terça-feira, 14 de outubro de 2008

Almoço em família

Imagem surripiada da Internet
Chegou com espavento, fazendo-se anunciar a toda a sala. Sentou-se na mesa ao meu lado, arrastando a cadeira e perturbando-me a leitura do jornal.
- Olá, então o que vai ser hoje? – perguntou-lhe o empregado no tom familiar com que trata os clientes habituais.
Ela prescrutou descaradamente o meu prato e respondeu:
- Não vou pedir já, espero que o meu filho chegue.
Mergulhou os olhos no jornal.
Cinco minutos mais tarde, vindo certamente do colégio em frente, chegou um miúdo aparentando 14/15 anos. Deu-lhe um beijo desprendido e sentou-se.
Ela continuou, impávida, a ler o jornal.
Ele pegou no telemóvel e começou a teclar. Jogos ou SMS? Não sei.
Chegou o bife dele e a carne à alentejana dela ( não lhe deve ter agradado o aspecto do meu salmão grelhado…)
Ele queixou-se da rigidez da carne.
Não estás em casa, sujeitas-te. Podias ter ido a casa almoçar. Tinhas lá sopa e a Deolinda fazia-te uma omelete.
Já estou farto de comer omelete com salsichas, mãe!
Tinhas queijo, presunto e cogumelos, não precisavas de comer salsichas.
Suspiros de ambos os lados da mesa.
Comeram em silêncio.
Ele levantou-se e disse:
- Tenho que ir para as aulas.
- Já?
- A Mituxa está à minha espera
- Sempre a Mituxa! Essa miúda deu-te a volta à cabeça. Não chegues tarde para jantar. E vê lá se estudas…
- Vou jantar com a Mituxa a casa da avó
- Então não chegues tarde.
- Até logo.
E foi à sua vida, sem sequer esboçar um beijo de despedida.
Ela não terminou a carne. Pediu uma bica e mergulhou outra vez na leitura do jornal.

A reunião secreta do PS

Reina um grande mau estar no seio do grupo parlamentar do PS, obrigado a acatar a disciplina de voto na discussão sobre o casamento dos homossexuais.
José Sócrates, temendo alguma falta de empenho dos seus deputados nas campanhas eleitorais que se aproximam, e receando a perda de votos à esquerda que não compensem os que espera conquistar à direita, decidiu convocar, logo no sábado, uma reunião com os deputados socialistas.
Rodeada de grande secretismo, a reunião esteve para se realizar no sótão da casa de um membro da Opus Dei, mas Alberto Martins impôs que tivesse lugar na sede do partido, no Largo do Rato, alegando que, como ninguém lá vai, seria mais fácil iludir os jornalistas.
A estratégia teria resultado em pleno, não fora uma inesperada coincidência. Um jovem jornalista (estagiário) madeirense, de visita ao “Contenente”, demandou o Largo do Rato à procura da sede do PSD e, quando viu Sócrates a entrar no edifício, apressou-se a telefonar para AJJ, para dar a “grande cacha” ao Jornal da Madeira: “Os líderes do PS e do PSD estão a reunir-se em segredo, neste sábado”.
Foi assim, graças à desorientação geográfica e alguma precipitação de um jovem madeirense, que se ficou a saber da reunião, sendo-me possível adiantar aos leitores do CR o que de mais relevante lá se passou.
O tema da reunião era “Como conquistar votos à esquerda, depois da barracada de ontem?”
Embora o número de deputados presentes, fosse ainda inferior aos que votaram a disciplina de voto na questão dos casamentos entre homossexuais, a reunião foi animada.
Poupo-vos os pormenores, fazendo apenas referência ao facto mais relevante.
Ocorreu quando Alberto Martins, num resquício de revivalismo juvenil, sugeriu que fosse alterado o símbolo do PS, devolvendo-lhe a cor vermelha. E apresentou logo esta hipótese, que estudara durante a noite: A ideia não desagradou a Sócrates, que pôs a proposta à discussão. O primeiro a intervir foi Manuel Alegre, que reconheceu que a ideia não seria má, desde que por baixo do símbolo aparecesse a frase:
“ Tomates já não temos. Queres ketch up? Vota PS”