. Vou ter saudades porque, sem mim, Cannes não tem tanta piada...

Uma vida sobre rodas...

Sentado à mesa de um café nos arredores do Redondo, Júlio Simões exibe triunfante a “manilha” de copas com que “cobre” o rei, e arrecada a “vaza”. Pega na esferográfica e desenha uma bolinha na extremidade de um segmento de recta, que assinala mais uma vitória no jogo de sueca. O marcador fixa-se nos 4 a 2, é altura de celebrar a vitória com mais uma rodada de imperiais paga pelos derrotados.
A vida de Júlio, 54 anos, não tem sido, no entanto, preenchida por vitórias. Pelo contrário... o destino derrotou-o numa noite em que regressava a casa para passar uns dias com a família, depois de uma viagem à Alemanha.
Rebobina o filme da sua vida numa tarde de sábado, pedindo aos colegas uma pausa para dar uma entrevista. “ Mas olhe que tem de ser rápido, porque eles estão raivosos e querem a desforra”. Cerca de uma hora depois, fica registado no meu gravador que começou a trabalhar aos 19 anos como ajudante de motorista. Três anos mais tarde já era ele a conduzir um dos camiões da empresa. As primeiras viagens eram curtas, não passando dos Pirinéus. A sua segurança na estrada e o zelo que punha no trabalho, depressa o levaram a ganhar a confiança dos patrões. As viagens passaram a ser mais distantes e mais frequentes. “Às vezes chegava a Portugal depois de uma viagem de 15 dias, descarregava, ia a casa dar um beijo à mulher e aos filhos e no dia seguinte já estava outra vez a conduzir o camião”.
Durante 31 anos, a sua vida foi passada num camião, calcorreando as estradas da Europa, fazendo cargas e descargas ao ritmo dos ponteiros do relógio. A idade ia avançando e desde os 45, todos os anos, pelo Natal, prometia à mulher que o ano seguinte ia ser o último a conduzir camiões. “ Eu era sincero quando dizia aquilo... Sentia-me mesmo cansado, mas não tinha jeito de arranjar outro trabalho que me permitisse continuar a pagar os estudos dos filhos e sustentar a casa. A minha mulher trabalhava como auxiliar numa escola lá do Seixal, mas nunca teve contrato e não sabíamos com o que podíamos contar. Ao menos o meu era certo, não podíamos ser os dois a arriscar...”.

As promessas de mudança foram passando de ano em ano, até àquela fatídica noite de Fevereiro de 2003. “Há quase uma semana que guiava 16 horas por dia e estava ansioso por regressar a casa. Devia chegar nessa noite, não fosse esse momento maldito!”. Já em solo pátrio, Júlio Simões parou no local do costume para jantar. Confessa que “bebeu um copito” e tomou uns cafés para “arrebitar”. Depois meteu-se à estrada a pensar no reencontro com a família, mas foi vencido pelo sono. Despistou-se, os prejuízos materiais foram avultados. Júlio foi parar a uma cama do hospital, onde soube que o companheiro de viagem morrera no acidente. “Nunca mais voltaria a ser o mesmo, depois de saber que tinha causado a morte de um colega, mas pensava que ficar retido numa cama durante mais de um ano e ter ficado incapacitado para o resto da vida era castigo que chegasse.”
Mas não foi. Teve de enfrentar um processo de recuperação de mobilidade muito doloroso durante quase dois anos e, durante esse período, recebeu uma carta a comunicar que fora considerado culpado pelo acidente e por isso despedido “com justa causa”. Já estava tão magoado com a empresa, que nem pensou em recorrer aos tribunais. “O que mais me dói é que ninguém me foi ver, nem perguntar se precisava de alguma coisa. Ao fim de 30 anos sem um acidente, sem uma repreensão no trabalho, merecia um pouco mais de respeito.”
Arranjar emprego aos 54 anos está fora do seu horizonte. Como a mulher, entretanto, também ficou desempregada, optaram por regressar ao Alentejo, para a casa que fora dos sogros dele. Vivem da pensão de Júlio e das pequenas economias que conseguiram fazer ao longo da vida, porque a mulher apesar de ter sido auxiliar no Ministério da Educação, mais de 10 anos, não recebe qualquer subvenção do Estado. “Se não fosse as economias que fizemos, decerto que morríamos à fome. Aqui sempre gastamos menos que no Seixal. Os filhos de longe em longe vêm ver a gente e eu cá me entretenho a jogar às cartas e a beber uns copitos. A minha senhora de vez em quando também vai fazer umas limpezas ao monte de uns ricaços de Lisboa que lhe dão uns cobrezitos . Mas tenho que ter cuidado, porque sempre que chego a casa com um copito, a minha senhora diz que na próxima vez me põe na rua. E um dia põe mesmo!”
De cenho um pouco mais carregado, pelas recordações que acabara de me relatar,voltou a juntar-se aos amigos para a desforra. Fiquei a ver, à distância, durante uns minutos. Saí quando a voz de Júlio voltou a irromper no ar "Toma lá a manilha! Com esta enganei-te bem, macaco...". Seguiu-se uma sonora gargalhada. A vida de Júlio voltara à normalidade. Nos arredores do Redondo, para onde uma curva da estrada inopinadamente o atirou, num breve piscar de olhos.





terça-feira, 12 de maio de 2009

Rochedo das Memórias (108)- A Censura do Livro no Estado Novo- XI

Os exemplos de livros de cariz político apreendidos, ou cuja edição foi proibida durante a primavera marcelista, são inúmeros. É o caso, por exemplo, de "Escritos Políticos" de Mário Soares, "Horizontes Fechados" de Raul Rego ou Falar Claro de José Magalhães Godinho que o censor apelida de “ espécie de panfleto combativo que, conforme a confissão do autor no início do Prefácio, é constituído por trabalhos escritos nos dois últimos anos - uns inéditos e outros publicados (aliás com intervenção da Censura) mas aqui apresentados na íntegra”.
Neste, como em muitos outros casos, os censores para fundamentarem o seu parecer favorável à proibição ou apreensão de determinada obra, davam especial ênfase ao perfil político do autor . No caso em apreço, Magalhães Godinho, lembra o censor, “é um discordante político(membro da ex-comissão coordenadora da CEUD) que tomou desde há muito, posição destacada na chamada oposição.”
Refira-se, aliás, que nem a Igreja escapava à vaga censória, verificando-se em 1970 o caso insólito de um boletim da paróquia de Macieira da Lixa ser apreendido. Isto sucede apenas dois meses depois de os deputados da ala liberal, Sá Carneiro e Pinto Balsemão, terem apresentado na Assembleia Nacional um Projecto de Lei de Imprensa. Meses depois, o Governo envia à Assembleia Nacional um diploma da sua autoria que é aprovado em Julho de 1971. Para além da mudança de nome da Comissão de Censura para Comissão do Exame Prévio, a “grande novidade” residia no facto de “só existir exame prévio quando ocorrerem actos subversivos graves em qualquer parte do território nacional”. Por mera coincidência, antes de votar a Lei de Imprensa, a mesma Assembleia havia chegado à conclusão de que se verificavam “actos subversivos graves”. E tudo ficou na mesma, até 25 de Abril de 74. No entanto, nos três últimos anos de Poder, Marcelo Caetano, como que antecipando-se ao slogan publicitário de uma marca de automóveis que nos anos 90 tem por lema “O leão mostra a sua Raça” ainda teve tempo para demonstrar, mais uma vez a sua boa vontade de abertura. Assim, em 1972, para além do já citado despacho de Gonçalves Rapazote, faz publicar novas e mais apertadas regras para o aparelho censório, onde estabelece os limites à liberdade de imprensa, define as publicações sujeitas a exame prévio, a constituição das comissões e especifica as sanções aplicáveis aos infractores. O resultado foi o aumento da discricionaridade dos censores que viram o seu poder reforçado. Mas, como corolário da hipocrisia de um regime que pretendia manter-se a todo o custo, Marcelo decide publicar o célebre Decreto-Lei 150/72 onde se proibe que os jornais mencionem o facto de os textos e imagens terem sido submetidos a Exame Prévio. É neste contexto que, em 1973, é proibida a divulgação de notícias sobre o Congresso Democrático de Aveiro, ou quaisquer referências às comemorações dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A Censura de um regime à beira do extertor, dava assim os últimos suspiros. Sem critérios, sem complacência, utilizando discricionariamente os mecanismos de que dispunha para fulminar, com ódio, qualquer manifestação do pensamento que se afastasse do seu ideário. Por isso, durante o período do Estado Novo, a Censura foi apenas um pretexto para impedir o acesso à verdade dos factos. Fossem eles transmitidos através de jornais, de filmes, peças de teatro ou livros.
( Continua)

Sexta feira promissora

Sócrates annciou que se irá deslocar na próxima sexta-feira à Madeira., talvez na tentaiva de se maririzar com mais uma cena de mau feitio do líder madeirense.
Como era de esperar, AJJ não caiu na esparrela e já afirmou que vai receber Sócrates de braços abertos. Onde é que esconderá a faca?

O escuteiro que há em mim



Esta noite armei-me em escuteiro e vi o debate sobre as europeias na RTP 1. Do princípio ao fim. Foram quase 3 horas de grande estoicismo. Gostei particularmente de ouvir Carmelinda Pereira a dizer que não queria que votassem nela...
Esta vida de escuteiro ainda dá cabo de mim

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Pronúncia do Norte (15)

FRANCESINHA=



= FRANCESINHA
Estarão vocês a matutar: por que raio é que este gajo inclui as Francesinhas na Pronúncia do Norte? Elementar meus caros! Esta iguaria é de origem Visigoda e só entrou no vocabulário da Mouraria durante a Expo-98.
Quando vim viver para Lisboa, às vezes dizia aos meus amigos cá da capital: “ Este fim de semana vou ao Porto comer uma francesinha”. Eles olhavam –me com ar de gozo e logo me chamavam gabarolas. Uma vez, um até me disse:
“Estás sempre a gabar-te que vais ao Porto comer uma francesinha, bem podias comer uma cá para a gente acreditar na tua bazófia”.
Eu lá lhe expliquei que uma francesinha só podia ser comida na Regaleira da Rua do Bonjardim, o que aumentou ainda mais a sua desconfiança. Deve ter ficado a pensar que a francesinha era uma prostituta fina… Não desarmei e prometi trazer-lhe uma fotografia, para ele dar a sua opinião. Quando a viu, olhou para mim com cara de enjoo. Coitado, não sabia o que era bom!Como vos disse, as francesinhas só começaram a ser conhecidas em Lisboa depois da Expo-98, fruto da globalização gastronómica interna. Fiz várias tentativas, em vários restaurantes do país, mas quase todas se revelaram decepcionantes. Não só ao nível dos ingredientes, mas também no que concerne ao ponto de cozedura do pão e à textura do molho, nenhuma se compara às que se podem comer em alguns locais do Porto ( mas aviso desde já que também no Porto se vende muita “francesinha” que não respeita os cânones idealizados pelo seu criador).
Diz-me a experiência que a sul do Douro a francesinha é uma iguaria muito mal enjorcada, que me deixa a suspirar pelas originais da Regaleira, ou as sucedâneas do Capa Negra ou da Cufra.
Seja qual for o local onde as deguste, continuo a optar pela versão original e repudio as variantes pós –modernas que a fazem acompanhar de ovo estrelado, batata frita ou camarão. Gastronomicamente sou um conservador.

Trocas e Baldrocas

Ai, ai são trocas baldrocas,
Altas engenhocas
Que eles sabem inventar!
São palavras ocas,
Faz orelhas mocas,
Não te deixes enganar!
(Cândida Branca Flor)

O senhor engenheiro até já foi Secretário de Estado do Ambiente e da Defesa do Consumidor, por isso não se devia deixar enganar com estas engenhocas!
É muito feio andar a enganar os consumidores, não vos parece?

domingo, 10 de maio de 2009

PORTO, PORTO, PORTO, PORTO!!!!!

Mais um Título! Mais um TETRA!Mais uma razão para festejar!
Daqui a quinze dias estarei no Dragão para comemorar.
OBRIGADO, FC do Porto!!!!

Mimos de domingo

Muito obrigado à Carol que me ofereceu dois presentes. Este...



... e este...

que me é oferecido pela terceira vez e recebo com renovado prazer, porque me faz rejuvenescer.
Em realação ao primeiro, implica o desafio de nomear cinco coisas ROXIE (será sinónimo de fixe?) na área da música, do cinema e da televisão e referir três hobbies, três países que gostei ou gostaria de conhecer e as minhas três cores preferidas. Amanhã certamente as escolhas seriam diferentes, mas cá vai:

Música- Jazz, tango, soul, Kate Meloua, Mercedes Sosa

Cinema- Gran Torino, Slumdog Millionaire, The Reader, ( optei por escolher entre os últimos que vi, porque é mais fácil...) Kate Winslet, Stanley Kubrick

Televisão- Vejo muito pouco, evoco alguns a que procurei ser fiel: "Conta-me como foi", "Zip-Zip", "A Guerra", " O Polvo", " Colombo". Posso acrescentar "Os Sopranos"?

Hobbies- Viajar, Ler, repousar no Rochedo

Países- Argentina, Nova Zelândia e Índia ( dos que conheço); Costa Rica, Iemen e Afeganistão ( dos que gostava de conhecer)

Cores- Azul ( claro e escuro) e vermelho ( quando o Benfica perde).

Quem quiser continuar o desafio, esteja à vontade.

Os selos, atribuo-os a todos os que estão na coluna da direita.

Rochedo das Memórias (107)- A censura do Livro no Estado Novo-X

As flores murcharam na Primavera marcelista

Apesar de algumas esperanças e sinais de abrandamento, por parte da Censura, com a ascensão ao poder de Marcelo Caetano, a situação não se altera. Os que nele depositavam alguma esperança desiludem-se logo em Abril de 69 quando declara: “Se a Censura fosse abolida, o facto só serviria para lançar a confusão...” Prova ainda mais evidente de que a Primavera Marcelista era apenas ilusão, encontra-se num despacho de Gonçalves Rapazote, Ministro do Interior. Datado de 3 de Novembro de 1972, contém um conjunto de instruções sobre a forma como a DGS deve passar a actuar. Aqui ficam alguns excertos:
“1.- Relacionar as tipografias que se dedicam à impressão de livros suspeitos-pornográficos ou subversivos;
2.- Organizar um plano de visitas regulares a essas tipografias para impedir, efectivamente, a impressão de textos susceptíveis de proibição;
.........
5.- Organizar a visita regular às livrarias de todo o País para sequestro de livros, revistas e cartazes suspeitos e para apreensão dos que já estão proibidos pela Direcção dos Serviços de Censura
...................
9. - Informar os Grémios das Artes Gráficas e dos Editores e Livreiros da acção de repressão que vai ser desencadeada

contra os responsáveis pela impressão, distribuição ou venda de publicações pornográficas e subversivas e de que será proposta ao Conselho de Segurança Pública a aplicação das medidas previstas no Decreto-Lei 37447, de 13 de Junho de 1949, para defesa dos bons costumes, da ordem social, e consequentemente da ordem pública.”
Entretanto, três redactores da Direcção Geral de Informação percorriam, diariamente, em serviço externo ininterrupto, todas as livrarias de Lisboa, encarregando-se ainda da consulta dos catálogos das editoras e importadoras de livros. Da sua actividade davam conta ao Director Geral , em relatórios semanais, indicando não só os livros aparecidos no mercado que lhes pareciam susceptíveis de consulta ou deviam ser minuciosamente apreciados pela Censura. O parecer final era emitido pelo Gabinete de Serviços de Leitura Especializada a quem competia igualmente a apreciação dos livros que lhe eram remetidos pela PSP ou pela Pide, os quais eram resultantes de apreensões efectuadas por aquelas forças. De mudanças, como se vê, apenas os nomes: de PIDE para DGS e de Censura para Exame Prévio.
O desencanto apoderou-se também de escritores considerados próximos do marcelismo, como era o caso de Alçada Baptista que no livro Conversas com Marcelo Caetano , publicado em 1973 se questiona nestes termos:
“ Não sei o que é que o Exame Prévio produz nos outros escritores. No meu caso é um poderoso elemento de redução de mim próprio e de redução aos mais diversos níveis, que vai até ao ponto de sentir inibições quando se trataria de aplaudir os poderes nas coisas que mereceriam o meu aplauso, ou de criticar a oposição naquilo que mereceria a minha crítica….”
Por sua vez, os livros continuaram a ser apreendidos a uma cadência assinalável, com a utilização de argumentos que em nada variavam em relação à prática que já era corrente. Foi o que aconteceu em 1970 com o livro de José Carlos Vasconcelos, "De Poema em Riste," que mereceu o seguinte comentário do censor:
“É um pequeno livro de feição integralmente activista e comunista, comprometido até à medula de cada verso. No prefácio vem o elogio do comunista Manuel Alegre da Rádio Argel e uma citação do comunista italiano Cesare Pavese. Amiúde aparecem referências à guerra, à fome, à ditadura, à opressão do povo, etc…”
O censor não hesitou em propôr que o livro fosse apreendido de imediato, o que veio efectivamente a acontecer com a recomendação acrescida de dever ser imediatamente apreendido um disco com aqueles poemas cuja gravação estava a ser preparada.