quinta-feira, 30 de abril de 2009

Rochedo das Memórias (102): A Censura do Livro no Estado Novo-V

CENSURA DO LIVRO:MEMÓRIAS E REMINISCÊNCIAS

“Chego a concordar que a Censura é uma instituição defeituosa, injusta, por vezes, sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor (...). Eu próprio já fui em tempos vítima da Censura e confesso-lhe que me magoei, que me irritei, que cheguei a ter pensamentos revolucionários”António de Oliveira Salazar em entrevista a António Ferro (1933)
(Citado em A Censura na iconografia e na caricatura Portuguesa - Humorgrafe/Museu da República e da Resistência 1997)
Trinta e cinco anos depois daquela manhã de Abril, em que os militares decidiram devolver a Liberdade aos portugueses, falar em Censura é algo que soa a passado e cuja memória colectiva se vai lentamente esboroando no percurso do tempo. É pelo menos essa a sensação com que se fica, ao falar com pessoas que durante o Estado Novo foram vítimas da Censura. Atente-se, por exemplo, no que diz Augusto Abelaira que em 1965 era Presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores e, por inerência, do Júri que atribuiu o Grande Prémio da Novela a Luuanda de Luandino Vieira, que na altura se encontrava preso no Tarrafal:“Confesso que não consigo relembrar com exactidão todos os pormenores que se seguiram à atribuição do Prémio a Luandino Vieira. Constatei isso alguns anos depois do 25 de Abril quando fui convidado, juntamente com outro dos membros do júri (Alexandre Pinheiro Torres), a deslocar-me a Luanda para aí efectuar uma palestra sobre as peripécias em que nos vimos envolvidos e, com alguma mágoa, reparei que em muitos pormenores as nossas memórias não coincidiam.” Uma coisa, no entanto, é certa: apesar de a atribuição do Prémio ter sido decidida por maioria (e não por unanimidade), nenhum dos membros do Júri esperava a reacção intempestiva da PIDE, uma vez que o livro já recebera um prémio em.... Luanda! A verdade, porém, é que quase todos os membros do júri acabariam por ser presos e passar alguns maus bocados na António Maria Cardoso. Para além disso, a Censura transmitiu aos jornais instruções, impedindo que os nomes dos membros da SPE que tinham atribuído o Prémio da Novela a Luuanda aparecessem nos jornais. “Era como se estivéssemos mortos”- diz o autor de “A Cidade das Flores”. Mas os estragos não se ficaram por aqui. A Gulbenkian, que dava o dinheiro para o Prémio, suspendeu o seu patrocínio e a SPE foi encerrada, só vindo a reabrir em 1969, como nome de Associação Portuguesa de Escritores, durante o Governo de Marcelo Caetano. Episódio picaresco que demonstra como a Censura nem sequer respeitava trabalhos científicos, mesmo quando o seu autor era um Prémio Nobel da Medicina, relataem 1953 Egas Moniz em entrevista ao Jornal República:“ Por mim lhe digo: as Confidências de um Investigador Científico, tiveram cortes em páginas que guardo como sinal dos tempos. Não se tratava de assuntos fundamenatis; aliás, apesar de ir adiantada a impressão, não seriam publicadas. Mas ficou gravada a garra do vexame. Mais curioso é o que se passou com outro livro meu A vida Sexual, que originariamente estava dividida em dois volumes (depois reunidos em um só:Filologia e Patologia). O primeiro serviu de dissertação no meu acto de conclusões magnas, em Coimbra, que me deu o capêlo na Universidade, e o segundo foi a tese de concurso que melevou ao perofessorado. Já andava pelo trigésimo ano da primeira publicação e já entrava o livro na 19ª edição, quando foi proibida a sua venda! O editor, que se sentiu muito prejudicado, protestou e solicitou ao ministro do Interior dessa época solução menos gravosa para o assunto. Depois de muito trabalho, obteve dos poderes públicos a concessão de ser vendida a obra sob requisição médica e mais tarde também dos advogados! Resultado: esgotou-se o volume, que passou a ser raro.
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i Em entrevista à Revista Ler do Outono de 1995, Alexandre Pinheiro Torres faz várias revelações extremamente importantes que clarificam o que se passou após a entrega do prémio, razão porque reproduzirei, em anexo, e na íntegra, o excerto dessa entrevista que considero essencial para uma melhor compreensão do que efectivamente se terá passado e mesmo para o que era na época a Censura e a Sociedade Portuguesa de Escritores.
iiEm algumas situações os depoimentos convergem, mas Alexandre Pinheiro Torres revela dados que Augusto Abelaira ou não recorda, ou preferiu ocultar. Na verdade, o próprio Governador de Angola entregara a um representante de Luandino Vieira o prestigiado prémio Mota Veiga, atribuído a Luuanda. Como diz Alexandre Pinheiro Torres na entrevista à “Ler”, a Censura e o próprio Governo desconheciam o livro. iiiFernanda Botelho esteve sempre em liberdade, pois era secretária particular do embaixador da Bélgica e este ameaçou o governo português com um incidente diplomático se a prendessem (Alexandre Pinheiro Torres,e.c.)

Sabedoria chinesa

Antes de escrever o post anterior, devia ter pensado num provérbio chinês muito importante para evitar problemas na vida, que a minha mãe me está sempre a lembrar:
"Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida."
Agora é tarde, já não há remédio. Paciência. Uma vez mais as minhas desculpas, se ofendi alguém, mas procuro sempre ser bem educada com todos.
Martinha

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Desculpem o desabafo

Olá!
Hoje vou escrever sobre uma coisa que talvez vocês não gostem muito mas espero que compreendam, porque ando com isto atravessado há muito tempo e já não consigo aguentar mais.
Eu não sou uma pessoa fútil como muitos terão pensado quando leram o que escrevi aqui sobre a minha visita a Roma com o Carlos. A minha cultura é diferente, digo sempre o que penso e não sou capaz de fingir. Apesar de viver há uns anos na Europa ainda tenho alguma dificuldade em compreender os europeus e os portugueses, porque me parecem ser muito ambiciosos e às vezes não saõ verdadeiros.
Uma das coisas que me custa a perceber é porque é que vocês se andam sempre a lamentar, a dizer mal dos políticos, de Portugal e da Europa, quando vocês aqui têm tudo e eu venho de um país onde ainda há poucos anos não havia quase nada, e a miséria era muito grande e nunca me queixei. Tive muita sorte em vir viver para Portugal, há coisas aqui que me fazem ainda muita confusão, mas gosto de cá viver porque em Portugal tenho uma vida muito melhor. Sei que vocês não gostam de nós, quando leio algumas coisas que se escrevem sobre o meu país às vezes choro, porque se dizem e escrevem muitas injustiças acerca de nós. Eu estou muito agradecida a Portugal e aos portugueses, mas por favor não digam que nós andamos aqui a destruir o pequeno comércio, a roubar emprego aos portugueses, somos uns porcos e que não respeitamos os outros. Somos diferentes de vocês, mas é só por fora. Por dentro somos seres humanos iguais aos outros. Somos imigrantes, viemos para cá para melhorar as nossas vidas, como muitos portugueses também fizeram quando foram para outros países.
Desculpem se não gostaram do que escrevi, mas eu tinha de dizer, senão rebentava. Sou apenas uma imigrante, não quero roubar nada a ninguém, mas custa-me muito perceber que muitos portugueses não gostam de imigrantes.
Martinha

terça-feira, 28 de abril de 2009

Rochedo das Memórias (101)- A Censura do Livro no Estado Novo-IV

A propósito de falta de critérios, Francisco Lyon de Castro contou-me em 1999 uma história que ilustra bem a forma como a Censura actuava. Durante uma Feira do Livro, um padre reparou que estava à venda um livro intitulado "A Inquisição Portuguesa" de António José Saraiva. Telefonou imediatamente para a Censura perguntando, indignado, como era possível estar à venda um livro contra a Igreja. E assim os serviços da Censura proibiram o dito livro, receando represálias caso não actuassem dessa forma.
Maria Teresa Horta, por sua vez, conta o seguinte episódio a propósito de um corte feito a um poema de António Ramos Rosa que deveria ser publicado no suplemento “Literatura e Arte” do vespertino A Capital:
Indignada com a situação, telefonei a um censor, tentando-o convencer que estava a cometer uma injustiça. Ele ficou admirado com a minha reclamação e perguntou-me porque é que me fazia tanta diferença uns versos num poema tão grande e interrogava-me:
- Mas porque é que a senhora se dá ao trabalho de discutir comigo e tentar convencer-me a retirar um corte que não vou retirar?E não retirou, mas o poema também não saiu!”
Outro aspecto curioso da censura, tinha a ver com o facto de muitas vezes as próprias citações de algumas altas individualidades serem cortadas, quando transcritas em jornais e revistas. Na opinião de José Carlos Vasconcelos, “os cortes eram feitos por os censores terem consciência do ridículo das frases ou matérias transcritas e quererem evitar a sua exposição pública.” Ainda de acordo com a sua opinião, “o mais vasto e mais importante era o que a Censura nem chegava a precisar de cortar, porque já não se escrevia…porque não se podia escrever sobre quase nada o que tinha a ver com a realidade mais profunda do País, sobre a forma como as pessoas viviam e os problemas que tinham.”
(Continua)

América Latina dá mais um passo para a união

Os leitores que me seguem há mais tempo, sabem que critico sobejas vezes o envelhecimento da Europa e enalteço o dinamismo dos países sul-americanos. A crise fez realçar uma outra grande diferença entre os dois continentes. Enquanto no seio da União Europeia cada país procura defender os seus interesses, marimbando-se para os interesses europeus, na América do Sul assiste-se a um reforço dos laços entre os países da região. Depois da unidade reforçada durante a Cimeira das Américas, hoje, mais um passo importante foi dado na Casa Rosada ( sede do governo argentino). A Bolívia e o Paraguai assinaram, em Buenos Aires, um acordo que põe fim ao conflito que alimentam há 74 anos.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Rochedo das Memórias (100)- A Censura do livro no Estado Novo-III

...Restava informar os destinatários da Circular, sobre os critérios de julgamento que deveriam adoptar. Mas a DGCI não descurou esse aspecto e, na mesma missiva, esclarece o conteúdo das obras a evitar:
“Todas as publicações nacionais ou estrangeiras de propaganda perniciosa contra a segurança e a boa administração do Estado feita por meio de doutrinas internacionalistas de carácter político e social que um equilibrado espírito nacionalista repudia e combate; todas as publicações, nacionais ou estrangeiras que versem assuntos pornográficos;(...) que por qualquer forma que se apresentem, visem a perversão dos costumes pela propagação de doutrinas não integradas nos princípios de uma moral sã ou propagação de ideias de carácter sexual, pseudo-científicas ou não, contra a honra e o pudor da mulher, a moral da família, ou que por qualquer meio tendam à subversão da sociedade portuguesa.”
Com esta medida, Salazar conseguia atingir três objectivos: corresponsabilizar todos os elos da distribuição, ganhar maior margem de manobra e poupar uns dinheiros razoáveis aos cofres do Estado, que assim passava a dispor, gratuitamente, de auto censores que temiam não só os prejuízos resultantes de uma apreensão, mas também pretenderiam evitar problemas com a PIDE.Por outro lado, Salazar sabia que a imprensa vendia muito mais do que os livros e chegava a muito mais gente, razão porque fazia incidir a actividade dos censores sobre os jornais.
Perante estas medidas, não deixa de ser curioso salientar o artº4 da Constituição de 1933, que defende “a liberdade de expressão do pensamento sob qualquer forma”, embora remeta para leis específicas que “regularão o exercício da liberdade de expressão do pensamento”.
A partir de 1937, com a Guerra Civil de Espanha, as malhas da Censura tornam-se mais apertadas e determinados autores só são autorizados a publicar os seus livros, se forem sujeitos a exame prévio. As acusações de que certos livros continham “matéria crime atentatória da nossa soberania” ir-se-iam multiplicar, mesmo depois da anunciada Primavera Marcelista, quando a Censura tomou o nome de “Exame prévio” e a PIDE o eufemístico epíteto de Direcção Geral de Segurança. A censura surtiu graves efeitos a nível da produção literária. De facto, a sua simples existência destruía a criatividade. Os escritores viam-se obrigados a viver em plena autocensura. Para quem escrevia era necessário arranjar subterfúgios, escrever nas entrelinhas ou através de metáforas incompreensíveis para, quem sabe, escaparem às malhas da censura. Devido a ela (Censura) ficaram, certamente, inúmeros livros por escrever, pois o encarceramento intelectual era muito severo. Durante 50 anos, escritores como Agostinho da Silva, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Ary dos Santos, Ferreira de Castro, José Cardoso Pires, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Tomás da Fonseca, ou Urbano Tavares Rodrigues, viram muitas das suas obras amputadas, violentadas ou simplesmente proibidas. Tipografias foram encerradas, editoras como a Livrelco, a Dom Quixote e a Europa-América , ou livrarias como a Barata eram visitadas com frequência pela PIDE que apreendia livros aparentemente sem critério, como se pode concluir da leitura de alguns pareceres dos Censores:
“(…) por seu despacho de hoje proibiu a venda e circulação da obra de A. Contreras, intitulada “O PÃO DOS POBRES” – Scenas da vida operária-. Nestas condições, tenho a honra de solicitar a V. Exª se digne ordenar que todos os exemplares das obras “O PÃO DOS POBRES” e “GREVE GERAL” sejam apreendidos e remetidos a esta Direcção Geral.”
“(…) foi feita uma busca a fim de apreender livros, documentos, valores ou objectos de interesse para a matéria de autos.”
“Constando que (…) existem alguns exemplares do livro proibido “A GREVE GERAL” que um indivíduo de nome António Bandeira se encarrega de vender em folhetos e tambem que n’aquele local ou nas dependencias da Tipografia (…) existem exemplares do livro “PÃO DOS POBRES” que ainda não foi sujeito a censura (…), tenho a honra de rogar a V. Exª, se digne determinar a apreensão de todos os exemplares dos referidos livros.”
( Continua)

domingo, 26 de abril de 2009

Histórias da minha vida

Olá!
O Carlos pediu-me que fosse escrevendo aqui umas coisas enquanto ele está fora, mas como não sabia o que havia de escrever, decidi contar-vos uma cena da minha vida que me lembrei agora.
Aqui há tempos fui à Madeira visitar um amigo. Quando lá cheguei, estava à minha espera uma amiga que me disse que o pai do meu amigo tinha falecido e seria enterrado naquela tarde.
Fiquei chateada porque não fui à Madeira, gastar dinheiro no avião, para ficar a velar um morto, mas lá pedi à minha amiga que me levasse até ao local do velório.
Ao chegar, vi que no caixão estava o morto inteiramente nu e ao lado um grande pote cheio de creme, no qual cada um dos presentes metia a mão e, após apanhar um pouco, passava sobre o defunto.
Fiquei admirada. Olhei em volta e, como não vi o meu amigo, fui falar com a mãe dele e perguntei:
- Desculpe-me a ignorância, mas o que lhe estão a fazer é tradição por aqui ?
Não, de maneira nenhuma, é inédito! Nunca o fizemos. Ele é que pediu para ser cremado...
Adeus, até um destes dias. Quando puder volto.
Martinha

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Recordar Abril



“Numa sociedade saudável, a loucura é a única liberdade possível”.


Esta frase foi proferida por JG Ballard numa entrevista à “Pública”, há bastante tempo, mas nunca mais a esqueci. Vai bem comigo. E vai bem com o 25 de Abril.
Dedico-a aos Barrosos, Zitas, Vitais e outros que tais, que trocaram o espírito de Abril para se alaparem, confortavelmente, ao lado das forças que o destruíram.
A lberdade de imprensa foi uma das grandes conquistas de Abril. Infelizmente, nos últimos tempos, muita gente (incluindo jornalistas), não percebe que a liberdade de imprensa e liberdade de expressão têm limites e não podem servir para fazer campanhas persecutórias.
O jornalismo tem de ser responsável, não pode substituir-se à justiça acusando, seja quem for, sem fundamento. Jornalismo não é especulação. É verdade! Não é linchamento em praça pública, baseado em factos que não estão comprovados. É objectividade!
Trinta e cinco anos depois do 25 de Abril, já era altura de os jornalistas - e o público em geral- terem percebido isso. Mas não perceberam.
Saúdo, por isso, a "Visão" desta semana. Uma edição para guardar que devia ser de leitura obrigatória em todas as escolas e ser afixada em todas as redacções, e escolas de jornalismo, para avivar a memória de algumas mentes mais esquecidas. Uma lição de bom jornalismo e um trabalho de verdadeiro serviço público, que honra o 25 de Abril. Se não leram, corram a comprar, porque é imperdível.

Rochedo das Memórias(99)- A Censura do livro no Estado Novo -II


BRANDOS COSTUMES?
Sendo a Ditadura um regime de honesta legalidade, é de desejar a serena crítica de todas as medidas governamentais que para esse fim forem dadas a público, com o propósito manifesto de uma útil colaboração (...)A Censura é o meio indispensável a uma obra de reconstrução e saneamento moral...”
(Extracto de uma nota da Direcção Geral dos Serviços de Censura, difundida em Julho de 1932)

A criação da Censura reporta a Junho de 1926, altura em que foi estruturada como Direcção Geral, com Comissões em Lisboa, Porto e Coimbra e Delegações nas restantes capitais de distrito que funcionavam junto dos Governos Civis. Embora desde o início existissem censores especializados para a leitura de livros, diga-se desde já que, salvo raras excepções, que adiante referirei, inicialmente a Censura apenas se preocupava com os jornais, embora o editor ou o autor, fosse obrigado a comunicar à Direcção Geral de Censura à Imprensa, (DGCI) o título da obra que pretendia publicar.
Era em função desta informação que a DGCI decidia dispensar ou não a leitura prévia da obra: “Está sujeita a censura prévia a que se desenvolve nas publicações de autores nacionais. É recebida na Direcção Geral uma declaração em duplicado do autor ou editor com a indicação do título da obra que deseja publicar.É aposto nesse documento: “dispensado de censura” se da análise daqueles elementos vão resultar conveniência da censura prévia feita, então, à obra em provas.”
Esta forma de procedimento dava alguma margem de manobra a editores e autores que, sabendo a importância do título para a decisão da Censura, evitavam que este tivesse conotações que pudessem despertar a curiosidade dos censores. Porém, a partir de 1933, com a ascensão de Salazar a Presidente do Concelho, o panorama vai mudar ligeiramente, sendo determinante, para isso, a formação académica do ditador. Descontente com a actividade da Censura, mas sabendo que a censura prévia do livro saía muito cara ao Estado, Salazar só obrigava que fossem submetidos à análise prévia dos censores os livros de carácter político, histórico ou social. No entanto, nem sempre era possível fazer antecipadamente essa destrinça, pelo que Salazar optou por implicar no processo, tornando-os igualmente responsáveis, os editores, os livreiros e as tipografias.
Bem elucidativa dos propósitos de Salazar é esta nota circular da DGCI datada de Fevereiro de 1934 e enviada a todos os proprietários e gerentes de livrarias, depósitos e postos de venda de livros:
No cumprimento da legislação em vigor, fixam-se as normas que devem adoptar-se nas relações entre estes Serviços e as livrarias e postos de venda ou distribuição de livros e mais publicações, procurando reduzir ao mínimo possível o prejuízo que da intervenção destes Serviços possa resultar para o comércio respectivo.Pretende esta Direcção Geral que na necessária censura às publicações consideradas inconvenientes à segurança geral, administração do Estado e valorização moral da Nação, sejam colaboradores preciosos, por integração inteligente e voluntária nos princípios consignados naquele decreto, os próprios estabelecimentos de venda a que esta Circular se dirige e de cujo procedimento, portanto, em muito grande parte dependerá a satisfação de um desejo superior de bem servir a Nação, precavendo-a contra propósitos de desnacionalização moral e política que a todo o português cumpre combater.”
(Continua)

Juízos precipitados

É evidente que com a adesão ao euro os preços em Portugal dispararam de uma forma quase indecorosa, mas bem reveladora da ganância característica do comerciante e pequeno empresário português.
A subida dos preços não justifica, no entanto, a avaliação negativa que 62% dos portugueses fazem da adesão ao euro. Acreditar que com o escudo Portugal teria resistido melhor à crise,revela um pensamento enquistado em saudosismos bacocos.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Pausa para leitura(s)


Chego a casa ainda com muito trabalho para fazer, muitas teclas para bater, formar palavras, construir frases que formem um texto coerente, capaz de transmitir a mensagem que pretendo levar aos leitores que me vão ler lá pelo hemisfério sul.
Olho para os livros empilhados na mesa ao lado da minha secretária, à espera de serem manuseados pelas minhas mãos sedentas. Quase pressinto um sussurro de alguns que se interrogam: “nem hoje, Dia Mundial do Livro, ele nos vai dedicar uns minutos de atenção?”.
Sou sensível ao apelo. Toco-lhes. Afago-lhes as capas. Folheio ao acaso uns dois ou três. Detenho-me a olhar a capa de “A Sul da fronteira, a Oeste do Sol” de Haruki Murakami. Abro ao acaso e leio:
“Durante o liceu transformei-me num adolescente como tantos outros. Essa foi a segunda fase da minha existência, um novo estádio no meu processo evolutivo. Abandonei a ideia de vir a ser diferente e contentei-me com o estatuto de pessoa normal. Claro que aos olhos de uma pessoa observadora os meus problemas não teriam escapado. Mas também qual é o rapaz de 16 anos que não passa por isso?Pode dizer-se que aos poucos , comecei a aproximar-me do mundo, ao mesmo tempo que o mundo vinha ao meu encontro…”.
Já não estou à secretária. Voei no tempo. Recuei à minha adolescência. Mas não posso continuar a voar nas asas do meu passado. Não tenho tempo para continuar a ler. Está prometido. Amanhã, pela noitinha, vou levar este livro comigo. Com ele irão mais dois ou três que começarei a desbravar, ancorado num stop over sem saudade. Depois voarão comigo nas asas de um Airbus. Rumo à felicidade.
Esperem só mais um pouco, meus amigos inseparáveis. Amanhã encontrar-nos-emos de novo. Nada temeis. Nunca vos trocarei pelas plataformas digitais, sem alma, nem cheiro, onde não vos posso tocar. No sábado estareis comigo, nos jardins de Palermo, bem junto à casa de Borges. Teremos então tempo para trocar algumas ideias.

Rochedo das Memórias (98): A censura do livro no Estado Novo


Inicio hoje uma série de posts dedicados à Censura do Livro durante o Estado Novo. Foi a maneira que escolhi para evocar , este ano, o 25 de Abril.


Livros e democracia


“Ao longo de gerações e gerações, através de monarquias e impérios; de inquisições e ditaduras; arrastando silêncios, arrastando exílios, uma lenta procissão de mártires desfilou por esse incalculável corpus de naufrágio que são os milhares de quilómetros de textos lançados às fogueiras e aos arquivos”.


(José Cardoso Pires)


O livro sempre foi visto com alguma desconfiança por poderes autoritários mas serviu, simultaneamente, de meio de propaganda desses poderes. Salazar, ao que consta, gostava de ler, mas foram muitos os livros cuja edição foi proibida em Portugal, por serem considerados “transmissores de ideias perigosas e nefastas, susceptíveis de corromperem a sociedade e os cidadãos”. Nem mesmo a literatura infantil escapou aos poderes da censura. Este excerto de uma ordem emanada pela Direcção dos serviços de Censura de Instruções sobre a literatura infantil, ilustra-o bem:
“Parece desejável que as crianças portuguesas sejam cultivadas, não como cidadãos do Mundo, em preparação, mas como crianças portuguesas que mais tarde já não serão crianças, mas continuarão a ser portuguesas.”
No entanto, Salazar não menosprezava (e até incitava) a edição de livros que apregoassem as virtualidades do regime, que exaltassem a “nossa gesta”, ou os nossos “bons e brandos costumes”. Ditadores de sinal contrário tiveram atitudes idênticas ao longo da História e, só neste século, muitos foram os escritores obrigados a emigrar dos seus países para poderem divulgar as suas obras. Solnietsjine e Kundera, são apenas dois casos entre muitos que se podiam citar.
O cinema também nos deu, com Farehneit 451, uma imagem clara dos medos que os ditadores sempre tiveram dos livros e, em O Palácio dos Sonhos do escritor albanês Ismail Kandaré, ficámos também com uma visão dantesca da relação entre o Poder, a Censura e os livros.

Resulta assim que, para exercer em plenitude a sua função, o livro precisa de sociedades democráticas. É aí que o livro se sente bem, pois só em democracia (numa perfeita e sã concorrência de títulos e autores) consegue derramar, despojado de ideias pré-concebidas, o conteúdo das suas mensagens. É em democracia que o livro se assume, sem subterfúgios, nas suas diversas - e por vezes antagónicas - vertentes: veículo de informação ou propaganda, instrumento de entretenimento e cultura, ou simplesmente objecto estético, destinado a emoldurar as prateleiras de uma estante, depositário de saberes, ou despertador de consciências.

Só que uma sociedade democrática não se mede apenas pela democracia dos poderes e das instituições, mas também pela capacidade de acesso das populações aos bens culturais (onde se inclui o livro) ou pelos hábitos de leitura, mas isso levar-me-ia por caminhos que não pretendo aqui abordar. Apenas pretendo deixar bem vincada a ideia - que não é só minha- de que o livro, embora movendo-se numa trajectória específica deste mundo global, tem resistido a todos os ataques, incluindo os da Censura e da PIDE. Ferozes na Metrópole, mais brandas mas igualmente tentaculares nas ex-colónias. Como adiante se verá!.... (Continua...)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Olha que coisa mais linda!

Hoje é o Dia da Terra. Eu sei que isto dos "Dias de..." é uma grande treta que serve para tranquilizar consciências e pouco mais, mas que diabo, Terra só há uma e se não a preservarmos não temos para onde emigrar. Não posso, por isso, deixar de vos lançar um desafio:
Pensem, durante 10 minutos, se o que estão a fazer em defesa do futuro dos vossos filhos é o mais correcto. Vale a pena estarem preocupados em satisfazer todos os seus desejos e caprichos materiais, para lhes garantirem "uma infância e juventude feliz", se não preservarem o lugar onde ele vai viver depois da vossa morte?
E não vale de desculpa olhar para o lado e pensar " se os outros todos fazem assim, porque é que eu hei-de fazer diferente?"É a soma de pequenos gestos individuais que pode contribuir para preservar o futuro da Terra e garantir aos nossos filhos a melhor herança que eles podem desejar: um planeta saudável.
Pode parecer lamechice de ambientalista, mas é assim que eu penso. Ou alteramos os nossos comportamentos quotidianos e ensinamos os nossos filhos a viver de forma mais racional e sustentável, ou estamos a hipotecar o seu futuro. A escolha é vossa, mas o futuro é deles!

terça-feira, 21 de abril de 2009

Pelo país dos blogs ( 46)


Eu sei que já é tarde, mas só agora me foi possível dar aqui a notícia. A Gi celebra hoje (dia 21) o segundo aniversário do seu blog. Ela diz que só lhe falta um 31 na vida e eu acredito, mas a verdade é que a boa disposição que se vive naquele espaço é tão contagiante, que o 31 não lhe deve fazer falta nenhuma. Em contrapartida, a mim fazez-me muita falta o seu bom humor e o aguçado espírito crítico.
Peço desculpa pelo atraso, Gi, mas tive de ir a Goa tirar esta fotografia e quase não chegava a tempo. Faltam 3 minutos para a meia noite...

Quebra-cabeças



Eu talvez até esteja a ver mal a questão, mas parece-me que há alguma coisa que não bate certo nesta notícia . A Académica de Coimbra estuda a hipótese de construir um estádio novo, porque a manutenção do actual estádio ( municipal, na foto) lhe está a sair muito cara e ameaça o seu futuro. E como arranja a Briosa dinheiro para construir um novo estádio? Endividando-se, ou pedindo apoio à Câmara (que já tem um estádio) que lhe faça um novo, mais pequeno e funcional, e venda este aos patos bravos, para construírem umas torres com centro comercial acoplado...
Se estou a perceber bem a coisa, transferindo o raciocínio para o comportamento de um cidadão, tudo se deveria passar assim. O Audi 8 está avariado? Então o melhor talvez seja – em vez de mandar reparar- comprar um Mercedes Compact, porque é mais pequeno e funcional. Não tem dinheiro? Não faz mal! Vai ao banco, endivida-se e depois logo se vê o que fazer ao Aud i 8. Começo a perceber as causas que nos conduziram à crise. Ou estarei enganado?
Será que me podes ajudar a desfazer este novelo, Pedro Oliveira?

Jornalismo "boomerang"


Um jornal envia um repórter a Bombaim. Como o objectivo é tentar convencer os pais de uma criança de 10 anos a vender a filha, arranja-lhe uma companheira que se faz passar por sua mulher. Chegados à fala com o pai da criança, declaram pertencer a uma família rica do Médio Oriente. O pai acede vender a filha por 300 mil euros.
A criança que o suposto casal pretende comprar não é uma criança qualquer. Chama-se Rubina Ali, vive num bairro de lata de Bombaim, já ganhou um Óscar, graças ao sucesso do filme “Slumdog Millionaire”, onde desempenhou o papel de Latika
O“News of the World”não precisava de ir à Índia para fazer uma reportagem deste jaez. Infelizmente não são raros os casos de pais que vendem as filhas. Na Índia, na China, em Portugal ou em qualquer parte do mundo, há sempre pais dispostos a trocar os filhos por uma boa maquia em dinheiro.(Notícias recentemente vindas a lume demonstram que até há pais, portugueses, que adoptam filhos e depois os abandonam no Brasil).
O objectivo do jornal, porém, não era divulgar a existência de situações de miséria que levam os pais a vender um dos filhos para conseguir alimentar os restantes. Se fosse, não lhe faltariam situações anónimas ilustrativas da miséria em que vive uma grande parte da população mundial. O jornal preferiu apimentar a notícia com uma criança que o mundo inteiro conheceu.

À primeira vista, até parece uma boa ideia. Chama mais a atenção da opinião pública e pode rotular-se o trabalho como jornalismo de investigação.
Vendo bem as coisas não foi isso que se passou. O jornal ( “News of the World”) fez deste caso notícia de primeira página. Provavelmente até lhe chamou “jornalismo de investigação”, reforçou a tiragem e viu a notícia divulgada pelo mundo inteiro, mas desviou as atenções do essencial.
O Ocidente tem as mãos sujas porque é, em grande parte, culpado da miséria que se vive nos países pobres. Esqueceu-se que a notícia tem um efeito de “boomerang”. Pelo menos nas consciências de quem não seja insensível à dor e miséria do próximo.
Moral da história: o jornal comportou-se como um “Slumdog” e fez um negócio milionário. Mas terá feito jornalismo?Para mim, a resposta não é fácil. E para vocês?

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Até que enfim!

Lembram-se desta história? pois então tenho o prazer de vos informar que, muita chapa amolgada depois, , estão finalmente a construir uma rotunda. Em anos de eleições, é sempre possível ter boas surpresas com a sensibilidade das autarquias às reclamações dos eleitores.

Pelo país dos blogs (45)

Fico a saber, pelo Rui Bebiano ( A Terceira Noite) que na Dinamarca a sesta vai passar a ser um direito (remunerado) para os trabalhadores das áreas da saúde e da assistência Social e que a morte de animais domésticos dará direito a um dia de nojo. É melhor nem pensar no regabofe que seria em Portugal se a medida fosse aplicada por cá, mas adiante...

Ainda estava a pensar como é bom viver num país onde o civismo dos cidadãos permite aos governos tomar estas medidas, sabendo que não irá gerar abusos, quando leio, noutro post, que em França estão a prestar uma homenagem ao sr. Hulot. No entanto, nos cartazes que publicitam o evento, a fúria das brigadas de costumes que nos querem transformar em cidadãos assépticos,privou o sr Hulot do carismático cachimbo, dos cartazes que publicitam o evento.

Bem, mas o melhor é irem lá ler o resto, porque A Terceira Noite é um excelente blog que merece uma visita demorada.

domingo, 19 de abril de 2009

Ary dos Santos: 25 anos depois



Hoje, pelas 18 horas, no Instituto Franco- Portugais, assinalam-se os 25 anos da morte de Ary dos Santos. Uma justíssima homenagem a um dos mais talentosos poetas portugueses, que perdura na memória de muitos, mas os mais jovens desconhecem.

Presto-lhe a minha homenagem , transcrevendo o poema "Poeta Castrado, não!"

Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegar a poesia

quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala...

é tão vulgar que nos cansa...

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história...

a morte é branda e letal

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

Um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

(José Carlos Ary dos Santos)

Que falta nos faz, Zé Carlos, uma voz como a tua, que se erga para denunciar, sem rebuço, os podres deste país de corruptos autodidactas, sempre de dedo em riste, apontando indignados, a perversão da moral e os " maus costumes".

sábado, 18 de abril de 2009

Prendas da semana

Esta semana recebi mais dois presentes. O primeiro - que até me provocou um arrepio de... satisfação- foi-me oferecido pela Only Words, um blog que não conhecia e que grande parte da vizinhança talvez desconheça também.Vão lá fazer uma visita.

Este, que já me tinha sido oferecido pela Vera, foi uma amável gentileza do Ferreira Pinto, do Notas Soltas Ideias Tontas, um blog que visito com assiduidade há muito tempo. Trata-se de um blog colectivo e alguns dos que lá escrevem também são visita habitual do Rochedo. Como na altura disse à Vera, não reparto esta prenda com a Martinha porque, embora ela seja mais jovem do que eu, ainda não tem cá lugar cativo.
Aos dois o meu muito obrigado.
Desta vez não vou passar a ninguém em especial. Ofereço a todos os que diariamente me visitam e animam este Rochedo com a sua simpatia e os seus comentários.



Momento de Humor (23)

Uma engenheira de informática estava a ajudar um colega da empresa aconfigurar o computador e perguntou-lhe que password ele queria utilizar.
O homem, tentando atrapalhá-la, disse:
- Pénis.
Ela, sem dizer uma palavra e sem se rir ou dar parte de fraca,introduziu a password.
Quase que morria de riso quando ocomputador deu a resposta:" PASSWORD REJEITADA: NÃO TEM TAMANHO SUFICIENTE"...

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Mulheres suspiram na Loja do Cidadão


Ao que parece, depois dos protestos de algumas mulheres contra as normas de conduta estabelecidas na Loja do Cidadão, foi criada uma "Liga de Mulheres Lusas" que, em homenagem às Madres da Plaza de Mayo (que se reúnem todas as quintas-feiras), convergem todas as sextas -feiras para aqui, exigindo drásticas alterações à apresentação dos funcionários das mesmas Lojas. Se conseguiram os seus intentos os homens é que vão ficar a ganhar, porque já não precisam de perder tempo a convencer as consortes, de que não têm tempo de ir à Loja do Cidadão tratar dos assuntos familiares.
Com as novas normas podem até ocorrer algumas situações surreais, como esta:
Ele: Querida, amanhã tenho de ir à Loja do Cidadão.
Ela: Não te preocupes, querido eu vou lá.
Ele: Obrigado querida, mas eu tenho de ir tratar do meu BI.
Ela: Não precisas de ir , meu amor, pões as tuas impressões digitais neste bloquinho de notas e eu levo.
Ele( fingindo-se de estúpido): Achas que isso funciona?
Ela: Acho que sim. Já lá fui tantas vezes que conheço os funcionários todos e consigo convencê-los a colocar este papelinho no teu BI.
Ele: E a assinatura?
Ela: Não te preocupes, meu amor, já estou habituada a assinar os tesu cheques, também não vai haver problema.
E pronto. Lá vão elas todas gaiteiras e "suspirosas" para a Loja do Cidadão, ansiando que o assunto a tratar demore pelo menos a manhã inteira. A partir de agora, meus amigos, vão acabar-se as reclamações contra o tempo de espera nas Lojas do Cidadão.
O único problema será, eventualmente, o ruído provocado pelos unívocos suspiros femininos


Aditamento: Chamo a vossa especial atenção para o aditamento que escrevi no post anterior

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Pronúncia do Norte (14)

CIMBALINO=




=BICA ?

Não é bem verdade e passo a explicar porquê. A palavra Cimbalino surgiu, porque as primeiras máquinas de café Expresso que chegaram a Portugal eram da marca Cimbali. Não saber isto, aos 17 anos, valeu-me uma grande vergonha. Um dia entrei no Nicola e pedi um Cimbalino. O empregado olhou para mim e disse muito sério “ Cimbalino não tenho, pode ser um Faemino?”. Fiquei com cara de parvo e perguntei-lhe o que era um Faemino. Ele escangalhou-se a rir e explicou-me que no Nicola as máquinas de café expresso eram da Faema, por isso, como no Norte chamavam Cimbalino, em Lisboa chamavam-se Faemino. Felizmente que antes de me vir embora ele me disse que estava a mangar comigo, caso contrário ainda era bem capaz de, no dia seguinte, ter chegado a um café e pedir um Faemino.

Ah estão para aí a rir-se, com as desgraças de um puto Visigodo que aterrou sozinho em Lisboa aos 17 anos? Então não perdem pela demora, porque eu vou explicar-vos como nasceu a palavra BICA. Querem arriscar? Não vale a pena, tenho quase a certeza que não sabem, poupo-vos os neurónios.

Pois, por estranho que vos pareça, a palavra BICA nasceu…no PORTO! Tudo se passou quando um lisboeta foi à Invicta. Estava habituado a beber o café sem açúcar, servido em Lisboa naquelas chávenas de vidro sem asas, a escorrer de uma torneira pouco higiénica, e resolveu pedir um “Cimbàlino” ( os lisboetas nunca souberam pronunciar a palavra direito. Também dizem Màtosinhos, portanto é mesmo uma questão genética, não se lhes pode levar a mal).

O empregado lá lhe trouxe o CIMBALINO, mas quando viu a cara de repulsa do lisboeta e percebeu que estava a beber sem açúcar, “abeirou-se” dele com um açucareiro e disse: Beba isto com açúcar!

O lisboeta assim fez e ficou tão satisfeito, que pediu outro logo a seguir. Quando o empregado lhe trouxe a chávena, estava o lisboeta a escrever no seu caderno de apontamentos:

“ Não esquecer ! Beber Isto Com Açúcar” . E pronto, assim nasceu, no café Palladium do Porto, a tradição de os tripeiros virem a Lisboa beber uma BICA

Em tempo: Quero chamar a atenção que escrevi CimbÀlino e tosinhos e não CimbÁlino e MÁtosinhos. O acento grave faz toda a diferença (embora tenha caído em desuso), pelo que os comentários que aqui foram feitos sobre o assunto padecem de um pequeno vício de forma. E esta hein?

Receita mágica

Esta manhã ainda continuo um bocadinho triste . Felizmente hoje é dia de "Inimigo Público", por isso fui comprar "o Público". Quando vi na capa a fotografia da Manuela Ferreira Leite, animei-me logo, porque ela é a alegria dos cemitérios e hoje estou de luto. Ainda mais hilariante, porém, foi ler esta notícia. Muito melhor do que ir ao circo ver os palhaços. E só me custou 1 euro!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Quem me manda ser bruxo?

Eu preferia não ter acertado nesta previsão. Sim, estou inconsolável e a precisar de miminhos. (Sniff, sniff, sniff!). O Platini deve ter acabado de abrir uma garrafa de champagne. Já imaginaram como ficaria a sua reputação se o FC Porto fosse à final?

Ai a minha vida!

Olá, ainda se lembram de mim? Sou a Martinha!
Hoje estou aqui porque o Carlos telefonou-me a pedir se lhe tomava conta do Rochedo. Pediu-me também para vos transmitir que lamenta não estar a responder aos vossos comentários, nem poder fazer visitas mais demoradas pelo vosso bairro, porque está cheio de trabalho. Por acaso sei que é verdade, mas desconfio que hoje ele também está muito ansioso, por causa do Porto, que logo à noite joga com o Manchester. Digo isto, porque ele disse à minha mãe no outro dia que não acreditava que o Porto ganhasse hoje, porque em Dezembro fez umas previsões e tem acertado em tudo e parece que nas previsões que ele até escreveu aqui no Rochedo, o Porto ia ser eliminado “por uma unha negra” que não sei bem o que é, mas penso que deva ser por causa de uma pisadela que um inglês vai dar ao Hulk. O rapaz apanha tanta porrada, não percebo porque é que o Porto havia de perder por ele ficar com uma unha negra, mas de futebol quem percebe é o Carlos. Eu gostava que o Porto ganhasse, porque apesar de ser do Benfica, gosto sempre que os portugueses ganhem.
Eu não percebo porque é que o Carlos se rala tanto com o futebol, o que sei é que ele queria fazer-me sócia do Porto quando vim para Portugal, mas como eu na minha terra já gostava do Benfica, continuei a ser do Benfica. E fiz bem, porque assim nunca sofro. Quer dizer, às vezes também sofro, como hoje quando vi na banca dos jornais da D. Odete a capa de um jornal em que o presidente do Benfica que, segundo diz o Carlos, também quis ser presidente do Porto e do Sporting, dizia que não ir à Liga dos Campeões não era problema nenhum para a estratégia do Benfica. Começo a pensar que a estratégia do Benfica então é perder, por isso habituo-me à ideia e não sofro com as derrotas. Antes pelo contrário, porque o que eu quero é que o Benfica ganhe na estratégia, que não sei bem o que é, mas penso que seja uma Taça qualquer que ainda não conheço. No meio de tudo isto só não percebo porque é que o Benfica , que ainda no sábado recebeu uma lição de uns estudantes que vieram de Coimbra, nunca mais aprende a jogar futebol.
Prontos, era isto que eu tinha para vos dizer. Torçam todos pelo Porto logo à noite, para ver se eles passam esta eliminatória. Pode ser que fiquem cansados e assim ainda podemos ser campeões. Embora isso talvez não seja bom, porque se ganharmos o campeonato lá teremos de ir à Liga dos Campeões e não é esse o desejo do meu presidente.
Ai a minha vida, que isto do futebol afinal é muito mais complicado do que eu pensava. Tenho que pedir umas lições ao Rui Costa para ver se ele me explica tudo direitinho.
Até um dia destes.
Beijinhos da Martinha

terça-feira, 14 de abril de 2009

O novo cerco de Lisboa

Tarde de Abril de 2009.
No local onde ia decorrer a entrevista, num concelho próximo de Lisboa, o estacionamento é complicado. A directora disse-me para informar o segurança do que ia fazer, para poder estacionar o carro no parque da instituição. Quando lá cheguei, segui as instruções. O segurança, com cara de poucos amigos, respondeu-me:
Ela disse isso? Mas não é ela que decide quem aqui estaciona o carro… sou eu. Eu é que vejo se há possibilidade e decido, não é ela!”
Embatuquei, mas poucos segundos depois o segurança concedeu-me a necessária autorização para estacionar.
Dirigi-me à recepção e anunciei que vinha entrevistar a doutora (…) O contínuo marcou um número. Pela conversa, presumo que do outro lado tenha atendido a secretária da entrevistada.
“Está é a Graça? Diz aí à Lena ( nome fictício) que está aqui um senhor jornalista para a entrevistar”
-(…)
- Que é que queres? Mando-o subir ou ela desce?
Desligou o telefone e, com simpatia, levou-me até uma sala pedindo para aguardar. A Lena já desce, esteja à vontade.Passados alguns minutos chegava. Jovem e desempoeirada.
Boa tarde, senhora doutora
-Olá boa tarde. O sr doutor quer um café?
- Não me trate por doutor, sou jornalista
- Sabe, é o hábito de todos nos tratarmos por doutores.
- Ah , pois!- gritaram-me aos ouvidos os meus botões, desfraldando ao vento as bandeiras do PREC!

Loja do Cidadão


Compreendo perfeitamente a indignação que vai aí pela blogosfera. Como foi possível alguém "proibir" o uso da mini-saia, na Loja do Cidadão de Faro?
Assim ,até os cidadãos pagavam os impostos com mais gosto...
Se querem saber o que penso sobre o assunto, está aqui

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Espelho meu...


O dia convidava a um almoço na esplanada. Como a hora já ia avançada, escolhi um espaço recatado, em Telheiras, que serve almoços até tarde.
Poucos minutos depois de me ter sentado chegou uma senhora a meio caminho, entre os 40 e os 50, corpo escorreito a pedir “mão de mexer”, como diria o Rui Veloso. Vinha com o filho, aparentando uns 18 anos e um corpo amolecido por uma dieta alimentar à base da batata frita, hamburguers e toda a variedade de “fast food”. Pediram a lista e ele, claro, escolheu um hamburguer no pão com batatas fritas. Para acompanhar, a óbvia Coca Cola

“ Não peças isso, Pedro, olha o que a médica te disse! Tens de comer saladas, coisas saudáveis, em vez dessas porcarias. Ou queres ficar como o monstro do teu pai?”.

“ E tu o que vais comer?”

“ Vou pedir uma salada”.

Mirou e remirou a lista e por fim fez o pedido.“ Traga-me uma salada de frutas. E para beber uma caipirinha”.

Continuei a ler e a dar umas garfadas na minha salada de frango crocante. Um arroto fez-me levantar os olhos das páginas da “Visão”. O jovem, que entretanto já se esparramara na cadeira, deslizando rumo à calçada portuguesa, libertava os gases da Coca –Cola. A mãe riu-se. Eu distraí-me um pouco da leitura. Ele pegava nas batatas com a mão e mergulhava-as ora no ketch-up, ora na mayonnaise. Metia metade à boca e repetia a operação com a metade sobrante. Sorvia a Coca Cola por uma palhinha, abrilhantando o acto com efeitos sonoros.

Acelerei a refeição. A mãe acelerou na caipirinha, enquanto comentava:

“ Na happy hour as caipirinhas são melhor servidas”.

Pediu outra e um café. O jovem, entre dois arrotos, pediu reforço de Coca-cola. Pedi a minha bica e voltei a mergulhar na leitura.

Ela pediu a conta, o jovem pediu à mãe:

“ Deixa-me pagar hoje o almoço!”.

“ Estás-me a pedir desculpa por me teres batido ontem? ”- perguntou num sussurro, mas mesmo assim audível.

Ele levantou o corpo pesado, enlaçou-a num abraço forte e cobriu-a de beijos. Pagou a conta.

Ela disse:“ Vai andando, fico aqui a corrigir uns testes daquela turma de monstrinhos”.

Pelo país dos blogs (44)

Sabiam que as Fadas também têm blogs? Quem não sabia, fica a saber que conheço uma que tem um belíssimo blog alojado num quarto de um castelo como este. Não fiquem já invejosos...porque este castelo de Chenonceau é até muito pequeno para esta Fada que hoje assinala o primeiro aniversário do seu blog. Neste Quarto de Fadas- ultimamente um bocadinho abandonado- vivem paredes meias sensibilidade, perspicácia e humor.
Não acredito que haja alguém, cá no blogobairro, que nunca lá tenha entrado e tenho a certeza que todos saíram de lá confortados com as palavras que por lá andam à solta.
Hoje, é dia de irmos lá todos cantar os parabéns e dizer "Obrigado Fada, por nos receberes neste teu quarto tão acolhedor, onde as palavras se combinam harmoniosamente com a música, deixando-nos sempre com vontade de voltar."

domingo, 12 de abril de 2009

Um conto de Páscoa

Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Marta, vem cá!
- Sim?
- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
- Bom meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
- Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?
- Que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.
- E Minas Gerais?
- Sacrilégio!!!
- É por isso que a Ilha da Trindade fica perto do Espírito Santo?
- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
- Coelho bota ovo?
- Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era... era melhor, sim... ou então urubu.
- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né?
- É.
- Que dia que ele morreu?
- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
- Que dia e que mês?
- (?? Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.
- Um dia depois!
- Não, três dias depois.
- Então morreu na quarta-feira.
- Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!
- Papai, por que amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no sábado?
- Claro que não! Se Jesus morreu na sexta!!!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
- Ui...
- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, por quê?
- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
- Ai Coitada!
- Coitada de quem?
- Da sua professora de catecismo!
(Luis Fernando Veríssimo)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Páscoa feliz




Nem todos serão apreciadores de amêndoas de chocolate, por isso deixo-vos também estes coelhinhos que poderão encher com as amêndoas que mais apreciarem e que poderão ir buscar aqui Lá encontrarão outras iguarias. Sirvam-se à vontade, porque tenho um grande stock .
Feliz Páscoa para todos. De preferência sem chuva...

Aviso: Deixo agendada a publicação de um conto de Páscoa, para publicar no próximo domingo. Se tudo correr bem, poderão vir cá lê-lo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

"Com um brilhozinho nos olhos..."

...daqui a nada vou para aqui. Ainda não é altura de vos desejar uma Páscoa Feliz. Fá-lo-ei amanhã, juntamente com uns presentinhos, que espero vos tornem a Páscoa mais doce. Até lá.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Momento de Humor (22)

Já todos sabíamos que havia grandes diferenças entre Obama e Sarkozy, no entanto as suas "caras metade" explicam , de forma deveras impressiva, a dimensão dessa diferença.



Pelo país dos blogs (43)

Dois pacotes de leite atravessaram a rua e foram atropelados.
Um morreu, o outro não, porquê?
Se quer saber a resposta, vá aqui. Se não quer, vá na mesma... porque este blog dá mimos.

Nem de propósito...

Depois do que escrevi ontem aqui, sobre "O Fiel Jardineiro", a Associação Nacional de Farmácias, a Ordem dos Médicos e o Governo entraram em guerra, por causa dos genéricos.
A Ordem dos Médicos afirma que a ANF se move por interesses económicos ( parece que domina a distribuição e tem um acordo com a Helath Care que produz genéricos), o Governo- em minha opinião bem- diz que não comparticipa genéricos que não tenham sido prescritos pelo médico, a ANF acusa o governo e exige a mudança da lei e António Arnaut, o "pai" do Serviço Nacional de Saúde, vem defender que a decisão deve ser do doente.
No meio desta guerra, quem se trama é o doente, mas isso não interessa nada aos guerrilheiros.
A propósito: lembram-se da campanha a favor dos genéricos promovida pelo governo? Que terá mudado desde então?

Noivado

Um dia destes, numa troca de comentários, lembrei-me deste conto do Mário Henrique Leiria, dito pelo Mário Viegas, numa noite memorável em Macau. Decidi trazê-lo para aqui:
Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias deternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes. É o que faz a miopia.
( Contos do Gin Tónico)

terça-feira, 7 de abril de 2009

Ó p'ra mim tão contentinho!

É sempre muito agradável receber distinções de outros blogs. Este, oferecido pela Vera, tem como aliciante extra o facto de ser destinado a jovens. Aceito-o com muito agrado e recuso-me a reparti-lo com a Martinha, que ainda está muito verde nestas andanças.
Mandam as regras que o reenvie a 10 outros bloggers. Como é habitual, vou quebrar as regras e oferecê-lo a todos que se sintam com espírito jovem e merecedores de o receber. Eu sei que são todos os que me visitam, portanto, podem servir-se. Mas avisem, faz favor!
Obrigado, Vera!

O Fiel Jardineiro

Lembram-se de “O Fiel Jardineiro”, o livro de John Le Carré que Fernado Meirelles transportou para a tela com inegável êxito?
Os que viram o filme ou leram o livro lembrar-se-ão que a história girava em volta de experiências feitas pelas empresas farmacêuticas em África, utilizando cobaias humanas. Recordarão a luta encetada por Justin para descobrir as causas da morte da mulher (Tessa) e de Arnold- o médico que com ela investigava a actuação escabrosa dos laboratórios.
Embrulhado numa comovente história de amor onde não faltam julgamentos populares de infidelidade, “O Fiel Jardineiro” é baseado numa história real e relata os perigos a que está sujeito quem luta pela procura da verdade.
Treze anos depois, a história conheceu finalmente o seu epílogo. A Pfizer foi condenada a pagar 55 milhões de euros pela morte de 11 crianças na Nigéria, utilizadas como cobaias para testar um medicamento. Por vezes, o final dos romances coincide com a vida real. E quando isso acontece, é (quase) sempre reconfortante.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Pronúncia do Norte (13)

CRUZETA= = CABIDE

Não consigo perceber a razão de se chamar a isto um cabide! Alguém me explica o que isto tem a ver com o Bridge? Nesse jogo é que se apanham cabides, meus amigos mouros, sulistas e elitistas. Este objecto que vêem na imagem é uma CRUZETA e serve para pendurar a roupa.

Um cabide será, quando muito, isto



a que vocês chamam, pomposamente, bengaleiro de pé. Como se houvesse bengaleiros sentados! Gente complicada...

A Aliança das Civilizações

Decorre hoje e amanhã, em Istambul, o Encontro da Aliança das Civilizações (AC), uma proposta avançada pela Espanha e Turquia , que congrega já uma centena de países.
A Aliança das Civilizações mereceu desde logo uma especial atenção por parte da ONU que assumiu a proposta apresentada em 2005 por Zapatero, e nomeou Jorge Sampaio como seu Alto Comissário. A institucionalização da iniciativa permitiu alargar a todos os povos e culturas, uma iniciativa inicialmente centrada na aproximação entre o mundo ocidental e muçulmano. Por outro lado, foi sentida a necessidade de alargar à sociedade civil este debate , inicialmente limitado às relações entre estados, permitindo a entrada de algumas instituições e organizações não governamentais, nesta plataforma de diálogo.
A Aliança das Civilizações pode ser a pedra angular no fortalecimento da vertente humanista de uma sociedade global, até agora dominada pelas questões económicas e financeiras. Convém, no entanto, lembrar que neste diálogo intercultural existem questões de grande sensibilidade (como os direitos humanos, a liberdade política, os modos de distribuição da riqueza e a igualdade de direitos entre homens e mulheres), sendo necessária uma abertura e compreensão por parte do mundo ocidental, que não pode querer apenas impor o seu modelo sócio-cultural.
Tomando como exemplo a igualdade de direitos entre homens e mulheres, facilmente se compreende o conflito de interesses entre uma sociedade onde os direitos de género tendem a convergir para a igualdade e outra onde a mulher ( e o indivíduo em geral) se deve submeter aos princípios gerais determinados pela comunidade. Como ultrapassar esta questão sem “ferir” a sensibilidade muçulmana, nem abdicar dos princípios das sociedades ocidentais?
Não será um problema que se resolva de forma política. Só o intercâmbio cultural pode ajudar a criar novas consciências e novos modelos comportamentais, conducentes a uma mudança de mentalidades, fruto de uma interpenetração de valores que se mesclam harmoniosamente. Haverá certamente quem encare com cepticismo esta possibilidade, mas lembro o caso de Marrocos, onde os direitos das mulheres- e dos cidadãos em geral- têm evoluído de forma significativa, desde o momento em que aquele país se abriu à Europa, estabelecendo pontes para o diálogo.
A criação de um diálogo intercultural irá também permitir ao mundo ocidental compreender e aceitar certos padrões culturais de outras sociedades- incluindo a muçulmana- que ajudem a alterar certos comportamentos que a sociedade da hiperescolha enraizou. Aliás, alguns desses comportamentos são criticados no seio das sociedades ocidentais, mas o modelo de desenvolvimento que adoptámos não permite consciencializar a necessidade de os debater e encontrar fórmulas correctivas.
Dirão alguns que terão de passar muitas gerações até se verem resultados. Creio, porém, que há dois factores que permitem algum optimismo. Por um lado, a crise económica e financeira veio revelar que estamos também perante uma crise de valores e que sem uma alteração profunda nos estilos de vida e nos modelos organizativos, não será possível combater a crise. Por outro lado, a visita de Obama à Europa está a abrir portas para um diálogo de esperança que era impensável há um ano. E quem diria, há meia dúzia de anos, que em 2009 o presidente americano seria um afro-americano e seria ele o grande impulsionador de um conjunto de ideias para melhorar o mundo? ( Ler mais aqui)

domingo, 5 de abril de 2009

De novo o caso Maddie


O pai de Maddie está na Praia da Luz. Veio fazer o que recusara à PJ: a reconstituição do desaparecimento de Maddie. Curioso é que trouxe consigo um canal de televisão inglês. Curioso, é que se aproxima o dia do segundo aniversário do desaparecimento de Maddie e que o fundo na altura criado para apoiar as buscas de Maddie estava a ficar… sem fundos. Curioso que a reconstituição se faça com grande aparato mediático e depois de o caso ter sido arquivado.
Antes da chegada de Gerry Mc Cann, a população da Aldeia da Luz vandalizou os cartazes da nova campanha lançada pelos Mc Cann e, em alguns locais, apareceram outros a pedir ao pai de Maddie que se vá embora.
Na Praia da Luz, começa a perceber-se aquilo que muitos portugueses se recusam a aceitar. Especulações à parte, não deixa de ser intrigante a “oportunidade” desta reconstituição, feita sem a presença das autoridades portuguesas.
Mais uma vez, os ingleses zombam de nós. Na nossa cara. Em nossa casa.
Entretanto, no aldeamento onde os Mc Cann estavam hospedados, sucedem-se os despedimentos. Dos 160 trabalhadores existentes em 2007, restam 48 e mais 21 acabam de ser informados que vão ser despedidos, porque o aldeamento perdeu a quase totalidade dos seus clientes, desde o desaparecimento da criança.
Ao contrário, o fundo recebeu um importante reforço, resultante das indemnizações pagas pela imprensa inglesa a alguns amigos dos Mc Cann que, por acaso, são os que não estão presentes na extensa comitiva vinda de Inglaterra para proceder à reconstituição para inglês ver.
Qual será o canal de televisão português que irá abrir os cordões à bolsa para transmitir a cena em Portugal?
Aqui, aqui , e ainda aqui, o que escrevi na altura sobre o caso Maddie.

sábado, 4 de abril de 2009

Elle était si jolie...

quand le vent l’emmenait
Elle fuyait ravie
Et le vent me disait…"

Estas palavras pertencem a uma canção de Alain Barrière ( o mesmo que cantava "Ma Vie") concorrente a um Festival da Eurovisão nos anos 60. Lembro-me de cantar esta estrofe sempre que eu, ou um dos meus amigos, tinha de pagar qualquer coisa com uma nota, assim se separando dela.
A que propósito vem esta parvoíce? – perguntarão vocês.
Pois informo que fui mais uma vez multado ( para não dizer assaltado, extorquido, ou outro sinónimo menos próprio...) pela PresidentA, como podem ver na caixa de comentários do post anterior. Sempre que vai de férias, é isto, cá o "je" é que paga os luxos.
Desta vez decidi não recorrer, porque a cobradora de impostos ainda é pior que a PresidentA Optei por um protesto à Gandhi e vou pagar através desta mensageira.
Ao câmbio do dia, 200 € equivalem a 267 dólares, pelo que a piquena irá tocar à campainha 267 vezes e, de cada uma, a PresidentA terá que desembrulhar a mensageira, deixá-la partir, esperar que ela se volte a vestir para fazer nova entrega.
Espero que se divirta durante o fim de semana e, como sou bom cidadão, deixo-lhe aqui o link para ir ouvindo a canção enquanto o pagamento não for efectuado na totalidade. Com sorte, até é capaz de fixar a letra …




Esclarecimento: não venha dizer que não quer receber em dólares, caso contrário mando-a ler o comunicado do G-20 e fica a perceber o que lhe acontece. Agora, durante seis meses, não faço comentários lá no Ares. Amuei, prontos!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Revelado segredo do Pipi

Foi um dos segredos mais bem guardados da blogosfera. Chamava-se "O Meu Pipi" tinha uma linguagem muito ordinareca e chegou a livro. Durante anos, especulou-se sobre o nome do autor. Hoje, graças à "Time Out" ficou a saber-se que afinal era uma autora. Quem diria, hem?
Quando soube a identidade da autora, lembrei-me imediatamente deste post que escrevi aqui no CR. (Leitura recomendada a quem não leu).

Olha quem fala!

Esta senhora não tem espelho em casa, ou tem um problema de memória?

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Dicionário do Rochedo (48)

Isaltinar- Confesso que desconhecia esta palavra , mas entre ontem e hoje já a vi escrita umas 10 vezes, a primeira das quais na coluna do Ferreira Fernandes no DN de ontem. Pelo que percebi, "Isaltinar" significa agir de acordo com as normas de conduta de Isaltino de Morais, presidente da câmara de Oeiras, actualmente a ser julgado em Sintra por razões que agora não interessam nada, porque isto é apenas um dicionário.
Assim sendo, "Isaltinar" significa armar-se em tanso, tentando justificar os erros cometidos, com a alegação de que outros também o faziam.Transportando o verbo para o âmbito escolar, Isaltinar significa que um aluno que aponte uma arma a um professor, pode alegar que o fez porque viu no You Tube outros meninos a fazer o mesmo.
Estava tentado a dizer que somos um país de Isaltinos, mas depois lembrei-me que no Norte a palavra pode ter outro significado. Em Pronúncia do Norte deve dizer-se Felgueirar?
Se alguém tiver resposta, agradeço. Entretanto, por arrastamento, cheguei à palavra “ALEITAR”, mas sobre o seu significado escreverei num dos próximos dias.
SEM PRESSÕES, ouviram? Caso contrário queixo-me ao PR.

Que grande galo!

Cliquem na imagem para ver melhor

quarta-feira, 1 de abril de 2009

No Vaticano ao som do Tango

Olá!
Hoje vou falar-vos da ida ao Vaticano. Não é que o Papa me diga alguma coisa, mas ouvi dizer que ir a Roma e não ver o Papa é como ir ao Estádio da Luz e não ver o Benfica marcar um golo. Claro que convencer o Carlos a ir comigo, foi mais difícil do que levá-lo ao Estádio da Luz,, mas lá consegui e em boa hora para ele. Inicialmente portou-se um bocadinho mal, porque assim que lá chegámos sacou de um preservativo e enfiou-o no nariz , mas depois lá o convenci a tirar aquilo e por lá ficámos durante a manhã toda , na paz do Senhor como vocês dizem por cá.
Quando chegámos à Capela Sistina ia tão escalavrada, que me sentei no chão durante meia hora a observar aquela beleza toda.
O melhor do dia foi a hora do almoço. Sentámo-nos numa esplanada da Plaza dos Catalanes ( mesmo junto ao Vaticano) para recuperar forças, antes de voltarmos a pé até ao Castelo de S. Ângelo. Sucediam-se os músicos que tocavam uma música, pediam esmola e seguiam à sua vida, porque a hora do almoço é curta e precisam de a aproveitar bem.
Estávamos já a acabar de comer as nossas pastas, quando chega um tipo a tocar acordeão ( o Carlos explicou-me que aquilo era um bandoleon(?), mas creio que é a mesma coisa…). A diferença, é que este músico tocava tangos e vinha acompanhado de um casal que dançava. Os olhos do Carlos começaram a brilhar com tanta intensidade que se fosse noite, tenho a certeza que iluminavam a Praça de S. Pedro! Deve ter sido por isso que os dançarinos ( o Carlos chama-lhes tangueros) nos vieram buscar para dançar. Eu nunca tinha dançado tango e o Carlos a dançar é um bocado desajeitado, coitadinho, por isso resistimos muito. Mas não tivemos outro remédio senão ir. Quando acabou a dança eu estava outra vez cansadíssima, mas o Carlos parecia que tinha acabado de tomar dois Red Bull! Só queria que o vissem… parecia mais novo do que eu e foi nessa altura que percebi, verdadeiramente, o que significa a Argentina para ele.
Quando retomámos o caminho para o castelo ele estava a contar-me que, antes de partirmos, uma vizinha ( descobri depois que era vizinha da blogosfera e não da casa dele) lhe tinha enviado um vídeo com umas cenas de tango ( já vi e amei tudinho), mas nessa altura vi o Papa. Em carne e osso, a dois metros de distância. Estava disfarçado, mas tenho a certeza que era ele. O Carlos diz que eu sou maluca, mas vejam lá a fotografia, a ver se não tenho razão.
Pronto, está bem, esta fotografia foi-me enviada por e-mail e a outra fanei-a na Internet, mas lá que são parecidos são, não acham?
Adeus e até amanhã
Martinha

Who cares?

Li, algures, umas previsões que apontam para a possibilidade de Portugal falir em 2014.
Estou-me nas tintas! Não pelo facto de nessa altura certamente já não viver em Portugal , mas porque na realidade Portugal já faliu há muito e ninguém parece ter dado por isso.
Começou a falir em termos políticos, quando deixou de ter líderes credíveis, faliu definitivamente quando Durão Barroso, depois de prometer salvar o país se pirou para um cargo dourado em Bruxelas, deixando os nossos destinos entregues a Santana Lopes.
Portugal faliu porque falhou nas políticas sociais, na política de saúde e nas questões laborais, varrendo para debaixo da mesa, com desprezível ironia, as conquistas de Abril.
Portugal faliu quando os portugueses se convenceram que viviam num país rico, porque todos lhes esconderam o reverso da medalha do endividamento excessivo.
Portugal faliu quando os portugueses começaram a desconfiar da viabilidade do país, deixaram de acreditar na justiça e nos governos, começaram a torcer o nariz a uma emergente partidocracia e se alhearam do seu dever de cidadania.
Portugal faliu quando perdeu a memória do seu passado histórico e se convenceu que o futuro estava assegurado com o desenvolvimento das novas tecnologias de pataco, tão efémeras quão volúveis.
Portugal faliu quando a luta pelo poder se transformou num espectáculo escatológico de vaidades, mentiras e jogos subterrâneos onde não faltam as rasteiras maldosas.
Portugal faliu quando decidiu seguir o lema da sociedade de consumo onde vale mais parecê-lo do que sê-lo.
Portugal faliu quando um conjunto de valores inalienáveis em qualquer sociedade foram espezinhados e arrivistas incompetentes, com cartão militante, tomaram conta dos seus destinos, usando os cargos como tráfico de influência e exaltação do poder, ou com a subserviência própria dos fracos e inúteis.
Portugal faliu porque escarneceu da democracia e reduziu os princípios democráticos ao acto eleitoral.
Portugal faliu, porque se deixou arrastar na onda de individualismo da sociedade ocidental do “Eu, Ldª”, onde cada um impõe a sua vontade, a solidariedade é palavra vã e o lema é o “salve-se quem puder”.
Por isso me estou nas tintas se, em 2014, uma qualquer comissão liquidatária vier encerrar o país para balanço e lançar uma OPV, na expectativa de algum país emergente comprar isto para transformar em retiro balnear de ricaços famosos.
A verdade, porém, é que não é apenas Portugal que está em risco de falência. Toda a Europa e grande parte do mundo ocidental entraram há mais de uma década em declínio, quando se deixaram inebriar pelos valores do neo-liberalismo, onde campeia o capitalismo selvagem, sem rosto, sem regras e sem humanismo.
A Europa começou a cavar a sua própria sepultura no início dos anos 90, na Cimeira da Terrra, no Rio de Janeiro, quando cedeu aos interesses dos EUA que se opunham a qualquer medida de preservação ambiental e defendiam o primado da economia sobre o ambiente. A Europa- e por arrasto Portugal- é uma cena de filme de ficção. Já não tem existência própria, já não tem o peso de outrora, mas ainda não percebeu. Não tarda , porém, que alguém a venha despertar para a realidade, de forma mais ou menos violenta.

Home, sweet home!

Acabado de chegar a casa, depois de fazer a entrega da Martinha à mãe, apenas um post para descomprimir.
É preciso um indivíduo não estar no seu pleno juízo para prolongar por uma semana, uma estadia em Roma que se resolvia em dois dias de trabalho. Além de já conhecer bem Roma, prefiro cidades como Florença e Veneza. De qualquer modo, regresso com uma sensação reconfortante. Para além de ter saldado uma dívida com a Martinha, o prolongamento da estadia permitiu-me perceber melhor que, no seio da Europa dos ricos, há um país bem pior do que Portugal e onde detestaria viver. Comparado com Berlusconni, Sócrates é um “gentleman” e é sempre bom estar lá fora e poder dizer “temos um governo melhor do que o vosso e, principalmente, um PM que se comporta como um cavalheiro quando comparado com o que vocês escolheram para vos governar”.Durante a viagem de Roma para Lisboa, vim embrenhado nas leituras dos jornais, enquanto a Martinha se punha a par das novidades do seu mundo idílico de príncipes e princesas e me pedia opinião sobre algumas coisas que pretende escrever aqui no CR. Não gostei do que li (sobre isso talvez escreva com mais pormenor no Delito de Opinião), mas regresso com a sensação de que - apesar de todos os queixumes – Portugal é um país melhor para viver.
Amanhã regresso ao trabalho em força, mas antes ainda vou fazer uma visita pelo blogobairro.