sábado, 6 de setembro de 2008

Jogos Paralímpicos

Foto Reuters

Antes de escrever este post fui dar uma olhadela pelos blogs de uma certa esquerda que costuma arvorar-se defensora de questões fracturantes.
Com fractura exposta fiquei eu quando, no final da ronda, constatei que em nenhum deles havia uma linha escrita sobre os “Paralímpicos de Pequim”.
Provavelmente, se o acontecimento do dia fosse uma manifestação gay na viela do Bloco, uma petição pró - aborto do macaco siamês, ou um abaixo assinado a denunciar a discriminação de que está a ser alvo a pulga afegã, todos esses blogs estariam prenhes de prosa abonatória para as vítimas, e de acusações inflamadas contra os discriminadores.
Como se tratou da cerimónia inaugural dos Paralímpicos- e porque certamente esgotaram a verve verrinosa anti- China durante os Jogos de Pequim- nem uma palavra.
Por razões profissionais, apenas pude ver os últimos 75 minutos da cerimónia. Digo-vos que além de deslumbrante, foi cheia de simbolismo. Os mais conhecedores da realidade chinesa dir-me-ão que “a bota não condiz com a perdigota” e não deixarei de lhes dar razão...
Permitam-me, porém, que vos lembre, que o silêncio sobre os Paralímpicos denota a indiferença que a esquerda bem pensante revela para com os deficientes. Tão pressurosos a defender alguns valores ( com alguns dos quais também me identifico), manifestam um certo atavismo e talvez mesmo relutância, em falar dos problemas que, diariamente, cidadãos diferentes enfrentam numa sociedade padronizada para as pessoas “normais”.
Indiferentes, por agora, ao sucesso dos nossos atletas, virão talvez um dia destes fazer comparações com o sucesso alcançado pelos Paralímpicos e o insucesso dos outros. Ter-lhes-ia ficado bem uma jogada de antecipação, para mostrarem que a discriminação a que os deficientes estão sujeitos em Portugal os preocupa, para além dos sucessos desportivos.
"Ah!, pois, hoje é sábado”- diz-me o Papalagui do canto da sala, enquanto escrevo este post. Estás cheio de razão, amigo. Ao sábado não se escreve sobre assuntos incómodos que possam ensombrar a consciência dos cidadãos!