quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dicionário do Rochedo (39)

Sinergia- Fenómeno que permite a um indivíduo estar em três locais de trabalho ao mesmo tempo, sem trabalhar em nenhum, e receber três salários no final do mês.

Saudação pós-moderna a um dia de Inverno antecipado


Levantei-me com as galinhas.
Olhei pela janela.
A rua estava cheia de pequenas poças de água.
O céu , de um cinzento imaculado, prometia libertar o peso excessivo de nuvens negras prenhas de água, derramando - em cortina pela cidade.
Não havia metro. Não havia táxis. Sou analfabeto funcional. Não sei andar de autocarro.
Perguntei à senhora do café, que acumula com trabalho na Faculdade, qual devia apanhar. Satisfeita por poder ser útil a quem serve a bica diariamente, deu-me a informação num sorriso desdentado.
Caminhei até à paragem dos autocarros, esgueirando-me entre corpos apinhados num passeio generosamente estreito, que permite sentir o calor dos corpos.
Um Audi passou por mim. Não se desviou de uma poça de água perfeitamente evitável. Preferiu dar-me os bons dias, aspergindo-me com água da chuva.
Agradeci, estendendo o dedo do meio na sua direcção. Ri-me da ordinarice. Envergonhei-me da atitude desesperada, de quem se vê encharcado em água lamacenta.
O autocarro enfim chegou. Bem apinhado, mas sem aquele odor a sovaco que lhes empresta tanta graça nos dias quentes de Verão.
Sete calcadelas e onze cotoveladas depois cheguei ao meu destino. Ao sair do autocarro voltei a encontrar a senhora do café, que a esta hora é a senhora da Faculdade. Lançou-me mais um sorriso. Desta vez cúmplice “Vamos chegar atrasados!”
Chovia. Olhei para o céu uma vez mais e cumprimentei as nuvens negras.
Entrei no meu gabinete a pensar no S. Martinho, que nos há-de trazer os últimos dias de calor do ano.
Liguei o computador. Népia. O servidor também anda de Metro e perdeu o autocarro?
Nada disso, diz-me o técnico. Apenas reivindicações salariais.
A manhã foi uma m…. não foi?
Foi, mas teria sido pior se não pudesse viver estas peripécias por estar na cama de um hospital, ou já estar reduzido a cinzas espalhadas pelo Rio da Prata.
Que tenham todos um bom dia!

Jantar com os vampiros

Quando o governo anunciou o aumento de 2,9% para os funcionários públicos, as associações patronais entraram em transe. Escandalizadas com o exagero, apressaram-se a informar que não poderiam acompanhar tão escandaloso aumento. Ignoraram que os funcionários públicos perdem poder de compra há 9 anos, grande parte deles teve os salários congelados vários anos, enquanto no sector privado os salários reais continuaram a subir e aumentaram as regalias paralelas para colaboradors de topo( automóveis, cartões de crédito com plafonds generosos e ate ilimitados, senhas de gasolina, etc). Além disso, os aumentos dos funcionários públicos em nada condicionam o sector privado, pelo que as reacções patronais demonstram apenas uma vontade inusitada de ver sangue.
Esta noite, mais dois vampiros apareceram à hora do jantar. O primeiro foi o presidente da associação das PME. Da estatura meã da sua mesquinhez, ameaçou com a recusa de não renovação dos contratos dos trabalhadores a prazo, como forma de protesto contra o aumento de 24€ do salário mínimo decretado pelo governo. Além de ter a memória curta ( esqueceu o acordo estabelecido ano passado) este vampiro é cobarde. Vinga-se nos trabalhadores, para atacar o governo, a quem estende a mão quando está em dificuldades. Atitude bem reveladora da estirpe da maioria dos pequenos empresários portugueses. Um conjunto de parasitas gananciosos que quer lucros rápidos e fáceis, não arrisca sem o apoio do Estado, mas só está disposto a pagar salários de miséria.
Depois apareceu o inefável Paulo Portas, com a teoria dos liberais sefarditas. Considera o aumento justo, mas quer que seja o Estado a suportá-lo. Atitude típica do vampiro calaceiro. Nunca fez nada na vida, mas não dispensa a mesada materna. À falta dela, exige que seja o Estado a pagá-la.
Mas neste jantar de vampiros, não podia faltar uma mulher. Manuela apareceu à sobremesa, para acusar o governo de irresponsável, por fazer valer um acordo celebrado há um ano.
Às 12 badaladas da meia noite, depois de tomado o café, vieram todos para a rua lamentar os pobrezinhos. Organizaram vigílias, angariaram fundos, prometeram uma ceia opípara para alimentar, os desfavoreidos mas na altura de ser servida aguçaram os dentes e não resistiram à tentação de os abocanhar.
E fugiram com a massa e as mãos sujas de sangue!