Neste mês do idoso, decidi prestar um tributo público ao meu avô, divulgando um episódio que contribuiu para moldar o carácter e ver o mundo com outros olhos. Pela sua extensão, dividi-a em 3 capítulos.
Tinha os meus 13 anos. Era ainda Junho as aulas já tinham acabado há e estava de férias com toda a família em casa dos meus avós paternos. Naquele dia tinha o orgulho ferido porque os meus pais não me tinham deixado ir a uma festa com os meus irmãos e primos mais velhos, alegadamente porque ainda não tinha idade para isso.
Depois de gastar as energias a dar voltas de bicicleta pela quinta e ter recusado os convites para brincar, dos meus primos mais novos, sentei-me num banco diante do lago onde alguns peixes, indiferentes ao meu mau humor, gozavam os prazeres de uma tarde quente de verão. Apesar de cansado pelas correrias de bicicleta, não conseguira dominar a minha fúria pela “injustiça” de que me julgava vítima e ia atirando algumas pequenas pedras que apanhava do chão, para dentro do lago, para libertar a revolta que me fervilhava no corpo e me queimava a alma , porque não podia estar com a Sãozinha, dois anos mais velha do que eu e por quem estava profundamente apaixonado para toda a vida.
Quando me apercebi que o meu pai me observava da janela, redobrei a frequência e a intensidade dos arremessos, numa tentativa de chamar a sua atenção e o convidar ao confronto. O meu pai não se fez rogado. Veio ter comigo e perguntou-me:
- Que se passa contigo?
- Estou chateado- respondi
- Estás quê?
- Estou chateado, já disse!
A reacção do meu pai foi audível num raio entre o Porto e Aveiro tendo como reflexo, no epicentro de S.João da Madeira, o castigo de ir para o quarto até à hora do jantar.
Esperava um ar tenso quando descesse, mas enganei-me. Todos foram muito afáveis comigo e pensei mesmo que o meu avô tivesse admoestado o meu pai por ter sido tão rude. Mais me convenci quando, terminado o jantar, o meu avô me chamou à parte e perguntou:
- Queres ir amanhã comigo para a fábrica?
- Quero- respondi entusiasmado. Mas que vou para lá fazer?
- Já tens idade para compreender como é a vida na fábrica. Vou levar-te a visitar as principais secções para perceberes como tudo funciona.
Embora o convite não tivesse feito desaparecer completamente o amargo sabor da injustiça de não me terem deixado ir à festa, fui-me deitar com o coração bem mais adocicado e a alma quase em paz.
No dia seguinte, às oito da manhã, já estava a tomar o pequeno almoço, pronto para um dia diferente que iria marcar as minhas férias. Nem eu sabia ainda quanto...
(Continua)
Washington, Julho de 1977