quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Rochedo das Memórias -Da mercearia de bairro ao "Outlet" (1)



Em 1907 abria em Lisboa o "Grandella"( a que dedicarei um post), cujas dimensões e características constituíram um símbolo do orgulho nacional, mas estava longe do conceito de hipermercado ou centro comercial que haveria de proliferar décadas mais tarde.


Com efeito, quando em 1923 abriu em S. Francisco o primeiro supermercado, ainda a Europa estava muito longe de conhecer esses estabelecimentos e perceber as transformações que uma nova forma de comércio iria operar nos hábitos quotidianos dos cidadãos do Velho Continente. Na verdade, só em 1963 abriu o primeiro hipermercado europeu. Foi nos arredores de Paris e chamava-se Carrefour, por ficar num cruzamento. Era apenas uma placa de vendas de grandes dimensões que pouco tinha a ver com os actuais hipermercados, e onde praticamente apenas se vendiam produtos alimentares.
Enquanto a publicidade lançava os seus pregões, aliciando os consumidores parisienses para o novo estabelecimento, em Portugal a música era outra:
"Olhó carapau fresquiiiinho!" e " Capital, Lisboa ó Pópular" eram apenas alguns dos muitos pregões que se ouvia cantar nas ruas das cidades portuguesas. Assim se anunciavam as varinas e as notícias trazidas pelas mãos de um ardina. Durante o dia, a horas mais ou menos certas, andavam de casa em casa ( e por ordem de entrada em cena) entoando os seus pregões, o padeiro, o leiteiro, o ardina, a hortaliceira e a varina. O cauteleiro, o amolador ou o vendedor de castanhas, tinham aparições mais ocasionais e alguns mudavam de pregão de acordo com a época do ano e o produto que traziam para venda.
Cedo os miúdos se habituavam a identificar como figuras familiares estas personagens que hoje desapareceram das ruas.
"Gastava-se" sempre do mesmo talho, da mesma mercearia, das mesmas lojas e, de quando em vez, nos céus estralejavam foguetes anunciando a chegada de enchidos frescos à mercearia de um qualquer bairro

Nos anos 60, a familiaridade entre consumidores e vendedores ainda era grande e o comércio muito estratificado, sendo frequente que as lojas tivessem moços de recados que entregavam as encomendas, pedidas por telefone, em casa dos clientes mais gastadores. Quado nos finais dos anos 60 abriram em Portugal os supermercados "Pão de Açúcar", o acontecimento foi muito badalado, mas foi a partir daí que os pregões começaram a rarear.

Afinal, a ASAE tinha razão...

Estão lembrados do alarido que andou por aí contra a ASAE, por ser um organismo persecutório, que não deixa o mercado respirar? Lembram-se das invençoes acerca da proibição da venda de bolas de Berlim nas praias e de outros mitos criados à volta da actuação da ASAE que não tinham qualquer fundamento, a não ser a incapacidade de algumas pessoas em interpretar os comunicados? Não nego que haja situações em que a actuação da ASAE possa pecar por excesso de zelo, mas o que alguns pretenderam foi aniquilá-la, fazendo acusações que revelam total desconhecimento ou má-fé
Como é habitual, assim que o tema deixou de ser moda as águas acalmaram, mas hoje apeteceu-me voltar a agitá-las. Motivo? Os dados agora divulgados referentes às reclamações dos consumidores (cerca de 100 mil em seis meses), revelando que a maioria das queixas apresentadas pedem a intervenção da ASAE!
Prova-se, assim, que os colunistas que tanto alarido fizeram estão completamente divorciados da realidade, pois os consumidores afinal confiam na ASAE e exigem a sua intervenção.
Entretanto, uma associação denominada DEFENSO, requereu em Tribunal a inconstitucionalidade do diploma que confere determinados poderes de fiscalização à ASAE. Independentemente da decisão final, aconselho-vos a fixar o nome das empresas que integram a DEFENSO. É que cá para mim, uma empresa que não quer ser fiscalizada, provavelmente terá telhados de vidro. Não é o povo que diz "quem não deve não teme?"