quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Agressivo, eu?


Há quem me acuse de escrever de forma agressiva e talvez tenha alguma razão. Considerar isso um defeito, não me parece muito justo.
Eu sou do tempo em que não havia Centrão e existia um Partido Socialista que tinha uma mão fechada como símbolo -sobre um fundo vermelho de que ninguém se envergonhava - onde se discutiam ideias e se respeitava a opinião dos outros. A mão fechada não assutava gente de carne e osso.
Já não pertenço a esta geração abreviada dos PS's, rosadinhos, que prefere rosas sem espinhos e, em vez de ideologias, discute a distribuição de cargos na Administração Pública e em empresas controladas pelo Estado. Já não pertenço à geração que entende o serviço público não como forma de servir, mas de servir-se.
Ainda sou do tempo em que se trocava a privada pela Função Pública com orgulho, pronto a defender a camisola de um país e os interesses dos cidadãos, se escrevia em liberdade e se respeitavam as opiniões. Portanto, ser agressivo para mim, não é defeito, é feitio.
Mas querem saber porque sou agressivo? Por aquilo que já vi na vida…
Gente com fome a trabalhar na apanha do café, recebendo como salário diário o equivalente a meia bica ; crianças sujeitas a violências, obrigadas a trabalhar de sol a sol, para encherem as montras e escaparates com brinquedos a que nunca terão acesso; mulheres com estatuto de animais, carregando às costas o peso de uma culpa que não têm; aviões carregados de chineses a aterrar na ilha de Guam, para trabalharem como escravos em multinacionais de vestuário; operárias no Vietname de lábios cosidos, para não poderem falar enquanto trabalham; choros de crianças abafados por balas; defensores dos direitos humanos fazendo turismo em Myanmar; voluntários qualificados, que se propuseram ajudar povos carenciados, a serem tratados por algumas ONG como criados, a quem está vedado dar opiniões , porque algumas ONG se tornaram em braços armados e escondidos de alguns ditadores no poder.
Por isso me irritam os betinhos que nunca viram isso e fazem vida na Bica do Sapato, no Pap’açorda, (e outros locais de culto da esquerda e da direita) aumentando o vigor na defesa dos seus princípios, à medida que lhes acelera, no sangue, a velocidade dos vapores etílicos.

América Latina, aí vou eu!

Hoje, às 18.30, vou até à América Latina!



Vou de boleia com o Luís Sepúlveda que, no Corte Inglês, vai apresentar o seu último livro " A Lâmpada de Aladino" Sniff! Sniff!

Erros de "casting", ou talvez não...

Quando li este post do Pedro Rolo Duarte, lembrei-me de um episódio contado pela Filipa Martins no lançamento do seu livro. Dizia ela que há alguns anos ( poucos, presumo, porque ainda é muito jovem) enviou um manuscrito para apreciação a um jornalista-escritor e recebeu uma crítica avassaladora que a desmotivou. Pensou mesmo que nunca mais voltaria a escrever. Em boa hora repensou a sua posição e ali estava ela, vencedora do prémio da APE, a lançar o seu livro. A apresentação coube a Baptista- Bastos -que lhe teceu rasgados elogios. Por coincidência, o jornalista-escritor que anos antes lhe fizera uma crítica duríssima!
Quando ouvi esta história lembrei-me do sr. Borges e deste post que estava no frigorífico, mas hoje devolvo à vida:

Grande parte dos meus posts são escritos com base em cenas da vida real – o que não é novidade para ninguém- ou surgem enquanto estou a trabalhar. Outras vezes, ma ideia que me assalta de repente, vinda de não sei onde, obriga-me a interromper o trabalho e a escrever sobre temas que normalmente não estão relacionados com o trabalho que estou a fazer mas que me (a)parecem (como) uma espécie de revelação. Às vezes resisto à tentação, tomo umas notas no meu inseparável Mouleskine e dias mais tarde faço uma operação de repescagem, Muitos perdem-se nesta tarefa.
Desta maneira de alimentar o CR tirei uma conclusão: há muitas histórias ( que considero) boas que nunca chegam a ver a luz do dia. Até nesta coisa da escrita, tudo é uma questão de oportunidade. Quantas palavras ficaram por ser ditas, pela simples razão de não ter tido tempo de as passar para o meu Mouleskine, ou de as juntar dando-lhes forma e vida? E, se calhar, muitas delas mereciam mais essa oportunidade, do que outras que aqui vêm parar.
Tudo isto para vos dizer que, na minha modesta opinião, o mesmo se passa na vida de cada um de nós. Quantas oportunidades perdidas, quantos talentos por descobrir, apenas porque ninguém lhes deu ensejo para isso? Ou porque alguém fez uma avaliação errada? Ou porque lhes faltou rasgo para as apresentar a quem podia contribuir para lhes dar forma?

E quantos "talentos" descobertos que não são capazes de agarrar a oportunidade de um "casting" que os lançou para a ribalta e se perdem na voragem do tempo?

O mundo, apesar de injusto, por vezes é capaz de corrigir os seus erros, como fez nos casos de Filipa Martins e Monica Marques. Não tem tempo é para os corrigir todos e, por vezes, são os Homens que não lhe dão essa oportunidade!