
O cinema foi a diversão favorita do século XX. Exibido inicialmente em barracões, salões de festas e teatros, o cinema respirou também ao ar livre, especialmente nos
“drive-in”, muito apreciados pelos jovens americanos a partir dos anos 50.
Em Portugal, são quase indeléveis as memórias do
“drive –in”. País recatado nos costumes, o
“drive-in” era encarado como antro de pecado, por isso o cinema sempre se viu em salas apropriadas para o efeito.
Em Lisboa, o
Salão Ideal abre as suas portas em 1904 e no Porto só três anos mais tarde (1907) surge a primeira sala de cinema: o
Pathé.As grandes salas de cinema que marcaram gerações (
S.Jorge, Tivoli, Império em Lisboa e Coliseu, Rivoli, ou S.João no Porto) só aparecem nos anos 30, com a exibição dos filmes sonoros. São salas imponentes onde vai gente de todas as classes sociais. No entanto, a segregação social é bem patente. Pela frequência, mas também pelas sessões destinadas a públicos estratificados. O sábado à noite, por exemplo, era o dia de a burguesia e a classe média alta se encontrarem e aproveitarem a oportunidade para exibir as suas
“toilettes” nos
“foyers”, durante os intervalos. As
“matinées” de domingo eram especialmente frequentadas por
“magalas e sopeiras” (como se dizia na época), único momento de lazer que lhes era permitido durante a semana.
Nos anos 70 aparecem as primeiras salas
“multiplex” e, na década seguinte, começam a proliferar os centros comerciais com salas de cinema acopladas. Começavam a surgir os primeiros sinais de crise na indústria cinematográfica, com a redução do tamanho das salas e o esvaziamento dos “monstros sagrados”. A televisão começara a fazer os seus estragos.
Hoje, quase toda a gente tem cinema em casa. Os equipamentos
“home cinema” revelam bem a evolução dos comportamentos sociais: a cada um a sua medida, que o tempo é de prazer e cada um o deve gozar à sua maneira. Acabe-se com o convívio, essa manifestação ultrapassada de socialismo, e viva o individualismo ultra -liberal, mais consentâneo com os valores do progresso.
Ir ao cinema "em grupo" passou a ser coisa de caretas, ver um filme em casa, passou a ser mais um exercício de isolamento, mas exemplo de modernidade.

Com o aparecimento da televisão, primeiro, e com a proliferação dos “Clubes de Video”, depois, foram muitos os que prognosticaram o fim do cinema. Aliás, Louis Lumière nunca deu grande importância ao cinema e afirmou mesmo que “ é uma invenção sem futuro”.
Felizmente, não tinha razão.
Várias gerações se deixaram embalar pela magia da sua Arte. Muitos jovens trocaram o primeiro beijo “no escurinho do cinema”. Muitos jovens saíram das salas de cinema sonhando transformar o mundo, ou simplesmente trocando juras de amor eterno.
Hoje o cinema já não será, como no século passado, uma forma de cultura popular. Compreende-se. Não só porque deixou de ser um meio de comunicação privilegiado, mas também porque mesmo os maiores sucessos são perenes. Já não há divas e galãs que façam suspirar uma geração, porque a indústria cinematográfica está constantemente a produzir novos ídolos que preencham os gostos de “nichos de mercado”.
Não é possível reeditar Marlon Brandos, Fred Astairs, Greta Garbos ou Rita Hayworths de êxito mundial assegurado. No cinema, como na música, ou na literatura, a oferta é vasta e o sucesso efémero. Um bom filme já não está em cartaz um ano. Ao fim de dois ou três meses é normalmente velharia. O seu sucesso prolonga-se pouco tempo para além do período de exibição. As superproduções são raras, porque os produtores não arriscam o investimento. As reposições escasseiam, porque o DVD permite guardar em casa, para ver na altura oportuna, o filme que não tivemos tempo de ver em exibição nas salas de cinema.
O cinema é, hoje em dia, o retrato da sociedade em que vivemos. Um produto de consumo para usar e deitar fora, porque há pouco tempo para reflectir sobre o que se viu e o espaço para sonhar está reduzido a uma conta bancária. Já ninguém quer transformar o mundo. Todos ficam à espera que alguém se dê ao trabalho de o fazer.
O cinema, porém, resiste. O anúncio da sua morte foi manifestamente exagerado.