Chegou com espavento, fazendo-se anunciar a toda a sala. Sentou-se na mesa ao meu lado, arrastando a cadeira e perturbando-me a leitura do jornal.
- Olá, então o que vai ser hoje? – perguntou-lhe o empregado no tom familiar com que trata os clientes habituais.
Ela prescrutou descaradamente o meu prato e respondeu:
- Não vou pedir já, espero que o meu filho chegue.
Mergulhou os olhos no jornal.
Cinco minutos mais tarde, vindo certamente do colégio em frente, chegou um miúdo aparentando 14/15 anos. Deu-lhe um beijo desprendido e sentou-se.
Ela continuou, impávida, a ler o jornal.
Ele pegou no telemóvel e começou a teclar. Jogos ou SMS? Não sei.
Chegou o bife dele e a carne à alentejana dela ( não lhe deve ter agradado o aspecto do meu salmão grelhado…)
Ele queixou-se da rigidez da carne.
Não estás em casa, sujeitas-te. Podias ter ido a casa almoçar. Tinhas lá sopa e a Deolinda fazia-te uma omelete.
Já estou farto de comer omelete com salsichas, mãe!
Tinhas queijo, presunto e cogumelos, não precisavas de comer salsichas.
Suspiros de ambos os lados da mesa.
Comeram em silêncio.
Ele levantou-se e disse:
- Tenho que ir para as aulas.
- Já?
- A Mituxa está à minha espera
- Sempre a Mituxa! Essa miúda deu-te a volta à cabeça. Não chegues tarde para jantar. E vê lá se estudas…
- Vou jantar com a Mituxa a casa da avó
- Então não chegues tarde.
- Até logo.
E foi à sua vida, sem sequer esboçar um beijo de despedida.
Ela não terminou a carne. Pediu uma bica e mergulhou outra vez na leitura do jornal.
