domingo, 8 de março de 2009

Carta à mulher portuguesa


Mulher que estás cansada de te dirigir penosamente ao emprego teu de cada dia e regressar a casa, ao fim da tarde, transportando fardos de desespero e frustração e, no banco de trás do Fiat Uno, ou pela mão, os frutos de noites de amor.
Mulher que estás cansada dos intervalos rotineiros em que te alinhas , como falcão batendo as asas, em balcões que compartilhas com cegonhas de fato de macaco e enforcados vestidos a rigor, debicando bicas, engolindo projectos frustrados de galináceos, ou sonhando com o camarão que devia estar dentro do rissol, mas que a carestia da vida transformou numa pasta espessa e cor de rosa.
Mulher que estás cansada das noites em que o teu marido sobe os lençóis pingando noite, depois de o elevador o depositar à porta de casa, junto aos sapatos da véspera.
Mulher que estás cansada de fazer amor sem ouvir o estralejar dos foguetes , porque já não há noites de S. João no teu coração.
Mulher que uma noite acordaste e sentiste ao teu lado alguém que procurava os teus seios e as tuas coxas na tentativa de decifrar o enigma que uma noite de fuga depositara a seu lado.
Mulher que uma manhã descobriste que o teu corpo cheirava a desespero e sentiste saudade de chorar abraçada ao homem que ama(va)s.
Mulher que te cansaste de fazer amor com amigos de Alex que fazem amor por empreitada, vício ou necessidade orgânica, esse amor que se esfuma em cinco minutos de prazer e se esquece na própria véspera do orgasmo.
HOJE É O TEU DIA!
Estranha gentileza te concederam, Mulher! Marcaram-te com o estigma da subalternidade, com que é costume assinalar os desprotegidos. Compararam-te ao analfabeto, ao deficiente, ao Lince da Malcata, ou outra qualquer espécie em vias de extinção.Mas Tu estás bem viva, Mulher!

Por isso te desejo que este dia sirva para um pouco mais do que receber uma rosa , ou um jantar a dois à luz da vela. Que sirva também para pensares nas mulheres que pelo mundo inteiro continuam a ser vítimas de sevícias, por parte dos homens. Que te lembres das mulheres de Darfur, das mulheres sem quaisquer direitos, das africanas que morrem com SIDA, das asiáticas a quem a maternidade só é permitida uma vez na vida, das americanas, europeias e portuguesas que continuam a ser espancadas até à morte por homens civilizados que vivem nos países que traçam o destino do mundo.
Mulher portuguesa que sofreste no momento em que pariste e, pouco a pouco,foste perdendo o riso – e muitas vezes o ciso.
Hoje, no dia que a gentileza dos homens te consagrou, talvez recordes as noites em que suportaste entre lágrimas contidas em silêncio, as ejaculações precoces de quem te envolvia o corpo, pensando na amante por quem estava prestes a trocar-te.
Hoje, talvez critiques a moral sexual deste país onde habitas, por ser um caldo Knorr cheio de mitos.
Hoje, talvez te revoltes contra aqueles que continuam a rejeitar uma mulher que queira usufruir o prazer sexual. Mas será que hoje te interrogarás sobre a diferença entre ti e mim? Compreenderás que o que nos separa é apenas uma diferença genética cimentada por uma cultura que te deu a ti as Barbies e os trens de cozinha, e a mim o automóvel e a bola de futebol?Admitirás, mulher, que embora a igualdade seja apenas uma folha de papel, o que nos separa é o tempo que se esvaiu entre a pintura de murais e um despacho de última hora que te deixou retida no gabinete até mais tarde?
Tenho saudades de ti, mulher portuguesa!
Tenho saudades de pintar contigo murais expressivos, cheirando a Revolução, por onde espreitavam Marxes e Guevaras, que nos olhavam em cada esquina.
Tenho saudades de verter no teu ombro lágrimas de desespero e sentir o afago doce e quente dos teus lábios, consolando-me da revolta que me invade pela vitória de projectos de mentira.
Tenho saudades de te enlaçar nos meus braços e ambos ouvirmos o repicar de sinos e o estralejar de foguetes.
Tenho saudades dos sábados à tarde em que íamos ao cinema de mão dada e trocávamos promessas de amor eterno.
Tenho saudades de desfilar contigo em caravanas de vitória, empunhando bandeiras coloridas.
Tenho saudades de sermos Bonnies e Clydes fugindo, de mão dada, da polícia de choque.
Tenho saudades de te ver verter uma lágrima , ao leres o último poema que te fiz.
Tenho saudades de ver estampado no teu rosto um laivozinho de amargura, quando te dizia “vou partir” e depois regressar , trazendo-te uma caixa de bombons comprada numa qualquer freeshop ancorada no aeroporto da minha imaginação.
Sinto que te estou a perder, mulher portuguesa, como perdi a esperança que em mim nasceu numa manhã de um já longínquo Abril.
Por isso, hoje quis telefonar-te mas, quando cheguei à cabine telefónica, estava lá uma velha gorda e farfalhuda, com ar de elefante triste do jardim Zoológico e… desisti. Sabes o que eu queria?Desejar-te um feliz dia da Mulher e ouvir-te responder:
"Raios partam os homens que convenceram outros homens que era bom haver um Dia da Mulher! Serve para aliviarem as consciências, para aumentar o consumo de flores e animar alguns restaurantes, mas queria que servisse para os homens acabarem com o tratamento aviltante das mulheres sem quaisquer direitos. Não quero hipocrisias, nem homens como tu, a quem o machismo não permite ter outro tipo de saudade."
Encabulado, desligaria…



38 comentários:

  1. Muitas mulheres não conseguiriam escrever este post, Carlos.
    Muitos parabéns e obrigada por estar aí!

    ResponderEliminar
  2. São tantos os caminhos do teu texto! São tantas as queixas e as culpas e as injustiças!
    Hoje, infelizmente, continua a fazer sentido lembrar aquelas costureiras de Nova York que, no séc.XIX, lutaram com garra e desassombro por condições de trabalho mais justas e menos discriminatórias, por diminuição de horas de trabalho que lhes permitisse ter tempo para elas.
    Hoje, um século e meio passado, infelizmente continua a fazer sentido!
    (...e penso que não desligarias:)))

    ResponderEliminar
  3. Há gritos que não são femininos nem masculinos. São apenas uníssonos. Acho que foi o que aconteceu aqui.
    Bem haja!

    ResponderEliminar
  4. Patti: Obrigado pelas suas palavras. Acredito que haja muitas mulheres que pensem assim, mas não têm coragem de o dizer.
    Eu é que agradeço a sua visita e o seu comentário.

    ResponderEliminar
  5. Justine: Enquanto se ouvirem na nossa comunicação social textos como aquele de que falo hoje no Delito de Opinião, continuará (infelizmente..) a fazer sentido.

    ResponderEliminar
  6. Si:Também acho, mas são muito oportunas as ressalvas da Patti e da Justine

    ResponderEliminar
  7. Ler o CR e o Delito de Opinião, entre outros, poucos, blogues que não dispenso, tem sido a única actividade alternativa às de um trabalho insano a que tenho tido que dar atenção. Ler correndo e sem comentários que a cabeça não aguenta mais. Mas hoje quero agradecer tudo o que tem escrito tão bem e o gosto que me tem dado ao ler. Obrigada

    ResponderEliminar
  8. Cristal: Muito obrigado pelas suas palavras e distinção.
    Como já escrevi no seu cantinho, espero que em breve nos possa voltar a brindar com a regularidade dos seus posts.

    ResponderEliminar
  9. Parabéns! Belo texto!Cheio de verdades!

    um Beijinho

    ResponderEliminar
  10. E sei que esta carta,rica de sensibilidade, é sentida, e que a escreve todos os dias, e não hoje só. Obrigada por isso!
    Beijinho, Carlos

    ResponderEliminar
  11. Acho que eu diria isso, não é? :)

    Mas adoraria a caixa de bombons! :))

    ResponderEliminar
  12. Carlos,

    adorei o post! grata p'las palavras! parabéns.

    ainda hibernante, passei para desejar que tenha um resto de dia (que 'dizem' ser da Mulher!) muito Feliz! seguido de muitos outros não menos fantásticos!

    deixo um abraço, o sorriso de sempre e saudades!
    mariam

    ResponderEliminar
  13. Carlos
    Um texto incrivel, com a força de todas as mulheres, portuguesas ou não, que vem descobrindo seus verdadeiros caminhas nas últimas décadas... E quantas delas não terão saudades de si mesmas?...
    Obrigada por isso.

    ResponderEliminar
  14. Cá vai então:"Raios partam os homens que convenceram outros homens que era bom haver um Dia da Mulher!(...)" hehehe. Este seu texto está fantástico e "bebi" cada palavra dele, até ao fim. Obrigada! Uma boa semana.

    ResponderEliminar
  15. Que texto fabuloso!
    Adorei, arrepiou-me, sorri.
    De muito boa qualidade e cheio de sensibilidade e bom senso
    :-)
    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  16. Sandra: Obrigado pla visita e pelo comentário. Espero vê-la por aqui mais vezes.

    ResponderEliminar
  17. Cristina: Eu é que agradeço a sua constante simpatia.

    ResponderEliminar
  18. Senhora: de certeza que alguém hoje lhe ofereceu alguma, não é verdade?

    ResponderEliminar
  19. mariam: já tinha notado a sua ausência! espero que em breve volte a ter mais tempo para a blogagem.
    Beijinho

    ResponderEliminar
  20. Dulce:Creio que tem razão... muitas mulheres terão saudades delas.

    ResponderEliminar
  21. Girafa: Foi bom voltar a vê-la por cá. Obrigado.

    ResponderEliminar
  22. Obrigada pelos momentos de intenso prazer que me proporcionou!
    Belo texto e quanta sensibilidade!
    Tenha uma boa semana!
    Alcinda

    ResponderEliminar
  23. Alcinda: Obrigado pela sua visita e comentário. Espero vê-la pr cá mais vezes.

    ResponderEliminar
  24. Excelente série de textos dedicados à Mulher (lidos assim de enfiada)!

    ResponderEliminar
  25. Ontem depois de ler isto fiquei sem saber o que dizer. Hoje lembrei-me que quando menos podia deixar cá um sorriso para si, Carlos.

    ResponderEliminar
  26. CBO, este post é mais do que uma homenagem às Mulheres. É um verdadeiro relato da vida das Mulheres. Obrigada por o ter escrito. Obrigada por sentir cada uma das palavras que aqui deixa para cada uma de nós que as lê.

    ResponderEliminar
  27. Porra, Carlos: este texto é um GRITO!! Arrepiante! De revolta, de sensibilidade, de veradade...Nem preciso dizer mais nada!
    Obrigado per ele!

    ResponderEliminar
  28. Excelente homenagem as mulheres. Muito oobrigada !
    Beijinho.

    ResponderEliminar
  29. Devaneante: conseguiu ler de enfiada? espero que não tenha apanhado uma overdose ( rsrsrs)

    ResponderEliminar
  30. Sun Iou Miou: Obrigado! poso retribuir, pela sua generosidade?

    ResponderEliminar
  31. Vekiki: Eu é que agradeço a simpatia das suas palavras

    ResponderEliminar
  32. Lúcia:Saiu de cá de dentro, sim.´Foi um daqueles gritos de alma que costumo dar no CR

    ResponderEliminar
  33. Miepeee: Obrigado eu, por continuar a ser visita asídua deste Rochedo.

    ResponderEliminar
  34. Não, não tenho problemas com essas overdoses... Não sou daqueles que se sente intimidado pelo tamanho dos textos, pelo contrário, é nos textos mais longos que normalmente (mas nem sempre) se encontra o maior interesse. (E eu no meu Cantinho dos Devaneios também coloco textos longos, ainda por cima quase sempre servidos em várias partes...)

    ResponderEliminar
  35. Obrigada Carlos,por todas nós muheres!
    Só um homem sensível pode escrever um texto assim.Acho que muitas mulheres não saberiam descrever tão bem o que sentem como o Carlos o fez, apenas porque não têem o dom que tem, para traduzirem o que sentem em palavras.
    Um beijo carinhoso.

    ResponderEliminar
  36. Meu amigo:
    Só hoje tive conhecimento desta sua belíssima, estou sem palavras.
    Apenas OBRIGADA!

    beijinhos de uma MULHER que o admira

    ResponderEliminar