Manhã de 1 de Novembro, rescaldo da “Noite das Bruxas”. Saio de casa para comprar jornais e tomar café no sítio habitual. Na esplanada, um grupo de meninos e meninas ( mais meninas) mascarados de bruxas, fadas e duendes, erguem os copos de cerveja em celebração. Não vão formosos nem seguros. Vão cambaleantes e de braços desnudados, desafiando o frio das 11 da manhã.Presumo que tenham saído da discoteca pouco antes. Com a voz entaramelada uma menina pede-me um cigarro. Não tenho. Não fumo cigarros. A resposta, educada, da menina que vive numa zona onde pretensamente habitam núcleos familiares da classe média alta é elucidativa:
“Então vai-te f….”
Claro que não fui. Comprei o jornal, sentei-me numa mesa interior a ler. Passados alguns minutos entram sete meninos e meninas do grupo. Passo cambaleante, sentam-se a uma mesa e começam a jogar à “moedinha”. Um menino levanta-se e vai à máquina comprar um maço de cigarros que distribui generosamente pelos amigos. A proprietária dirige-se à mesa, adverte-os :
“Não podem fumar aqui dentro, têm que ir para a esplanada”
“Está um frio do caraças lá fora” responde uma menina de braços desnudados.
“Eu sei, mas não posso fazer nada. O que querem tomar?”
Um galifãozito empertiga a voz e arrisca:
“ Eu queria era apalpar-te as mamas. Comer já eu comi”
Seguiu-se um olhar dengoso para uma menina do grupo, retribuído com um beijo que se perdeu no ar.
“Então se não querem nada, façam o favor de ir para a esplanada”- retorquiu a proprietária.
A menina que me pedira o cigarro pensou que era a altura de intervir e “serenar” os ânimos.
“Está-se a armar em boa! Não sabe que hoje é o Dia das Bruxas. Vamos embora”.
Cambaleando, saíram para a esplanada onde se espojaram nas cadeiras, copo de cerveja na mão, com a postura de quem terminara uma árdua jornada de trabalho.
É assim o Halloween em Portugal. Um dia de copos em excesso, igual a tantos outros, com a diferença das máscaras.
Vivi mais de uma década em países anglo saxónicos. Sei que a noite do Halloween não tem nada a ver com esta cena. Em Portugal, porém, é assim. A sociedade de consumo apenas se preocupou em exportar a festa , pelo paradigma consumista. Da sua essência, nada resta. O Halloween em Portugal sabe-me a morangos comidos em Novembro. Têm cor, mas falta-lhes o paladar do mês de Maio.
Nem os meninos-família escapam à aridez dos tempos. Se fosse pai de um deles, já me tinha suicidado… por incompetência na função de educar.