quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A galinha da vizinha...


Já lhe chamam, em tom de chacota, a “Igreja Bolivariana de Chavez”. Não caiu bem, nos espíritos conservadores, sempre prontos a denegrir o líder venezuelano, que o ex-acólito abandonasse a Igreja Católica, desgostoso, para se tornar membro de uma outra congregação.
Bastaria, porém, pensar um poucochinho, para que quem aponta o dedo a Chavez percebesse que nenhum católico, com um mínimo de compaixão e amor a Cristo pode esquecer os crimes da Igreja Católica na América Latina.
As ditaduras sul-americanas foram sempre apoiadas pela Igreja. Pinochet recebeu a bênção de Roma e os ditadores argentinos foram vistos com complacência e cumplicidade pelos homens da batina preta. Em ambos os países os padres ajudaram os governos a perseguir as pessoas que se opunham aos ditadores e, não contentes com isso, alguns prestaram-se ao papel de algozes, participando em acções de tortura. No Brasil, todos sabemos que a Igreja se curvou em genoflexão reverencial, perante os ditadores e os senhores das terras, alguns padres apoiavam as práticas dos jagunços.
Nenhum católico pode olhar para os crimes da Igreja Católica, encolher os ombros, indiferente, e considerar os crimes como casos isolados. Porque não foram…
Quem fala ou escreve denegrindo a Igreja Bolivariana, deveria olhar para o Vaticano e acusá-lo de ser co- responsável por muitas atrocidades no mundo inteiro.
Quem pensar que o espírito inquisitorial, o pensamento retrógrado, por vezes fascista, dessas ovelhas de Deus é coisa do passado, não precisa de ir muito longe para confirmar que está enganado. Basta ir a algumas missas nas nossas aldeias, onde esses “ funâmbulos da cruz” chegam em grandes bólides para celebrar a missa e pregar contra as injustiças do mundo, para perceber que “Bem prega Frei Tomás”…
Ataquem Chavez no que quiserem, mas não por querer – e acreditar- uma Igreja que defenda os interesses dos povos sul-americanos tão vilipendiados e perseguidos.
A omnipresente ditadura dos bons costumes, que o Ocidente pretende exportar para todo o mundo, como latas de salsichas, não serve aos sul-americanos.

Uma questão de etiqueta(s)

Ontem estive num espaço do Portugal Sentado onde nunca fora antes. Juntei-me a sete pessoas que não conhecia de lado nenhum, com o propósito de discutir questões de sustentabilidade num concelho vizinho de Lisboa. À frente de cada lugar, uma placa identificando os lugares onde trabalham. Não havia nomes. Todos se tratavam por engenheiros, arquitectos e doutores.
Ao fim de duas horas tive de perguntar o nome das pessoas, para melhor as identificar. Olharam-me com algum espanto e uma atrevidota, com ar de elefante triste a quem roubaram um dente para vender no mercado negro, lançou-me em tom jocoso:
- Mas sabe os locais onde trabalham, não sabe?
Respondi que sabia ler mas, provavelmente por problemas de visão, não tinha conseguido ler os nomes de cada um.
Quase todos me olharam com algum desprezo, excepto a engª do ambiente que me lançou um sorriso. Provavelmente de condescendência.
O dono deste Portugal Sentado, a quem ontem competia dirigir a reunião, sossegou-me:
-No final, a minha secretária fornece-lhe uma lista com os nomes.
Senti-me personagem de um filme. Aquilo não me estava a acontecer. Fechei o cenho em sinal de protesto.
No final todos, muito solícitos, vieram apresentar-se. Claro que não fixei os nomes e decidi borrifar-me para a lista da secretária do sr. Engº.
Dentro de duas semanas serei anfitrião deste espaço do Portugal Sentado. Jurei a mim mesmo que vão ter uma surpresa. Se gostam de etiquetas, vão tê-las. Vou identificá-los pelos serviços, mas à frente vou pôr um número. Depois , em vez de dizer “tem a palavra o sr. Engº do ….” , direi:
- Tem a palavra o nº 5. Algumas objecções a esta proposta, nº 3?
Quem julga que sou incapaz de fazer isto, não me conhece mesmo!

Conversas com o Papalagui (37)

- Em que rede é que te moves?
-Na Net… não conheço outra!
- Não é dessa que falo. Refiro-me à rede de relações
-Não tenho dessas redes... Sou free lancer da vida
-Então assim não vais longe….para se conseguir algo na vida temos de estar numa rede.
-Mas isso tem um preço, não tem?
- De que te serve a independência, se não conseguires passar da cepa torta?
-Estou bem nesta cepa torta. Tenho a espinha direita e durmo tranquilo com a minha consciência.