segunda-feira, 25 de agosto de 2008

BranCos costumes

A brisa fresca que tem soprado pela manhã, é um convite a sair de casa cedo e caminhar até ao meu local de trabalho. É uma prática que me revigora o físico e me apura os sentidos. Só pela manhã – e nesta época do ano- é possível sentir os cheiros de Lisboa, pois a poluição já há muito nos retirou esse prazer quotidiano.
Estou longe de ser um admirador incondicional de Lisboa, ou de a considerar a mais bela cidade portuguesa, mas gosto de calcorrear as suas ruas, rindo-me interiormente dos papalvos que perdem horas diárias em longas filas de trânsito, porque só caminhando consigo aperceber-me do pulsar da cidade e da forma como vai mudando a sua face.
Foi isso que sucedeu ontem. Como acontece sempre que faço o percurso a pé até ao Saldanha, aproveito para tomar um café pelo caminho. Embora não tendo local certo para o fazer, sou muitas vezes “atraído” para um pequeno café no Campo Grande cuja existência recordo desde os tempos em que frequentava a Faculdade de Direito.
Logo pela manhã, quando saía do Pio XII, o Café do sr Augusto ( se não me falha a memória era esse o nome do proprietário da altura) era a paragem acolhedora onde me abrigava de um aguaceiro inesperado, ou onde tomava a primeira bica, lado a lado com trabalhadores da construção civil e camionistas, que bebericavam a sua aguardente ou o seu “copo de três”.
Há hábitos que julgamos esquecidos, mas nos ficam no subconsciente e, logo que uma oportunidade surge ( mesmo passados muitos anos) faz-se um “clique” e retomamo-los sem percebermos muito bem porquê. Creio que é isso que explica o facto de a maioria das vezes que percorro a pé a distância entre minha casa e o Saldanha, sentir um “impulso” que me leva a entrar quando passo à porta deste Café - que mantém as características quase originais, apesar de não ter escapado à instalação de um balcão refrigerador onde doces e salgados mantêm promíscuo convívio.
Um destes dias, porém, consegui passar incólume à sua porta e acabei por tomar a bica matinal num “alindado” espaço da Av da República, onde o balcão da promiscuidade alimentar apresentava belíssimos espécimes de doçaria conventual. As paredes pintadas de cores alegres e o mobiliário funcional, anunciavam abertura recente. Entrei sem hesitar. A empregada (única) era brasileira. Entre a clientela ( escassa, mas a avaliar pela variedade e quantidade de produtos expostos com tendência para aumentar substancialmente ao longo do dia) eu era o único português. Havia ainda duas jovens de Leste, dois casais de turistas de origem não determinada, duas negras de meia idade e um jovem asiático que falava furiosamente ao telemóvel.
Enquanto saboreava, com um misto de gula e culpa, o meu doce pecado matinal, parou à porta uma carrinha de onde saiu um preto carregado de caixas que entregou nas mãos da empregada brasileira.
Quando retomei o meu caminho, comparei o cenário com o de Portugal dos anos 60. O contraste com o país de “branCos costumes” da época, isolado do mundo, onde um preto que entrasse em qualquer sítio, ou apenas circulasse nas ruas, era logo imaginado como um potencial terrorista, fez perpassar por mim um arrepio.
Lisboa, como o país, felizmente mudou muito. O quadro multicultural de que fui personagem, fez-me lembrar a Londres do princípio da década de 70, especialmente na zona de Bayswater, onde comecei por viver. Senti-me a viver num país civilizado, mas logo os “Pintos Coelho” deste país que conspurcam a paisagem com cartazes xenófobos me fizeram voltar à realidade. Só pensar que vivo numa cidade onde a autarquia tolerou esses cartazes, mas se apressou a mandar retirar outro que o ridiculariza, multando os “infractores”, faz-me logo voltar ao país dos “branCos costumes”.
Uma sensação de vómito ameaça devolver às origens o doce conventual .

Conversas com o Papalgui (35)

- Eh, tuga, sabes que o João se suicidou?
- Que João? O bebé proveta?
- Sim, esse mesmo.
- Mas porque é que ele fez isso?
- Era tão liberal, tão liberal, tão liberal, que quando descobriu que a proveta era do Estado, decidiu afogar-se no Tejo.

Lisboa

Não sei se repararam, mas hoje Lisboa está com uma luz fantástica! Um céu sem mácula e um rio esplendoroso a convidar a um passeio de bicicleta pelas suas margens. Bora lá!

Dicionário do Rochedo (19)

Força de paz- Operação militar que consiste no envio de tropas para ajudar determinado país ou região a ultrapassar aquilo que o Ocidente considera crise, por não ser conveniente aos seus interesses económicos.