Cartaz da Top Models para a campanha anti-tabágicaEstavam sentados numa esplanada, quando
Matilde disse a
Frederico :
-
Gostava que fosses jantar a casa dos meus pais...Frederico reagiu com indiferença - e até algum desconforto- ao convite, deixando
Matilde perplexa.
-Queres evitar conhecer os meus pais?-Nada disso, Matilde, mas logo em casa deles?!...Já te esqueceste que sou um fumador compulsivo e que os teus pais não suportam o fumo? Imagina-me a puxar de um cigarro no final do jantar e ter logo que ouvir uma dissertação acerca dos malefícios do tabaco, dos desprotegidos fumadores passivos... Só de pensar nisso, perco logo o apetite!
Matilde empertigou-se, adoçou a voz e respondeu:
-
Os meus pais não são trogloditas e o meu pai até foi fumador, mas o médico pô-lo entre a espada e a parede e teve que abandonar o vício. Deves compreender que, conhecendo perfeitamente os malefícios do tabaco, queira convencer os fumadores a deixarem de o fazer. E olha que agora, dez anos depois de ter deixado de fumar, ele reconhece perfeitamente o bem que lhe fez. Tem outro ar, respira melhor, anda mais jovial...- Está bem, Matilde, mas o cigarro a mim acalma-me , ajuda-me a descontrair e a pensar melhor, que é que queres?
- Que não digas disparates, é o que eu quero! Qualquer principiante anti-tabagista te prova com a facilidade de multiplicar dois vezes dois que o tabaco torna as pessoas mais irascíveis, diminui a capacidade gustativa ...( Matilde não pôde evitar um olhar lascivo antes de terminar a frase) e diminui o apetite sexual!
- Balelas, é o que é – ripostou Frederico. O que mais me irrita é que se já não nos bastasse sermos escravos do vício, hoje em dia ainda somos mal amados, proscritos e apontados a dedo como um sub-produto da sociedade. Nos aviões proibem-nos de fumar,em algumas cidades queremos entrar num restaurante e deparamos com um cartaz anunciando
“ Proibida a entrada a cães e a fumadores” . Não achas que é demais?

O diálogo foi interrompido por um pedinte reclamando o favor de um cigarro.
Frederico estendeu-lhe de imediato o maço e ofereceu-lhe lume.Quando o mendigo se afastou,
Matilde perguntou:
- Porque lhe deste um cigarro?
- Francamente, Matilde! Um copo de água e um cigarro são coisas que não se recusam!
- E se ele te tivesse pedido uma esmola, que lhe tinhas respondido?
- Que não tinha troco, claro!
- Há pessoas que agem e pensam de forma curiosa!...- retorquiu Matilde num suspiro. Recusam uma esmola que pode ajudar a viver, mas prontamente satisfazem o pedido de um cigarro que ajuda a matar...
A custo, Frederico conteve a ira. Recompôs-se e atirou para cima da mesa um rei de trunfo:
- Por acaso sabes o que escreveu o Cantagalli?
- ....
- Que se os maços de cigarros trouxessem uma bula como os medicamentos, neles se poderia ler “contra o aborrecimento, o medo, o frio e o calor, contra a disciplina, a injustiça, a ira, a solidão e a timidez; bom para esquecer, festejar, pensar ou não pensar em nada; bom para afastar o próximo e para dele nos aproximarmos, fonte inspiradora e criativa”. Satisfeita?(Azar dele, Matilde tinha o ás...)
- Estaria mais, se ele tivesse acrescentado: mas a verdade é que “ Fumar pode matar”, ou “Prejudica Gravemente a Saúde”, ou ainda “Fumar provoca cancro”. Se tivesse escrito isso, talvez hoje fosse conhecido por ter incitado os Governos a obrigar que se escrevesse nos maços de tabaco a verdade sobre as suas nefastas consequências para a saúde.
- Não te passa pela cabeça que fumar possa dar prazer , pois não?
- Não acredito que as pessoas fumem por sacrifício, mas o que eu sei é que um fumador é uma espécie de alcoólico que se embriaga com copos de fumo e acaba por perder o respeito pelos outros. Fuma nos elevadores, ao balcão de uma pastelaria, ou durante a refeição num restaurante obrigando o vizinho do lado a suportar o seu fumo e a perder o apetite. O cigarro acaba por ser um agente de divisão social..
- Estás a esquecer-te do “cachimbo da paz” como forma de aproximação entre os povos?
- Não tem nada a ver... Hoje em dia, se puxares de um cigarro diante de um não fumador, não te admires se ele te disser “ Não lhe fiz mal nenhum, porque me está a apontar uma pistola de efeito retardado”?Frederico levantou-se disposto a terminar a conversa, mas ainda perguntou:
- É assim que me vês quando estou ao pé de ti e acendo um cigarro? Como um assassino? Então o melhor é mesmo ficarmos por aqui!...
Matilde pegou-lhe na mão, olhou-o com doçura e respondeu:
- Nada disso, meu tonto! Só estou a tentar chamar-te à razão e a pedir-te para reflectires um pouco. Ajuda-me a fazer umas contas. Fumas há 30 anos. Vamos supor que fumas apenas 10 cigarros por dia ( e tu bem sabes que fumas mais...). Sabes o que isso significa? Que já fumáste 100 950 cigarros. E quantas pessoas já obrigaste a engolir parte do teu fumo? E- o que mais me preocupa- como reagirás no dia em que o médico te der a escolher entre o tabaco e a vida?
- Nesse dia não me interrogarei só a mim. Questionarei também uma sociedade que me incutiu a ideia de que fumar era “chic” e só agora, depois de ter criado milhões de viciados, de ter permitido que a publicidade fizesse a associação entre tabaco e promoção social, ter aceitado a promoção do tabaco em provas desportivas, relacionado o seu consumo com o sucesso, me venha dizer que afinal fumar é “ choque”!
- Tens razão, mas não concordas que eu também tenho e neste momento as ideias que defendo estão na mó de cima? Vá lá, faz um esforço e tenta deixar de fumar. Faz isso por ti e...por mim! E vais jantar lá a casa?
- Sim, mas com uma condição. Como não posso fumar, não me vais obrigar a dizer que o jantar estava óptimo. Como o poderei fazer, sem fumar um cigarro no final?
Esclarecimento: A Matilde e o Frederico fizeram-me companhia nas páginas da revista "Tempo Livre" durante quase um ano. Estavam sempre a discutir, mas davam-se bem. Um dia mandei-os numa viagem até ao Brasil para ver se decidiam a casar-se e nunca mais soube deles. Acabam de dar notícias e prometem aparecer aqui de vez em quando com as suas tricas. Estão a candidatar-se ao "Prós e Contras"!