
Durante muitos anos tive medo de mostrar às pessoas o que escrevia. A culpa foi do sr.Borges, meu professor na Escola Primária ( assim se chamava à época), figura de mestre escola do Estado Novo que um dia nos mandou escrever uma redacção sobre um sonho.
Escrevi e meti-me num 31! O sr. Borges não acreditou que tivesse sido eu a escrevê-la , tentou obrigar-me a confessar que tinha sido o meu irmão mais velho, ou a minha mãe – que na altura escrevia crónicas no Primeiro de Janeiro- a escrevê-la, mas insisti que fora eu. E fora… mas de nada me valeu dizer a verdade, porque apanhei 10 reguadas -as únicas que apanhei na minha vida. Deve ter sido nesse dia que comecei a perceber o que era a PIDE!
Dada a minha intransigência em confessar o delito, chamou os meus pais, mostrou-lhes a redacção e advertiu-os que não deviam ajudar-me. Os meus pais disseram que não tinham sido eles, garantiram que não fora nenhum dos meus irmãos e que na realidade eu lhes mostrara a redacção, depois de escrita e tinham ficado a pensar que eu me inspirara num livro qualquer.
O sr. Borges ficou uns momentos calado, depois perguntou aos meus pais quais eram as minhas leituras. A resposta foi idêntica à que daria a maioria dos pais de outras crianças da minha idade. Eu só lia as leituras normais para um miúdo de 9 anos, porque me estava vedado o acesso a leituras mais avançadas embora as tentasse surripiar, sem êxito, aos meus irmãos ( a biblioteca lá de casa era-me inacessível sem visto prévio).
O sr. Borges cofiou o bigode e afirmou peremptório: então levem-no a um psiquiatra!
Os meus pais insistiram , durante duas semanas, para lhes dizer a verdade. Só acreditaram que não mentira, quando me mandaram escrever uma redacção sobre as vindimas, sem sair da sala onde se dedicavam às suas leituras.
Quando terminei ficaram aliviados. Afinal não lhes mentira.
Sr. Borges: Esteja onde estiver, fique a saber, se ainda ninguém lhe disse, que aquela história da viagem num comboio eléctrico, onde viajei até ao País das Maravilhas e acabei por pedir a Alice em casamento, saiu mesmo da minha cabecinha. Por isso, se persiste em ser professor aí no lugar onde repousa, nunca peça aos seus alunos para lhe escreverem sobre a vida actual na Terra. Não ia acreditar como o mundo mudou desde que partiu, correria o risco de voltar a morrer e ser transformado outra vez em terráqueo.
Era muito bem feito, mas não lhe desejo esse mal! Limito-me a enviar cópia deste escrito ao ministro da educação para que ele nunca mais o ponha a ensinar. Mas talvez lhe consiga arranjar um lugar aqui, na Papua Nova Guiné!
Escrevi e meti-me num 31! O sr. Borges não acreditou que tivesse sido eu a escrevê-la , tentou obrigar-me a confessar que tinha sido o meu irmão mais velho, ou a minha mãe – que na altura escrevia crónicas no Primeiro de Janeiro- a escrevê-la, mas insisti que fora eu. E fora… mas de nada me valeu dizer a verdade, porque apanhei 10 reguadas -as únicas que apanhei na minha vida. Deve ter sido nesse dia que comecei a perceber o que era a PIDE!
Dada a minha intransigência em confessar o delito, chamou os meus pais, mostrou-lhes a redacção e advertiu-os que não deviam ajudar-me. Os meus pais disseram que não tinham sido eles, garantiram que não fora nenhum dos meus irmãos e que na realidade eu lhes mostrara a redacção, depois de escrita e tinham ficado a pensar que eu me inspirara num livro qualquer.
O sr. Borges ficou uns momentos calado, depois perguntou aos meus pais quais eram as minhas leituras. A resposta foi idêntica à que daria a maioria dos pais de outras crianças da minha idade. Eu só lia as leituras normais para um miúdo de 9 anos, porque me estava vedado o acesso a leituras mais avançadas embora as tentasse surripiar, sem êxito, aos meus irmãos ( a biblioteca lá de casa era-me inacessível sem visto prévio).
O sr. Borges cofiou o bigode e afirmou peremptório: então levem-no a um psiquiatra!
Os meus pais insistiram , durante duas semanas, para lhes dizer a verdade. Só acreditaram que não mentira, quando me mandaram escrever uma redacção sobre as vindimas, sem sair da sala onde se dedicavam às suas leituras.
Quando terminei ficaram aliviados. Afinal não lhes mentira.
Sr. Borges: Esteja onde estiver, fique a saber, se ainda ninguém lhe disse, que aquela história da viagem num comboio eléctrico, onde viajei até ao País das Maravilhas e acabei por pedir a Alice em casamento, saiu mesmo da minha cabecinha. Por isso, se persiste em ser professor aí no lugar onde repousa, nunca peça aos seus alunos para lhe escreverem sobre a vida actual na Terra. Não ia acreditar como o mundo mudou desde que partiu, correria o risco de voltar a morrer e ser transformado outra vez em terráqueo.
Era muito bem feito, mas não lhe desejo esse mal! Limito-me a enviar cópia deste escrito ao ministro da educação para que ele nunca mais o ponha a ensinar. Mas talvez lhe consiga arranjar um lugar aqui, na Papua Nova Guiné!
* Crónica retirada à poeira do meu baú, porque também tem direito à vida.
Wewak, Papua Nova Guiné, Agosto de 1991( com a ilha de Cousteau em fundo)