
Enquanto espero que me tragam o café, entro em reflexão. Há tempos, o director da ASAE afirmou que metade dos estabelecimentos de restauração portugueses estão condenados. A minha experiência de viajante dentro de portas, permite-me acrescentar que 80 a 90 por cento dos estabelecimentos de restauração portugueses não prestam. Ementas pouco variadas, confecções a oscilar entre o medíocre e o péssimo, condições de higiene entre o duvidoso e o deplorável e atendimento desprovido de profissionalismo.
Perante este panorama, interrogo-me: como é possível haver tanta gente a escrever sobre restauração na comunicação social portuguesa? Como é possível que, quase diariamente, se recomendem restaurantes? Como é possível incluir centenas de restaurantes recomendáveis em guias de restauração?
Estou longe de ser um “gourmet”, tenho tendência a utilizar mais o faro do que os guias quando, nas minhas deambulações pelo país, opto por um restaurante. Sigo também conselhos de amigos fiáveis, mas não tive tempo de pedir à maloud uma sugestão.
Hoje decidi seguir os conselhos de um guia e tramei-me! O restaurante até é asseadinho, tem uma boa vista sobre o Douro, mas a ementa é trivial. O atendimento é simpático, mas bastante demorado, apesar de meia sala estar vazia ( ou meio cheia, depende da perspectiva do proprietário).
A truta era sensaborona e as batatas de qualidade sofrível. A salada mista era composta por duas rodelas de tomate verde e umas folhas de alface que até um grilo esfaimado recusaria. Carta de vinhos só com dois exemplares do Douro mexerucas, meias garrafas nem vê-las que isto do “se conduzir não beba” é só para quem faz as leis ter com que se entreter. Sugeriram-me que bebesse vinho a copo, perguntei se estava num daqueles restaurantes “finos” onde o vinho a copo ao preço de uma garrafa virou moda, ou numa taberna. A empregada – de leste e provavelmente paga a pataco- ruboresceu e virou-me as costas, afastando-se bamboleante. Contrariado, já tinha decidido pedir uma garrafa de água, quando o gerente, solícito, veio em meu socorro dizendo que escolhesse uma garrafa e só pagaria o que bebesse. Polidamente recusei.
O café, pedido há mais de 10 minutos, só agora chegou à mesa. (Pausa para não deixar arrefecer).
Saiu-me na rifa uma “italiana” ( isto quando se pede um café sem “livro de instruções” é como jogar no totoloto, tanto pode vir a transbordar, como a rasar o fundo da chávena…) mas bebi-a sem razões para reparo.
Olha, olha, a trazer a conta foram lestos… Mesmo sem ter de a pedir, já repousa ao meu lado num cofrezinho a preceito. Terão medo que me pire sem pagar?
Dou ou não gorjeta? A empregada não tem culpa, não é? Há tempos estourou uma discussão no 5 dias sobre esta magna questão da gorjeta. Aqui no CR também já tive uma conversa sobre isso com o Papalagui.
Sou um mole…toma lá gorjeta, para ver se amanhã me corre bem o dia de trabalho.
Boa opção. Ao afastar-se, a empregada refinou a sua passada bamboleante. Na próxima dou-lhe uma gorjeta maior. Pode ser que tenha direito a dança do ventre!
Informação adicional: Quem pensar que a foto de Mariah Carey é despropositada, é porque não se lembra que servia num restaurante quando foi descoberta