Antes das nove horas entrei com o meu avô na fábrica. Fomos logo para o gabinete dele, onde deu conta à secretária dos locais onde iria estar durante a manhã, recomendando que o mandasse avisar, em caso de necessidade, e saímos para a visita.
Percorremos várias secções, com o meu avô e os encarregados a explicarem-me como tudo se processava em cada uma delas. Naquela manhã fiquei a perceber como eram feitas as banheiras e todo o material que equipava o quarto de banho, desde a torneira à sanita. Estava genuinamente interessado no que via e ouvia, mas foi com alívio que, após o toque prolongado de uma campainha, recebi a notícia de que iríamos almoçar.
Estava cansado depois de mais de 3 horas em pé, ouvindo aquelas explicações todas.
Passámos pela cantina onde os operários almoçavam, o meu avô escolheu o que queria para ele, mandou-me fazer o mesmo e pediu que levassem tudo ao gabinete dele. Estranhei a opção de almoçarmos na cantina, porque todos os dias o meu avô ia almoçar a casa, apenas a uns dez minutos da fábrica, mas não disse nada. Percebi nessa altura que o meu avô tinha um plano e o almoço na fábrica fazia parte dele, por isso não o questionei sobre tão inesperada opção.
Enquanto almoçávamos, o meu avô ia fazendo algumas perguntas e acrescentando alguns pormenores que não tinham sido revelados durante a “visita de estudo”. Quando acabámos pediu o café, acendeu um cigarro castanho com um cheiro pestilento e perguntou-me:
-Então, estás a gostar?...
-Estou, mas já me sinto um bocado cansado- respondi
- Não queres ver a parte onde se fazem as máquinas de costura? Andas sempre a falar disso!
- Pois, até julguei que era por aí que íamos começar... mas não pode ficar para amanhã?
- Porquê para amanhã? Por estares cansado, ou porque estás chateado?
Sublinhou a palavra com alguma aspereza , como que dando a entender que me tinha levado ali para me dar uma lição.
- Não, “isso” não estou, estou só cansado.
- Está bem, compreendo que estejas cansado, mas imagina como devem estar os empregados todos que aqui trabalham, seis dias por semana, oito horas por dia, em pé, diante das máquinas. E as mulheres ainda vão para casa ao fim do dia trabalhar, fazer o jantar para a família e amanhã às oito da manhã estão aqui outra vez. Se tivesses uma vida como eles, tinhas razões de sobra para estar cansado e "chateado". Agora ficares “chateado” por os teus pais não te terem deixado ir a uma festa, não te admito, porque isso chama-se “birra” e já não tens idade para fazer “birras”. É esta gente que, com o seu trabalho, te permite ter a vida desafogada que tens. Recebes presentes de toda a família nos teus anos e no Natal, estás a estudar e tens férias durante 3 ou 4 meses, mas os filhos destes trabalhadores não vivem como tu. Alguns deles já trabalham, quando podiam estar a estudar - para ter uma vida melhor do que os pais- e os únicos brinquedos que recebem são os que a fábrica lhes dá. És um privilegiado, não te dou o direito de fazeres “birras” nem ter amuos. Antes de fazeres outra vez uma cena ridícula como a de ontem, pensa nesta gente que todos os meses trabalha para que tu possas viver no conforto em que vives. E há pessoas que trabalham em condições muito piores, durante ainda mais horas, com salários ridículos, que não têm médicos para os assistir, nem cantina gratuita como têm aqui.
Fiquei calado, sem saber o que dizer, contendo a custo as lágrimas. Não sabia se por vergonha, ou por revolta, apetecia-me explodir num vendaval de lágrimas, mas o orgulho não deixava.
- Promete-me que nunca mais voltas a pronunciar essa palavra diante de mim ou dos teus pais. Utiliza-a na escola com os teus amigos, onde devem usar outras ainda piores que eu também sei, mas que não digo. Em casa ficas terminantemente proibido de dizer palavrões como esse, entendido? E se voltas a fazer birras ou a amuar por capricho, a conversa vai ser outra
Acenei com a cabeça e perguntei:
- Podemos ir ver as máquinas de costura?
- Hoje não. Vou mandar levar-te a casa e vai brincar com os teus primos. Vens ver as máquinas outro dia, depois combinamos isso. Só te vou mostrar mais uma coisa, mas tens de prometer que nunca dirás nada a ninguém. Se contares alguma coisa, podes pôr em perigo a vida de várias pessoas e até a minha e da nossa família. Vou dar-te uma prova de que confio em ti e que sei que és capaz de guardar um segredo. É isso que faz de nós homens, não é a idade para irmos a festas. Terás muito tempo para namorar, casar, ter filhos, mas para começares a aprender o que é a vida, penso que chegou a hora certa. Em breve terás de decidir o teu futuro e já estás em idade de perceber em que país vives.
( Conclui amanhã)