quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Coisas do Sebastião (13)

Já se pode considerar um estilo de vida, fazer tudo através da Internet. Hoje em dia há pessoas que, quando se avaria o computador ou deixam de ter acesso à Internet, entram em pânico.
Quando o microchip casou com o computador, revolucionou por completo a vida do ser humano. As idas às compras tornaram-se mais simples, marcar um lugar num avião, reservar um hotel, estabelecer uma ligação telefónica ou efectuar uma operação bancária, demora apenas alguns segundos.
Quando o dinheiro não chega a tempo e horas, uma informação não é transmitida a tempo, a luz ou a água não chega a casa, o avião e o combóio se atrasam, ou o trânsto está engarrafado porque os semáforos não funcionam, a culpa já não é do polícia sinaleiro, do sr. Francisco ou da D. Madalena, mas sim do computador, essa fascinante - e fascizante- máquina de quem não podemos reclamar e a quem não podemos passar um raspante ou certificado de incompetência, porque não nos ouve nem nos responde (por agora...).
Podemos fazer turismo sem sair de casa, se dispusermos de um capacete que nos transporte até locais longínquos que a nossa bolsa não alcança. O computador passou a fazer parte integrante do mobiliário e através dele navegamos na Internet e surfamos as ondas do sonho. Sem ter de sair de casa, visitamos uma biblioteca ou um museu em qualquer parte do mundo, fazemos compras, pagamos impostos, arranjamos novas amizades, namoramos e ( imagine-se!...) até trabalhamos. Tudo diante de um computador que nos responde apenas por sinais quando queremos comunicar com ele.


E agora, nem sequer precisamos de usar o nosso nariz para ver se o fiambre que temos no frigorífico está estragado. Imune a constipações, um chip faz o trabalho por nós.
Viver ligado a uma máquina é que é qualidade de vida?
Então, prefiro ser mocho!

Rochedo das Memórias -Da mercearia de bairro ao "Outlet"(3)



Em Portugal já está instalada a última fórmula de hipermercado - a que poderemos chamar de quarta vaga. Compreendendo que os consumidores, na hora de ir às compras são facilmente aliciados por outras propostas, as grandes cadeias de hipermercados criaram o centro comercial a que agregaram, para criar ritmo, tráfego e fidelização de clientela, as lojas âncora ( department stores). Temperado com umas salas de cinema, música ambiente e espaços de lazer, o centro comercial transformou-se num local de visita obrigatória para a maioria dos portuguses. E - ironia do destino- como querendo dizer ao pequeno comércio "modernizem-se, voltando ao passado",alguns super e hipermercados criaram o serviço ao domicílio que pode ser assegurado por duas vias: ou o cliente se desloca ao estabelecimento, faz as suas compras, paga e mediante um suplemento entregam-lhe a mercadoria em casa, ou faz o pedido pela Internet.
Ao chegar ao fim do século, o serviço ao domicílio regressa pela mão das grandes cadeias de distribuição. Sem pregões, nem canastras à cabeça, mas com comodidade. Quem diria! Mas não é tudo. Quando a maioria dos pequenos comerciantes também já abandonou a "venda a fiado" alguns hipermercados lançaram os cartões de crédito. Medida destinada a fidelizar clientes, mas que funciona igualmente como forma de permitir aos consumidores aproveitar as promoções mesmo que na altura em que elas se efectuam não tenham liquidez.
E eis como, recorrendo às mesmas técnicas que o pequeno comércio esgrimia em seu favor, as grandes superfícies conseguem atrair e fidelizar clientes, sem que o consumidor seja obrigado a dizer: "Aponte aí, sr Viegas, que eu pago no fim do mês."
A última década do século marca, definitivamente, a "descentralização" consumista, com o aparecimento, junto às grandes cidades, de centros comerciais que apresentam como chamariz hipermercados com "preços de combate" e também locais destinados à diversão e ao lazer.
E como cada década tem direito à sua "catedral" do consumo, os anos 90 tiveram direito ao Colombo, uma pequena cidade virtual onde, aliados, lazer e comércio albergam a "Grande Farra do Consumo".
Os consumidores habituam-se a passear, ao domingo, por corredores com nomes de ruas soando a paraísos tropicais, ornamentadas de árvores cheirando a plástico, onde repousam pássaros de cântico electrónico. Transportam pela mão os rebentos de uma noite de amor e aos ombros as amarguras de uma semana de trabalho. Aparentemente vão felizes…

( Continua)