quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Pequim: balanço ( quase) final

Ao fim de uma semana sem medalhas o povão excitou-se. A eliminação de Obikwelu nas meias finais foi o extravasar do copo.O presidente do COP deu o mote e começaram a chover as críticas de "falta de profissionalismo"( bons tempos em que os JO eram coisa de amadores...).

Vicente Moura deveria ter esperado pelo final dos Jogos para fazer as acusações que fez. As suas palavras- em minha opinião- fizeram pelo menos uma vítima: Naide Gomes. Mas também fizeram ricochete pelo menos em Gustavo Lima- e assim perdemos o melhor velejador da actualidade. Também as palavras de Marco Fortes não teriam sido punidas com a expulsão da comitiva se a primeira semana tivesse corrido melhor e os judocas tivessem conseguido pelo menos uma medalha.

Quando iniciou o concurso do triplo salto, Nelson Évora carregava às costas as frustrações de um povo a quem Vicente Moura prometera cinco medalhas. Ambição desmedida. Embora alguns atletas pudessem ter ido mais longe, a verdade é que não me lembro de uma prestação olímpica melhor do que esta. Nada justifica que descarreguemos as frustrações nos nossos atletas, só porque não trouxeram as medalhas que desejávamos e que serviriam para aliviar as nossas "dores". Bem pior do que a prestação da selecção olímpica, foi a da selecção de futebol no Europeu. Com uma equipa de luxo, com um treinador pago a peso de ouro, mas coxo nas tácticas, quedou-se pelos quartos-de- final. Como era futebol, o povão engoliu em seco e calou-se.

Nélson Évora saltou para o ouro e o povão entrou outra vez em euforia. Quando é que os portugueses encontram o ponto de equilíbrio e aprendem a ver o mundo a cores e não a preto e branco? Mais uma vez o mau exemplo veio de cima, é certo, com Vicente Moura a dar o dito por não dito, admitindo recandidatar-se à presidência do COP. Afinal, se uma medalha de ouro era suficiente para mudar de ideias, porque razão não se calou até acabarem os Jogos? Talvez tivessemos ganho mais uma ou duas medalhas com o seu silêncio. Em minha opinião, portou-se muitíssimo mal, por isso deveria fazer as malas , regressar a casa e manter a sua decisão de não se recandidatar.

Como acontece sempre em Portugal, os líderes mantêm-se à tona à custa do esforço dos atletas. E isso não é bonito, nem recomendável, para o desporto português.

A China vista pela Cecília

A Cecília respondeu ao desafio num comentário, mas como considero importante que todos conheçam o seu ponto de vista, resolvi transformá-lo em post:

1 - O nr. de habitantes por m2 - enfrentar uma cidade com 14 milhões e uns trocados de almas, cuja idade média é de 25 anos, fez-me engolir em seco muitas vezes e pensar, entre outras coisas, que os sensores térmicos à entrada dos aeroportos não serão suficentes para travar uma qualquer epidemia de uma qualquer maleita....
2 - As características genéticas tão fortemente vincadas - é verdadeiramente impressionante olhar para um mar de gente à nossa volta, de vários sexos, idades e estratos sociais, e ter dificuldade em identificar quem acabámos de conhecer, através da altura, peso, tipo e cor de cabelo ou de olhos!!
3 - A busca da ocidentalização - talvez pelas razões acima, são inúmeros os jovens que tentam assemelhar o seu estilo ao dos jovens ocidentais, através de cortes de cabelo mais ousados, ondulações permanentes, tintas ou gel, com resultados mais ou menos bem sucedidos, pela indomabilidade das suas hirsutas cabeleiras. Quanto às roupas, especialmente dos rapazes, fazem lembrar um estilo "Duran Duran" dos anos 90 - blusões curtos, de mangas arregaçadas e ombros muito largos, preferencialmente com uma abundância jeitosa de prateados, calças de ganga muito justas e sapatilhas de contrafacção....o que me leva ao
4 - A sua capacidade inata para tudo comercializar e, especialmente, copiar, produtos já existentes, dos mais elementares aos mais tecnologicamente avançados, de uma forma orgulhosamente assumida e divulgada. (Só por graça, afianço que em NOVEMBRO foi possível adquirir lá um I-Phone da Apple...)
5 - A mentalidade e os espírito de sacrifício dos trabalhadores - Assim que obtém um diploma, os jovens largam a família para tentar a sua sorte nas grandes cidades. Recorrendo ao uso de uma paciência infinita vi fábricas com linhas e linhas de montagem humanas, colocando, soldando e testando manualmente componentes electrónicos absolutamente minúsculos. Sem direito a férias, feriados nem tão pouco fins de semana, são muitos os que vivem nas instalações das fábricas, dormindo em autênticas prateleiras que ocupam, em zigzag, paredes de cima a baixo.!!!
6 - O fosso económico-social entre os meios urbanos e agrícolas, ou mesmo entre duas cidades tão próximas e tão distantes como Shenzhen e Hong-Kong.
7 - A "tal" falta de educação cívica, à qual acrescento a generalizada pouca higiene nas ruas, nos mercados e restaurantes.
8 - A estrutura familiar - que devido à política de controlo da natalidade responsabiliza os filhos únicos da cidade pelo sustento dos mais velhos na província, ou, que em casos mais sortudos, responsabiliza os mais velhos, que conseguiram sair da província, pela educação dos netos únicos.
9 - O trânsito!!! Perfeita loucura, com milhões de veículos nas estradas, cujos principais instrumentos de navegação são, ao mesmo tempo, os retrovisores, o pisca e a buzina, numa condução digna de qualquer gincana profissional, tanto pela esquerda como pela direita, tanto na mão como na contramão, em rotundas, cruzamentos ou entroncamentos, a velocidades que nos deixam colados aos bancos e a pensar na tão distante N. Sra. de Fátima.....
e finalmente (last but not the least)
10 - As janelas...pois...são capazes de estranhar esta minha escolha, mas as janelas que eu vi, reflectem o modo de vida dos chineses naquela cidade: minúsculas, com grades por fora até ao 5º andar por causa dos assaltos e com roupa estendida ao contrário do que estamos habituados: em vez das tradicionais molas, que seguram duas pontas de uma camisa que cai paralela à corda, os chineses usam cabides, colocando perpendicularmente a roupa e ganhando espaço, para, em 80 cm de corda, secar 10 camisas....tantas quantos vivem no mesmo apartamento de 90 m2 a que pertence a exígua JANELA!!

"Tchetche", Cecília! Sigam-se os comentários

Pelo país dos blogs (27)

"Uma indígena sequestrada aos 4 anos "por brancos" que a venderam como escrava faz agora parte do gabinete do novo presidente Paraguaio, Fernando Lugo. Margarita Mbywangi, de 46 anos, teria sido raptada quando vivia na selva paraguaia e trabalhou para famílias de fazendeiros ricos antes de recuperar a liberdade e se transformar na primeira mulher chefe da tribo Aché. Ela contou a sua história, no Palácio de Governo, em Assunção, logo depois de ser nomeada por Lugo para o cargo de Ministra de Assuntos Indígenas(...)".

Assim começa este post do Salvoconduto( com link na coluna da direita) cuja leitura recomendo.
O Salvoconduto é um blog de leitura obrigatória para quem queira perceber a realidade da América do Sul, pois dá-nos a conhecer muitas histórias que a imprensa indígena - preocupada em atacar Chavez e enaltecer Uribe- omite, por ignorância, má-fé, ou simplesmente porque pensam que "isso não interessa nada".

Atrevo-me a afirmar que o Salvoconduto- apesar de ter apenas três meses de existência- é já o melhor e mais variado blog português na abordagem de temas internacionais. Se vos custa a acreditar, dêem lá uma saltada e depois digam qualquer coisa... Para mim tornou-se de leitura diária OBRIGATÓRIA