quinta-feira, 25 de setembro de 2008

À espera do "Cimbalino"


Enquanto espero que me tragam o café, entro em reflexão. Há tempos, o director da ASAE afirmou que metade dos estabelecimentos de restauração portugueses estão condenados. A minha experiência de viajante dentro de portas, permite-me acrescentar que 80 a 90 por cento dos estabelecimentos de restauração portugueses não prestam. Ementas pouco variadas, confecções a oscilar entre o medíocre e o péssimo, condições de higiene entre o duvidoso e o deplorável e atendimento desprovido de profissionalismo.
Perante este panorama, interrogo-me: como é possível haver tanta gente a escrever sobre restauração na comunicação social portuguesa? Como é possível que, quase diariamente, se recomendem restaurantes? Como é possível incluir centenas de restaurantes recomendáveis em guias de restauração?
Estou longe de ser um “gourmet”, tenho tendência a utilizar mais o faro do que os guias quando, nas minhas deambulações pelo país, opto por um restaurante. Sigo também conselhos de amigos fiáveis, mas não tive tempo de pedir à maloud uma sugestão.
Hoje decidi seguir os conselhos de um guia e tramei-me! O restaurante até é asseadinho, tem uma boa vista sobre o Douro, mas a ementa é trivial. O atendimento é simpático, mas bastante demorado, apesar de meia sala estar vazia ( ou meio cheia, depende da perspectiva do proprietário).
A truta era sensaborona e as batatas de qualidade sofrível. A salada mista era composta por duas rodelas de tomate verde e umas folhas de alface que até um grilo esfaimado recusaria. Carta de vinhos só com dois exemplares do Douro mexerucas, meias garrafas nem vê-las que isto do “se conduzir não beba” é só para quem faz as leis ter com que se entreter. Sugeriram-me que bebesse vinho a copo, perguntei se estava num daqueles restaurantes “finos” onde o vinho a copo ao preço de uma garrafa virou moda, ou numa taberna. A empregada – de leste e provavelmente paga a pataco- ruboresceu e virou-me as costas, afastando-se bamboleante. Contrariado, já tinha decidido pedir uma garrafa de água, quando o gerente, solícito, veio em meu socorro dizendo que escolhesse uma garrafa e só pagaria o que bebesse. Polidamente recusei.
O café, pedido há mais de 10 minutos, só agora chegou à mesa. (Pausa para não deixar arrefecer).
Saiu-me na rifa uma “italiana” ( isto quando se pede um café sem “livro de instruções” é como jogar no totoloto, tanto pode vir a transbordar, como a rasar o fundo da chávena…) mas bebi-a sem razões para reparo.
Olha, olha, a trazer a conta foram lestos… Mesmo sem ter de a pedir, já repousa ao meu lado num cofrezinho a preceito. Terão medo que me pire sem pagar?
Dou ou não gorjeta? A empregada não tem culpa, não é? Há tempos estourou uma discussão no 5 dias sobre esta magna questão da gorjeta. Aqui no CR também já tive uma conversa sobre isso com o Papalagui.
Sou um mole…toma lá gorjeta, para ver se amanhã me corre bem o dia de trabalho.
Boa opção. Ao afastar-se, a empregada refinou a sua passada bamboleante. Na próxima dou-lhe uma gorjeta maior. Pode ser que tenha direito a dança do ventre!
Informação adicional: Quem pensar que a foto de Mariah Carey é despropositada, é porque não se lembra que servia num restaurante quando foi descoberta

Rochedo das Memórias- Da mercearia de bairro ao "Outlet"(2)


Corria a década de 60 para o seu final, quando surgiram em Lisboa os primeiros aglomerados de lojas. Chamavam-se "drugstores"(em inglês farmácia) e ali também havia de tudo um pouco. Estes embriões de "disneylândias" não tiveram grande sucesso, até surgir nos anos 70 o primeiro centro comercial. Dava pelo nome de APOLO 70 e dispunha, para além de lojas, cinema,"bowling", um snack-bar restaurante. e um barbeiro que foi muito frequentado por figuras públicas.
A escassa variedade de diversões ao alcance dos jovens de então, aliada à facilidade de acesso e contiguidade dos espaços de lazer, foram algumas das causas do sucesso então atingido e que rapidamente foi copiado, dando-se assim início a uma "nova era" nos hábitos de consumo.
Os anos 80 assinalam o triunfo do consumismo acéfalo em Portugal. O aparecimento do "Amoreiras", um centro comercial de grandes dimensões e características inovadoras, para onde convergiam excursionistas provenientes dos mais variados pontos do País- e até de Espanha- é o símbolo consumista da época e ficará como marco de uma forma de comsumo que alia a necessidade ao prazer. Quando apareceu, foram muitos os que lhe anunciaram um fim precoce e sem glória, acusando-o de ter dimensões exageradas. O futuro viria a desmentir os profetas da desgraça...
Os anos 80 trazem também para Portugal os primeiros hipermercados que, com velocidade astronómica, se expandem por todo o País em concorrência desenfreada. Jumbo, Carrefour, Continente e Modelo são nomes que se entranham no nosso léxico, com a mesma familiaridade com que noutros tempos falávamos da Fernanda varina ou do Chico padeiro. Muitos outros se hão-de seguir. Os hipermercados que nos finais dos anos 80 começam a proliferar em Portugal pertencem já, na sua grande maioria, a uma terceira vaga. Caracterizam-se por agregar estabelecimentos de vários tipos e espaços de lazer, cinemas incluídos.
Em algumas zonas do País, estes estabelecimentos cumprem um papel social, pois é o lugar para onde se deslocam muitas pessoas ao domingo para passear, já que não têm outra distracção. Todos se lembrarão, certamente, das polémicas que então se levantaram em volta dos hipermercados. Por um lado, os pequenos comerciantes acusavam-nos de lhes roubar clientela e contribuirem para o aumento do desemprego, por outro exigia-se o encerramento dos hipermercados ao domingo, com argumentos que passavam, entre outros, pela defesa da família. A verdade é que apesar da polémica- se não morreu está pelo menos adormecida - os consumidores aderiram com entusiasmo aos hipermercados e mudaram os seus hábitos. Uma vez por semana(normalmente ao sábado) os portugueses correm para os hipers de onde saem cheios de sacos a abarrotar. Já não regateiam preços com a varina, nem com o merceeiro. Limitam-se a olhar para os escaparates procurando as promoções e deixam-se ir na onda.
( Continua)

Dicionário do Rochedo (32)

Ozono- Camada da atmosfera que o homem está a destruir, para poder encher as montras e escaparates com produtos que gosta de consumir; o ( tamanho do ) buraco de ozono é inversamente proporcional ao espaço livre para estacionamento nas grandes cidades. Alguns autores consideram que ( a camada de ) ozono é uma construção mitológica de uns cientistas que ganharam o Prémio Nobel. Há quem acredite que o ozono é uma coisa que só aparece no Verão para lhes estragar as férias. Para afastar os malefícios do ozono, recorrem aos métodos utilizados pelas tribos da Papuásia e da Melanésia e untam o corpo com produtos fabricados pelos deuses da indústria dos cosméticos ( ver :aerossóis; protectores solares)