
“Sábado à tarde num cinema da Avenida..
Assim começava uma canção de Tó Zé Brito que retratava o principal lazer dos jovens portugueses nos anos 60. Era o tempo dos cine-clubes, o tempo de ir ao cinema em grupo, ou namorar na última fila trocando promessas de amor eterno.
As salas eram grandes e em algumas, ao sábado à noite, fazia-se “toilette” para entrar.
Salas como o S. Jorge e o Monumental em Lisboa, ou o Coliseu, Trindade e Rivoli no Porto, tinham lugares cativos para o sábado à noite e estavam constantemente esgotadas. Vivia-se ainda uma época dourada do cinema, que começara nos anos 30 e se prolongara nas décadas seguintes, com filmes e actores que fizeram História
A partir do final da década de 50, e principalmente na década seguinte, começaram a surgir, por todo o país, os “Cine-clubes” que exibiam filmes que muitas vezes não corriam no circuito comercias. Entre alguns deles existiam profundas rivalidades, mas os fins de tarde de sábado e as manhãs de domingo eram, normalmente, grandes “happenings” para os jovens ( e alguns menos jovens ) cinéfilos.
Os primórdios dos anos 70 determinaram, porém, grandes mudanças nos hábitos cinéfilos dos portugueses, familiarizados desde os finais dos anos 20 com uma indústria que fascinava o mundo inteiro e produzia os ídolos que todos admiravam.É durante esta década que se começa a perder o hábito de ir ao cinema em família, porque a televisão começa a introduzir-se nos lares e a reter os mais velhos no sofá da sala. No entanto, a sala de cinema ainda resiste durante toda a década de 70 e parte dos anos 80, altura em que aparecem em força os “Clubes de Vídeo”. A cantora brasileira Rita Lee presta talvez uma das derradeiras homenagens musicais às salas de exibição da 7ª Arte com uma canção intitulada “FLAGRA!” que começava assim:
“No escurinho de um cinema /chupando drops de anis/ longe de qualquer problema/ perto de um final feliz"…

Na Europa, com excepção de Inglaterra, o fenómeno é semelhante: em 1981, 750 milhões de espectadores deslocam-se a 20 mil salas de cinema europeias, para ver 469 filmes que a indústria pôs à sua disposição. Dez anos depois, os frequentadores das salas de cinema desciam 25 por cento, as salas cerca de 20 e o número de longas metragens quedava-se nos 410.
As salas de cinema invadiram os centros comerciais, dividiram-se , concentraram vários tipos de oferta no mesmo espaço, reduziram as lotações.
Não é de esperar que o hábito de ir ao cinema se perca nos próximos anos, mas a verdade é que o cinema deixou de ser a principal distracção dos jovens, a partir dos anos 90. O crescimento do mercado vídeo, os hábitos televisivos cada vez mais arreigados, a internet e os jogos vídeo e electrónicos contribuiram decididamente para que as pessoas se afastassem das salas de cinema.Ver um filme em casa, na companhia de amigos, e aproveitar para tagarelar e descansar um pouco antes de partir para a ronda dos bares e discotecas, é para muitos uma alternativa ao fascínio do grande écrã.
Decididamente, uma ida ao cinema não será mais “como dantes”, até porque, infelizmente, muitas salas passaram a permitir o consumo de pipocas e bebidas durante a exibição dos filmes o que, se pode contribuir para cativar alguns jovens, não deixa de ser desmobilizador para quem busca numa ida ao cinema a possibilidade de ver um filme “como antigamente”: em silêncio e sem o massacre dos intervalos para a publicidade. O que talvez não se tenha perdido é o pretexto do cinema para a troca do primeiro beijo, ou o início de um romance de amor.
Quanto a potenciais realizadores de cinema, também não faltam desde que a câmara de video fez a sua entrada no mercado. A princípio, servia apenas para filmes de âmbito familiar, visionados no recato da família e de um círculo de amigos mais ou menos restrito. Posteriormente- e mais uma vez a televisão veio dar uma ajudinha-começaram a surgir uma série de potenciais realizadores que adoram mostrar as suas habilidades perante as câmaras de tv, em busca de prémios mexerucas com que ajudam a preencher espaços televisivos de gosto duvidoso. Os vencedores agradecem e a TV esfrega as mãos porque consegue, a baixo preço, pôr no ar programas que atraem muitos espectadores.
( Continua)