quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Não queira ser MILIONÁRIO!


Como vos dizia ontem, ver “Slumdog Millionaire” foi apanhar um murro no estômago.Não apenas pelas emoções que o filme desperta, mas principalmente porque me senti a vivê-lo por dentro, num cenário que me é muito familiar.
Logo nas primeiras imagens, quando a câmara sobrevoa aquela imensidão de bairros de lata, vi-me num avião, há mais de 20 anos, a descer sobre o aeroporto de Bombaim, ao alvorecer. Depois, a cada cena sentia o mesmo incómodo da primeira vez que lá fui. Não pude evitar as lágrimas, durante o filme, como não as controlo cada vez que tenho de ir a Bombaim. Estive lá mais vezes do que desejaria ter estado. As vezes suficientes para saber que quando Jamal não hesita em mergulhar na fossa cheia de merda , para conseguir o autógrafo do seu ídolo... Danny Boyle não está a fazer ficção.
Já vos expliquei aqui a minha relação com a Índia e com Bombaim ( Mumbai). Percebem , por isso, (quem não leu, aconselho que o faça) a angústia que se apoderou de mim ao longo do filme, muito para além do enredo. Tudo aquilo é real, é o dia a dia de uma cidade de horrores que cresce sobre os seus destroços, atirando milhões de desalojados dos bairros de lata para “valas comuns” que ladeiam a estrada entre Mumbai e o aeroporto, numa luta constante pela sobrevivência.
Quando escolheu Mumbai para cenário do filme, Danny Boyle sabia o que estava a fazer. Ao desviar-nos a atenção para uma cidade ( e um país) cujas misérias são sobejamente conhecidas, procura impressionar, mas aliviar-nos a consciência. Com o cenário de Bombaim por detrás, podemos fingir que aquilo não é nada connosco.
No entanto ele sabe, como eu e muitos de vocês, que muito do que nos mostra, poderia ter sido filmado em bairros periféricos de grandes cidades europeias. Lisboa incluída.
Sim, em Lisboa também há crianças propositadamente mutiladas, para serem exploradas como pedintes; há um mercado de escravos, quase no centro da cidade, onde todas as madrugadas,a mão de obra é comprada ao desbarato e com direito a comissões aos angariadores, pagas pelo contratado; há jovens vítimas de exploração sexual, inseridas(os) em redes criminosas; há redes de crime organizado, que aliciam jovens para a prática de assaltos e outros actos violentos; há jovens a lutar pela sobrevivência, que não têm alternativa e estão dispostos a tudo. Quem não souber que tudo isto existe às portas de nossas casas é um MILIONÁRIO... vive no mundo da ficção.
“Slumdog Millionaire” não é um filme sobre a Índia. É um filme estupidamente real sobre este modelo de sociedade injusta, que nos mostra de forma cruel e violenta , uma realidade que varremos constantemente para debaixo do tapete. Uma sociedade onde tudo é possível. Até ganhar um concurso de cultura geral, apenas com os conhecimentos adquiridos na escola da vida! A ficção também lá está…nos últimos 20 minutos melosos, onde se cumpre o conto de Fadas, à moda de Bollywood. Com um travo de music-hall americano...

14 comentários:

  1. Foi exactamente assim que "vi" o filme, que já recomendei e recomendo.

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  2. Não vi o filme e não sei se irei ver.
    Para levar esses murros no estômago, basta, como diz e muito bem, olhar à nossa volta, com olhos de ver, para a realidade de todos os dias.
    Apesar de muito crú, este post põe o dedo na ferida.

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  3. Também me custaria muito apanhar mais murros no estômago. Aflitivo, como aflitivo é saber que tragédias assim são de todos os dias.

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  4. "Sim, em Lisboa também há crianças propositadamente mutiladas, para serem exploradas como pedintes; há um mercado de escravos, quase no centro da cidade, onde todas as madrugadas,a mão de obra é comprada ao desbarato e com direito a comissões aos angariadores, pagas pelo contratado; há jovens vítimas de exploração sexual, inseridas(os) em redes criminosas; há redes de crime organizado, que aliciam jovens para a prática de assaltos e outros actos violentos; há jovens a lutar pela sobrevivência, que não têm alternativa e estão dispostos a tudo. Quem não souber que tudo isto existe às portas de nossas casas é um MILIONÁRIO... vive no mundo da ficção."

    Serão as nossas autoridades MILIONÁRIAS?


    Quanto ao filme é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos somando o binómio real/ficção. E até o Bollywood não ficou mal no filme.

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  5. Aqui está a razão pela qual disse que não vi ainda o filme e estou à espera que venha para vídeo.
    Um dia, quem sabe, eu me proponha levar outra vez o murro que levei quando lá estive.
    Ainda sinto o cheiro e oiço o barulho das ruas.
    Veludinhos

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  6. Que estes murros no estômago sirvam para acordar de alguma letargia que anda para ai. A nossa classe média está a ir ao fundo. Mas os tiques permanecem. Aquilo existe, é real, e sim, é connosco!!

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  7. O murro é real e sente-se. Mas não é esse o sentimento final quando se deixa a sala... Aposto que quando as luzes acenderem, nas caras está um sorriso.

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  8. Conheço perfeitamente, a quente e a frio, a realidade de que o Carlos fala aqui, apesar de (ainda) não ter visto o filme.

    Digo, imensas vezes, que Lisboa cada vez mais se assemelha a uma "Little Bombay (ou) Mumbai".

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  9. eu tive o filme às voltas toda a noite na minha cabeça, e sou daquelas que dorme que nem uma pedra e só, mas só sonha coisas boas e estrambólicas.
    não me acrescentou nada sobre a indía que eu já não soubesse - pelos outros ok, mas mexeu comigo em todas as formas por si descritas... creio que desde Crash que não gostava tanto de um filme (excepto de "Paris")

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  10. Carlos, deve custar ver estes filmes que mostram o que teimamos não querer ver, mas também por isso devem ser valorizados.com ver em breve.
    obrigado pela frieza do post, há mais vida paar além das campanhas negras e cabalas, mas parece que não têm lobbies nas TV's...

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  11. É impressionante a força que imprimiu a este seu «post», Carlos. Além de me dar conta de uma série de fenómenos que desconhecia que acontecessem em Lisboa, pelo menos com essa crueza. Não sou milionária, mas talvez viva, sim, num mundo de ficção. Não sei, depois de o ler, se não retirarei o filme do meu roteiro cinematográfico para esta temporada. Há uma enorme diferença entre saber e ver. E o não ver ainda é, para mim, o que mantém a angústia de saber em níveis suportáveis.

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  12. Faz parte dos meus planos visioná-lo assim que chegue à Madeira.

    :)

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  13. Todos gostamos de ouvir uma boa história, n resistimos a continuar a ouvi-la. Ali, não resistimos a continuar a ver, tal como - mergulhados em nós - n resistimos a continuar a a nossa vida no meio dos males do mundo.
    Vale.

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  14. Não vi ainda... :(

    Rosa dos Ventos

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