sábado, 18 de outubro de 2008

Desmancha-prazeres

Esta paisagem merecia um restaurante decente
Tinha tudo para ser um sábado perfeito. Sem pressão de trabalhos para entregar, pensava descomprimir de uma semana muito intensa. Ontem, ao fim da tarde, uma má notícia - que pode hipotecar os planos que tinha para um futuro muito próximo - fora o sinal de aviso de que afinal o sábado não iria ser tão tranquilo. Decidi interpretá-la apenas como a constatação de que nunca devo fazer planos, porque saem sempre furados.
Noite mal dormida, levantei-me cedo. A Baixinha convenceu-me a ir até à Arrábida, com o pretexto de que por lá estava um tempo magnífico. Apesar do monstro da Secil do Outão, gosto imenso da zona, por isso acedi ao convite no intuito de espairecer. Tenho sempre um problema quando vou para aqueles lados. Lembram-se do que escrevi aqui sobre os restaurantes em Portugal? Pois na zona de Setúbal ( nomeadamente entre a cidade de Bocage e Sesimbra) essa percentagem só não ronda os 100 por cento, porque existem na cidade sadina dois restaurantes razoáveis. A opinião não é só minha. Tenho vários amigos em Setúbal que se queixam do mesmo. No entanto lá fui, cabelos ao vento, a gozar a temperatura convidativa e o sol prazenteiro.
Escolhemos um restaurante em Galapos, junto ao mar, onde nunca tinha ido. Peixinho fresco, grelhado no carvão, um mar verde a emoldurar Tróia - mais uma aberração urbanística construída a abrigo de um PIN.
O almoço foi um desastre! As ameijoas pareciam de borracha e a dourada ( fresca) maltratada em grelhador à vista, a chegar à mesa ressequida. E os preços, meus amigos? Dignos de um restaurante de luxo, numa tasca mal amanhada. Uma dose de ameijoas, duas douradas e uma garrafa de Herdade do Perdigão ( que não conhecia, mas me foi recomendada perante o meu desconsolo ao ver a sensaboria da lista, onde se destacava um Bucelas banalíssimo a 23 €) perfizeram a conta de 70€ ( o vinho custou 18). Sabem quanto pago por um quilo de douradas ainda a saltar, compradas na lota de Setúbal às cinco da manhã? 2€!

Quem vem ao Rochedo há muito tempo, sabe que viajo muito pelo país, quer por questões de trabalho, quer por prazer. Devo dizer-vos que nunca me sinto tão roubado como quando opto por comer no distrito de Setúbal ( excepções: um restaurante no Portinho, as Pousadas de Palmela e de S. Filipe de Nery e o restaurante do peixe, em Setúbal, cujo nome não me ocorre). Naquela zona come-se mais caro do que no Cima's, nas Furnas do Guincho, no Gordini, no Porto de Santa Maria, ou no Prazeres da Carne( são nomes que me ocorrem de restaurantes que frequento na Linha), com a agravante de não terem qualidade nem higiene.

A restauração em Portugal está a precisar de uma grande volta. É inadmisível que se pague num restaurante de qualidade o mesmo que numa espelunca de especuladores. É inaceitável, que se permita o funcionamento de restaurantes como o do João em Galapos. Por isso, na segunda-feira vai uma denúncia para a ASAE, em defesa do bom nome da gastronomia portuguesa.
E quanto aos meus amigos de Setúbal, sempre tão simpáticos na maneira como me recebem, peço-vos desculpa, mas vou iniciar uma cruzada contra os burlões do vosso concelho. Sim, concelho, porque do outro lado do Sado ainda há alguns restaurantes razoáveis.
Bem, pode ser que a Aimee Mann ainda me salve o sábado!
( Está a ver Patti, como não preciso de sair de Portugal para me enfurecer contra este projecto de país, onde o crime compensa?)