segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Verdade inconveniente

A Senhora Z tem 93 anos. Tem carro, carta de condução e… conduz!
Enalteci várias vezes a sua jovialidade. Ontem, conduzi a senhora Z e fiquei preocupado. Primeiro, porque percebi que tem dificuldade em reconhecer os sinais de trânsito. Depois começou a insistir para eu meter por ruas de sentido proibido. Quando lhe dizia que não podia fazê-lo, olhava para mim com um certo ar de desprezo e dizia-me:
“ Meu filho, sempre se pôde ir por aí, ninguém conhece melhor o Porto do que eu, mas tu sempre foste teimoso, vai lá por onde queres.”
Deixei de olhar para a senhora Z como um exemplo. Passei a vê-la como um perigo público. Além disso, ao fim de semana, a minha mãe não tem motorista e gosta de ir tomar chá com a senhora Z e outras amigas à Foz, Vila do Conde, Espinho e Santo Tirso.
Contei à minha mãe as minhas preocupações e ela censurou-me. “ Estamos todas velhotas, mas temos a cabecinha no sítio, meu filho. A senhora Z ainda há tempos foi ao médico e ele disse-lhe que podia continuar a guiar, desde que tivesse cuidado”.
Eu acredito que a senhora Z, a minha mãe e as amigas tenham cuidado, mas tenho medo que um dia destes aconteça uma desgraça.
Falei como filho da senhora Z , meu amigo de infância, que partilha as minhas preocupações e me disse:
“ Que queres que faça? Tentei arranjar-lhe um motorista, rejeitou. Tentei convencê-la a deixar de guiar e vender o carro, perguntou-me logo se depois a ia meter num lar. Já não sei o que hei-de fazer, até porque toda a gente lhe acha muita graça, diz que ela está muito boa para a idade e que eu estou a ser muito egoísta”.
Eu e o filho da senhora Z não sabemos como resolver este problema. Nenhum de nós, como é óbvio, vai queixar-se a polícia, muito menos o filho da senhora Z que seria condenado em praça pública se ousasse “denunciar a mãe”. Mas se um destes dias acontece uma desgraça, quem fica com remorsos para o resto da vida somos nós. E outros podem ser vítimas sem terem culpa nenhuma.
É um tormento, não acham? Mas como se pode resolver?