Depositadas as garrafas no verde e as embalagens de plástico no amarelo, aprestava-me a colocar os jornais no azul, quando às minhas narinas habituadas a odores não esquecidos de terras orientais, chegou um resquício de comida estragada. Indignei-me ao pensar que alguém deitara no recipiente restos de comida, a que a canícula avivara os odores. Não resisti a espreitar para o interior do recipiente, mas logo enojado e indignado desviei o olhar do cadáver de um cão dentro do recipiente.
A minha indignação aumentou e apurou o meu espírito de investigador. O que faria um cão- cadáver dentro de um ecoponto? Afastada a hipótese de se tratar de um cão suicida, comecei a magicar sobre as diversas possibilidades que justificassem a presença daquele cadáver no ecoponto destinado aos jornais e outra papelada. Teria morrido de doença e o dono escolhido o local para derradeira morada daquele que durante alguns meses ou anos terá porventura sido o seu melhor e mais fiel companheiro? Teria sido obra dos mesmos dementes que arrancaram o pilhómetro? Ou teria sido o canídeo vítima de um atropelamento selvagem, durante a noite, e o prevaricador, no intuito de apagar quaisquer vestígios, decidiu atirá-lo para o ecoponto, porventura ainda antes de o animal soltar o último extertor?
Um vizinho veterinário ajudou- me a descartar estas duas últimas hipóteses, pelo facto de o corpo do animal, que entretanto retirámos do recipiente, para lhe proporcionar enterro mais digno e última morada mais decente, não apresentar quaisquer sinais de violência. E foi assim , através de sumária investigação, que concluí ter sido o canídeo vítima de doença ( súbita ou prolongada, já não o posso afiançar) e que o dono - ou algum passante apiedado que o encontrou já cadáver – não teve melhor ideia do que escolher, para sua última morada o ecoponto.
A aludida investigação sumária também não me permitiu concluir se o bom do animal estaria integrado nalguma trupe circense ou desempenharia qualquer outro papel de animação, que tivesse levado o dono a confundir o animal com o seu papel, mas esta parece-me explicação plausível, para um destino tão bizarro.
A aludida investigação sumária também não me permitiu concluir se o bom do animal estaria integrado nalguma trupe circense ou desempenharia qualquer outro papel de animação, que tivesse levado o dono a confundir o animal com o seu papel, mas esta parece-me explicação plausível, para um destino tão bizarro.